sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «Salvei-o dos braços de uma meretriz. Confidenciou-me depois que queria esquecer o corpo da formosa Leonor que desflorou em Coimbra por detrás do roseiral»

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«(…) Fiquei a cogitar em como saberia o mestre Bento tanto sobre cerejas, amores, apetites e moças de Coimbra, mas deixei para depois a desconfiança. Leonor..., insisti, diz-me ele que Leonor rima com amor, que é fresca e formosa, bonita e reservada e que lhe é penoso deixar de olhar para ela tendo começado a olhar para ela. Será coisa séria? E de Isabel, a quem chama Sibela e Belisa, trocando-lhes as letras para confundir? Diz que tem olhos que por um brando movimento podem dar claridade à noite escura... Fala da mão, do seio, do colo de alabastro... Chama-lhe meu sol, meu belo astro. Leonor, Isabel..., ora, credo, Ana, não dês importância, já to disse. A condessa de Linhares, dona Violante, cortará pela raiz todas as desatenções de Luís Vaz. Diz quem com ela privou que é mulher fria como lâmina de espada. Quando quer uma coisa não se resigna, e, por ora, quer a condessa ter um mestre à altura do futuro titular. Podes crer que o encargo é tamanho que a condessa não lhe dará vagares para devaneios amorosos. Em Xabregas, Luís Vaz há-de apenas ater-se à alta função para que foi chamado. Não estou em crer que assim seja. Conheço o meu enteado como a palma das minhas mãos e a cantiga do mestre Bento, que logo depois tornou a Coimbra, não me aquietou. Para mal dos meus pecados e por mais que me pese dizê-lo, o muito que lhe quero, ao invés de me toldar as vistas e a razão, faz com que melhor o enxergue: Luís Vaz é o pecado em pessoa.

Violande Andrade. Xabregas, 20 de Janeiro, 1544
Salvei-o dos braços de uma meretriz. Confidenciou-me depois que queria esquecer o corpo da formosa Leonor que desflorou em Coimbra por detrás do roseiral. Dei-lhe um ofício. Sendo justa, devo confessar que o meu Antoninho o vê como um pai. Segue Luís Vaz por todo o lado, tentando imitar-lhe as rimas. Com ele aprendeu os grandes poetas gregos e latinos, e até João Barros e Francisco Morais pasmam com os conhecimentos que já revela. Dou graças a Deus Nosso Senhor que assim me quis ponderada e fria. Ninguém me derrete o coração, porém com Luís Vaz..., arrisco. E o risco é tão ténue e fino que quase me dá ganas de o sufocar. Em tudo o que faço uso os sentidos sem peneira, mas jamais consinto que o amor em mim se instale de modo a que de mim verta. Foi em certo sarau em minha casa que tudo se precipitou. Vi-me sentada ao lado do mestre e deixei propositadamente cair um livro. Quando me curvei, pretendendo apanhá-lo, senti a mão de Luís Vaz roçar na minha; depois, uns olhos azul-escuros vieram roubar a luz dos meus. Daí até o ter deixado entrar no meu leito para descobrir as ruas e vielas do meu corpo foi um pequeno passo. Dei graças por estar o senhor conde, meu marido ausente em Paris. Luís Vaz é em tudo raro. Não o amo, digo e repito que, em mim, o coração mora sempre num beco que os sentidos não visitam. Diz ele que é um homem feito de carne e de sentidos, que em várias flamas variamente arde, mas se amar é verbo que não posso nem quero conjugar, já os sentidos nos seus vários tempos e modos em vária chama me ardem». In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «Este amor que vos tenho, limpo e puro, de pensamento vil nunca tocado, em minha tenra idade começado…»

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«(…) Não fiques assim, Ana, não é caso para tanto!, disse Bento, arrancando-me ao redemoinhar das memórias e dando à voz um tom terno e paternal. O moço, ainda que doidivanas, é senhor de um saber refinado. Acaso cuidavas que Luís Vaz serviria na ilustre Casa de Linhares se não mostrasse um conhecimento profundo do latim, das línguas vivas e das ciências modernas? Como pode ele ter tantos saberes se pouco assistiu às lições? Alguma coisa não está conforme, Bento. Meu cunhado, que era de réplica pronta, atirou-me com uma escusa que não me persuadiu: escuta, comadre. Luís Vaz não era moço de frequentar as lições dos mestres, mas, como te disse, não foram raras as vezes que o vi horas a fio na livraria da universidade. Dizem que ao tocar das matinas já por lá andava perdido nas leituras. Clássicos e modernos, de tudo tomou conhecimento. Quando o inquiria sobre os propósitos de semelhante assiduidade à livraria e tão pouca às lições, a resposta era sempre a mesma: é o tédio, tio Bento, para quê ouvir dos outros o que por mim só posso aprender? E o saber de experiência feito, tio Bento, pois não achais que, conjugando experiência e engenho, mais se alcança? Luís Vaz era avesso às rotinas da universidade, folgava com a rapaziada até altas horas em lugar de se recolher e, pela madrugada, depois de uma noite em claro, rumava à livraria. Bastas vezes o vi eu, já o Sol ia alto, a cabecear em cima da estante.
Em nada daquela narrativa podia eu achar consolo. Estava o tio a pagar-lhe os estudos e andava o rapaz a vaguear noite dentro? Não te inquietes, Ana Sá. Estou seguro de que a condessa de Linhares o há-de domar. Tenho por certo que no Palácio de Xabregas vai Luís Vaz aprofundar os seus saberes. A livraria dos condes é de tal sorte valiosa que muito o irá deleitar. Ele que tenha tino e lá se fará erudito. Queira Deus que assim seja! Tinha mais inquietações e não podia ir-me dali sem respostas. E uma tal de Leonor, mestre Bento, alguma vez ouvistes falar de semelhante? E a prima Isabel? Tantos versos lhes vi dedicados... Insisti, porque era coisa que me inquietava. Luís Vaz deixara amores dependurados nas margens do Mondego; iria tentar recolhê-los? Iria a saudade recambiá-lo para Coimbra, abandonando a casa dos condes? "Veja-me estas rimas, mestre Bento, posso não ser erudita, mas percebo o bastante para lhes ver grande sentimento.
Rebusquei nas dobras do saio e estendi-lhe o caderno com a caligrafia apaixonada e inconfundível do meu Luís Vaz. Por ali escorria, em letra miúda, um não-mais-acabar de cantigas, romances, vilancetes, em redondilhas de cinco e sete sílabas, já quase fora de moda, e sonetos, sobretudo sonetos no novo estilo tão em voga.

Este amor que vos tenho, limpo e puro,
de pensamento vil nunca tocado,
em minha tenra idade começado,
tê-lo dentro desta alma só procuro.

Ora, comadre, Leonores, Margaridas, Rosas, Beatrizes, Isabéis..., parece que as estou a ver a passarem-me assim de perfil, todas igualmente deliciosas! Deitou um olhar fugidio às rimas, devolvendo-me logo o caderno. As moças de Coimbra são como as cerejas: colhe-se a primeira, tem-se logo vontade da segunda e da terceira... Difícil é parar. Sabes hem que Luís Vaz é um mancebo que atrai os olhares e as atenções. Que todos os males sejam esses, comadre..., pois pecará carnalmente e tornará a pecar, se for só com essas moças e se for cumprindo com a confissão não virá daí mal ao mundo». In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falamos longamente da chuva, do amor e das leis»

