quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Rocha Branca. Fernando Campos. «Haviam-no os criados trazido da batalha numa improvisada padiola de ramos de tamariz»

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«(…) Suspende Pítaco o discurso por momentos e, com facécia nos olhos e no ricto dos lábios, acrescenta: basta o arroto deles para deitar por terra um batalhão inimigo... Os circunstantes riem. O orador continua: não descuidaremos serviços auxiliares; sinais de fogo no alto das montanhas, os hemeródromos que correrão o dia inteiro a levar mensagens, os terapeutas de campanha para acudir aos feridos, os adivinhos para nos aconselharem... Os veteranos, com os efebos e os metecos, manter-se-ão a defender a ilha, peitos às armas esforçados, lanças em riste apercebidas contra o invasor ateniense. Defenderemos a nossa terra, as nossas mulheres, as nossas virgens, o nosso sangue, os nossos bens, o nosso pão, o nosso vinho... Avante, cidadãos! A hora é de heroísmo! Assim falou e logo crepitam aplausos a coroar-lhe as palavras voadas do experto peito. Está encontrado o general de Lesbos. Mitilene, cidade aristocrática e a mais importante da ilha, é, com a concordância de todas as outras, investida na direcção da defesa.
Por toda a parte se aparelha a guerra. No porto está pronta a armada, carros de batalha seguem os guerreiros por estradas e caminhos em direcção ao litoral. Estafetas correm com ordens e avisos às populações. Em Éreso, meu pai Escamandrónimo prepara os seus homens. A enorme casa resplandece de bronzes, ondeiam os brancos penachos de crinas de cavalo, brilham as cnémidas dos hoplitas, envolvem-se os dorsos com as couraças de linho novo, as cotas de malha da Lídia, empunham-se na esquerda os côncavos escudos, na direita o dardo potente, dos cinturões pendem espadas e punhais de Cálcis.
Fora das muralhas aguarda o exército. Escamandrónimo, rutilante em seus trajos de guerra, surge à porta de casa com nossa mãe e connosco. Lembrado da despedida de Heitor a Andrómaca, prefere contenção de palavras. Apenas diz, como o herói homérico: pobrezinha! Não atormentes o coração. Contra o destino nenhum mortal me poderá lançar ao Hades, beija a mulher, afaga-nos. Vá! Entra e dedica-te às tuas tarefas. A guerra é para os homens.
Cléis, os olhos em lágrimas, leva-nos para dentro. Ainda olho atrás. Ele desce, sai a porta da muralha a juntar-se aos guerreiros. Partem. Com seu exército meu pai vigia muralhas, porto, praia, habitações e campos. E, um dia, pelo meio da manhã, surge ao longe, no azul de mar e céu, a frota inimiga... Tinha eu seis anos, o meu choro regou os osso
s de meu pai. Haviam-no os criados trazido da batalha numa improvisada padiola de ramos de tamariz». In Fernando Campos, A Rocha Branca, Editora Objectiva, Alfaguara, 2011, ISBN 978-989-672-111-4.

Cortesia de EObjectiva/Alfaguara/JDACT

O Fundador. Aydano Roriz. «O que é preciso, se me permite a ousadia, Sereníssimo, é Vossa Alteza tornar-se senhor de verdade daquela “vossa conquista”»

Cortesia de wikipedia e jdact

Para entender a História
«(…) Naturalmente, Sereníssimo, e fazendo um gesto entre cortês e humilde, como se pedindo desculpas. Mas é facto que o povo sofre, Sereníssimo. Gentes morrem de fome pelo Reino inteiro. E o que é que tu queres que eu faça, Castanheira?, retrucou o rei, reassumindo o seu ar de Piedoso. É a sina do povo. Sempre se morreu de fome no mundo, e sempre se morrerá. O Brasil pode ser a solução, Alteza!, contrapôs com algum entusiasmo o conde. Se colonizarmos verdadeiramente aquela vossa conquista, poderemos dar um trato de terra para essa gente e colher muito açúcar. O rei esboçou um pálido sorriso cúmplice. Adorava que lhe chamassem as novas terras como sua conquista. Encorajado, Castanheira prosseguiu. Defendeu que, pagando vinte e cinco por cento de juros anuais, e com uma dívida equivalente a mais de dois anos de receitas, o déficit do Tesouro era como uma bola de neve que rolava serra abaixo: à medida que o tempo passava, só crescia. Urgia encontrar novas fontes de receitas para o Reino. E os empréstimos compulsórios que me induzistes a decretar?, espicaçou o rei, com um meio sorriso nos lábios. Têm ajudado, Sereníssimo. Mas não resolvem o problema, aduziu Castanheira um pouco constrangido, uma vez que ele próprio, como fidalgo, havia sido dispensado da medida. Já o Brasil...
O Brasil, ora, o Brasil!, interrompeu o rei, um tom acima do normal. Não mandámos para lá Martim Afonso? Não gastámos trezentos mil cruzados com a expedição dele? E de que adiantou? Dinheiro deitado à rua, isso sim! Concordo, Sereníssimo. Mas isso foi há quinze anos! Agora, o facto é que os franceses estão a mexer-se outra vez. E se Vossa Alteza não tomar medidas rigorosas, corremos o risco de perder Santa Cruz, e colocando-se na ponta do estofado, de modo a ficar mais próximo à mesa, o vedor da Fazenda argumentou que era preciso povoar verdadeiramente aquela colónia, e não simplesmente mandar degredados para lá. Que urgia levar a justiça D'el-rei para a província, para acabar com os desentendimentos entre os capitães-donatários e os povoadores. O que é preciso, se me permite a ousadia, Sereníssimo, é Vossa Alteza tornar-se senhor de verdade daquela vossa conquista. É a única maneira que vejo de manter os franceses longe do Brasil. O rei cruzou as mãos por cima do ventre rechonchudo e ficou a girar os dedos polegares, ora num sentido, ora no outro. Eh, o Diogo Gouveia, quando era reitor na Universidade de Paris, insistiu muito nisso comigo, concordou João III, desalentado. Mas o que se há de fazer! Volta e meia não estamos a combater os corsários? Não mandei já não sei quantos protestos para Francisco de França, e agora para o filho dele, esse menino aí... o Henrique? Não firmei já tratados? Não me comprometi já a pagar dez mil cruzados ao capitão-mor da armada de França, para que ele próprio combata os piratas da Bretanha e Normandia? Não comprei até a carta de corso, que o salafrário do Francisco de França deu ao Jean Ango?
O vexame acontecera no mesmo ano em que Martim Afonso fora mandado para iniciar a colonização do Brasil. De modo a evitar confrontos com a França, o rei de Portugal submetera-se a pagar quatro mil ducados, ou catorze quilos de ouro, para que Jean Ango, visconde de Dieppe, parasse de roubar pau-de-tinta nas Terras de Santa Cruz. Mas também... Jean Ango era mesmo poderoso! Dono de mais de cem navios, o riquíssimo visconde francês ficara indignado com a morte, pelos guarda-costas portugueses, de uma boa centena de homens seus no Brasil. Em represália, ameaçara bloquear o porto de Lisboa e declarar, pessoalmente, guerra a Portugal. Não dividi já aquelas terras, continuou o rei, do mesmo modo que dividimos os Açores e a Madeira? Está bem. Concordo que as rusgas entre os capitães e os colonos me estão a enfadar um pouco. Mas Portugal precisa é de ouro, Castanheira! Ou de mercadorias que possa trocar por ouro. Terra, temos de sobra. Tanto no Algarve, quanto em África e nas índias. É exactamente aí onde eu queria chegar, Sereníssimo, ajuntou o conselheiro, com inflexão de voz especialmente respeitosa. A terra do Algarve não é boa. As índias, como Vossa Alteza sempre diz, têm-se mostrado um sumidouro de gentes e de dinheiros. E em África os mouros não nos dão sossego. Anos atrás Vossa Alteza não decidiu até abandonar as praças-fortes de Arzila e Alcácer Ceguer, por ser muito caro mantê-las? Então... É certo que as tais capitanias hereditárias não são exactamente um sucesso no Brasil. Das quinze, só duas renderam alguma coisa. Mas Vossa Alteza sabe porquê? Na opinião deste vosso humilde conselheiro, porque o Brasil não é os Açores, e muito menos a Ilha da Madeira. É uma terra tão grande, que é quase impossível guardar. E tão longe, que muitos dos donatários nem para lá foram, e os que foram sentiram-se desamparados. Perdoe-me, Ataíde, mas isto não me parece justo, reagiu António Carneiro, secretário-geral do Reino. Então alguns capitães não levaram para Santa Cruz esquadras bem apetrechadas, colonos, artífices de várias profissões?... Não, o problema não é esse, meu amigo. O problema é que aquilo é uma terra selvagem. Os gentios brasis não comeram o Francisco Pereira Coutinho!» In Aydano Roriz, O Fundador, Saída de Emergência, colecção a História de Portugal em Romance, 2015, ISBN 978-989-637-740-3.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

O Fundador. Aydano Roriz. «Com gestos de cabeça, o Piedoso aprovava a intervenção do conselheiro. E com a fuga de alguns dos melhores dos nossos judeus»