Cortesia de wikipedia e jdact

Polícia
«(…) Nessa manhã de Dezembro em que chovia (eu falaria depois a Annemarie da chuva lenta, longa), M. Maurice começou a duvidar da sua influência e da influência do partido comunista. Disse-me que já nada poderia fazer por mim. Seria melhor eu partir para a Alemanha ou a França, ou arranjar então lugar num barco que saísse de Antuérpia. Considerava as palavras do meu amigo enquanto bebia cerveja num bar perto da estação. No calor do bar a roupa fumegava. Gotas de água à volta. Calma solidão sem dor. Havia música. Meu Deus! A minha alma conhecia os seus caminhos. A terra era grande. Tudo quanto eu fizesse, cada coisa que me acontecesse, não me tomariam maior ou menor que a fé ou o desespero. Pois o desespero era antigo: uma delgada, tenacíssima raiz. Era uma experiência, um pensamento, um destino, algo que eu aceitava, que me induzia talvez a amar a vida. Estava só no meio da chuva tranquila. Podemos sempre beber uma cerveja como se fosse a última. Em cada instante a terra ainda consegue ser completa: é a única, e isso mesmo a renova. Annemarie sentou-se à minha mesa. Vi logo o tamanho da sua solidão: tinha o tamanho do mundo. Ela era a criatura mais só do mundo. E a sua história apareceu, simples, tenebrosa, entre as nossas duas cervejas. Todas as histórias pessoais são simples e tenebrosas. Não me comovi. Comovido já eu estava: com as coisas, comigo, com a chuva sobre a cidade. Talvez houvesse uma irónica alegoria em nós dois ali sentados diante dos belos copos frios, compreendendo ambos tão facilmente o que nos acontecia e iria acontecer que não tínhamos pressa. Poderíamos morrer ali mesmo. Esperávamos.
Annemarie era francesa, de Lyon. Abandonara um filho de dois anos. O marido combatia na Argélia, talvez estivesse morto. (Ela dizia que o amava, e por que não? O amor e o desespero e a desordem, isso é a nossa parte do jogo). Annemarie não queria regressar à França. Mas vivia na Bélgica sem documentos. Fora já posta na fronteira duas vezes: voltara, voltaria sempre. Que pode fazer uma pessoa senão voltar, estar fora, ser completamente estrangeira, não ter papéis? A terra é enorme. Paramos num sítio. E agora estamos sentados e procuramos, com a nossa história simples e desesperada, atrair o cuidado, o fervor alheio. É assim. Renovamos a espera inútil; o milagre onde não há milagres; a luz ao fundo, sempre ao fundo. Somos ilegais, em cada dia criamos uma rápida, brevíssima beleza surpreendente contra a face do pavor. M. Maurice perdera a última esperança de me salvar. O partido comunista, a viagem de ida e volta em comboio até Clabeck, a chuva, uma impossível salvação (que salvação?), embrulhavam-se dentro de mim, e eu sentia-me embriagado, feliz, irresponsável: sentia-me como se estivesse perto de morrer.
Agora uma mulher bebia cerveja na minha solidão, falava do filho que abandonara, do marido que estava na guerra. (Pronunciava as palavras devagar, arrancava-as inexoravelmente a esse sempre vivo e sempre secreto vocabulário do medo e do empenhamento.) Dizia sorrindo que estava perdida. Gostava da cerveja belga, achava Bruxelas insuportável. Sim, queria morrer. Queria morrer anonimamente, no fim do deserto. Eu percebia. Os chuis farejavam à volta da Gare du Nord, farejavam-nos a todos: pu…, chulos, vadios, indocumentados, ilegais. Sabiam que ela voltara: seria presa? Já o fora algumas vezes: não era o pior. Seria mesmo a única forma agora possível de pensar nas coisas, de avaliar o mundo. Mas aí acabava o jogo. Não se podia dizer: sou livre. Não se podia arriscar a liberdade. (E perguntar: que liberdade?) Eu também seria preso, repatriado: andaria depois por Lisboa a dormir em quartos de amigos, em camaratas públicas. À caça de um almoço, uma sopa, um copo de leite. Todos os lugares são no estrangeiro. E eu passaria junto ao rio, olhando a crespa e lívida massa das águas, a outra margem com o fumo vermelho das refinarias a sufocar a branca luz a prumo. E imaginava já a prisão em Bruxelas. Era preciso enganar a polícia. Rebentar de fome, sim, estrangeiramente, mas não perder nunca a liberdade. (E a pergunta: que liberdade?)
Annemarie tinha o dom da poesia subversiva. Subvertia tudo. A seu lado senti que a minha vida era importante. Que a arriscaria, sempre e sempre, que perderia, mas nada cedendo de mim próprio. O amor do perigo embebedava-me. Começávamos então a lutar contra a polícia do mundo inteiro. Quando anoiteceu saímos do bar e fomos a pé, vigilantes, protegidos, até ao meu quarto de Laeken. Contornamos o que nos parecia suspeito: um carro parado, um vulto vagaroso, as sombras, as vozes. Foi ainda preciso subir furtivamente as escadas do prédio, pois a senhoria já me mandara embora, porque 1º eu não lhe pagava a renda, porque 2º não queria complicações com a polícia. Mas depois o quarto foi nosso. Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falamos longamente da chuva, do amor e das leis». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, 1994, 2004, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-370-119-7.

Cortesia de AAlvim/JDACT

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Holanda
«(…) Não penso na minha alma, diria ele, nem na carne. Não me ponho a perguntar se ganharei a salvação. Eu preciso de amor. Preciso aprender. Mas parece que na comunidade já tudo se aprendera, estava tudo ensinado e sabido desde sempre. E os homens pensavam unicamente em preservar-se do sofrimento; desejavam que a linguagem ficasse intacta, sem mácula. Ele olhava o sol verde entre as patas das vacas e supunha poder envenenar-se legando o cadáver à confusão holandesa. E como se alimentaria essa confusão, como seria divertido o pequeno quadro holandês! Senhor, que lhe aconteceu? Salva-lhe a alma se puderes. Ele era um estrangeiro: envenenou-se. Nada mais sabemos. Que mal te fez a Holanda para a castigares assim? Muito lentamente, o seu amor desenvolveu-se. Era um amor que se aprendia a si próprio, cheio de medo e dúvida. O nosso amor pode atingir tudo?, perguntava. Ou perguntava então: até onde vão os direitos de um... homem? Ou de um poeta? Na Holanda não se fazem fogueiras ao ar livre: nada se percebe do fogo. A Holanda é um país cada vez maior. O mar rouba-lhe meio metro, e logo os holandeses roubam dois metros de terra ao seio fervente das águas. Não compreendo a justiça cósmica. E murmura para si: nada conhecem das coisas do fogo. Os dons mais profundos do homem estiolam dentro deles. Deverei amá-los? Amar o quê, quem?, pergunta a visita. Referes-te aos homens holandeses ou aos dons que esqueceram? E ele não sabe realmente aquilo a que desejava referir-se, o que lhe inspirava o desespero. Sentado na Holanda, pensa: piedade. Para ele? Para os homens holandeses? Em que jogos se enreda uma inocência!

Teoria das Cores
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe. O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor, sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor. Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose. Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.

Polícia
Le petit monsieur Leclair falhou mais uma vez. Nesse dia (Dezembro, chovia) eu fora à sede do partido comunista, recomendado pelo pequeno senhor Maurice Leclair, e recebera uma carta para as forjas de Clabeck. Em Bruxelas o meu trabalho era muito irregular. Só acidentalmente é que dispunha de algum dinheiro. Fazia um pouco de tudo: cortava legumes na Sobela, enfardava aparas de papel na Nouvel Maison Vermeiren ou ajudava Chez Lemaire, uma friture. Não tinha os documentos em ordem. Não havia quem me desse trabalho certo e suficientemente prolongado. Maurice pretendia meter-me em Clabeck, nas forjas (trabalho violento), e que por aí fosse solicitada ao ministério a carta de trabalho. Contava com a influência de alguém do partido comunista. Eu divertia-me sobretudo quando pensava que M. Maurice era antigo colaboracionista e gozava de direitos civis e políticos. A Bélgica era um país confuso, cómico. Por exemplo: o maior amigo do meu protector, um flamengo que amava a cerveja forte, pertencera à resistência.
Eu desejava trabalho, apenas isso. Também um pouco de calor. Pensava em raparigas com quem pudesse dormir ou ir, nas noites de sábado, aos bares da Chaussée d’Anvers. Eu tinha um quarto triste, sem aquecimento. Uma das janelas caía sobre a igreja e o cemitério burguês de Laeken. A outra dava para umas luzes distantes. Sob uma ponte próxima passavam comboios de mercadorias. Às vezes eu fazia com estes elementos estrangeiros um lirismo vagabundo e inocente. Também me sentia entusiasmado com a solidão. Encontrava-me fora dos quadros, vagueava pela cidade. Era já perigosamente conhecido Au Nord, perto da estação, onde as pu… e os chuis eram mais que as mães. De vez em quando perdia por ali uma tarde inteira, arranjava dinheiro para duas cervejas, um pacote de batatas». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, 1994, 2004, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-370-119-7.