Cortesia de wikipedia e jdact

Para entender a História
«Não estava a ser fácil, para os reis de Portugal, fazer valer a posse das terras que haviam encontrado do outro lado do Atlântico em 1500. Com a abertura do caminho marítimo para as Índias eram poucos os súbditos da Casa de Avis que se dispunham a trocar o fascínio da riqueza fácil no Oriente, pelo desbravamento dos trópicos selvagens. Mas, nem por isso, a Coroa deixou de mandar para a nova província expedições regulares, que faziam cartas de navegação e portulanos, onde iam desenhando o contorno da costa e baptizando os rios, baías e outros acidentes geográficos. Mesmo assim, por quase meio século, o Brasil era tido apenas como mais uma posse. Uma, no vasto colar de terras que a Coroa portuguesa conquistara pelo mundo, em mais de setenta anos de insistentes tentativas de descobrir um caminho marítimo para as especiarias das Índias. Em todo o caso, não queriam perder a Terra de Santa Cruz. Até porque, embora ouro e prata não tivessem sido encontrados, concluíram que podiam levar daquela província valiosas peles de onça, aves palradoras de plumagem colorida e muita madeira nobre. Sobretudo uma que, depois de triturada, misturada com água e fermentada, resultava num corante avermelhado muito bem aceite nas tecelagens da Europa. Difícil era manter em segredo a origem daqueles artigos exóticos. E da boca de um marinheiro para outro, de um porto para outro, a notícia foi-se espalhando. Espalhando, e atraindo para o Brasil navios corsários e os chamados entrelopos, mercadores aventureiros, principalmente franceses, que não tinham escrúpulos em fazer frente ao monopólio português assegurado pelo papa.
O mês era o de Maio. O ano, o de 1548. Sentado à cabeceira da comprida mesa de carvalho, com a sua cara de monge e a expressão beata que lhe valera a alcunha de o Piedoso, o rei de Portugal afagou a volumosa barba negra e perguntou com voz de confessionário: e quanto a ti, Castanheira? António Ataíde, o conde de Castanheira, despertou do torpor e empertigou-se na poltrona. A longa explanação do marquês de Cadaval, contando das festividades que estava a programar para a próxima temporada de Verão, quando a corte mudasse para Sintra, haviam-no entediado. Por mais que, nos últimos vinte anos, volta e meia se visse obrigado a ouvir tolices de toda a monta, ainda não se habituara. Continuava a considerar um despropósito discutirem-se futilidades como aquela num Conselho Real. Receio que as novidades não sejam boas, Sereníssimo, falou em tom protocolar, atraindo as atenções para si. Recebi mensagem daquele nosso jogral, infiltrado nos palácios da Citu de Paris. Segundo ele, os franceses estariam a preparar uma nova investida contra o Brasil. Pelo sangue de Cristo! Vão começar com isso outra vez?! Receio que sim, Sereníssimo. E desta feita em larga escala, e apoiando com elegância as mãos entrelaçadas sobre a mesa: ao que consta, tão logo consigam sufocar a rebelião na Aquitânia, aquela por causa do imposto do sal, devem voltar as atenções para a vossa província de Santa Cruz. João III, o terceiro João a sentar-se no trono português, girou no dedo o anel de diamantes que lhe mandara de presente o rajá de Narsinga, nas Índias.
Castanheira parecia mesmo o arauto das más notícias, pensou. As más notícias era sempre ele quem as trazia primeiro. E aquela falta de tacto, aquela inapetência para fazer rodeios, aquele estilo directo do conselheiro às vezes aborreciam um pouco. De todo o modo, tinha de reconhecer: António Ataíde era dos poucos que nunca lhe escondiam nada. Por isso confiava nele. E tu acreditas nisso, Castanheira? Acredito, Sereníssimo. Na verdade, penso que se Vossa Alteza não tomar uma atitude decisiva, vamos acabar por perder aquelas terras para Henrique de França. Que se perca!, retrucou o príncipe João Manuel, filho do rei, obrigado pelo pai a participar em algumas reuniões do Conselho, ainda que não tivesse completado onze anos. Aquilo nunca nos rendeu coisa alguma. Não é bem assim, Alteza, argumentou Castanheira em tom professoral, procurando mostrar-se tolerante com o jovem candidato a rei. Com o pau-de-tinta tem-se ganho uns cem mil cruzados por ano. Da Nova Lusitânia tem vindo bastante açúcar. Um pouco de São Vicente também. E o dízimo de tudo é sempre recolhido à Real Fazenda. Muito pouco, se comparado com o que nos rendem as índias, contrapôs Francisco Portugal, camareiro-mor do pequeno príncipe, indo em socorro do seu pupilo, o herdeiro presumível do trono. Ataíde perscrutou o estado de espírito do rei e, como lhe parecesse que o monarca estivesse a apoiar os seus pontos de vista, continuou: o lucro com as índias não vai durar para sempre. Se Vossa Mercê se lembra, não é de hoje que falo nas reuniões do Conselho estarem os proveitos a diminuir, desde que os mercadores e financistas judeus começaram a fugir cá do Reino. Que o meu irmão Henrique não te ouça dizer isso, Castanheira, interpôs o monarca João, em tom de brincadeira. O principezinho emitiu um risinho tonto de menino fraquito, tão satirizado às escondidas na corte e por detrás dos reposteiros. É verdade, Sereníssimo, aquiesceu o conde de Castanheira, aderindo ao gracejo real. Um dia, quem sabe, Sua Eminência, o cardeal Henrique, mude de ideia. De todo o modo, até lá, Vossa Alteza sabe melhor do que ninguém: os judeus são tão necessários a um país quanto os padeiros. Com gestos de cabeça, o Piedoso aprovava a intervenção do conselheiro. E com a fuga de alguns dos melhores dos nossos judeus, por receio do Santo Ofício (maldito) continuou Castanheira, reduziu-se grandemente o comércio cá na Metrópole. Resultado: estamos a dever mais de dois milhões de cruzados. Oitocentos mil, só de juros atrasados. Ora, Castanheira... ,replicou um pouco irritadiço o monarca, fincando os cotovelos na mesa, para apoiar o queixo com os punhos. Não é preciso que me lembres isso a cada dia. Como vedor da Fazenda, sabes muito bem que herdei um tesouro arruinado. Sabes que tivemos secas tremendas. Que sofremos a pestilência e até um terramoto em Lisboa!» In Aydano Roriz, O Fundador, Saída de Emergência, colecção a História de Portugal em Romance, 2015, ISBN 978-989-637-740-3.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A Garota Italiana. Lucinda Riley. «Sem responder, Rosanna deixou o quarto de banho e desceu a íngreme escada de madeira. No pé da escada, abriu a porta e entrou na cantina»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nápoles. Itália. Agosto de 1966
«Rosanna Antonia Menici apoiou-se na pia e ficou na ponta dos pés para se olhar no espelho. Teve de se inclinar um pouquinho para a esquerda, pois uma rachadura distorcia os traços do seu rosto. Assim, só conseguia ver metade do olho e da bochecha direitos, e nada do queixo; mesmo na ponta dos pés, ainda não tinha altura suficiente para enxergá-lo. Rosanna! Saia já do quarto de banho! A menina suspirou, largou a pia, atravessou o chão de linóleo preto e destrancou a porta. A maçaneta girou na mesma hora, a porta se abriu e Carlotta passou por ela com truculência. Que história é essa de trancar a porta, sua criança boba? O que tem para esconder? Ela abriu as torneiras da banheira e, em seguida, com gestos experientes, prendeu no alto da cabeça os longos cabelos escuros e cacheados. Rosanna deu de ombros, encabulada, e desejou que Deus a tivesse feito tão bonita quanto a irmã mais velha. Mamma tinha-lhe dito que Deus dava um presente a cada um, e o de Carlotta era a beleza. Observou com humildade a moça despir o roupão e revelar o corpo perfeito de pele branca e lisinha, os seios fartos e as pernas compridas. Todos que entravam na cantina elogiavam a linda filha de mamma e papà e comentavam como ela um dia daria um bom partido para um homem rico. O vapor começou a tomar conta do pequeno banheiro. Carlotta fechou as torneiras e entrou no banho. Rosanna sentou-se na borda da banheira. Giulio vai vir hoje à noite?, perguntou à irmã. Vai, sim. Acha que vai se casar com ele? Carlotta começou a se ensaboar. Não, Rosanna. Não vou me casar com ele. Mas achei que gostasse dele. Eu gosto dele, mas não... ah, você é nova demais para entender. Papà gosta dele. É, eu sei que papà gosta dele. A família do Giulio é rica. Carlotta arqueou uma das sobrancelhas e deu um suspiro dramático. Mas ele me cansa. Se papà pudesse, me faria subir ao altar com ele amanhã mesmo, mas antes quero me divertir um pouco, aproveitar a vida. Mas eu pensei que casar fosse divertido, insistiu Rosanna. Você vai poder usar um vestido de noiva bem bonito, vai ganhar vários presentes, vai ter o seu próprio apartamento e... Um bando de crianças sempre aos berros e uma cintura bem grossa, concluiu Carlotta, alisando distraidamente com o sabonete as curvas esbeltas do corpo enquanto falava. Seus olhos escuros relancearam na direcção da irmã menor. Porque me está encarando? Saia daqui, Rosanna, me deixe em paz por dez minutos. Mamma está precisando da sua ajuda lá em baixo. E feche a porta ao sair!
Sem responder, Rosanna deixou o quarto de banho e desceu a íngreme escada de madeira. No pé da escada, abriu a porta e entrou na cantina. As paredes haviam sido caiadas recentemente, e acima do bar nos fundos do salão um retrato de Nossa Senhora dividia a parede com um poster de Frank Sinatra. As mesas de madeira escuras brilhavam de tão enceradas e velas haviam sido postas em cima de cada uma delas, dentro de garrafas de vinho vazias. Ah, você está aí! Onde foi que se meteu? Chamei-a várias vezes. Venha-me ajudar a pendurar esta faixa. Em pé sobre uma cadeira, Antonia Menici segurava uma das pontas do tecido de cor viva. A cadeira balançava perigosamente sob o seu peso considerável. Sim, mamma. Rosanna puxou outra cadeira de madeira de baixo de uma das mesas e a arrastou até ao arco no centro da cantina. Ande logo, menina! Deus lhe deu pernas para correr, não para se arrastar feito uma lesma! Rosanna segurou a outra ponta da faixa e subiu na cadeira. Pendure essa argola no prego, instruiu Antonia. Rosanna obedeceu. Agora venha ajudar sua mamma a descer da cadeira para ver se ficou recto. Rosanna desceu da cadeira e correu para ajudar Antonia a fazer o mesmo em segurança. As palmas das mãos de sua mamma estavam húmidas, e ela pôde ver gotas de suor na sua testa. Antonia ergueu os olhos para a faixa, satisfeita. Bene, bene, comentou. Rosanna leu as palavras em voz alta: feliz trinta anos de casados, Maria e Massimo! Antonia enlaçou a filha e lhe deu um raro abraço. Ah, que surpresa vai ser! Eles acham que vêm aqui jantar só com o seu papà e eu. Quero ver a cara deles quando virem todos os amigos e parentes. Seu rosto redondo estava radiante de prazer. Ela soltou a filha, sentou-se na cadeira e enxugou a testa com um lenço. Então inclinou-se para a frente e acenou para a menina vir na sua direcção». In Lucinda Riley, A Garota Italiana, 2014, Editora Arqueiro, 2016, ISBN 978-858-041-565-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «Do casamento de Grácia com Francisco nasceu uma única menina, de nome de baptismo Ana, do nome bíblico Hanna, equivalente hebraico de Grácia, a quem chamavam Reina»

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Se eu fosse rei de Lisboa,..., seria rei do mundo
«(…) Em meados do século XVI, nasce o Bairro Alto, primeiro bairro moderno, de Lisboa. Os ares considerados mais saudáveis das suas colinas e a construção da igreja de S. Roque pelos jesuítas, onde o rei e os nobres se reuniam, tornam o Bairro Alto na zona mais aristocrática da cidade. Até ao terramoto de 1755, o Bairro Alto distingue-se pelos seus bailes, teatros ao ar livre e tertúlias literárias, que caracterizavam a vida da nobreza lisboeta. É pouco provável que Francisco e Grácia habitassem o Bairro Alto. Devido ao comércio das especiarias a que se dedicava Francisco, talvez morassem perto das Alfândegas, nomeadamente a Alfândega Nova, do lado ocidental do Terreiro do Paço. Ou ainda com maior probabilidade na Rua Nova, na paróquia da Madalena, nas casas de quatro e cinco andares, de fachadas austeras rasgadas por janelas de venezianas e persianas de madeira, habitadas pelos grandes financeiros portugueses e estrangeiros. Com efeito, a rua Nova situava-se perto da antiga judiara grande, a qual apesar das conversões ainda era habitada por muitos cristãos-novos. A rua Nova também não ficava longe das judiarias da Teracenas ou Alfama, ambas situadas em frente da zona do porto e dos estaleiros navais.
Do casamento de Grácia com Francisco nasceu uma única menina, de nome de baptismo Ana, do nome bíblico Hanna, equivalente hebraico de Grácia, a quem chamavam Reina, um nome usado pelos sefarditas da época e até hoje. Mas poucos anos depois, em 1535, Francisco Mendes morre, ficando Grácia e o seu irmão Diogo, que dirigia a filial em Antuérpia, como gestores da sua imensa fortuna. A sua morte dá-se num momento dramático da vivência dos cristãos-novos. Em 1515, Manuel I pedira ao papa a instalação do tribunal da Inquisição (maldita) em Portugal para julgar os hereges, projecto que abandona em seguida. O seu filho e sucessor João III começou por aplicar a política de assimilação de Manuel I. Mas a vitalidade da prática judaizante de muitos cristãos-novos e o zelo religioso da rainha dona Catarina, irmã de Carlos V e neta dos Reis Católicos, foram progressivamente convencendo o rei a pedir ao papa Clemente VII a autorização de estabelecimento de um tribunal segundo o modelo espanhol.
Houve um elemento que terá contribuído para influenciar o rei nesse sentido: em 1525 chegara a Faro uma estranha personagem de nome David Reubéni, que se apresentava como emissário das dez tribos perdidas do Oriente, a fim de propôr ao rei uma aliança judaico-cristã para combater os Turcos. Portador de cartas de recomendação do papa, veio para Lisboa passando por Beja, Évora e Santarém e desencadeando à sua passagem um intenso fervor religioso entre a massa de cristãos-novos que o aclamavam como o Messias. Um funcionário da coroa, Diogo Pires, foi mesmo ao ponto de se circuncidar a si próprio e de o seguir mais tarde, mudando o seu nome para Salomão Molkho. Acabaram os dois nas fogueiras da Inquisição (maldita), Reubéni em Badajoz ou em Évora e Molkho em Mântua, mas este acontecimento que se enquadrava num messianismo crescente entre os cristãos-novos, terá provavelmente alertado João III para os perigos do seu alastramento não só entre os cristãos-novos, mas também entre a própria população cristã-velha, e contribuído para a sua decisão de instalar em Portugal a Inquisição (maldita). Graças a hábeis negociações e a uma política de donativos e subornos levadas a cabo por cristãos-novos, entre os quais Francisco e Grácia Mendes, a implantação do tribunal foi sendo adiada. Por pouco tempo: em 1536, a bula Cum ad Nihil Magis, assinada pelo papa Paulo III a 23 de Maio, estabelecia a Inquisição (maldita) em Portugal. O inquisidor geral era Henrique, o próprio irmão do rei...
Francisco Mendes deve ter previsto os acontecimentos e tentado salvar a família e o seu império das garras da Inquisição, porque em 1531 conseguiu obter do papa um breve de protecção para a sua família contra qualquer eventual acusação de heresia, mas morreu prematuramente. À sua morte, a fortuna familiar foi alvo da cobiça real que concebeu o plano de casar a filha de ambos, Ana, com um elemento do Paço, o que lhe permitiria apossar-se de metade da herança. Escreve H. P. Salomon: em 12 de Maio de 1537, o rei declarou explicitamente o seu desejo que a criança fosse imediatamente levada para a casa da rainha para nela estar, e se criar, e aprender todos os bons costumes […] e daí, com a fazenda que lhe seu pai leixou, a casará com uma pessoa honrada [...] Grácia acabara de fazer vinte e sete anos. Mas era dotada de uma personalidade forte e determinada, e o seu ardente apego às tradições ancestrais judaicas que partilhava com o marido nunca lhe permitiria aceitar tal plano, mesmo que ele significasse uma protecção para a sua família. Por outro lado, o próprio facto de o marido a nomear, em testamento, gestora da sua fortuna juntamente com o irmão Diogo era um indício provável de confiança no seu talento para os negócios e de alguma experiência neste campo». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

O Erotismo. Georges Bataille. «Tudo nos leva a crer que, essencialmente, o “sagrado” dos sacrifícios primitivos é o análogo ao “divino” das religiões actuais»