Cortesia de AAlvim/JDACT

A Princesa Traída por Pedro e Inês. Isabel Machado. «Não recebemos instruções sobre o que vos cabe em direito... Constança ripostou: tudo o que veio comigo»

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Constança
Castelo de Toro, Castela
«(…) Da legítima nenhuma semente ainda gerara. Um assomo de regozijo maldoso enchera-me o coração ao saber do infortúnio da mulher que me levara o marido e a coroa de rainha. Mas a piedade levou a melhor e não tardei a dirigir as minhas preces para que algum consolo chegasse à pobre Maria. Dificilmente poderia conceber um maior calvário para uma mulher. Bem procurava na oração uma resposta para a má sorte das infantas dos reinos ibérios. Deus teria os seus desígnios bem avaliados... Sobre o meu próprio destino, fazia por afastar os pensamentos, concentrando-me nas cartas de meu pai que me eram autorizadas, sempre cobertas de ânimo e de ensinamentos. Sei de quem sou filha, honrarei o meu sangue, repetia perante o crucifixo todas as manhãs e todas as noites. Apurei o ouvido. Deveriam ser muitas dezenas de cavaleiros para assim abalarem a mudez daquele lugar.
Abriu-se uma porta ao fundo da câmara. Vi aparecer uma das damas que me impusera Afonso XI. Manteve-se à entrada enquanto fazia um sinal a uma mulher mais velha, que bordava perto de mim. Ela levantou-se cuidadosamente, segurando o bordado e as lãs, que colocou em cima do banco. Ajeitou o vestido e apressou-se para chegar perto da outra. Trocaram algumas palavras em surdina. A dama que se erguera olhou-me de soslaio, acenou com a cabeça em sinal de entendimento e regressou ao seu lugar. Continuando de pé, disse: vosso pai está a chegar. Levei a mão à boca para travar o grito de assombro que quase me fugira pela garganta. De assombro e de alegria, que eu nem admitia que fosse uma má nova que fazia meu pai deslocar-se àquele inferno. Ou que fora sem a autorização de Afonso XI, apesar de ser bem capaz de enfrentar o soberano, ousando uma invasão dos seus domínios. Não. Aquela vinda era boa, dizia-me a intuição.
Entrou ainda coberto pelo pelote de lã e com o gorro já retirado, caído sobre os ombros, revelando o cabelo grisalho, desarrumado pelo vento e baço do pó. O seu porte imponente impôs-se e avançou com passadas firmes até ao meio da sala. Um cheiro a estrebaria invadiu os aposentos. O infante Juan Manuel deveria andar em viagem havia dias. Meu pai... Constança flectiu os joelhos numa reverência, contendo as lágrimas. Mas Juan Manuel ignorou os cumprimentos, ainda que o peito denunciasse emoção por rever a filha. Providencia para que reúnam todos os teus bens. Foste libertada e abandonarás agora mesmo este local maldito, anunciou, passando em redor os olhos escuros a chisparem de desafio. A sua voz, forte e elevada, ecoou no silêncio constrangido que caíra num espaço que fora de mudez e de renúncia. Junto a si, os guardas do rei mantinham-se próximos, a recordar a quem pertencia o poder naquele lugar. Rapidamente, adiantou. Não permanecerei aqui mais do que o estritamente necessário. Constança reagiu precipitadamente: posso partir desde já, meu pai. Não me importa o que contêm as arcas. Tudo o que desejo é abandonar este castelo. Não, cortou Juan Manuel. Entraste aqui como rainha. Sairás com honras de soberana. Ela olhou para as mulheres que mantinham os olhos pregados ao chão. Haveis ouvido o que tendes a fazer, declarou subitamente, num tom firme que nunca fora ouvido por aquela gente, habituada aos seus passos sem som e ao fio de voz que raras vezes deixara escapar. A surpresa fez as damas erguerem a cabeça. Juntai tudo o que me pertence, ordenou. Violante ajudar-vos-á, conhece os bens que me cabem. A dama mais velha afoitou-se a falar: perdão, senhora. Não recebemos instruções sobre o que vos cabe em direito... Constança ripostou: tudo o que veio comigo. E o que me foi enviado durante estes anos. São estas as instruções que vós sabereis executar com precisão. Sem mais perguntas. A outra curvou-se. Desejo ficar a sós com meu pai.
Ficou a vê-las sair dos aposentos, dando passos atrás, sem lhe virarem as costas, como se fosse rainha, o que nunca antes acontecera. Reprimiu o sorriso que lhe nascia nos cantos da boca pela constatação de que o poder estava mais vezes na percepção dos outros do que na realidade. Faria por nunca esquecer aquele inesperado ensinamento. O movimento encheu os aposentos em redor da câmara enquanto se revolviam arcas, arrumavam jóias em caixas e se retiravam os muitos oratórios que haviam confortado a infanta e que Constança tinha em apreço mais do que qualquer outra posse. Chamou Violante. Traz-me o colar de safiras e aljôfares. Quero viajar com ele sobre a pele. Aquele tesouro fora de sua avó materna, Branca de Anjou. Aguardou que a ama lhe satisfizesse o pedido. Violante afastou a trança do pescoço e compôs a jóia sobre a pele delicadamente morena. O infante Juan Manuel atentava na filha que se fora transformando numa mulher em cativeiro, longe dos seus olhos. Avaliou com pormenor de negociador aquele trunfo de carne e osso que ainda lhe restava. As faces descoradas ganhariam viço fora dali e agradou-se com a correcção dos traços, com a beleza que quase esquecera: o nariz pequeno e a boca bem feita, os olhos rasgados, de um tom dourado, que carregavam uma languidez cândida, embora cobertos de tristeza, a fartura dos cabelos escuros e luminosos. A esbeltez que a puberdade trouxera prometia uma dama bem talhada que não se desdenharia nas melhores cortes. Mais do que tudo isso, Constança era de sangue real, por parte da mãe e do pai. E tinha porte». In Isabel Machado, Constança, A Princesa Traída por Pedro e Inês, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

A Princesa Traída por Pedro e Inês. Isabel Machado. «Violante..., sussurrei, olhando-a disfarçadamente. Fez-me sinal de silêncio com os dedos nos lábios, também ela inquieta pelo estrépito dos cavalos…»

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Constança
Paço de Coimbra, Reino de Portugal, 1330
«(…) O rei deixou a ordem: começai a preparar a nossa defesa junto do papa, para que se anule o compromisso matrimonial entre o infante Pedro e dona Branca de Castela. Suspirou e pediu um vaso de vinho diluído com água. Sorveu-o distraidamente, enquanto cogitava no passo seguinte: encontrar para o filho uma outra noiva nos reinos ibéricos.

Castelo de Toro, Castela
Violante..., sussurrei, olhando-a disfarçadamente. Fez-me sinal de silêncio com os dedos nos lábios, também ela inquieta pelo estrépito dos cavalos a galope cada vez mais nítido. Imaginei os cascos a revolverem o chão poeirento pelos muitos meses de seca, não ousando erguer-me para chegar à janela. Havia dias que novas damas de companhia me infestavam os aposentos, enviadas por Afonso XI sem qualquer explicação. Ali se mantinham, temíveis na sua pose de cera, examinando-me todos os gestos. Nada existia de mais opressor do que o silêncio a alastrar pelo medo. A razão da redobrada vigilância mantinha-se uma incógnita. Como tudo o que se passava em meu redor nos últimos anos. Violante  segredara-me na véspera, num raro momento a sós enquanto me aconchegava a cama ao deitar, que o rei de Castela mandara reforçar o número de guardas junto à ala do castelo onde me mantinha cativa. Toro está em alerta máximo, dissera. Por quê?, indagara junto ao seu ouvido, apertando-lhe a mão quente. Saberemos em breve. Nada podemos fazer. Encadeei estes factos mal escutara o tropel dos cavalos. Deveriam estar relacionados. Não ignorava que o meu cativeiro provocava renascidos ódios entre a coroa e importantes alas da nobreza de Castela, mas também com o reino de Aragão. Toda a Península estava em alvoroço. E nada era o que parecia. Os acordos rasgavam-se com a mesma rapidez com que se escreviam as assinaturas dos reis, sem vislumbre de respeito pelo mal que a quebra de compromisso trazia, pelo vexame, por nada.
Soubera da desgraça da minha prima direita, Branca de Castela, neta de Jaime II de Aragão por parte da mãe, como eu. Chorara pela sua sorte, também presa na corte portuguesa enquanto lhe era desenhado um destino, desfeita a esperança de casamento ou de se sentar no trono ao lado de um rei. Certamente, acabaria entregue a uma casa de Deus, onde serviria o Senhor até à morte como uma destituída, a jovem que fora em tempos futura rainha de Portugal. Recordava-me da sua doçura quando partilhámos um estio nas terras aragonesas. Em que poderia ter falhado Branca para causar o repúdio do infante português? Que não era sã, constara. Branca? Também me haviam chegado rumores dos maus tratos que a nova rainha de Castela, Maria, sofria por parte do marido. A que me extirpou o trono e todos os meus direitos. Exposta publicamente à vergonha, a filha dos reis de Portugal convivia na corte com a manceba assumida de Afonso XI, Leonor Gusmão, que já lhe dera bastardos». In Isabel Machado, Constança, A Princesa Traída por Pedro e Inês, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