jdact e wikipedia

«(…) Para além das possibilidades precárias, dependendo de acasos favoráveis que asseguram a posse do ser amado, a humanidade se esforçou desde as mais remotas eras para alcançar, fora desses acasos, a continuidade que a liberta. O problema surgiu diante da morte, que precipita aparentemente o ser descontínuo na continuidade do ser. Esta maneira de ver não se impõe desde o princípio ao espírito, entretanto a morte, sendo a destruição de um ser descontínuo, não afecta em nada a continuidade do ser, que existe, geralmente, fora de nós. Eu não esqueço que, no desejo de imortalidade, o que entra em jogo é a preocupação de assegurar a sobrevivência na descontinuidade, a sobrevivência do ser pessoal, mas eu deixo a questão de lado. Insisto no facto de que, a continuidade do ser estando na origem dos seres, não é atingida pela morte, é independente dela, e mesmo até manifestada por ela. Este pensamento me parece ser a base da interpretação do sacrifício religioso, que pode ser comparado, como eu disse há pouco, à acção erótica. Esta, dissolvendo os seres que nela se engajam, lhes revela a continuidade, lembrando o desenrolar das águas tumultuosas. No sacrifício, não há somente desnudamento, há imolação da vítima (ou se o objecto do sacrifício não for um ser vivo, há, de alguma maneira, destruição desse objecto). A vítima morre, enquanto os assistentes participam de um elemento que revela a sua morte. Este elemento é o que se pode chamar, com os historiadores das religiões, de sagrado. O sagrado é justamente a continuidade do ser revelada àqueles que fixam a sua atenção, num rito solene, na morte de um ser descontínuo. Há, devido à morte violenta, ruptura da descontinuidade de um ser: o que subsiste e que, no silêncio que cai, os espíritos ansiosos sentem é a continuidade do ser, a que a vítima é devolvida. Só um sacrifício espectacular, operado em condições que determinam o carácter sério e colectivo da religião, é susceptível de revelar o que de hábito escapa à atenção. Não poderíamos, por outro lado, imaginar o que aparece no mais secreto do ser dos assistentes se não pudéssemos nos referir às experiências religiosas que fizemos pessoalmente, mesmo que sejam as de nossa infância. Tudo nos leva a crer que, essencialmente, o sagrado dos sacrifícios primitivos é o análogo ao divino das religiões actuais. Disse há pouco que falarei do erotismo sagrado; eu me teria feito compreender melhor se tivesse falado desde o começo de erotismo divino. O amor de Deus é uma ideia mais familiar, menos desconcertante que o amor de um elemento sagrado. Não o fiz, repito, porque o erotismo, cujo objecto se situa para além do real imediato, está longe de ser redutível ao amor de Deus. Preferiria ser pouco inteligível a ser inexacto. Essencialmente, o divino é idêntico ao sagrado, restrição feita à descontinuidade relativa da pessoa de Deus. Deus é um ser compósito, tendo no plano da afectividade, mesmo de uma maneira fundamental, a continuidade do ser de que estou falando. A representação de Deus não está menos ligada, tanto pela teologia bíblica quanto pela teologia racional, a um ser pessoal, a um criador distinto da totalidade daquilo que é. Da continuidade do ser, limito-me a dizer que ela não é, do meu ponto de vista, conhecível mas a sua experiência nos é dada sempre, em parte, sob formas aleatórias, contestáveis. A experiência negativa só serve, a meu ver, para chamar a atenção, mas é uma experiência rica. Nunca devemos esquecer que a teologia positiva se desdobra numa teologia negativa, fundada na experiência mística.
Se bem que sejam coisas bem diferentes, a experiência mística é dada, parece-me, a partir da experiência universal que é o sacrifício religioso. Ela introduz, no mundo que é dominado pelo pensamento ligado à experiência dos objetos (e ao conhecimento do que desenvolve em nós a experiência dos objectos), um elemento que não ocupa um lugar nas construções desse pensamento intelectual, a não ser negativamente, como uma determinação de seus limites. Com efeito, o que a experiência mística revela é uma ausência de objecto. O objecto se identifica com a descontinuidade, e a experiência mística, na medida em que temos em nós a força de operar uma ruptura de nossa descontinuidade, introduz em nós o sentimento da continuidade. Ela o introduz por outros meios sem ser o do erotismo dos corpos ou dos corações. Mais exactamente, ela se priva de meios que não dependem da vontade. A experiência erótica ligada ao real é uma espera do aleatório, é a espera de um ser dado e das circunstâncias favoráveis. O erotismo sagrado, dado na experiência mística, quer somente que nada perturbe o indivíduo». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972 608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «A família Luna Mendes não é, pois, uma vulgar família marrana. Pertencia ao pequeno número de famílias privilegiadas que souberam tornar-se indispensáveis à coroa»

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Não adoro nem pau nem pedra, mas sim Deus que tudo governa
«(…) Francisco e o seu irmão Diogo dedicavam-se à compra e venda, para os grandes mercados da Europa do Norte, de pedras preciosas, especiarias e produtos de luxo vindos para Portugal pelas rotas abertas por Vasco da Gama. Muito rapidamente, ascenderam a uma posição de primeiro plano, ocupando um lugar de destaque na praça comercial de Lisboa. Comprando a pronto pagamento carregamentos inteiros de pimenta e especiarias, já tinham em 1525 praticamente o controlo do seu comércio, trabalhando ao serviço do rei, único detentor da importação em grosso. Assim à data do seu casamento, Francisco e o irmão Diogo, que entretanto se estabelecera em Antuérpia, já haviam construído um império que detinha a primazia do comércio de especiarias em toda a Europa. Herman Prins Salomon cita uma carta de privilégios de João III a Francisco Mendes, de 20 de Julho de 1530, que mostra a importância dos Mendes para a coroa portuguesa: [...] que havendo eu respeito aos serviços que Francisco Mendes, mercador, morador nesta cidade de Lisboa, tem feito a el-rei meu Senhor e padre que santa glória haja, e assim a mim, e aos que espero que ao diante me fará, e por ser dos principais mercadores que tratam na minha Casa da Índia, me apraz e hei por bem por lhe fazer graça e mercê [...] A família Luna Mendes não é, pois, uma vulgar família marrana. Pertencia ao pequeno número de famílias privilegiadas que souberam tornar-se indispensáveis à coroa. Não estavam, no entanto, ao abrigo das medidas persecutórias, o que contribuía para manter o sentimento de uma identidade própria e de um destino comum.

Se eu fosse rei de Lisboa,..., seria rei do mundo
Na primeira metade do século XVI, sob o reinado de Manuel I, Lisboa estava no apogeu da sua áurea. Se eu fosse rei de Lisboa, dirá Carlos V, imperador e rei de Espanha (1500-1558), seria em pouco tempo rei do mundo. A expansão marítima e os seus imensos ganhos estiveram na origem do desenvolvimento arquitectónico e cultural da cidade: desse esplendor de outrora restam apenas o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e o Convento da Madre de Deus, que resistiram ao terramoto de 1755. Mas estes monumentos dão-nos uma ideia do que seria Lisboa nessa época, uma cidade onde todos os sonhos pareciam possíveis. Com efeito, Lisboa fervilha de actividade e dinamismo, num ambiente cosmopolita: desde o século XV, homens de negócios franceses, ingleses, flamengos, lombardos, genoveses, venezianos, milaneses e espanhóis agitam-se na cidade em torno de um porto que regista um movimento de quatrocentos a quinhentos navios de carga. O Terreiro do Paço, construído directamente no areal por gigantescos trabalhos de terraplanagem, torna-se o novo centro da capital, onde se instala a residência real, cujo interior luxuoso reflecte a opulência da época. Nas proximidades encontram-se a Casa da Índia e a Casa da Moeda ligada ao comércio de além-mar, assim como o Arsenal Militar onde Manuel I monta a sua colecção de armas e peças de artilharia.
No ar, espalham-se os odores excitantes da canela e noz-moscada armazenadas na Casa da Índia, crescem os jardins de árvores exóticas que despertam a curiosidade dos lisboetas, exibem-se leões, camelos, elefantes e rinocerontes. É ao longo dessa zona nobre, a Ribeira, escreve Dejanirah Couto, que se vai instalar a nobreza urbana, construindo opulentas e rebuscadas residências, como a Casa dos Bicos edificada em 1523, cujo proprietário Brás Albuquerque se inspira no palácio renascentista dito dos Diamantes, em Ferrara. No Mercado da Ribeira vendem-se hortaliças, peixe, caça, flores e manteigas, para além das especiarias, tâmaras e nozes de coco. Por sua vez, o Terreiro do Paço é ocupado por vendedores ambulantes que negoceiam de tudo um pouco, desde a mais simples quinquilharia até objectos de valor como artefactos em marfim. O ouro e a riqueza do Oriente permitem acumular fortunas rápidas, cujos sinais exteriores se multiplicam rivalizando no exotismo, no fausto e na ostentação. Mas são sobretudo os escravos asiáticos, africanos ou mouros, que emprestam à cidade o seu carácter exótico, levando um viajante espanhol a dizer que Lisboa parece um tabuleiro de xadrez com tantas peças brancas como pretas». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

O Erotismo. Georges Bataille. «Pois há para os amantes mais chance de não poder se reencontrar longamente do que gozar de uma contemplação alucinada da continuidade que os une»