As Nove Magníficas. Helena S. Cabral. «Assim, depois de assumir o governo, passa a assinar os actos governativos como infantis domna Tarasia, numa marca bem visível da sua jurisdição»

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A Vida de Casada
«(…) Com a morte do marido, a astuciosa condessa começa a revelar o seu projecto de poder e, a partir de Maio de 1112, os documentos passam a conter apenas a assinatura de Teresa, a qual se declara filha do bom rei ou do grande rei e imperador Afonso VI, numa prova de que aquela era a hora certa de afirmar o governo e a autoridade que iria exercer. No entanto, parece-me que, apesar das vitórias conseguidas sobre Espanha e do sentimento nacionalista que ajudou a criar, Teresa se terá digladiado, muitas vezes, sob uma espada de duas forças contrárias. De um lado, o baronato portucalense, que reivindica para ela um lugar paralelo ao de Urraca, pelo menos na autonomia da Galiza, e, do outro, os magnates galegos que querem forçá-la a aceitar a unificação de Portugal e da Galiza. Esta duplicidade de sentimentos poderá, eventualmente, explicar a táctica dos galegos Trava para tentarem casar a rainha-viúva com um deles, e também as atitudes de Urraca, que, conhecendo bem a meia-irmã, nunca deixou de a usar contra os galegos ou de utilizar estes contra ela, conforme os interesses do momento. Mas Teresa não era dada a fraquezas e gostava, mesmo, de exercer o poder. Assim, depois de assumir o governo, passa a assinar os actos governativos como infantis domna Tarasia, numa marca bem visível da sua jurisdição.
E a partir de 1117, atreve-se, mesmo, a apelidar-se rainha, como filha de rei que era e, na minha opinião, numa tentativa de mostrar que não aceitava qualquer género de dependência de Leão. Com vista a reforçar-se perante a irmã, decidiu instalar-se em Astorga e pactua com o rei de Aragão, aproveitando para o indispor contra Urraca, sua mulher. Para tal, inventa, com razão ou sem ela, que a consorte o pretendia matar. As intrigas foram tantas, que consegue separá-los. O que também lhe traz alguns dissabores, visto que é esse facto que acaba por conduzir à sua expulsão do território, criando-lhe uma situação embaraçosa. Todavia, perspicaz como é, convence Celmirez, bispo de Compostela, a usar da sua influência em seu favor. E fá-lo, sabendo que este prelado se encontrava, junto com Pedro Froilaz, conde de Trava, à frente de um forte partido na Galiza que queria para rei Afonso Raimundes, filho de Urraca. Logo, o apoio dado a Teresa pelo religioso iria obrigar a irmã a ficar quieta e nada fazer contra ela, visto que Urraca não podia dar-se ao luxo de prescindir de Gelmirez.
São factos como este que mostram bem a habilidade política de Teresa. Com efeito, não podendo continuar o trabalho guerreiro do marido, sabe que tem de encontrar meios alternativos de defesa e de ataque. Como, aliás, refere Herculano, quando escreve a seu respeito: recorreu às armas de que a sua fraqueza mulheril podia tirar tanta vantagem como o marido do esforço e perícia militar; empregou a astúcia. E é esta astúcia da sua governação que não pode nem deve ser vista, apenas, como uma mera transição entre os governos do marido e do filho, mas, antes, com a atenção que ela de facto merece, se quisermos perceber quanto especial e importante foi, para nós, esta mulher. O marido, Henrique, jamais esqueceu a sua nacionalidade, daí rodear-se de conselheiros franceses, nem os seus interesses, que visavam mais multiplicar as suas terras do que fortalecer o Condado Portucalense. Como mais tarde o historiador Veríssimo Serrão diria: nunca perdeu a característica mercenária e belicosa que o trouxera à Península e que fizera dele um afamado guerreiro. Já dona Teresa tem como objectivo o fortalecimento do Condado, sem esquecer a expansão das fronteiras, como prova o povoamento de Oliveira do Hospital, Tondela e Resende. É uma mulher de alma hispânica que, ao contrário do marido, prefere ser aconselhada por galegos e alguns barões do Condado. A segurança, outra das suas preocupações, leva-a a redobrar os cuidados em face do perigo muçulmano. E, provavelmente, datará dessa época a fixação de alguns membros da nobreza galega, cujos exércitos lhe poderiam ser úteis. Quanto à política leonesa e à defesa do Condado, se o marido era ambicioso, Teresa não o foi menos. Mal ele morre, decide, orgulhosa e altiva, aparecer na Corte de Astorga e, perante a irmã e o pai, defender as posições do defunto». In Helena S. Cabral, As Nove Magníficas, 2008, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-330-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

As Nove Magníficas. Helena S. Cabral. «Teresa fica, assim, uma jovem viúva com os quatro filhos que o marido lhe deixara, dos quais, o único varão, Afonso Henriques, tem apenas três anos»

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A Vida de Casada
«(…) Seu pai terá começado a governar o território portucalense, ao que se supõe, ainda nos finais de 1096 ou princípios do ano seguinte. O conde e a condessa viviam uma parte do tempo na Corte de Espanha e outra em Portugal. Teresa acompanhou sempre com inegável interesse as questões do Condado, visto que o conde se ausentava, com frequência, do território. E, na sua grande ausência, de 1111 a 1113, há quem admita que ela o substituiu. Porém, se ninguém duvidava do conde, como guerreiro, muitos terão ficado surpreendidos com a capacidade política que revelou nos últimos seis anos da sua vida. Com efeito, não só se envolveu na questão eclesiástica, defendendo a diocese de Braga, muito ligada aos propósitos autonomistas, como concedeu vários forais e um amplo couto ao Mosteiro de Santo Tirso. É ainda ele quem fará concessão do mosteiro e dos bens de Santo António de Barbudo à Sé de Braga. No fundo , pratica uma política de atracção da nobreza, do clero e da cavalaria vilã, a aristocracia não nobre dos condados sob sua administração. E alia-se a Raimundo sempre que considera vantajoso fazê-lo, como foi o caso, em 1105, com o Pacto Sucessório.
Quando morre o rei Afonso VI, as suas disposições testamentárias provocam no conde Henrique uma cólera enorme, dado que, por vontade do sogro, se vê excluído do que entendia ser o direito da sua mulher de se apresentar, como pretendente, às coroas do falecido. Esta atitude leva muitos a acreditar que o objectivo do conde teria sido dominar Castela e Leão. Porém, parece que o que ele verdadeiramente desejava era a autonomia do Condado Portucalense. A qual, como se vê, nem no leito de morte o sogro lhe concede. Henrique tinha, contudo, consciência de que precisava de pessoal para consolidar poder e território. Decide, por isso, alistar gente de guerra em França e, instado por Teresa, começa a pressionar a cunhada para que esta lhe entregue as terras que lhe haviam sido prometidas. O que tem como consequência uma forte irritação de dona Urraca. Apesar de Henrique se confinar apenas ao seu território e aos domínios que possuía em Leão, assume-se sempre como governante independente. E é como tal que decide deixar de aparecer na Corte leonesa.

Teresa, a Política
É nesta altura que Teresa começa a desempenhar um papel de certo relevo na condução dos negócios do Condado, surgindo, normalmente, como adversária da meia-irmã. Toda a vida de ambas irá, aliás, decorrer entre cortes e apoios, ditados não por razões familiares, mas por meras conveniências políticas de ocasião. O que, aos olhos de hoje, pode, até, parecer um pouco perverso. Mas o que une estas irmãs é apenas o sangue paterno e o que as separa, o poder, é bem mais forte do que esse frágil elo parental. Aliás, mesmo nos tempos actuais, continuam a existir famílias que entram em ruptura quando se trata de dividir o poder ou a sua figuração mais comum, que é o património. Será na Primavera de 1112, em Astorga, que a morte chega, de modo inesperado, ao conde Henrique. Teresa fica, assim, uma jovem viúva com os quatro filhos que o marido lhe deixara, dos quais, o único varão, Afonso Henriques, tem apenas três anos. Teresa, de rosto angélico e grande beleza, possui, também, ânimo vivo e grande sagacidade. A que junta a experiência de quem acompanhou, de modo empenhado, os dezoito anos durante os quais o marido regera a província. O que se tornava particularmente importante, numa altura em que a problemática da nacionalidade portuguesa começava a ser forjada. Alexandre Herculano dirá, mais tarde que, de certo modo, a ela se deve o nascer e radicar-se em Portugal aquele sentimento de individualidade que constitui barreiras entre povo e povo, mais sólidas e duradouras que os limites geográficos de duas nações vizinhas». In Helena S. Cabral, As Nove Magníficas, 2008, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-330-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