jdact e wikipedia

«(…) O erotismo dos corpos tem de qualquer maneira algo de pesado, de sinistro. Ele guarda a descontinuidade individual, e isto é sempre um pouco no sentido de um egoísmo cínico. O erotismo dos corações é mais livre. Ele se separa, na aparência, da materialidade do erotismo dos corpos, mas dele procede, não passando, com frequência, de um seu aspecto estabilizado pela afeição recíproca dos amantes. Ele pode-se desligar inteiramente daquele, mas isto são excepções, justificadas pela grande diversidade dos seres humanos. Em sua origem, a paixão dos amantes prolonga no campo da simpatia moral a fusão dos corpos entre si. Ela a prolonga ou lhe serve de introdução. Mas, para aquele que a sente, a paixão pode ter um sentido mais violento que o desejo dos corpos. Nunca devemos esquecer que, apesar das promessas de felicidade que a acompanham, ela introduz inicialmente a confusão e a desordem. A paixão venturosa acarreta uma desordem tão violenta que a felicidade em questão, antes de ser uma felicidade cujo gozo é possível, é tão grande que é comparável ao seu oposto, o sofrimento. A sua essência é a substituição de uma descontinuidade persistente por uma continuidade maravilhosa entre dois seres. Mas essa continuidade é sobretudo sensível na angústia, na medida em que ela é inacessível, na medida em que ela é busca na impotência e na agitação. Uma felicidade tranquila, onde o sentimento de segurança predomina, só tem sentido se encontrar a calma para o longo sofrimento que a precedeu. Pois há para os amantes mais chance de não poder se reencontrar longamente do que gozar de uma contemplação alucinada da continuidade que os une.
As chances de sofrer são tão grandes que só o sofrimento revela a inteira significação do ser amado. A posse do ser amado não significa a morte; ao contrário, a sua busca implica a morte. Se o amante não pode possuir o ser amado, algumas vezes pensa em matá-lo: muitas vezes ele preferiria matar a perdê-lo. Ele deseja em outros casos sua própria morte. O que está em jogo nessa fúria é o sentimento de uma continuidade possível percebida no ser amado. Ao amante parece que só o ser amado, isto tem por causa correspondências difíceis de definir, acrescentando à possibilidade de união sensual a união dos corações, pode neste mundo realizar o que nossos limites não permitem, a plena fusão de dois seres, a continuidade de dois seres descontínuos. A paixão nos engaja assim no sofrimento, uma vez que ela é no fundo a procura de um impossível e, superficialmente, sempre a busca de um acordo dependente de condições aleatórias. Entretanto, ela promete ao sofrimento fundamental uma saída. Nós sofremos com o nosso isolamento na individualidade descontínua. A paixão nos repete incessantemente: se você possuísse o ser amado, este coração que a solidão de, ora formaria um só coração com o do ser amado. Pelo menos em parte, esta promessa é ilusória. Mas, na paixão, a imagem dessa fusão toma corpo, às vezes de maneira diferente para cada um dos amantes, numa louca intensidade. Para além de sua imagem, de seu projecto, a fusão precária que reserva a sobrevivência do egoísmo individual pode, por seu lado, entrar na realidade.
Pouco importa: dessa fusão precária ao mesmo tempo profunda, o sofrimento, a ameaça de uma separação, deve, o mais frequentemente, manter a plena consciência. Nós devemos, seja como for, tomar consciência de duas possibilidades opostas. Se a união dos dois amantes é o efeito da paixão, ela invoca a morte, o desejo de matar ou o suicídio. O que caracteriza a paixão é um halo de morte. Abaixo dessa violência, à qual responde o sentimento de contínua violação da individualidade descontínua, começa o campo do hábito e do egoísmo a dois, o que quer dizer uma nova forma de descontinuidade. É somente na violação, com estatuto de morte, do isolamento individual que aparece essa imagem do ser amado que tem para o amante o sentido de tudo o que é. O ser amado para o amante é a transparência do mundo.
É o ser pleno, ilimitado, que não limita mais a descontinuidade pessoal. É, em síntese, a continuidade do ser percebida como uma libertação a partir do ser do amante. Há uma absurda, uma enorme desordem nessa aparência, mas, através do absurdo, da desordem, do sofrimento, uma verdade de milagre. Nada, no fundo, é ilusório na verdade do amor: o ser amado equivale para o amante, para o amante só, sem dúvida, pouco importa, à verdade do ser. O acaso quer que, através dele, a complexidade do mundo tendo desaparecido, o amante perceba o fundo do ser, a simplicidade do ser». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972 608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT

Hipátia de Alexandria. Maria Dzielska. «Las versiones reduccionistas de Toland y Voltaire sobre Hipatia marcan la génesis de una leyenda que mezcla verdad y falsedad»

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«(…) Voltaire vuelve a Hipatia en su Diccionario filosófico. Allí afirma que enseñó a Homero y a Platón en Alejandría durante el reinado de Teodosio II y que los sucesos que concluyen con su muerte están instigados por san Cirilo, que lanza a la chusma cristiana contra ella. Aunque no olvida citar sus fuentes, Damascio, Suda y los hombres más sabios de la época, Voltaire hace de ellas un uso bastante desdeñoso; y, a mitad de una serie de graves acusaciones contra Cirilo y los cristianos, añade una ocurrencia de tertulia, perfectamente grosera y necia, sobre su heroína favorita: cuando se desnuda a mujeres hermosas, no es para perpetrar matanzas. A decir verdad, nos quedamos a oscuras sobre si el sabio de Femey se burla de sus lectores, de las ideas que propugna con tanto entusiasmo o de Hipatia. Voltaire manifiesta la esperanza de que el patriarca Cirilo haya pedido perdón a Dios y de que Dios, en efecto, se haya apiadado de él; Voltaire en persona reza por el patriarca: ruego al padre misericordioso que tenga piedad de su alma,
Las versiones reduccionistas de Toland y Voltaire sobre Hipatia marcan la génesis de una leyenda que mezcla verdad y falsedad. Si hubieran consultado sus fuentes antiguas con más perspicacia, habrían detectado en ellas una personalidad mucho más compleja. Esta víctima de la superstición y de la ignorancia no sólo cree en el poder redentor de la razón: también busca a Dios a través de la revelación religiosa. Por encima de todo, Hipatia es testaruda, posee una gran delicadeza moral, y defiende el ascetismo tanto como los cristianos dogmáticos que Voltaire y otros presentan como implacables enemigos de la verdad y el progreso. Influido por las ideas de la Ilustración, el neohelenismo y el estilo literario y filosófico de Voltaire, Edward Gibbon elabora la leyenda de Hipatia. En la Historia de la decadencia y caída del Imperio romano, declara a Cirilo responsable de todos los conflictos que estallan en la Alejandría de comienzos del siglo V, sin olvidar el asesinato de Hipatia Según Gibbon, Hipatia profesa la religión de los griegos y enseña públicamente tanto en Atenas como en Alejandría. No conozco la fuente de la primera afirmación de Gibbon; la segunda refleja una interpretación errónea del relato de Damascio en Suda. Como Toland y Voltaire, Gibbon repite la historia de Damascio sobre la violenta envidia de Cirilo hacia Hipatia, que se halla en la plenitud de la belleza y en la madurez de la sabiduría, rodeada de discípulos y personas ilustrísimas por su rango o por su mérito y siempre impacientes por visitar a la filósofa. Hipatia es asesinada por un tropel de fanáticos salvajes y despiadados instigados por Cirilo, y el crimen nunca se castiga, al parecer porque la superstición [el cristianismo] quizá expía de mejor grado la sangre de una virgen que el destierro de un santo. Esta representación del crimen de Alejandría encaja perfectamente con la teoría de Gibbon según la cual la consolidación del cristianismo es la causa principal de la caída de la antigua civilización. El historiador inglés utiliza las circunstancias de la vida de Hipatia para documentar esta tesis y para mostrar las diferencias entre el mundo antiguo y el nuevo: razón y cultura espiritual (Hipatia) frente a dogmatismo y ausencia brutal de compostura (Cirilo y el cristianismo).
La figura de Hipatia aparece brevemente y por medio de referencias indirectas en muchas otras obras del siglo XVIII,entre ellas la divertida novela satírica de Henry Fielding A Journey from this World to the Next [Un viaje de este mundo al venidero] (1743). Al describir a Hipatia como una dama joven de extraordinaria belleza y mérito, Fielding afirma que aquellos perros, los cristianos, la asesinaron. Pero es a mediados del siglo XIX cuando la leyenda literaria de Hipatia alcanza su cima. Charles Leconte de Lisie publica dos versiones de un poema titulado Hypatie, una en 1847 y otra en 1874. En la primera versión Hipatia es víctima de las leyes de la historia y no de un complot cristiano, como Voltaire mantenía. Leconte de Lisie ve las circunstancias de la muerte de Hipatia con imparcialidad histórica, convencido de que la historia no se puede identificar con una única cultura o sistema de creencias. La era de Hipatia se apaga, sencillamente, y es reemplazada por otra nueva con sus reglas y formas propias. Como creyente en las antiguas deidades y amante de la razón y de la belleza sensual, Hipatia se convierte en víctima simbólica de las cambiantes circunstancias de la historia. La humanidad, en su precipitada carrera, te golpeó y te maldijo. En la segunda versión del poema, Leconte de Lisie vuelve a la interpretación anticristiana de la muerte de Hipatia. Los culpables del crimen son los cristianos, no la necesidad histórica: Le vil Galiléen t’afrappée et maudite, Mais tu tombas plus grande! Et maintenant, hélas! Le souffle de Platón et le corps d’Aphrodite Sont partís á jamais pour les beaux cieux d’Hellas!
[El vil Galileo te ha golpeado y maldecido,/ pero al caer te hiciste más grande! Y ahora, ay!/ El espíritu de Platón y el cuerpo de Afrodita/ han ascendido para siempre a los bellos cielos de la Hélade!]». In Maria Dzielska, Hipátia de Alexandria, 1995, epublibre, 2004, tradução de José Luis Muñoz, Relógio d’Água, 2009, ISBN 978-989-641-148-0.