As Nove Magníficas. Helena S. Cabral. «… se teria dado em Guimarães, mas, nos nossos dias, já se admitem Coimbra e Viseu como alternativas possíveis. Sobre a data, aceita-se, agora, a de 25 de Julho de 1109»

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Teresa, a Bastarda
«(…) Consta, ainda, que de uma mulher de qualidade terá tido o conde Henrique um filho natural. Esse varão ter-se-á chamado Pedro Afonso e, por ter ficado órfão de pai com nove anos, foi protegido pelo meio-irmão. Segundo documentos da época, Teresa era astuta, insinuante e formosa. A sua beleza recebe elogios de todas as fontes, mesmo das que lhe são adversas e que a descrevem, de forma realista, como bela e maléfica. Unânime apreço merecem, também, as suas energia, ambição e inteligência, relevando-se a fortíssima determinação de carácter, que nunca lhe permitiu deixar em mãos alheias a realização dos seus objectivos. O que mostra, afinal, que a política no feminino, embora muito esquecida e até menosprezada, marcou bem a nossa História quando esta permitiu que fosse exercida!

O Condado Portucalense
Ignoram-se as condições em que o governo do Condado Portucalense foi entregue ao conde Henrique. Admite-se que fosse o dote de Teresa. Mas, dado que, na altura, o significado desta palavra não correspondia ao de hoje, a dúvida persiste. No entanto, acredito que essa dádiva suporia algum tipo de sujeição a conde Raimundo. Todavia, a ter existido, ela foi de curta duração... De facto, os seus domínios, após a derrota dos sarracenos perto de Lisboa, foram separados definitivamente da Galiza, para constituírem um território à parte, regido por Henrique. Admite-se que terá sido a incapacidade militar de Raimundo um dos motivos que aconselhou a sua substituição, na zona portuguesa, pelo primo, que era excelente guerreiro e estava em melhores condições de enfrentar a iminência de uma invasão almorávida.
Portugal, naquele tempo, era uma faixa de território estreita e pouco extensa, infestada de mouros por todos os lados, que tão depressa eram vencidos como eram vencedores. Foi a partir da governação do conde Henrique que o Condado começou a respirar mais livremente, pese embora a guerra fosse o estado normal da sua existência. Ao casá-lo com Teresa, Afonso VI não lhe entrega apenas o governo da província portucalense, mas também as propriedades regalengas, património do rei e da Coroa, que passam, assim, a constituir bens próprios e hereditários dos dois consortes. Claro que o conde ficava ligado a Afonso VI, seu suserano, pelos habituais actos de vassalagem, como a fidelidade e a ajuda sempre que necessárias, o que, aliás, nunca deixou de cumprir até à morte do sogro. Contudo, meio século irá bastar para que o Condado Portucalense, conduzido com inegável pendor autónomo pelos condes Henrique e dona Teresa, se venha a transformar num Reino independente.

A Vida de Casada
Ignora-se, como já referi, que idade teria Teresa à época do casamento. Os modernos historiadores têm-na por ainda menor, o que será verdadeiro, caso tenha nascido em 1081, como me parece mais admissível. Dos quatro filhos do casal, o varão, Afonso Henriques, tornar-se-á o primeiro rei de Portugal. Durante muito tempo, julgou-se que o nascimento deste último se teria dado em Guimarães, mas, nos nossos dias, já se admitem Coimbra e Viseu como alternativas possíveis. Sobre a data, aceita-se, agora, a de 25 de Julho de 1109». In Helena S. Cabral, As Nove Magníficas, 2008, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-330-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A Verdadeira História. Margaret George. «E foram passando por mais montanhas, com mais fama do que tamanho: o monte Gilboa, à esquerda, onde Saul morrera a lutar contra os filisteus…»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Chegaram a um lugar onde o terreno era plano, vasto e agradável. Algumas árvores, espalhadas, formavam sombras que pareciam ser frescas; o Sol, agora, estava precisamente sobre as suas cabeças. Havia montanhas isoladas, de ambos os lados da estrada: à direita, o monte Tabor, e à esquerda, o monte Moré. Quando se aproximavam da ladeira do monte Moré, Silvanus surgiu, de repente, ao seu lado e apontou para a montanha. Cuidado com a feiticeira!, gracejou. A feiticeira de Endor! Ela pareceu não compreender e ele explicou-lhe: é a feiticeira que o rei Saul procurou para trazer de volta o espírito de Samuel. Era aqui que ela vivia. E as pessoas dizem que é um lugar assombrado. Se fores até ali, sentares-te debaixo de uma árvore e esperares..., quem sabe não trarás de volta algum espírito? Isso é verdade?, perguntou Maria. Diz-me a sério. Parecia uma coisa terrível, ser-se capaz de invocar espíritos, principalmente os espíritos de pessoas mortas. Não sei se é realmente verdade, confessou Silvanus, sem sorrir. Está nas escrituras, mas..., encolheu os ombros. Também está nas escrituras que Sansão matou mil homens com o osso maxilar de um burro morto. Como é que eu iria saber que era um espírito?, insistiu Maria, deixando de lado a história do osso.
Dizem que se reconhecem os espíritos pelo medo que eles inspiram, disse Silvanus. Mas, falando sério, se alguma vez te encontrares com um espírito, sugiro que corras na direcção oposta. A única coisa que se sabe é que são perigosos. O que eles querem é desencaminhar as pessoas, destruí-las. Acho que foi por isso que Moisés proibiu qualquer contacto com eles. E tornou a ficar céptico. Se é que o fez... Por que é que dizes essas coisas? Não acreditas que seja verdade? Ele hesitou. Bem..., sim, acho que deve ser verdade. E se não for absolutamente verdadeiro que Moisés o tenha dito, ainda assim é uma boa ideia. A maioria das coisas que Moisés disse foram boas ideias. Maria riu-se. Às vezes falas realmente como um grego. Se parecer um grego significa pensar cuidadosamente nas coisas, então eu teria orgulho em ser rotulado como tal. E riu-se também.
E foram passando por mais montanhas, com mais fama do que tamanho: o monte Gilboa, à esquerda, onde Saul morrera a lutar contra os filisteus; e à direita, ao longe, apenas visível no final da extensa planície, erguendo-se como uma torre, o monte Megido, onde seria travada a batalha do Juízo Final. Pouco depois do monte Gilboa, atravessaram a fronteira com a Samaria. A Samaria! Maria agarrou-se com força à garupa do seu burro. Perigo! Perigo! Seria realmente perigoso? Olhou com atenção à sua volta, mas a paisagem era a mesma, os mesmos morros pedregosos, as planícies poeirentas e algumas árvores espalhadas. Tinham dito que havia bandidos e rebeldes que utilizavam as cavernas próximas de Magdala para se esconderem, mas ela nunca os vira perto de casa. Agora, esperava ver alguma coisa, pois já tinham entrado em território inimigo. Não tiveram de esperar muito. Pouco tinham andado quando um grupo de miúdos, à beira da estrada, começou a atirar pedras, injuriando e gritando insultos nas vozes roucas, guturais: cães… Escória da Galileia…» In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. « Adeus, lago Harpa!, cantarolou para si própria. Não havia a angústia da despedida, apenas a expectativa do que viria. Estavam a caminho…»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Os dois grupos de viajantes encontraram-se na encruzilhada da estrada, acima de Magdala, eram, agora, cerca de vinte e cinco famílias que iriam fazer a viagem. Muitos deles eram parentes, distantes ou não, e, portanto, um grande número de primos, de terceiro, quarto, quinto ou sexto graus, iriam encontrar-se e brincar juntos durante a viagem. A família de Maria viajava apenas junto das famílias que eram muito rigorosas quanto à fé. Quando se preparavam para continuar a procissão, Eli não resistiu em provocar Silvanus. Não entendo por que carga de água estás a fazer esta viagem, disse, uma vez que não concordas com o nosso modo de pensar. Para quê ir a Jerusalém? Em vez de uma resposta ordinária, Silvanus, pensativo, disse: por causa da história, Eli, por causa da história. Adoro cada uma das pedras de Jerusalém, porque elas contam histórias, e fazem-no com mais clareza e objectividade do que as palavras dos pergaminhos. Eli ignorou a seriedade com que o seu irmão respondera. E uma história que nem conhecerias, se não tivesse sido escrita nas próprias escrituras que desprezas! Não são as pedras que falam e nos contam a história, mas sim os escribas que a registam para a posteridade. Lamento que só dês crédito a ti próprio através dos sentimentos mais requintados, disse Silvanus, por fim. E parou, juntando-se a outro grupo; não ficaria próximo do seu irmão o resto da viagem.
Maria não sabia com qual deles ficar, portanto dirigiu-se para onde estavam os pais. Caminhavam de forma resoluta, olhando na direcção de Jerusalém. O Sol estava forte e a claridade fazia com que pestanejassem, protegendo os olhos com a mão. Nuvens de poeira sopravam. O verde surpreendente da Primavera da Galileia começara a desaparecer, dando lugar a um tom pardo e fosco; as coloridas flores silvestres que pontilhavam as ladeiras dos morros tinham murchado e desaparecido. Até à chegada da próxima Primavera, a paisagem iria tornar-se progressivamente mais escura e aquela gloriosa explosão da natureza iria transformar-se em mera recordação. A Galileia era a região mais exuberante do país, parecendo-se a um paradisíaco jardim persa em terra de Israel. Os galhos das árvores de fruto estavam repletos de maçãs e romãs; via-se o verde brilhante dos figos a espreitar por entre as folhas. E as pessoas colhiam-nos; os figos novos nunca permaneciam nas árvores por muito tempo. O grupo, desajeitado, ia subindo com dificuldade até ao topo das colinas que rodeavam o lago, e Maria pôde olhá-lo uma última vez, antes que desaparecesse por completo.
Adeus, lago Harpa!, cantarolou para si própria. Não havia a angústia da despedida, apenas a expectativa do que viria. Estavam a caminho, a estrada chamava-os e, em pouco tempo, as colinas e as montanhas que Maria conhecia desde a mais tenra idade desapareceriam, para dar lugar a coisas que nunca vira. Seria maravilhoso, seria como receber um presente extraordinário, como abrir uma caixa cheia de objectos novos e brilhantes. Pouco depois chegavam à Via Maris, uma estrada mais larga e uma das principais desde os tempos da Antiguidade. E também muito movimentada: cheia de comerciantes judeus; as figuras esguias e de olhos penetrantes dos nabateus, nos seus camelos; negociantes da Babilónia, envoltos por túnicas de seda e exibindo brincos de ouro que, a Maria, lhe pareciam muito pesados. Inúmeros gregos, também, que se misturavam com os peregrinos que se dirigiam para Sul. Mas havia um tipo de viajante que todos os outros evitavam: os romanos. Os soldados eram fáceis de reconhecer, por causa dos uniformes, dos saiotes esquisitos, com tiras de couro a cobrir as pernas peludas; mas o romano comum era mais difícil de identificar. No entanto, os adultos não tinham esse tipo de dificuldade. Um romano!, sussurrou o seu pai, fazendo sinal para que ela se sentasse atrás dele quando se aproximava um homem estranho. Embora a estrada estivesse cheia de gente, Maria notou que ninguém passava próximo dele. Ao passar, ele pareceu virar a cabeça na sua direcção, olhando-a com curiosidade. E ela devolveu-lhe o olhar, com o seu rosto meigo. Como é que o senhor sabia que era um romano?, perguntou, curiosa, ao seu pai. Pelo cabelo, explicou-lhe. E por ter a barba tão bem-feita. De facto, a túnica e as sandálias poderiam pertencer a um grego ou a qualquer outro estrangeiro. E também pelo olhar deles, disse a sua mãe, de repente. É o olhar de alguém que pensa possuir tudo o que vê». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