Cortesia de epublibre/Relógio D’Água/JDACT

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Biblioteca Desaparecida. Luciano Canfora. «Num desses relatórios, Demétrio ilustrava a conveniência de adquirir também os livros da lei judaica. É necessário, prosseguia, que esses livros, sob forma correcta, tenham lugar em tua biblioteca»

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A Biblioteca Universal
«(…) Demétrio havia sido o plenipotenciário da biblioteca. Por vezes o rei passava os rolos em revista, como manípulos de soldados. Quantos rolos temos?, perguntava. E Demétrio o actualizava sobre os números. Tinham-se proposto um objectivo, haviam feito cálculos. Haviam estabelecido que, para recolher em Alexandria os livros de todos os povos da terra, seria necessário um total de 500 mil rolos. Ptolomeu elaborou uma carta a todos os soberanos e governantes da terra, na qual pedia que não hesitassem em lhe enviar' as obras de todos os gêneros de autores: poetas e prosadores, retóricos e sofistas, médicos e adivinhos, historiadores e todos os outros mais. Ordenou que fossem copiados todos os livros que por acaso se encontrassem nos navios que faziam escala em Alexandria, que os originais fossem retidos e aos proprietários fossem entregues as cópias; esse fundo foi posteriormente chamado de o fundo dos navios. Vez por outra, Demétrio fazia uma exposição escrita ao soberano, que começava assim: Demétrio ao grande rei. Em obediência à tua ordem de acrescentar às colecções da biblioteca, para completá-la, os livros que ainda faltam, e de restaurar adequadamente os defeituosos, dediquei grande cuidado, e agora faço-te um relatório etc..
Num desses relatórios, Demétrio ilustrava a conveniência de adquirir também os livros da lei judaica. É necessário, prosseguia, que esses livros, sob forma correcta, tenham lugar em tua biblioteca. E, seguro de recorrer a um nome bem-vindo ao soberano, invocava a autoridade de Hecateu de Abdera, que em suas Histórias do Egipto tanto espaço dedicara à história judaica. O argumento de Hecateu, conforme é citado por Demétrio, era um tanto curioso. Soava mais ou menos assim: não admira que, em sua maioria, os autores, poetas e a multidão de historiadores não tenham mencionado aqueles livros e os homens que viveram e vivem de acordo com eles; não por acaso se abstiveram, devido ao elemento sagrado neles contido. Quando já se contavam 200 mil rolos, Demétrio voltou ao assunto durante uma visita do rei à biblioteca. Dizem-me, assim se dirigindo ao soberano, que as leis dos judeus também são livros dignos de transcrição e inclusão em tua biblioteca. Está bem, respondeu Ptolomeu, e o que te impede de providenciar essa aquisição? Como sabes, tens à tua disposição tudo o que é necessário, homens e meios. Mas é preciso traduzi-los', observou Demétrio, estão escritos em hebraico, não em siríaco, como geralmente se crê; é uma língua totalmente diferente. Quem menciona este diálogo garante tê-lo presenciado pessoalmente. Era um judeu da comunidade de Alexandria, a grande e laboriosa comunidade radicada no palácio, instalada no mais belo bairro, lamentava um anti-semita empedernido como o gramático Apião, um bairro destinado aos judeus, dizia-se, pelo próprio Alexandre. Perfeitamente helenizada na língua e na cultura, essa empreendedora personagem soubera aproveitar-se de uma mimetização perfeita para entrar na corte e aí conquistar crédito e amizades. Um problema da sua comunidade, que lhe parecia muito agudo, era a utilização, então dominante, mas sempre combatida pelos ortodoxos, da língua grega nos ofícios da sinagoga. Podemos supor que conseguiu ser contratado, gozando na corte da protecção de correligionários ou simpatizantes, como adido à biblioteca. Do que escreve, deduzimos que soube manter oculta a sua ligação com a comunidade judaica, e que continuou a falar e escrever sobre os judeus como um povo interessante, mas diferente. Dos materiais de escrita e da confecção dos rolos fala com tal perícia e propriedade de linguagem que nos leva a imaginá-lo como zeloso e estimado diaskeuastés (curador de textos); portanto, sempre subindo na confiança de Demétrio e inspirador, junto a ele, da proposta respeitosamente insistente de também abrir as prateleiras da biblioteca do rei à lei judaica. Mas é exactamente isso: temos de imaginar, pelo menos em parte, na medida em que nosso autor fala muito pouco de si. Diz que seu nome é Aristeu e tem um irmão chamado Filócrates: dois nomes genuinamente gregos, mas que também serão usuais entre os judeus da diáspora, cada vez mais impregnados daquilo que os ortodoxos desdenhosamente chamavam de helenismo; que é amigo dos dois chefes da guarda pessoal de Ptolomeu, Sosíbio de Tarento e André; que presenciou, nas dependências da biblioteca, o diálogo entre Demétrio e o soberano; por fim, que participou da missão enviada por Ptolomeu a Jerusalém, para conseguir bons tradutores». In Luciano Canfora, A Biblioteca Desaparecida, 1986, Companhia das Letras, 1989, ISBN 978-857-164-051-1.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

Hipátia de Alexandria. Maria Dzielska. «Hipatia, o la historia de una dama de gran belleza, virtud y sabiduría, competente en todo, que fue descuartizada por el clero de Alejandría para satisfacer el orgullo»

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«Hipatia, matemática brillante, neoplatónica elocuente y famosa por su beleza, fue brutalmente asesinada en el año 415 por una turba de cristianos de Alejandría. Desde entonces ha sido una leyenda. En su libro, va más allá de la leyenda para ofrecernos la historia verdadera de la vida y la muerte de Hipatia, además de nuevas ideas sobre su mundo. Historiadores, poetas, novelistas victorianos y feministas actuales han visto en Hipatia un símbolo del ocaso de la cultura clásica y de la libertad sexual. Dzielska nos retrotrae a la Alejandría de los días de Hipatia, construye un cuadro convincente y lleno de color de los discípulos y enseñanzas de la joven filósofa y aclara lo que el asesinato de Hipatia revela sobre las tensiones de esa época tumultuosa».

La leyenda literaria de Hipatia. La tradición moderna
«Mucho antes de los primeros intentos académicos por reconstruir una imagen fiel de Hipatia, su vida, marcada por las circunstancias dramáticas de su muerte, había quedado envuelta en la leyenda. Embellecida artísticamente, distorsionada por emociones y prejuicios ideológicos, la leyenda, que disfrutó de amplia popularidad durante siglos y dificultó los esfuerzos de los estudiosos para presentar de manera imparcial la vida de Hipatia, todavía persiste en la actualidad. Si se pregunta quién era Hipatia, la respuesta más probable será: una filósofa pagana, joven y hermosa, que en el año 415 fue despedazada por monjes (o, de manera más general, por cristianos) en Alejandría. Esta respuesta tan trillada no estaría basada en fuentes antiguas, sino en una gran cantidad de documentos literarios e históricos, de los que se estudia en este capítulo una muestra representativa. La mayoría de esas obras presentan a Hipatia como víctima inocente del naciente fanatismo cristiano y su asesinato como señal de la desaparición, junto con los dioses griegos, de la libertad de investigación.
Hipatia aparece por primera vez en la literatura europea en el siglo XVIII. En la época de escepticismo que se conoce históricamente como la Ilustración, diferentes escritores la utilizan como instrumento en las polémicas religiosas y filosóficas. En 1720, John Toland, protestante convencido en su juventud, publica un largo ensayo histórico titulado Hypatia or, the History of a Most Beautiful, Most Virtuous, Most Leamed and in Every Way Accomplished Lady; Who Was Tom to Pieces by the Clergy of Alexandria, to Gratify the Pride, Emulation, and Cruelty of the Archbishop, Commonly but Undeservedly Titled St. Cyril [Hipatia, o la historia de una dama de gran belleza, virtud y sabiduría, competente en todo, que fue descuartizada por el clero de Alejandría para satisfacer el orgullo, la envidia y la crueldad del arzobispo, a quien se conoce, de manera universal, aunque inmerecida, como san Cirilo]. Si bien Toland utiliza para su relato fuentes como Suda, la enciclopedia del siglo X, empieza por afirmar que la parte masculina de la humanidad ha quedado deshonrada por los siglos de los siglos por el asesinato de la encarnación de la belleza y el saber; los varones habrán de avergonzarse para siempre de que haya podido hallarse entre ellos alguien tan brutal y salvaje como para, en lugar de embriagarse con la admiración de tanta belleza, inocencia y sabiduría, manchar sus manos, de la manera más bárbara, con la sangre de Hipatia, y sus almas impías con el indeleble estigma de haber cometido un asesinato sacrilego. Al relatar la historia de la vida y muerte de Hipatia, Toland se centra en el clero de Alejandría, encabezado por el patriarca Cirilo. Un obispo, un patriarca, más aún, un santo es el promotor de una acción tan espantosa, y su clero el ejecutor de furor tan implacable.
El ensayo de Toland causa gran revuelo en los círculos eclesiásticos y provoca la réplica inmediata de Thomas Lewis en un folleto titulado The History of Hypatia, a Most Impudent School-Mistress of Alexandria. In Defense of Saint Cyril and the Alexandrian Clergy from de Aspersions of Mr. Toland [La historia de Hipatia, una desvergonzadísima maestra de Alejandría. En defensa de san Cirilo y del clero de Alejandría contra las acusaciones del señor Toland]. Pero la obra de Toland goza en general de una acogida favorable entre la elite de la Ilustración. Voltaire explota la figura de Hipatia para manifestar la repugnancia que le inspiran la Iglesia y la religión revelada. En un estilo similar al de Toland, escribe sobre san Cirilo y el clero de Alejandría en Examen important de Milord Bolingbroke ou le tombeau du fanatisme [Examen importante de milord Bolingbroke o la tumba del fanatismo] (1736). La muerte de Hipatia es un asesinato bestial perpetrado por los sabuesos tonsurados de Cirilo, con una banda de fanáticos a sus espaldas. Hipatia es asesinada, afirma Voltaire, porque cree en los dioses helenos, las leyes de la naturaleza racional y la capacidad de la mente humana liberada de dogmas impuestos. De ese modo el fanatismo religioso ha llevado al martirio de genios y a la esclavización del espíritu». In Maria Dzielska, Hipátia de Alexandria, 1995, epublibre, 2004, tradução de José Luis Muñoz, Relógio d’Água, 2009, ISBN 978-989-641-148-0.