As Grandes Sociedades Secretas. David V Barrett. «Os dois mais importantes legados, a longo prazo, do Neoplatonismo para a religião esotérica e as sociedades secretas foram a ênfase do experiencial»

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«(…) As ideias neoplatónicas alteraram-se e desenvolveram-se ao longo dos séculos, à medida que os diferentes líderes aprimoravam ou rejeitavam os ensinamentos dos antecessores. Tal como acontece com o Gnosticismo, não existe um conjunto fixo de crenças neoplatónicas. Assim, Plotino (204/5-270), que se opunha à magia, defendia a virtude, a castidade e a contemplação mística de Deus. O seu aluno e sucessor, Porfírio (c.232/4-c.305), que organizou os trabalhos de Plotino, procurava modos éticos práticos (boas acções) para que a alma chegasse a níveis mais elevados. O seu aluno Jâmblico (c.250-c. 330), que, à semelhança de Porfírio, escreveu uma Vida de Pitágoras, acentuou muito mais o lado experiencial da filosofia mística: usando o ritual religioso e ritos mágicos para a teurgia, invocar o poder de Deus ou dos seres espirituais. Esta ênfase levaria a um conflito entre o Neoplatonismo e o Cristianismo emergente, além de dar aos imperadores romanos motivo para impedir, de tempos a tempos, as práticas religiosas não cristãs.
Os dois mais importantes legados, a longo prazo, do Neoplatonismo para a religião esotérica e as sociedades secretas foram a ênfase do experiencial (ou seja, o real poder do ritual) e o ensinamento quanto às hierarquias dos seres espirituais que, resumidamente, trouxe uma solução para a dicotomia entre politeísmo e monoteísmo. Acima de tudo havia um Deus infinito, universal e incompreensível; a filosofia (do grego, amor pela sabedoria) era o grande meio de aproximação a esse Deus, sendo as religiões tentativas menores de abordar deuses menores, na prática servos, ou daemons, Deus Único). O termo demónio é a forma incorreta de daemons, que incluía seres bons e maus, bem como Deuses menores e os espíritos dos mortos. O seu uso pejorativo para referir, especificamente, espíritos malignos é uma alteração cristã posterior do seu significado. Na teologia cristã, o termo poderia ser substituído por autoridades e poderes, criados pelo Deus Único e que podem ser bons ou maus. Os anjos enquadram-se nessa mesma categoria. A distinção entre demónios e daemons é importante. Alguns neoplatónicos ensinavam a teurgia, que pode ser chamada de convocação de espíritos,  mas é, mais correctamente, a invocação de daemons bons. Na magia ritual tardia dos filósofos herméticos e dos alquimistas, e na Ordem Hermética da Aurora Dourada de finais do século XIX e início do século XX (banalizada e erroneamente representada como magia negra, a ideia não era, habitualmente, invocar o diabo e a hoste infernal, algo muito raro e reconhecido como sendo extremamente perigoso, mas sim os daemons, os deuses menores, os anjos, as autoridades e poderes, e os espíritos poderosos de quem fora espiritualmente poderoso em vida». In David V Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.

Cortesia de CdoAutor/JDACT 

As Ondas Virgínia Woolf. «Eu irei para uma escola na costa oriental, e terei uma professora que se sentará por baixo de um quadro da rainha Alexandra»

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«(…) Lá está a Rhoda a olhar para o quadro, disse Louis, na sala. Enquanto isso, eu estou cá fora, a apanhar pedacinhos de tomilho e a apertar folhas de abrótano. E o Bernard vai contando uma história. Tem as omoplatas unidas, e estas lembram as asas de uma pequena borboleta. À medida que olha para aqueles números feitos a giz, a sua mente fica presa por entre os círculos brancos, até que acaba por se soltar dos laços e cair no vazio. Nada daquilo tem sentido para ela. Nada daquilo tem sentido para ela. Nada tem para lhe responder. Ao contrário dos outros, ela não tem corpo. E eu, que falo com sotaque australiano e cujo pai é banqueiro em Brisbane, não a receio como receio os outros. Vamos agora rastejar, disse Bernard, por baixo de toda esta vastidão de folhas de groselheira, e contar histórias. Vamos para o mundo subterrâneo. Vamos tomar posse do território que nos pertence, o qual se encontra iluminado por cachos de groselhas semelhantes a candelabros, ora vermelhos ora negros. Aqui, Jinny, se nos baixarmos bastante, podemos ficar sentados por baixo das folhas a ver baloiçar os turíbulos. Este é o nosso universo. Os outros passam lá ao longe, no caminho das carruagens. As saias da miss Hudson e da miss Curry revolteiam como se fossem apagar a luz das velas. Aquelas são as meias brancas da Susan. Aqueles são os lindos sapatos do Louis, pisando o cascalho. O cheiro quente das folhas em decomposição, da vegetação que apodrece, espalha-se pelos ares. Estamos agora num pântano, numa floresta tropical. Está ali um elefante coberto de larvas brancas, morto por uma seta que o atingiu no olho. Vêem-se, claramente, os olhos brilhantes de algumas aves, águias e abutres. Tomam-nos por árvores caídas. Precipitam-se por sobre um réptil, é uma cobra de capelo, e deixam-no com uma grande cicatriz, pronto para ser maltratado pelos leões. Este é o nosso mundo, iluminado por crescentes e estrelas; e grandes pétalas semitransparentes que bloqueiam o caminho como se fossem janelas avermelhadas. É tudo muito estranho.
As coisas ou são enormes ou muito pequenas. Os caules das flores são tão grossos como carvalhos. As folhas são tão altas como cúpulas de enormes catedrais. Aqui, somos como gigantes, capazes de fazer estremecer as florestas. Isso é aqui e agora, disse Jinny. Contudo, em breve teremos de partir. Já falta pouco para que miss Curry faça soar o apito. Caminharemos. Ficaremos separados. Tu irás para a escola. Terás mestres que usarão cruzes e colarinhos brancos. Eu irei para uma escola na costa oriental, e terei uma professora que se sentará por baixo de um quadro da rainha Alexandra. É para lá que irei, junto com a Susan e a Rhoda. Isto é apenas aqui e agora. Agora, estamos deitados por baixo das groselheiras e, sempre que a brisa sopra, as folhas cobrem-se de manchas. A minha mão lembra a pele de uma cobra. Os meus joelhos são como ilhas cor-de-rosa. A tua cara é como uma macieira. É da Selva que vem todo o calor, disse Bernard. As folhas são asas negras flutuando sobre as nossas cabeças. Lá no terraço, a miss Curry já soprou o apito. Somos obrigados a sair debaixo das folhas das groselheiras e a pormo-nos em sentido. Tens um raminho no cabelo, Jinny. Tens uma lagarta no pescoço. Temos de nos formar filas de dois. A miss Curry vai levar-nos para uma marcha, ao passo que a miss Hudson vai ficar sentada à secretária, às voltas com as contas. É aborrecido, disse Jinny, andar pela estrada sem ter janelas para espreitar, sem olhos de vidro azul para olhar para o caminho. Temos de formar pares, disse Susan, e caminhar de forma ordeira, sem arrastar os pés, com o Louis à frente a conduzir-nos, pois ele está sempre atento e não se desvia para apanhar raminhos». In Virgínia Woolf, 1931, colecção Mil Folhas, Relógio d’ Água, 2002, 2015, ISBN 978-989-641-526-6.

Cortesia de Relógiod’Água/JDACT

As Grandes Sociedades Secretas. David V Barrett. «Pitágoras assumia características semidivinas para os seguidores: era referido como a deidade harmónica»

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Pitágoras
«(…) Embora, hoje em dia, Pitágoras (581-497 a. C.) seja conhecido, sobretudo, pelo seu trabalho matemático, ele foi um dos mais destacados filósofos religiosos dos séculos anteriores a Cristo, detendo a sua influência sobre a religião esotérica e as sociedades secretas uma importância de monta. A Encyclopaedia of Dates and Events diz sobre ele, de forma lapidar, que foi um grande filósofo e matemático, mas a abordagem científica foi prejudicada pelo misticismo. Isto é o mesmo que dizer que William Blake foi um grande poeta e artista, cujo trabalho foi estragado pelo seu misticismo. Diz-se que Pitágoras terá vagueado durante muitos anos pelo Egipto e pela Mesopotâmia, chegando talvez à Índia, e terá estudado religião, filosofia e ciência numa tentativa de encontrar uma teoria do campo unificado que abrangesse todo o conhecimento. (Vários fundadores de movimentos esotéricos recentes, entre eles Blavatsky e Gurdjieff, seguiram o seu exemplo, quer na realidade, quer com um mito da sua própria criação). Por volta de 530 a. C., Pitágoras instalou-se na comunidade grega de Crotona, no Sul de Itália, e fundou uma academia com critérios de acesso muito rígidos. A matemática, a música e a astronomia faziam parte dos ensinamentos, não enquanto disciplinas individuais, mas sim como parte do sistema pitagórico de crenças, ao qual a famosa citação de Forster, apenas ligar! se adequaria na perfeição. A matemática e a geometria, as propriedades ocultas dos números e a relação entre eles, estavam por trás do mundo e dos céus lá em cima. Julga-se que Pitágoras terá formulado a ideia da oitava musical e explicado a base matemática dos intervalos e das harmonias musicais. Todo o Universo está em vibração, a cantar, a produzir a música das esferas. Diz-se que terá calculado a Proporção Áurea, o rácio matemático por trás de grande parte do significado esotérico da arquitectura (ligando-se assim ao simbolismo da Maçonaria).
Ensinou sobre a reencarnação, crença base da Tradição do Mistério Ocidental. Ensinou sobre a relação entre o homem e o cosmo, o microcosmo e o macrocosmo; isto está naturalmente ligado à astrologia, que na altura, e durante vários séculos depois disso, era o mesmo que astronomia. Os seus ensinamentos sobre o significado esotérico dos números continuam a estar por trás da numerologia moderna. À semelhança de muitos fundadores de sociedades ocultas, Pitágoras assumia características semidivinas para os seguidores: era referido como a deidade harmónica, a meio caminho entre os Deuses e os homens. Insistia num modo de vida asceta, com muitas proibições para os seguidores: tinham de seguir uma dieta vegetariana, por exemplo, mas não podiam comer feijões. A pureza de corpo e de comportamento, a par da completa dedicação mental, eram essenciais. Eram precisos três anos para passar a primeira fase de iniciação e cinco para a segunda; um seguidor pitagórico necessitava de grande empenho. As ideias de Pitágoras influenciaram profundamente Platão (429-347 a. C.), um dos mais influentes filósofos gregos. Pode dizer-se que sem Pitágoras não haveria Platão, e sem este não haveria Neoplatonismo (onde se incluía o Neopitagorismo), de suma importância para o pensamento esotérico do início da era cristã e durante o Renascimento. Já foi sugerido que Pitágoras terá, a dada altura, sido ensinado pelos druidas do Noroeste da Europa, ou que ele e os seus seguidores os ensinaram.

Neoplatonismo
Neoplatonismo é um termo moderno para a última encarnação dos filósofos gregos nos primeiros cinco ou seis séculos da era cristã; encerrava em si ensinamentos de várias fontes e influenciou bastante o Cristianismo exotérico e esotérico. Muitos dos Pais da Igreja conheciam o pensamento neoplatónico, era impossível que homens formados, como S. Paulo, não conhecessem a filosofia grega nesses primeiros séculos, e algumas das batalhas teológicas que terminaram na criação do dogma cristão basearam-se nos desacordos entre os defensores e os críticos das ideias neoplatónicas. Todavia, mais importante para as nossas necessidades é a influência que o neoplatonismo teve sobre o lado esotérico do Cristianismo e de outras religiões maiores e, logo, sobre as sociedades secretas». In David V Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

domingo, 12 de novembro de 2017

O Vírus Mona Lisa. Tibor Rode. «A seguir teria de tomar um comprimido ou, melhor, dois. O meu corpo pertence-me, repetiu ela, baixinho»