Cortesia de epublibre/Relógio s’Água/JDACT

A Biblioteca Desaparecida. Luciano Canfora. «Berenice chegara a Alexandria junto com Eurídice. A convivência dos três na corte fora excelente. Mas Ptolomeu começou a preferir um dos seus quatro filhos com Berenice»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Fugitivo
«(…) Teria preferido encontrar qualquer um, menos o mordaz Crates. Ainda mais naquela miserável situação, e numa cidade pouco amistosa como Tebas. Todavia, não podendo evitá-lo, foi ao seu encontro. Crates, porém, surpreendeu-o com amável tratamento. Começou falando-lhe, em geral, sobre a condição do exilado: uma condição, disse-lhe ele, isenta de qualquer dificuldade, uma verdadeira ocasião para se libertar de tantos aborrecimentos e imprevistos da política; coragem, Demétrio, concluiu ele, tem confiança em ti mesmo e nessa nova condição em que vieste a te encontrar. Demétrio, que governara Atenas por dez anos e deixara que a cidade fosse ocupada por centenas de estátuas em sua honra, agora tivera de se esconder em nada menos que Tebas, para não cair nas mãos do cerca-cidades, o novo senhor de Atenas, assim chamado numa irónica alusão à sua obstinada e frequentemente inútil actividade poliorcéptica. Ficou quase incrédulo diante da insólita cortesia de seu interlocutor. Tranquilizou-se por um instante e, dirigindo-se aos amigos, um pouco por gracejo e um pouco a sério: maldita política, exclamou, que até hoje me impediu de conhecer esse homem!. Evidentemente, absteve-se de seguir seu conselho, que, no entanto, como ficou claro muitos anos depois aos que ainda se lembravam do estranho encontro, tivera o significado de uma autêntica advertência divina. Deixou Tebas tão logo lhe foi possível, e se apresentou em Alexandria. E aqui, na corte de Ptolomeu, viveu a sua última estação como conselheiro do rei. Já na sua época, Filipe da Macedónia quisera Aristóteles como preceptor de Alexandre. Ptolomeu, primeiro monarca do Egipto, para seu filho predilecto queria Teofrasto, o sucessor de Aristóteles. Mas Teofrasto não saíra de Atenas; mandara-lhe um estudante razoavelmente bom, Estrabão, que depois (mas isso ele não podia prever) se tornaria seu sucessor. Portanto, para a dinastia macedónia dos Lágidas, que, mais do que qualquer outra, gabava-se de uma descendência directa de Filipe (Ptolomeu deixava que dissessem que o seu verdadeiro pai era Filipe, e Teócrito chega a tecer detalhes sobre essa insinuação no Encómio a Ptolomeu), a relação com a escola de Aristóteles era, em certo sentido, hereditária. O próprio pai de Aristóteles havia sido o médico pessoal do rei macedónio.
Isso explica por que Demétrio optou sem hesitação por Alexandria. Ele também havia pertencido à escola: fora aluno de Aristóteles e amigo de Teofrasto, e quando governou Atenas favoreceu sob todas as formas aquela associação fechada, um tanto malvista, de metecos. Agora que o seu protector Cassandro sofrerá um derrota que comprometia também a ele, Demétrio refugiava-se junto aos Ptolomeus, que, ademais, eram parentes de Cassandro e seu pai Antipater, regente da Macedónia desde a morte de Alexandre. Levou ao Egipto o modelo aristotélico, e foi esta a chave de seu sucesso. Esse modelo, que havia colocado o Perípato na vanguarda da ciência ocidental, era agora adoptado em grande estilo e sob protecção real em Alexandria. A tal ponto que se disse posteriormente, num anacronismo apenas aparente, que Aristóteles ensinara aos reis do Egipto como se organiza uma biblioteca. Disse-se também que Demétrio havia recomendado a Ptolomeu constituir uma colecção dos livros sobre a realeza e o exercício do mando e lê-los, e que até fora ele a dar início, tendo se tornado íntimo do soberano a ponto de ser definido como o primeiro de seus amigos, à legislação lançada por Ptolomeu.
Intrigante como era, porém, não resistiu, tendo chegado a tais alturas, ao impulso de dirigir pessoalmente a política dinástica do soberano. Ptolomeu tinha filhos de primeiras núpcias com Eurídice, e quatro filhos de Berenice, uma viúva experiente e de grande fascínio, originária de Cirene. Berenice chegara a Alexandria junto com Eurídice. A convivência dos três na corte fora excelente. Mas Ptolomeu começou a preferir um dos seus quatro filhos com Berenice, a ponto de querer associá-lo ao trono. Era isso que preocupava Eurídice. Demétrio intrometeu-se nessa questão delicada, tomando o partido de Eurídice, talvez também por ser Eurídice filha de Antipater. Talvez tivesse pensado que dificilmente Ptolomeu acabaria por se ligar dinasticamente a uma família de senhores locais, em vez dos donos do reino macedónio. E começou a alertar o soberano, tocando numa tecla que lhe parecia eficaz: se deres a um outro, repetia-lhe, depois ficarás sem nada. Mas não conseguiu chegar a lugar algum com seus argumentos um pouco mesquinhos. Ptolomeu já estava decidido a associar-se ao filho predilecto. Eurídice compreendeu que não havia mais nada que pudesse fazer e, desesperançada, deixou o Egipto. Pouco depois, no início do ano 285 a.C., o jovem Ptolomeu foi oficialmente colocado ao lado do pai, e dividiu com ele o reinado por três anos, até a morte do Só ter. Tornando-se o único soberano, pensou em se livrar de Demétrio: mandou prendê-lo, ou talvez apenas mantê-lo sob vigilância, antes de tomar uma resolução definitiva sobre ele. Assim, Demétrio estava novamente por baixo, como no tempo da sua miserável estada em Tebas, quando as palavras inutilmente previdentes de Crates apenas divertiam, mas não o afectavam. Isolado, sob estrita vigilância, num vilarejo do interior, um dia estava cochilando. Sentiu de repente uma dor lancinante na mão direita, que, durante o sono, pendia ao lado. Quando percebeu que fora mordido por uma serpente, já era tarde demais. Evidentemente, o incidente fora arquitectado por Ptolomeu». In Luciano Canfora, A Biblioteca Desaparecida, 1986, Companhia das Letras, 1989, ISBN 978-857-164-051-1.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Cada vez que você admirar uma pintura, lembre-se de que penetra na mais sublime das artes. Não fique nunca na superfície: penetre a cena, movimente-se entre os seus elementos, descubra os ângulos inéditos, olhe nos fundos, e assim alcançará seu verdadeiro significado»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Jura, então, que escondeu um segredo neste muro? Marco d’Oggiono coçava o queixo, perplexo, enquanto olhava de novo o mural que o mestre pintava. Leonardo da Vinci divertia-se com aqueles jogos. Quando estava de bom humor, e nesse dia estava, era difícil encontrar nele o afamado pintor, inventor, construtor de instrumentos musicais e engenheiro favorito do Mouro e aplaudido em metade da Itália. Naquela fria manhã, o mestre tinha um olhar de menino travesso. Mesmo ciente de que
contrariava os frades, havia aproveitado a tensa calmaria que Milão vivia após a morte da princesa para inspeccionar o seu trabalho no refeitório dos padres dominicanos. Estava ali em cima, satisfeito entre apóstolos, montado num andaime de seis metros de altura e pulando de tábua em tábua como um rapaz. Claro que há um segredo!, gritou. Seu riso contagiante retumbou nas abóbadas vazias de Santa Maria delle Grazie. Só precisa olhar com atenção minha obra e considerar os números. Conta! Conta!, riu.
Mas, mestre… Está bem, Leonardo balançou a cabeça condescendente, arrastando a última sílaba a título de protesto. Vejo que será difícil ensiná-lo. Porque não pega a Bíblia que está ali em baixo, junto à caixa de pincéis, e lê o capítulo 13 de João, a partir do versículo 21? Talvez assim você encontre a iluminação. Marco, um dos jovens e belos discípulos do toscano, correu em busca do livro sagrado. Pegou-o do atril que estava no canto junto à porta e avaliou. Devia pesar vários quilos. Marco, com esforço, folheou aquele exemplar impresso em Veneza, de capa de couro negríssimo e entalhes de cobre, até que o Evangelho de João se abriu à sua frente. Era uma edição linda, com gravuras florais no cabeçalho, cheio de letras góticas grandes e pretas. Dito isto, começou a recitar, comoveu-se Jesus em espírito, e declarou: em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há-de trair. Os discípulos se entreolhavam, perplexos, sem saber de quem ele falava. Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava. A esse, pois, fez Simão Pedro sinal, e lhe pediu: pergunta-lhe de quem é que fala. Muito bem!, trovejou Leonardo no andaime. Olhe agora para cá e diz: ainda não entende meu segredo?