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«(…) Tal como antes, quando obrigara Betty a manter-se silenciosa sobre os resultados da sua ressonância magnética. Porquê? Não é nada que possa envergonhar alguém, retorquira Betty, traçando, na perspectiva de Helen, uma fronteira invisível. Era a ela que pertencia o seu corpo e a decisão era só sua quanto ao conhecimento das suas fotografias clínicas e a quem as poderia ver. Finalmente Betty conseguira ser convencida, de colega para colega, a guardar a informação só para si. Até Claude ter aparecido de repente e a conversa ter terminado abruptamente com a sua entrada em cena. Ao reparar no silêncio que se gerara, Claude ficara visivelmente consternado e perguntara-lhes: estiveram a discutir? Mas ambas ignoraram o seu embaraço com sorrisos. E depois Helen resolvera, espontaneamente, folgar durante o resto do dia sem, no entanto, deixar de se assegurar de que todos os registos da sua experiência haviam sido destruídos. Mas agora sentia-se arrasada. A cabeça doía-lhe, como acontecia tantas vezes quando tinha de suportar ruídos mais altos. Com as pontas dos polegares e dos dedos indicadores massajou as sobrancelhas. A seguir teria de tomar um comprimido ou, melhor, dois. O meu corpo pertence-me, repetiu ela, baixinho. Eram as mesmas palavras que dissera a Betty. Mas nem sempre fora assim. Era por isso que não gostava que os outros pudessem ver o que se passava no ambiente secreto do seu corpo? Fora por isso que reagira tão violentamente perante Betty? Devido à preocupação de que a imagem do seu cérebro pudesse ser divulgada? Por instantes, viu a capa da Vogue com a imagem da sua própria cabeça, e apressou-se a fechar os olhos com força para afugentar essa visão. Suspirando, ergueu o rosto ao Sol e sentiu o calor na testa. Era como se tivesse a esperança de que os raios ultravioletas lhe queimassem os pensamentos tão sombrios.
Helen meteu a mão no bolso do casaco e sentiu o papel do envelope entre os dedos. Tirou-o e olhou para a carta com o timbre do Museu do Louvre, de Paris. Por baixo encontrava-se também o nome do diretor da Coleção de Pintura, Louis Roussel. Leu de novo as linhas que ele lhe enviara. Roussel expressava a sua satisfação por poder recebê-la em breve em Paris, no Centro de Pesquisa e Restauro dos Museus de França (conhecido, abreviadamente, por C2RMF). Tudo estava a postos para a investigação prevista. Além disso, Roussel sublinhava mais uma vez a necessidade de manter o maior sigilo. Por razões de segurança. E nem mesmo os seus colaboradores mais próximos, como Betty ou Claude, deviam saber qual era exactamente o propósito da sua deslocação a Paris. Se lhe parecia tudo algo exagerado, também servia para tornar a viagem mais atraente. Um sorriso animou-lhe o rosto. Pensar em Paris despertava-lhe recordações antigas. De um Verão passado. Vivera em Paris os seus momentos mais bonitos..., mas também os piores. Helen dobrou o envelope para caber no bolso do casaco e roçou com a mão no telemóvel. Um pouco desajeitadamente, tirou o headset e enfiou o pequeno auricular no ouvido. Desde que lera numa revista especializada um estudo sueco, segundo o qual as radiações dos telemóveis podiam provocar alterações no cérebro, recusava-se a encostar directamente o aparelho ao ouvido.
Marcou o número do telemóvel de Madeleine e demorou algum tempo até ouvir o sinal de chamada, o que lhe provocou uma dor penetrante que se alastrou do ouvido interno até à têmpora. Depois de cinco toques de chamada, foi encaminhada para a caixa de correio de voz. Helen alegrou-se ao ouvir a voz clara da sua filha, que pedia para, depois do sinal sonoro, lhe deixarem uma mensagem. Gostaria mais, no entanto, de ter falado directamente com ela. Desligou. Seria de supor que estivesse em alguma sessão de terapia. A rotina diária da clínica de San Antonio estava visivelmente organizada, o que fazia parte da terapia. Há quanto tempo é que não via Madeleine? Há seis semanas bem compridas. Mas era o que os médicos queriam porque era também o que Madeleine queria. Helen soltou um suspiro bem audível. Ao pensar na filha, o coração ainda lhe pesava mais». In Tibor Rode, O Vírus Mona Lisa, 2016, Topseller, 20/20 Editora, 2016, ISBN 978-989-883-989-3.

Cortesia de Topseller/20/20E/JDACT

O Vírus Mona Lisa. Tibor Rode. «O olhar de Patryk desviou-se da fotografia e deteve-se na parede do outro lado. De um quadro, por cima de uma pequena mesa, gritava-lhe uma pessoa com as mãos coladas nos ouvidos…»

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Varsóvia
«(…) Patryk Weisz ficou imóve1 e pôs-se à escuta através do chão vazio. Nada se ouvia na enorme casa. O silêncio parecia-lhe estranho. Mas nunca aqui vivera. Fora criado em Londres. Alguns anos antes, o pai, depois de a mãe morrer, regressara ao seu país para aí residir. Mas Patryk mal se sentia polaco. No ano passado visitara o pai em casa apenas por três vezes. A propriedade era-lhe estranha e, sem o pai, a casa era para ele um edifício como outro qualquer. Olhou para uma fotografia emoldurada na parede. Mostrava-o talvez com 2 anos. Sentado com uma fralda grande demais à beira de uma caixa com areia, tendo na mão uma pequena pá azul. Olhava com ar céptico para a máquina fotográfica. Com a pequena mão esquerda, apontava para o fotógrafo. Talvez se tivesse interrogado sobre quem seria o homem que o olhava de cima através da máquina. O pai, como a mãe sempre lhe contara, não estava muitas vezes em casa. O seu lar era o gabinete de trabalho e a sua verdadeira família os colegas. Era a obra da sua vida, como o pai sempre salientara. Patryk suspirou. A reforma devia ter sido para ele um tormento insuportável. E depois as dores que se seguiram ao acidente. Sobre as quais nunca dissera uma palavra, mas que, no entanto, o acompanhariam para sempre, tal como os médicos, mesmo até ao final da sua vida. Patryk suspirou, mais uma vez. Ouviu um ruído. Talvez fosse um dos cães de caça. Ou um dos poucos empregados que restavam e cuja tarefa principal era a de cuidar dos cães. E a de manter em bom estado as 26 divisões, entre as quais cinco casas de banho e sete quartos de dormir. Patryk abanou a cabeça e riu-se com desprezo. Vinte e seis divisões para um só homem. Tantos locais onde ele podia estar sozinho. Não se dizia sempre que a riqueza gerava a solidão! Patryk podia aqui percorrer o caminho de pedras que o demonstrava. O vazio que ele sentia... Era-lhe agora claro que esse vazio, sentido pelo seu próprio pai, existira sempre nesta casa, e não só agora. Até ao dia em que oito semanas antes, Pavel Weisz desaparecera do mundo sem deixar rasto.
O olhar de Patryk desviou-se da fotografia e deteve-se na parede do outro lado. De um quadro, por cima de uma pequena mesa, gritava-lhe uma pessoa com as mãos coladas nos ouvidos, a boca aberta e os olhos vazios. A pessoa até parecia estar a berrar. Patryk conhecia a pintura, da autoria de um pintor norueguês. Admirou-se. Até esse momento, nunca dera pela existência do quadro em casa. E seria o original? O pai, normalmente, não se satisfazia com cópias. Lembrou-se, de imediato, da cave. A mão foi até ao bolso das calças, de onde tirou um pequeno papel. Helen Morgan, era o papel onde aí fora escrito com a caligrafia trémula do pai. Patryk olhou para os algarismos por baixo do nome e depois para o relógio de pulso. Voltou-se e procurou lembrar-se de qual era o caminho para o escritório. Havia aí um telefone.

Florença, por volta de 1500
Um homem jovem apareceu hoje em nossa casa depois do almoço, elegantemente vestido. A gola estava debruada com pele de lince. Os caracóis mostravam um esplendor idêntico. As maçãs do rosto pareciam pêssegos. Os lábios eram rosados e cheios. O olhar, seguro de si, era o de um príncipe. Pensei, depois de o ver, que fosse um dos meus alunos e quis repreendê-lo por não ter anunciado a sua visita a minha casa.. Mas, nessa altura, por qualquer motivo incompreensível, não o pude fazer. Não o pude fazer como não pode o homem transformar o dia em noite. Nem fechar a porta à morte, caso ela decida atormentá-lo. Só a ti, meu diário, o confio, sabendo plenamente que contigo tudo isto ficará para sempre guardado. E também não o pude fazer porque durante toda a minha vida esperei por ele. Não é um aluno, mas também não é um príncipe. Algo muito dentro de mim me diz que nem sequer é deste mundo. Foi por isso que o deixei entrar.

Boston
Um vento suave de Outono acariciou-lhe o rosto. Helen inspirou o ar e deixou que essa aragem lhe descesse aos pulmões, sentindo que o nó do seu estômago cedia. À sua volta as árvores do parque brilhavam com as cores mais vivas. De passagem viu um jovem casal, sentado num dos bancos, a falar ternamente entre si. O indian summer revelava-se na sua face mais bonita e envolvia a cidade no seu abraço romântico. Como cientista, Helen sabia interpretar os fenómenos da natureza. Nas noites frias e nos dias ainda quentes desta altura do ano, as árvores produziam uma substância química que bloqueava a troca de humidade entre os ramos e as folhas. A consequência era uma queda drástica na quantidade da clorofila enquanto o açúcar das folhas lhes dava cores muito mais quentes. Era um processo químico, nada mais. Tal como o amor. Assim que convencia o seu coração com uma explicação biológica e racional da natureza, tudo se tornava, de repente, mais pesado. Por mais que desejasse ter a imagem ideal de uma cientista, raramente conseguia sentir-se esclarecida e guiada pela razão». In Tibor Rode, O Vírus Mona Lisa, 2016, Topseller, 20/20 Editora, 2016, ISBN 978-989-883-989-3.

Cortesia de Topseller/20/20E/JDACT