O discípulo negou com a cabeça. Marco já sabia que o mestre tinha preparado algum truque. Mestre Leonardo, sua recriminação veio com um tom de franca decepção, eu sei que está trabalhando nessa passagem evangélica. Não me revela nada de novo mandando-me ler a Bíblia. O que eu quero é saber a verdade. A verdade? Que verdade, Marco? Corre pela cidade o rumor de que o senhor demora tanto a terminar esta obra porque quer ocultar algo importante nela. Substituiu a técnica do afresco por outra, nova e mais demorada. Porquê? Eu vou-lhe dizer: porque assim pode pensar melhor no que quer transmitir. Leonardo não se alterou. As pessoas sabem de seu gosto pelos mistérios, mestre, e eu também quero conhecê-los todos! Três anos a seu lado, preparando misturas e auxiliando as suas mãos com os esboços e os papelões, acho que deveriam me dar alguma vantagem sobre os outros, não? Sim, sim. Mas quem diz todas essas coisas, posso saber? Quem, mestre? Todos! Até os frades desta santa casa param com frequência seus discípulos e lhes perguntam! E o que comentam, Marco?, gritou novamente do alto, cada vez mais divertido. Que seus Doze não são, na verdade, retratos dos apóstolos, como os pintaria frei Filippo Lippi ou Crivelli; que eles representam as doze constelações do zodíaco, que o senhor escondeu nos gestos de suas mãos as notas de uma de suas partituras para o Mouro… Dizem de tudo, mestre. E você? Sim, sim, você. Outro sorriso maroto tornou a iluminar o rosto de Leonardo. Tendo-me tão perto, trabalhando todos os dias num salão tão magnífico, a que conclusão você chegou? Marco ergueu a vista para a pintura na qual o toscano dava alguns retoques com um pincel de cerdas finíssimas. A parede norte estampava a representação da Última Ceia mais extraordinária que Marco jamais vira. Ali estava Jesus, presente em carne e osso, no centro exacto da composição. Tinha o olhar lânguido e os braços estendidos, como se estudasse de soslaio as reacções de seus discípulos à revelação que acabava de lhes fazer. A seu lado estava João, o amado, que escutava Pedro sussurrar. Afinando os sentidos, quase se podia ver os lábios se moverem. Eram tão reais!
Mas João já não estava recostado sobre o mestre como dizia o Evangelho. Dava até a impressão de jamais ter estado. Do outro lado de Cristo, Filipe, o gigante, mantinha-se em pé afundando suas mãos no peito. Parecia interrogar o Messias: acaso sou eu o traidor, Senhor?. Ou Tiago, o Maior, que abria o peito qual guarda-costas, jurando-lhe lealdade eterna. Ninguém lhe fará mal enquanto eu estiver por perto, fanfarronava. E então, Marco? Você ainda não me respondeu. Não sei, mestre, hesitou. Esta sua obra tem algo que me desconcerta. É tão, tão… Tão? Tão próxima, tão humana, que me deixa sem palavras. Muito bem! Aplaudiu Leonardo, secando as mãos no avental. Vê? Sem querer, você já está mais perto de meu segredo. Não o entendo, mestre. E talvez nunca o consiga, sorriu. Mas escute o que vou lhe dizer: tudo na natureza guarda algum mistério. As aves nos escondem os segredos de seu voo, a água encerra com cuidado o porquê de sua extraordinária força. E, se conseguíssemos fazer com que a pintura fosse um reflexo dessa natureza, não seria justo incorporar nela essa mesma e enorme capacidade de guardar informação? Cada vez que você admirar uma pintura, lembre-se de que penetra na mais sublime das artes. Não fique nunca na superfície: penetre a cena, movimente-se entre os seus elementos, descubra os ângulos inéditos, olhe nos fundos, e assim alcançará seu verdadeiro significado. Mas eu lhe aviso: é preciso ter coragem para isso. Não poucas vezes, o que encontramos num mural como este dista muito do que esperávamos achar. Tenho dito». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Pitágoras, um dos gregos defensores da Idade do Ouro que deslumbrou Cosme Medici, dizia que “os únicos deuses comprováveis são os números”»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Dediquei-me à mensagem ali mesmo. Não havia dúvidas de que a caligrafia delatavam seu autor. Leia-a, irmão!, insistiu. Logo compreendi tanta insistência. O Áugure revelava, mais uma vez, algo que ninguém esperava ouvir. Retrocedia quase sessenta anos, aos tempos do papa Eugénio IV, quando o patriarca de Florença, Cosme de Medici, chamado o Velho, decidira financiar um concílio que poderia ter mudado para sempre o rumo da cristandade. Era uma velha história. Ao que parece, Cosme promovera um infrutífero encontro entre delegações diplomáticas muito díspares, que durara vários anos, com o qual pretendia conseguir a reunificação da Igreja oriental e a de Roma. Os turcos ameaçavam, então, estender sua influência sobre o Mediterrâneo e era preciso detê-los de qualquer maneira. O velho banqueiro tivera a estranha ideia de unir todos os cristãos sob uma mesma cabeça e enfrentar o inimigo comum com a força da fé. Mas seu plano fracassara. Ou não. O que o Áugure revelava naquela mensagem é que existiu uma agenda secreta por trás do concílio. Um objectivo mascarado, cujos efeitos ainda se faziam sentir seis décadas depois em Milão. Segundo ele, além das discussões políticas da época, Cosme Medici empregou boa parte de seu tempo em negociar com as delegações provenientes da Grécia e de Constantinopla a compra de livros antigos, instrumentos ópticos e até manuscritos, atribuídos a Platão ou a Aristóteles, considerados perdidos. Mandou traduzir todos, sem excepção, e com eles aprendeu coisas surpreendentes. Assim, descobriu que já em Atenas acreditavam na imortalidade da alma e sabiam que os céus eram responsáveis por tudo o que se movia na Terra. Entendamos bem: os atenienses não acreditavam em Deus, e sim na influência dos corpos celestes. Segundo aqueles desprezíveis tratados, os astros influenciavam a matéria graças a um calor espiritual parecido ao que conecta corpo e alma nos seres humanos. Aristóteles falou disso depois de aprender nas crónicas da Idade do Ouro, e Cosme ficou fascinado com as suas lições.
Segundo o Áugure, o velho banqueiro fundou uma academia no estilo das antigas, só para ensinar esses segredos aos artistas. Por causa daquelas leituras, tinha certeza de que o desenho de obras de arte era uma ciência exacta. Uma obra realizada de acordo com certos códigos subtis actuaria como reflexo das forças cósmicas e poderia ser utilizada para proteger ou destruir quem a possuísse. Então? Já se deu conta, frei Agustín?, a pergunta de Gozzoli me tirou do aturdimento. O Áugure diz que a arte pode ser empregada como arma! De facto. Um parágrafo mais abaixo, a mensagem falava da força da geometria. O número, a harmonia, o som, eram elementos que podiam ser aplicados a uma obra de arte para que irradiasse influências benéficas à sua volta. Pitágoras, um dos gregos defensores da Idade do Ouro que deslumbrou Cosme Medici, dizia que os únicos deuses comprováveis são os números. O Áugure amaldiçoava todos. Uma arma, murmurei. Uma arma que o Mouro pretende esconder em Santa Maria delle Grazie. Exacto! Gozzoli estava orgulhoso. É exactamente o que diz. Não é incrível?
Eu estava começando a entender o repentino interesse de mestre Torriani por tudo isso. Anos atrás, o nosso amado superior geral havia condenado os trabalhos do pintor Sandro Botticelli por causa de uma suspeita similar. Acusara-o de empregar imagens inspiradas em cultos pagãos para ilustrar obras da Igreja, mas sua denúncia encerrava algo mais. Graças aos informantes de Betânia, Torriani soube que Botticelli, em Villa di Castello, da família Medici, havia representado a chegada da Primavera utilizando uma técnica mágica. As ninfas que dançavam no quadro haviam sido dispostas como as peças de um gigantesco talismã. Mais tarde, Torriani descobriu que Lorenzo di Pierfrancesco, patrão de Botticelli, havia-lhe pedido um amuleto contra o envelhecimento. O quadro era o remédio mágico solicitado. Na realidade, encerrava todo um tratado contra a passagem do tempo, que incluía metade das divindades do Olimpo dançando contra o avanço de Cronos. E pretendiam fazer passar por devota uma obra assim, propondo-a como decoração para uma capela florentina!
Nosso superior geral descobriu a infâmia a tempo. A chave foi dada por uma das ninfas de Primavera, Chloris, pintada com um ramo de trepadeira saindo de sua boca. Era o símbolo inequívoco da linguagem verde dos alquimistas, desses buscadores da eterna juventude, embebidos de ideias espúrias que o Santo Ofício (maldito) perseguia onde quer que despontassem. Embora em Betânia jamais tenhamos conseguido decifrar os detalhes dessa misteriosa linguagem, a suspeita bastou para que o quadro nunca fosse mostrado numa igreja. Mas agora, se o Áugure estivesse certo, essa história ameaçava repetir-se em Milão. Diga-me, irmão Giovanni, sabe por que o mestre Torriani me pede que analise esta mensagem? Meu assistente, que já se havia sentado a uma mesa contígua e se distraía olhando um livro de horas recentemente ilustrado, fez cara de quem não entendera a pergunta: como? Não chegou ao fim da carta? Tornei a fixar os olhos nela. No último parágrafo, o Áugure falava da morte de Beatrice d’Este e do quanto isso aceleraria a consecução do plano mágico do Mouro. Não vejo nada de particular, querido Giovannino, argumentei. Não lhe chama a atenção o facto de que cite a morte da duquesa em termos tão explícitos? E porque haveria de me chamar a atenção? O padre Gozzoli bufou: porque o Áugure datou e enviou esta carta em 30 de Dezembro. Três dias antes do infausto parto de donna Beatrice». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT