sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Tempo de Lacraus. António Borges Coelho. «O carro subiu a rampa que conduzia ao centro da vila, venceu o pinheiro grande, a fonte como uma ferida na beira da estrada e finalmente a curva das Alminhas»

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«(…) Tu e os teus comentários. Depois o silêncio. Há dois caminhos de regresso, disse André. Pela porta grande, pela estrada larga com banda de música e foguetes ou então pela calada da noite, de alpergatas e saco de riscado às costas, depois de calcorrear à pata o caminho da Brunheda. O silêncio foi ainda quebrado por André. Quando me aproximo da vila, sinto um aperto. Como na infância. Que mal te fizeram estas pedras?, perguntou Basílio. Por mais que faças não te livras delas. Basílio desconfiou de um sentido oculto nestas palavras de Joana. Nos últimos tempos, a rua que mais tenho pisado é a que vai da igreja ao cemitério. Longe vá o agouro. A tarde aproximava-se do fim. As sombras arrefeciam os vales enquanto o Sol galgava rapidamente os cabeços. Quanto mais rápido subia, mais alastrava a sombra. Ninguém consegue alcançar o Sol. Corre. Ficarás com as mãos cheias de sombra e de noite.
No outro lado do vale, a vila de Lilela desmaiava na luminosidade do poente. O automóvel ladeou as muralhas do castro milenar, volteou a Volta Grande, entrou na ponte fontista sobre o rio. Em baixo ficava o açude, a nogueira, a sombra verde-escura dos negrilhos sobre a água que corria entre os seixos e as fragas. Lembras-te da moleira?, disse Basílio. Qual moleira? Não faças de conta... Quem era? A de Schubert?, perguntou Joana. Coisas de criança. Andavam na quarta classe. A filha do moleiro não tirava os olhos de André. Ele respondia fingindo que não olhava. No dia da comunhão solene... André passara a tarde sem dizer uma mentira, pelo menos sem mentir sete vezes, que sete mentiras são um pecado mortal. Tudo para no outro dia estar puro ou pelo menos não ter de passar pela vergonha de se confessar segunda vez. E no momento da comunhão, André avançou do meio das mulheres. Calculou o espaço. E quando a menina voltava, apertada entre o mulherio, colou o corpo ao corpo dela. Sentiu a brandura rija do peito. Tonto de felicidade e de pecado, ajoelhou e abriu a boca a receber o corpo do Senhor. Eu não sou digno, entoava o coro. De que te ris? Confessa. Maluqueiras sem importância. Estou a precisar dum banho.
O carro subiu a rampa que conduzia ao centro da vila, venceu o pinheiro grande, a fonte como uma ferida na beira da estrada e finalmente a curva das Alminhas, ameaçadas pelas chamas debotadas do inferno, violada e vazia a caixa das esmolas. No novelo das gerações, homens e mulheres calcaram aquelas pedras, ataram as vides, cavaram o pó das oliveiras e quase sem mistura prolongaram o sangue. Gente das tribos dos berrões, maculada pelo Mediterrâneo dos romanos e dos mouros e pelos pecados das conquistas. Poucos escravos das épocas coloniais calcaram à pata o dorso das montanhas. Aos que chegaram, vinham em romaria das aldeias apalpar-lhes os ombros, conferir-lhes com os olhos e o riso aberto de espanto a cor do rei Baltasar. O automóvel entrou por fim na rua-estrada. As recordações saltavam de cada casa, dos vivos e dos mortos, alguns calcados pelas rodas dos camiões, outros espetados no fio das navalhas.
Foi aqui, disse Joana. Quê? Vinha a exibir-me na bicicleta mas qualquer coisa correu mal e estatelei-me no empedrado. Magoaste-te? Esfolei os joelhos mas só me lembrava do rasgão nas calças melhores. Correste aflita com álcool e tintura para as feridas. Não senti a tintura, os olhos pregados no teu rosto. E a tia Deolinda a atanazar-me... Diga agora que não há Deus. Lembras-te?, disse Joana. Lembro. Na ideia da tia de Joana, Deus castigava-o pela sua incredulidade, precipitando-o da bicicleta como o arcanjo S. Miguel precipitara o arcanjo Satanás. Ao dobrar a curva, o muro do quintal e o vulto da velha casa. A varanda de madeira corria toda a fachada voltada a sul e olhava na linha do horizonte os montes verde-cinza. André tirou do carro a mala e já a mãe descia a escada de granito. Braços nos braços. Ó meu filho! André notou novos traços naquele rosto, sentiu mais seco e dobrado aquele corpo matriz. Vem amanhã almoçar connosco, disse Joana. Não sei. Por mim não te prendas. Contamos contigo». In António Borges Coelho, Tempo de Lacraus, Editorial Caminho, Lisboa, 1999, ISBN 972-211-271-6.

Cortesia de Caminho/JDACT

Os Abutres do Vaticano. Eric Frattini. «O mais importante é a procura da verdade e a procura da verdade inspitada na Palavra de Deus, na vida da Igreja, na vida dos cristãos»

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Uma chamada de atenção do papa Negro ao papa Branco
«(…) No sábado, 12 de Novembro de 2011, foi recebida uma carta na Secretaria do Sumo Pontífice que, à primeira vista, poderia parecer uma simples demonstração de respeito de Adolfo Nicolás, tradicionalmente conhecido como o papa negro, para com Bento XVI. Contudo, se analisarmos os factos que levaram o general dos jesuítas a enviá-la, podemos ver nela uma clara chamada de atenção para a situação que se estava a viver na Igreja. A carta vinha acompanhada de outra missiva, redigida por um aclamado casal da Holanda e, como já dissemos, ia dirigida directamente a Bento XVI. Nascido na localidade palentina de Villamuriel de Cerato, a 29 de Abril de 1936, Adolfo Nicolás deu entrada no seminário de Alcalá de Henares, em 1953, com a clara intenção de se tornar jesuíta. Em 1961, mudou-se pata Tóquio onde concluiu os seus estudos em Teologia, sendo ordenado sacerdote em 1967. Em 1971, depois de terminar o seu doutoramento na Pontifícia Universidade Georgiana, regressou ao continente asiático, onde, até 2004, assumiu diversas missões, principalmente relacionadas com a imigração. Desde essa data até 2008, foi presidente da Conferência de Provençais da Ásia Oriental e da Oceânia, mas a 19 de Janeiro desse mesmo ano, os 217 jesuítas eleitores reunidos em Roma para a 35.ª Congregação Geral viriam a nomeá-lo trigésimo Geral da influente Companhia de Jesus, cargo conhecido como papa negro. Assim, Adolfo Nicolás, homem aberto e com experiência no diálogo inter-religioso, viria a suceder ao polémico Peter Hans Kolvenbach. Seis dias após a sua eleição, o padre Adolfo Nicolás teve o seu primeiro encontro com a imprensa italiana. O novo Geral da Companhia de Jesus disse: vocês, os jornalistas, dizem que sou como o Arrupe, como o Kolvenbach, metade, metade, cinquenta por cento de cada, mas ninguém disse que tenho dez por cento de Elvis Presley. Mas podia-se dizer e não seria nenhuma surpresa. É tudo falso. Não sou o Arrupe [...] Durante o encontro, um jornalista do diário La Stampa questionou-o acerca da sua relação com o papa Bento XVI. Nicolás esclareceu que tinham uma certa distância teológica e precisou: a distância é mais teórica na imaginação de alguns; trata-se de um colóquio que continua, porque creio que a teologia é sempre diálogo. O mais importante é a procura da verdade e a procura da verdade inspitada na Palavra de Deus, na vida da Igreja, na vida dos cristãos. É neste diálogo que talvez se possam encontrar, em algumas questões, as diferenças, mas sempre na procura comum da verdade.
Contudo existia uma questão ainda mais importante de possível desacordo com o Vaticano que remetia para um simples facto teológico: a transparência. Adolfo Nicolás afirmou: eu penso ser transparente. [...] A transparência é uma atitude responsável para o bem dos outros, não para nós próprios. Não é tão importante o que as pessoas pensam de mim; é mais importante o bem dos outros. É nesta perspectiva a que poderemos situar o documento que Nicolás enviou a Bento XVI, a 12 de Novembro de 2011: Santo Padre: Tive a honra e o privilégio de me encontrar e falar com o senhor  Huber e com a senhora Aldegonde Brenninkmeijer, desde há muito grandes benfeitores da Igreja e da Companhia de Jesus. O que mais me impressionou, quando falei com eles foi o seu sincero e profundo amor para com a Igreja e para com o Santo Padre e também o seu compromisso em fazer algo que possa influenciar naquilo que consideram ser uma grave crise na Igreja. Pediram-me a garantia de que esta carta, escrita com o coração, chegaria às mãos de Sua Santidade, sem intermediários. Por este motivo, pedi ao padre Lombardi [porta voz da Santa Sé e membro da Companhia de Jesus] que dela fosse o mensageiro. Peço perdão com humildade se esta não for a forma mais apropriada. Partilho as preocupações do senhor e da senhora Brenninkmeijer e sinto-me feliz por estes fiéis laicos levarem tão a sério a responsabilidade de fazer algo pela Igreja. Também fico muito satisfeito em ver e ouvir que têm atitudes e orientações absolutamente em harmonia com as indicações contidas nas regras concebidas pelo nosso fundador Santo Inácio enquanto regulador para o sentire cum Ecclesia. Como já é de seu conhecimento, a Companhia de Jesus mantém-se ao serviço absoluto do Santo Padre e da Igreja.
Como já dissemos antes, o texto poderia, à primeira vista, ser tão só uma simples demonstração de respeito de alguns leigos para com o Santo Padre». In Eric Frattini, Os Abutres do Vaticano, 2012, tradução de Pedro Carvalho, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-252-598-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A Última Tribo. Eliette Abécassis. «De tanto estudar as letras, tornara-me uma letra, o Vau. O Vau conversivo, aquele que faz do futuro um passado e do passado um futuro»

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«(…) Sou Ary, o escriba, mas deixei de o ser. Tinha abandonado tudo e deixara de procurar a sabedoria. Endossara as roupas citadinas e era como vós. Já não conhecia os tormentos e os transes, os pavores daquele que busca Deus. Deus! Como estava longe da religião que invadira as menores fibras do meu ser! Trazia os Essénios na pele, as letras gravadas no meu rosto, o nome de Deus tatuado no meu coração. Era Ary, o Messias, mas deixara tudo para trás, até a minha própria essência deixara longe de mim, e sentia-me leve, tão leve... De tanto estudar as letras, tornara-me uma letra, o Vau. O Vau conversivo, aquele que faz do futuro um passado e do passado um futuro. Renegara a religião, tornara-me praticante da apostasia e posso dizer-vos que comia o que se me apresentava. Caminhava livre e satisfeito, finalmente anónimo, sem o peso terrível do eleito, sem esse privilégio que é um fardo. E dizia para comigo: a mim, o mundo, a mim, a vida! E escrevi: a mim, o amor. Tenho um utensílio pontiagudo e, com a tinta, desenho as colunas e as linhas. Escrevo com a pluma e a resina, utilizo óleo e água, concluo o meu trabalho em pequenas peças de couro; as letras abordam as linhas como dançarinas microscópicas, valsando em conjunto, ligando-se e dobrando-se uma e outra vez, curvando-se em grandes arabescos para vos saudar, para vos desejar as boas-vindas, para vos levar para algum lado, para longe, neste mundo, e para vos revelar o seu mistério, assim seja. Na tua boca pus as palavras, na palma da minha mão te acolhi.

Na falésia existem grutas, umas feitas pela mão do homem, outras naturais. Nas escavações que aí se efectuaram, em 1947, foram encontrados rolos e fragmentos que representam documentos judeus essenciais, dezenas de milhar de fragmentos, uma verdadeira livraria que data do tempo de Jesus, a maior descoberta arqueológica do século XX. Os manuscritos encontrados nesse ano estavam habilmente conservados em jarros, envoltos em panos, ao abrigo da humidade. Os Essénios escreveram esses rolos: é uma seita judia, oriunda dos sacerdotes do Templo, que se retirara para o Mar Morto esperando pelo fim dos tempos, purificando-se, banhando-se na água pura e clara para se prepararem para o seu advento. Quando chegasse esse tempo, os maus seriam destruídos e os bons seriam vitoriosos. Os Essénios viam-se a si próprios como os Filhos da Luz que combatiam os Filhos das Trevas. Desconfiavam da mulher sedutora, cujo coração é uma serpente, cujas roupas são enfeites e que desviavam o homem justo do seu caminho: Lilith, segundo o mito bíblico. Um demónio que voa de noite para perverter os homens. O meu destino está ligado ao dos manuscritos. Contudo, não era predestinado. Na minha juventude fui soldado: cumpri o serviço militar na terra de Israel e combati noites inteiras para defender o meu país. A minha família não era religiosa: o meu pai, paleógrafo, consagrara a sua vida ao estudo dos textos antigos, mas de um ponto de vista científico, pelo menos era o que eu pensava. Quanto a mim, depois do exército encontrei a religião: ela acolheu-me numa manhã de Primavera, graças ao encontro com um rabino no quarteirão de Mea Shearim, em Jerusalém. Era o Rabi: foi ele quem me ensinou os preceitos da Tora, as discussões do Talmude e até certos mistérios da Cabala que só os iniciados conhecem. Tornou-se o meu mestre, o meu mentor, e eu tornei-me o seu discípulo. Graças a ele, descobri um mundo diferente daquele em que vivia, um mundo habitado por uma alma, um mundo com o traje do esplendor e eu próprio vesti a sobrecasaca escura dos estudantes da Lei.
Dediquei-me ao estudo de todo o coração, procurei a sabedoria com toda a minha alma e com todos os meus poderes, e encontrei-a, pois li muito, aprendi muito e, nas danças misteriosas dos hassidim ao dealbar da madrugada descobri tanta graça e tanta beleza que não mais os quis deixar. Então abri asas e afastei-me da minha família, ateia e julgava eu, despreocupada, longínqua. Nunca mais comi em casa da minha mãe pois a sua cozinha não era casher, e vi o meu pai, que tanto amava, de longe em longe, até ao momento em que, sem querer, me vi implicado numa investigação policial. Deste modo, eu, Ary Cohen, o oficial, o estudante, o escriba, tornei-me detective». In Eliette Abécassis, A Última Tribo, 2004, tradução de Carlos Oliveira, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, Lisboa, 2005, ISBN 972-382-763-8.

Cortesia ELBrasil/JDACT

Os Banqueiros de Deus. Gerald Posner. «O vaticano vendeu terra suficiente a preços elevados para permitir aos italianos construir quinze estádios e concluir as obras no Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci em Fiumicino»

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«(…) Ninguém além de Tisserant parecia demasiado preocupado com a destruição por Pascalina de milhares de páginas de documentos pessoais de Pio. Ao invés, todos se voltavam para Roncalli. Não é papa nenhum, disse o desbocado Spellman a alguns colegas quando regressava de Nova Iorque. Devia vender bananas. Spellman não conseguiu ver em Roncalli o talento necessário para ser um grande soberano. O cardeal de Nova Iorque e outros tradicionalistas acreditavam que os católicos comuns desejavam um papado régio. O pontificado de Pio coincidiu com o zénite desse poder absoluto. Roncalli poria fim à maior parte das marcas do papado imperial, acabando com elementos como a coroação de cinco horas e a exigência de que os católicos ajoelhassem diante de si e de que os seus auxiliares guardassem silêncio na sua presença. Os que apreciavam a nova simplicidade referiam-se à mudança dramática de estilo como desestalinização do Vaticano. Mas um Nobre Negro ecoou a opinião daqueles que consideravam que as reformas retiravam dignidade ao cargo. Parece que o papa tenta introduzir na Igreja um pouco da democracia que se tem revelado tão desastrosa em toda a parte. O cardeal Siri de Génova, o principal candidato tradicionalista no conclave, e Spellman também se mostravam preocupados por verem que o aprazível Roncalli não partilhava a sua paixão de combatentes na Guerra Fria. A CIA tinha as mesmas preocupações, concluindo que o papa João era politicamente ingénuo e indevidamente influenciado pelo punhado de clérigos liberais com quem se mantinha em contacto próximo. O novo papa acreditava que a Igreja deveria manter-se distante da política secular. Foi uma mudança dramática depois de Pio XII ter desempenhado um papel crucial nas eleições italianas de 1948, permitindo à Acção Católica a mobilização de votos e chegando mesmo a ocupar-se pessoalmente de iniciativas como o transporte em autocarro de freiras no dia da votação, dos conventos até às mesas de voto. João XXIII, ao invés, afastou a Igreja da sua parceria íntima com os democratas-cristãos. O novo pontífice não via o comunismo como uma ameaça mortal. Spellman e Siri recearam que um papel passivo da Igreja criasse uma oportunidade para o aumento do poder da esquerda. Mas, antes de haver alguma oportunidade de testar as credenciais de João XXIII como combatente na Guerra Fria, a 15 de Novembro, meros onze dias após a coroação, Bernardino Nogara morreu de colapso cardíaco aos oitenta e oito anos de idade. A notícia do seu falecimento acabou por se perder no rescaldo da eleição de um novo papa, merecendo apenas algumas linhas num punhado de jornais. Mas a morte de Nogara acabou por ser um momento fulcral para Maillardoz, Spada e Mennini, que tinham passado a gerir as finanças da Igreja segundo o modelo que criara. Mostraram-se apreensivos com a eleição de Roncalli. A especulação grassava acerca da possibilidade de o novo papa nomear apoiantes leais para posições de relevo, não ajudava que, quando questionado sobre o número de pessoas que trabalhavam na Cúria, o novo papa tivesse respondido: cerca de metade.
Apenas três meses após tomar posse, João XXIII chocou o mundo ao convocar o segundo Concílio Vaticano nos dois mil anos de História da Igreja. Todos os seus cardeais, prelados e dois mil e quinhentos bispos tiveram de rumar a Roma para participar em discussões amplas acerca da possível mudança de tudo, incluindo a liturgia, a forma de selecção dos bispos e a redução do poder da Cúria. Mesmo que não começasse até ao ano seguinte, confirmou o receio de Spellman, Siri e outros de que o aprazível João fosse, no mínimo, imprevisível. Mas, para alívio de Maillardoz, Spada e Mennini, o novo papa não interferiu com o IOR nem com a Administração Especial. Os vaticanologistas interpretaram a elevação de di Jorio a cardeal como apoio da sua gestão do IOR. Até os sobrinhos de Pio mantiveram os seus postos. Em contraste profundo com Pio, o papa João não tinha reputação de pretender gerir a instituição a que presidia até aos mais ínfimos pormenores. Durante o tempo que passou como cardeal de Veneza, tornou-se conhecido como um supervisor calmo e descontraído que sentia aversão pela administração, permitindo que assistentes capazes se ocupassem da burocracia da diocese. Não se sentia confortável com finanças ou até discutindo dinheiro. Maillardoz, Spada e Mennini estavam por sua conta.
Um dos primeiros passos que deram foi o reforço das reservas do IOR aproveitando a necessidade de terras do governo italiano para organizar os Jogos Olímpicos de 1960. venderam algumas das propriedades romanas da Igreja ao Comité Olímpico Italiano. A Igreja detinha mais de novecentos e quarenta milhões de hectares de propriedade à volta de Roma, tornando-a não só o maior proprietário de terras depois do governo, mas também o único Estado soberano do planeta cujo território era mais amplo fora das suas fronteiras. O vaticano vendeu terra suficiente a preços elevados para permitir aos italianos construir quinze estádios e concluir as obras no Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci em Fiumicino. A esquerda política criticou os preços demasiados elevados. Por isso, quando o governo precisou de mais terra para construir a Autoestrada Olímpica que ligaria os complexos desportivos distantes, o Vaticano voltou a lucrar, usando dessa vez uma empresa de fachada para providenciar as propriedades necessárias. Mas os sucessores de Nogara não tinham ilusões. Perceberam que os ganhos volumosos com os preparativos frenéticos dos Jogos Olímpicos eram um evento isolado. Teriam de aplicar os princípios de Nogara acerca da acumulação regular de lucros através de investimentos cautelosos. Acolheram a crença de Bernardino de que o futuro das finanças do Vaticano residia nos homens de confiança. Essa decisão levaria a criação bem-sucedida de Nogara ao limiar da ruína, maculando durante o processo o próprio Vaticano». In Gerald Posner, Os Banqueiros de Deus, 2015, Editora Self-Desenvolvimento Pessoal, 2015, ISBN 978-989-878-155-0.

Cortesia de Self/JDACT

A Última tribo. Eliette Abécassis. «Mas há um pequeno pormenor... Oual? Shimon observou-me como se estivesse profundamente incomodado com o que me ia dizer. Foi há dois mil anos, anunciou»

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«(…) E então?,-perguntei. Encontraram-no há doze dias. Há doze dias... Onde? No Norte do país? Numa sinagoga restaurada no Golan? Perto de Quioto, num santuário. Quioto? No Japão. Mas, exclamei, o que tem isso a ver... Comigo?, concluiu Shimon pegando num palito, o que, no seu caso, era sinal de grande tensão nervosa. Continua... É muito simples. Como já te disse, agora estou no Mossad. Não ficarás decerto surpreendido se te disser que faço parte da secção internacional... Os serviços secretos... Estás a ver onde quero chegar? Roeu o palito, com ar de reflectir intensamente. Mas e eu, Shimon?! Pensaste em mim? Não sou um espião. Não tenho essa formação. E, além disso, que tenho a ver com o Japão? Pelo contrário, pareces estar perfeitamente treinado. Aprendeste no terreno, como se diz. Em Paris, em Nova lorque e aqui, em Israel... Diria mesmo que tens a melhor formação possível para este tipo de missão..., no terreno. Prefiro prevenir-te desde já... Ouve, é muito simples, interrompeu-me. Vou explicar-te tudo. Olhei para a fotografia. Morreu assassinado, provavelmente... Sim, foi assassinado. Mas há um pequeno pormenor... Oual? Shimon observou-me como se estivesse profundamente incomodado com o que me ia dizer. Foi há dois mil anos, anunciou. Como? Que dizes? Podes repetir? Estou a dizer-te que este homem morreu há dois mil anos. Assassinado. Escuta, Shimon, disse, levantando-me. Podes explicar-me ao que estás a brincar? O frio e a neve preservaram-lhe os ossos e os tecidos. Foi examinado na scanner e os investigadores detectaram uma sombra suspeita sob o ombro esquerdo que, aparentemente, se deslocou. O exame confirmou que a sombra era a ponta de uma arma cortante, talvez uma seta. Estás a seguir-me? Não muito bem. A lâmina entrou no corpo e paralisou o braço, cortando uma veia. A identidade do criminoso permanece um mistério. Suponho que a do homem também.
Não inteiramente. Aparentemente era de pele branca, apesar de tisnada. O frio também conservou pedaços da túnica que trazia. Além disso, encontraram isto nas suas mãos, disse Shimon, entregando-me uma segunda foto. Devolvi-lha sem sequer olhar para ela. É inútil. Não faço parte do caso. Não vou andar à procura do assassino de um morto há três mil anos... Dois mil. Além disso, assinalo-te que ele já não existe. Ou talvez exista, mas sob a mesma forma que este homem e, nesse caso... Talvez não..., murmurou Shimon, pensativo. Talvez não?, exclamei. Mas que foi que te deu? Acreditas em fantasmas? Ou na imortalidade? Um dos monges do templo onde o homem foi encontrado, desapareceu. Repito-te: não vejo o que tenho a ver com tudo isso. Shimon não parecia minimamente desconcertado. Calmo, sereno, esperava, sem dizer palavra. Passado um momento levantei-me para lhe indicar a saída. Ainda há outra coisa, disse, levantando-se. Se queres falar-me de dinheiro, repito-te que... E a propósito de Jane... De que se trata? Sabes onde ela está? Acaba de receber uma mensagem da CIA. Peguei na folha que ele me estendia com as fotos. Uma ordem de missão..., para o Japão!
Shimon inclinou-se para mim e entregou-me um bilhete de avião. Despacha-te. Não há tempo a perder... Mas que irei dizer ao meu pai? Preveniste-o? Ele consultou o relógio. Esta tarde, às dezoito e cinquenta. Tens aproximadamente doze horas para te despedires de toda a gente. Só então o meu olhar caiu num dos clichés. Estupefacto, descobri um manuscrito hebraico. Um manuscrito de Qumran num templo de Quioto, no Japão. Qumran, a trinta quilómetros de Jerusalém, no deserto de Judeia. Era aí que devia fazer as minhas despedidas. Qumran, reino da beleza, coração da minha alma, imensidade celeste, vestígio imenso da origem, da criação do mundo, sítio tão baixo e profundo que, para quem sabe inclinar-se, é possível ver a crosta terrestre a partir da elevada plataforma de calcário, entre os rochedos da terra da Judeia, diante da grande baía que domina o mar Morto. Sob o céu de Qumran, o solo é árido e o Sol é rei. Faz calor entre as rochas, faz calor na terra. Não há vento, nem ruídos, pode ouvir-se o passo do lagarto e o deslizar da serpente por entre as covas profundas e os sulcos dos desfiladeiros. Mais longe, em Ain Feshka, uma corrente de água dá de beber à terra seca e as suas torrentes alimentam a camada freática de Qumran.
E aí que vivo, é aí que escrevo: chamam-me Ary, o escriba. De olhos fixos no pergaminho, a mão apertando a pluma, escrevo. Dia e noite, escrevo: para mim não há horas, estações, calendário, pois a escrita, tal como o amor, é um mundo onde o tempo se eterniza, onde a duração prolonga o instante e o dilata, onde ninguém sabe quando chega a luz e o dia. Sou Ary, o escriba: para mim não há outra vida para lá de escrever, a sombra, ao abrigo do calor tórrido do grande lago, do seu reflexo ofuscante sob o céu e dos dias e das noites daqueles que caminham ao Sol. Tenho trinta e cinco anos e já sou velho, tantas foram as aventuras que vivi, longe do turbilhão das necessidades da vida, tanto viajei e meditei, pois não procurei ganhar a vida e, frequentemente, perdi-me ao Sol. Depois, pus o mundo entre parênteses para escrever a minha história, essa história particular, imensa e ínfima, essa história singular da qual não sou responsável e que se mistura à própria História. Procurei desde sempre a união, até posso dizer que lhe consagrei a minha vida. Sim, durante muito tempo errei pelos meandros do mundo, pelas passagens estreitas e pelas vias mais largas e se me perdi tantas vezes não foi por ter deixado de tentar encontrar o meu caminho. Presentemente vivo longe de todos, numa gruta secreta, num local afastado e desértico, a alguns quilómetros de Jerusalém, o chamado deserto da Judeia. Aí se elevam falésias de calcário que dominam o local mais baixo da terra, o mais sulfuroso, o mais denso em sal, o que conserva a vida, o local mais original e mais longínquo, o mais pequeno, apesar de imenso, esse local estranho e único, quase irreal, chamado Qumran». In Eliette Abécassis, A Última Tribo, 2004, tradução de Carlos Oliveira, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, Lisboa, 2005, ISBN 972-382-763-8.

Cortesia ELBrasil/JDACT

Os Banqueiros de Deus. Gerald Posner. «Mesmo que ninguém tivesse percebido o significado do facto, assumia o papado durante os primeiros anos da televisão. Seria o primeiro papa visto por dezenas de milhões de fiéis»

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«(…) O bispo de Bérgamo escolheu-o como secretário pessoal durante um período de dez anos, interrompido quando Roncalli foi recrutado como capelão do exército italiano durante a I Guerra Mundial. Em 1925, Pio XI nomeara-o arcebispo e recebeu a primeira das suas incumbências: partir para a Turquia como núncio papal. Seguiram-se a Grécia e França (em 1944, Roncalli recebeu um telegrama codificado em Istambul, informando-o da sua nomeação como núncio papal de Paris libertada; incrédulo, partiu para Roma; reuniu com o monsenhor Tardini na sede da Secretaria de Estado; enlouqueceu?, perguntou; como lhe ocorreu pedir-me que aceite um posto tão difícil?; o normalmente volúvel Tardini olhou-o em silêncio por um momento antes de responder; pode ter a certeza que a surpresa de todos nós aqui foi maior que a sua). No que dizia respeito à II Guerra Mundial e à questão do Holocausto, foi diferente do seu predecessor. Roncalli tinha insistido tão frequentemente com o secretário de Estado Maglione para que convencesse o papa a pronunciar-se acerca das atrocidades nazis que Maglione se queixara da sua persistência aos seus colegas em Roma. Em 1944, Franz von Papen, embaixador alemão na Turquia, abordou Roncalli, que era então o núncio papal em Istambul. Disse-lhe que, se o papa condenasse Hitler, um grupo de patriotas alemães negociaria uma trégua com os Aliados. Quando o núncio transmitiu a proposta de von Papen ao Vaticano, Pio e Maglione retiraram-lhe importância, acreditando que Roncalli era simplório e facilmente manipulado pelos alemães, que poderiam preparar uma armadilha ao papa.
O momento da verdade chegou no fim da Primavera de 1944. Roncalli foi o primeiro alto representante da Igreja a receber uma cópia do Protocolo de Auschwitz, relatório arrepiante de Maio elaborado por dois judeus eslovacos que tinham fugido do campo de extermínio. O documento deixava poucas dúvidas acerca da preparação pelos nazis do seu maior campo de morte para receber os judeus húngaros. Enviou-o por mala diplomática para o Vaticano. Quando Ira Hirschmann, o representante da Comissão de Refugiados de Guerra abordou Roncalli nesse Verão, os nazis tinham já iniciado as deportações em massa de húngaros. Roncalli perguntou a Hirschmann se os judeus húngaros aceitariam ser baptizados apenas para salvar as suas vidas..., não realmente para se converterem, compreende. Hirschmann disse que sim. Duas semanas mais tarde, Roncalli confirmou que enviara milhares de certificados de baptismo ao núncio papal em Budapeste. Esse acto simples salvou mais judeus num par de meses do que a hesitação de Pio durante os seis anos da guerra. Quando Pio XII o nomeou finalmente cardeal em 1953, a maioria considerara que o chapéu vermelho era um prémio pela longevidade e lealdade, não significando qualquer distinção pela sua carreira. Ao contrário de Montini ou Siri, Roncalli não tinha apoiantes de peso na cúria e não formara quaisquer alianças que promovessem a sua candidatura. Ninguém o via como predestinado para o trono papal. O que se destacara durante a sua carreira fora a reputação de simpatia. Onde quer que servisse, o jucundo e bonacheirão Roncalli tornava-se popular junto aos católicos comuns. Mesmo que ninguém tivesse percebido o significado do facto, assumia o papado durante os primeiros anos da televisão. Seria o primeiro papa visto por dezenas de milhões de fiéis através dos seus televisores. Era o meio de comunicação que mais se adequava à sua personalidade.
Mesmo que Roncalli tivesse conseguido reunir os votos necessários para ser eleito papa, havia quem questionasse a sua capacidade de liderança da Igreja. A irmã Pascalina afirmava que não era digno de suceder a Pio. O novo papa respondeu no dia após a sua eleição proibindo-a de entrar nos aposentos que lhe tinham sido atribuídos, anexos aos seus. Foi-lhe dito que deveria deixar o Vaticano. Antes da sua partida, um inimigo de longa data na cúria, o cardeal Tisserant, confrontou-a e exigiu saber porque tinha queimado três caixas repletas de documentos pertencentes a Pio XII. O santo Padre ordenou que fosse tudo queimado e assim foi. Alguns dos documentos eram rascunhos de discursos que tinha escrito durante as suas duas décadas como papa. Mas desconhecia o conteúdo e não se considerou autorizada a ler. Tisserant ficou furioso. Sabemos isso melhor do que ninguém, mas foi uma ordem do santo Padre, que considerámos sacrossanto durante toda a sua vida, não deixando de o ser após a morte». In Gerald Posner, Os Banqueiros de Deus, 2015, Editora Self-Desenvolvimento Pessoal, 2015, ISBN 978-989-878-155-0.

Cortesia de Self/JDACT

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A Armadilha de Dante. Arnaud Delalande. «O que você vai..? “Vexilla regis prodeunt inferni”, Marcello Torretone! Colocou a ponta do primeiro prego num dos pés firmemente amarrados de Marcello»

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Maio de 1756
«(…) O desconhecido acabava de aprisioná-lo contra as tábuas de madeira cuja sombra projectaria em breve uma cruz no piso. Você... Você é Il Diavolo? A Quimera? Por um instante, a forma encapuzada se virou em sua direcção. Marcello tentou, em vão, vislumbrar os traços do rosto mergulhado na escuridão. Então você existe? Mas eu pensei... Uma nova risada. Vexilla regis prodeunt inferni..., murmurou a Quimera. A voz era grave, assustadora. Na verdade, parecia vinda de um túmulo. O quê? Vexilla regis prodeunt inferni. Vamos cuidar de você. Primeiro vou terminar de prendê-lo, depois o suspenderemos aqui mesmo, neste palco de espectáculo. Alegre-se, meu amigo. Você terá, esta noite, representado seu mais importante papel. Então a Quimera pegou um martelo e dois compridos pregos afiados. Os olhos de Marcello se arregalaram de pavor. O que você vai..? Vexilla regis prodeunt inferni, Marcello Torretone! Colocou a ponta do primeiro prego num dos pés firmemente amarrados de Marcello e o braço ergueu-se, o martelo na mão. NãããããããO! Marcello berrou como nunca. Vexilla regis prodeunt inferni. Avançam os estandartes do rei do Inferno. Com a fisionomia grave, Francesco Loredan caminhava com precipitação pelos corredores do palácio ducal. É preciso colocar as mãos nesse homem a qualquer preço. Francesco era um dos nobres habituados à magistratura.
Tendo chegado ao poder em 1752, era doge havia mais de quatro anos. Desde os 25 anos, os jovens aristocratas venezianos eram treinados para servir ao Estado. Como por direito de nascimento, as portas do Grande Conselho se lhes abriam. Francesco fora um deles. Como era hábito em Veneza, aprendera as vicissitudes das funções governamentais em contacto com os anciãos; uma prática tanto mais necessária já que a constituição da República era essencialmente oral. Em geral, os embaixadores levavam consigo os filhos para iniciá-los nos segredos da diplomacia. Alguns jovens nobres, os Barbarini, escolhidos por sorteio, por ocasião da festa de Santa Bárbara, recebiam autorização para assistir ás deliberações do Grande Conselho antes de atingirem a maioridade. Todos os responsáveis pelo Estado privilegiavam, para a prole, um aprendizado fundado, sobretudo, na experiência prática do funcionamento das instituições. Para as dinastias nobres, as carreiras eram traçadas com antecipação: Grande Conselho, Senado, Governo de colónias ou funções públicas na Terra Ferma, embaixadas, Conselho dos Dez, até a função de procurador ou mesmo de doge, primaz da cidade veneziana. Essa cultura política constituía um dos fundamentos do poder na Laguna Veneta, largamente consolidada graças ao talento de seus líderes e à influência de seus relacionamentos, mesmo que as avaliações dos dignitários de Veneza se voltassem por vezes contra a brilhante República, afeita a todos os grandes erros diplomáticos. A aliança dos doges com Florença contra Milão, selada três séculos antes pela Paz de Lodi, havia permitido à Sereníssima contribuir para a liberdade da Itália, mas preservando sua própria independência. No rastro da de Constantinopla, a mais influente entre todas, as grandes embaixadas venezianas tinham-se multiplicado: Paris, Londres, Madrid e Viena. A divisão do Mediterrâneo entre os turcos e as frotas católicas, sinal da erosão de sua superioridade no Levante, havia igualmente permitido a Veneza garantir a sua perenidade. A República não havia inventado a política, mas como rainha dos mares, mediadora das culturas e virtuose da aparência, lhe conseguira novos títulos de nobreza que a equiparavam a outros emblemas italianos, como Maquiavel, do Príncipe, e os Médicis florentinos.
O pragmatismo, o talento para as actividades públicas, a habilidade nos negócios, tanto comerciais quanto jurídicos, diplomáticos e financeiros faziam de Francesco o digno herdeiro da alma aristocrática veneziana. E enquanto caminhava na direcção da Sala del Collegio, com a carta na mão, dizia a si mesmo, mais uma vez, que ser doge de Veneza não era uma função sem sobressaltos. Eventualmente, um guarda do palácio curvava-se à sua frente, levantando a sua alabarda antes de retomar a sua postura erecta e afectada. Os Dez têm razão, se dizia Loredan. É preciso agir com rapidez.
Desde o século XII, os atributos do doge não cessaram de ser reforçados: a investidura pelo estandarte de San Marcos, os laudes oriundos dos costumes carolíngios, o dossel e a púrpura de Bizâncio e a coroa encimando o chapéu ducal eram provas. No entanto, o povo de Veneza sempre velou para que o primaz na cidade não pudesse arrogar a si todo o poder. Sua autoridade, desde o início restringida pela pessoa jurídica da comuna de Veneza, havia sido rapidamente limitada pelo grupo das elites dirigentes da cidade. Ainda hoje, as grandes famílias, no início responsáveis pela expansão da península, preservavam a própria supremacia nas tomadas de decisões importantes; e se Veneza evitava toda a espécie de absolutismo monárquico, o Estado marcava com vigor a fronteira entre o suposto poder do povo, que não tivera uma duração maior que a de um sonho, e a preponderância das dinastias as quais a cidade devia a sua supremacia. Como todos os venezianos, Francesco gostaria de ter nascido na Idade de Ouro, do progresso de Veneza e suas colónias: poderia ter sido, senão o único mestre a bordo, pelo menos um dos arquitectos dessa vasta empreitada de conquista. Com certeza obtinha uma imensa satisfação do esplendor do título e do cerimonial incessante que rodeava sua pessoa. Mas, por vezes, se sentia prisioneiro da pompa, rex in purpura in urbe captivus, rei vestido de púrpura, prisioneiro na própria cidade. Quando fora proclamado doge na basílica vizinha, se apresentara diante da multidão jubilosa na praça San Marco, antes de receber o chapéu ducal no topo da escadaria dos Gigantes. Entretanto, imediatamente após a nomeação, fora forçado a prestar o juramento de jamais exceder os direitos acordados pelo promissio ducalis, lida todo ano em voz alta para lembrá-lo da natureza exacta de suas atribuições». In Arnaud Delalande, A Armadilha de Dante, Editora Record 2009, ISBN 978-850-107-907-7.

Cortesia de ERecord/JDACT

A Armadilha de Dante. Arnaud Delalande. «Saiu, então, das sombras, aquela conhecida como “Dama de Copas”. Escondida até então sob as arcadas, deu alguns passos hesitantes abrindo o leque. Os longos cílios se curvaram por trás da máscara»

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Maio de 1756
«(…) Quanto aos homens, usavam a máscara branca do fantasma, conhecida como larva, o tricórnio, e a bauta que cobria o corpo; bem como a capa negra ou tabarro, para os mais conservadores. Outros se apresentavam como personagens saídos de contos, peças de teatro ou dos caprichos da imaginação: Tracagnin, Arlequim, Pantaleão, o Doutor, Polichinelo, os habituais, os eternos; mas também como Demónios armados de bexigas, mouros empoleirados em asnos ou cavalos-de-pau, turcos fumando cachimbo, falsos oficiais franceses, alemães, espanhóis, sem falar na horda de confeiteiros, limpadores de chaminés, floristas, carvoeiros, mascastes... Charlatões, vendedores de poções prometendo a vida eterna ou a volta do ser amado, mendigos, pedintes, camponeses sem tostão vindos da Terra Ferma, cegos e paralíticos dos quais não se sabia se a enfermidade era real ou falsa. Todos se espalhavam pela cidade. Os cafés e numerosas tendas montadas para a ocasião exibiam cartazes convidando os curiosos a descobrir os monstros: anões, gigantes, mulheres com três cabeças aos quais se misturava a multidão. O momento chegara: aquele de todas as euforias, de todas as liberações, aquele em que o plebeu podia se imaginar rei do mundo e a nobreza imitava a corja; em que o universo, de repente, se punha de pernas para o ar, onde se invertiam e se trocavam os papéis e onde todas as licenciosidades e excessos eram permitidos. Gondoleiros em traje de gala conduziam os nobres pelos canais. A cidade se enfeitava com inúmeros arcos do triunfo. Aqui e acolá se jogava pelota ou meneghella, enquanto os passantes faziam apostas atirando moedas que tilintavam nos pratos ou então as escondiam em sacos de farinha onde se mergulhava a mão, cada um esperando recuperar as apostas com lucro. Vendedores expunham montanhas de fritos nos balcões. Dos barcos, pescadores de Chioggia gritavam para a multidão. A mãe dava uma palmada na filha, cujo pretendente abraçava um pouco apertado demais. Vendedores de roupas usadas empurravam carrinhos de mão abarrotados, tentando atrair possíveis fregueses dos barcos.
Nos campi, marionetes de estopa arremessavam guloseimas e frutos secos. Um bando de frombolatori, moleques mascarados, assombravam os sestieri, atirando ovos podres nos trajes das belas e das velhas debruçadas nas sacadas das villas, antes de fugir, às gargalhadas. Os jogos mais grotescos floresciam de um lado a outro dos bairros de Veneza: um cachorro se balançava numa corda, homens subiam até ao topo de paus-de-sebo para pegar um salsichão ou uma garrafinha de bebida; outros mergulhavam em tinas de água salobra para tentar pegar uma enguia com os dentes. Na Piazetta, uma máquina de madeira em forma de bolo cremoso tentava os gulosos; ajuntamentos formavam-se em torno dos malabaristas, das cenas de comédia improvisadas, dos teatros de marionetes. De pé sobre tamboretes, astrónomos de araque, os indicadores levantados em direcção a estrelas invisíveis, anunciavam o Apocalipse. Gritava-se de espanto, gargalhava-se, ria-se muito ao derrubar sorvete ou bolo nas calçadas, gozava-se da alegria e da doçura de viver.
Saiu, então, das sombras, aquela conhecida como Dama de Copas. Escondida até então sob as arcadas, deu alguns passos hesitantes abrindo o leque. Os longos cílios se curvaram por trás da máscara. Os lábios vermelhos se arredondaram. Deixou cair o lenço aos pés ao ajeitar uma prega do vestido. Abaixou-se para pegá-lo e lançou um olhar a outro agente postado mais adiante, na esquina da Piazetta, para se certificar de que ele havia compreendido. E esse gesto queria dizer: ele está aqui. De facto ele estava lá, no meio da multidão. Aquele cuja missão consistia em abater o doge de Veneza. Chifres de falso marfim de cada lado do crânio. Máscara de touro munida de um focinho em proporção alarmante. Os olhos dissimulados brilhavam por trás do peso da máscara. Entretanto, a armadura feita de malhas e placas de prata era verdadeira e suficientemente leve para permitir-lhe mover-se com toda a rapidez exigida. Uma capa vermelho-sangue escondia duas pistolas cruzadas nas costas, de que necessitaria para cumprir a tarefa. Trazia joelheiras de metal por cima das botas de couro. Um gigante, uma criatura imponente cuja respiração atroadora tinha-se a impressão de escutar. O Minotauro.
Pronto para devorar as crianças de Veneza no labirinto da cidade em plena efervescência, o Minotauro se preparava para mudar o curso da história. O carnaval havia começado. Poucos meses antes, numa noite escura, Marcello Torretone quebrava o silêncio com gritos dilacerantes no interior do teatro San Luca. A Sombra estava lá. A Sombra que invadira a cidade, pairando sobre os tectos da Sereníssima. Sob os reflexos do pôr-do-sol, se esgueirara furtivamente no teatro. O padre Caffelli a chamava de Il Diavolo, o Diabo em pessoa, mas em seu relatório Marcello havia mencionado o outro nome pelo qual era conhecido por seus simpatizantes: a Quimera. O padre tentara prevenir Marcello e este se rendera à evidência. Algo de muito grave se tramava. Naquela noite, caíra numa armadilha. Um desconhecido misterioso marcara um encontro com ele ali, no San Luca, ao final da primeira representação de L'Imprásario di Smime, onde obtivera um sucesso triunfal. Proprietários do San Luca, os Vendramin foram os últimos a partir. O desconhecido se escondera nas coxias enquanto o público saía. Marcello havia embrulhado a roupa de cena, que repousava agora não muito longe, atrás das cortinas. Havia relido a carta lacrada que lhe trouxeram, na qual um certo Virgílio lhe prometia informações da mais alta importância. Uma ameaça pairava sobre as instituições de Veneza bem como sobre a pessoa do doge. Marcello planeava encontrar Emilio Vindicati no dia seguinte; o Conselho dos Dez precisava ser avisado da trama, sem demora. Mas, no momento, só podia maldizer sua imprudência. Sabia: não iria a parte alguma. Não veria o dia seguinte.
Tinham-no atacado, espancado e amarrado nas pranchas de madeira. Semiconsciente, vira mover-se uma forma encapuzada da qual não podia distinguir o rosto. Pousara o olhar no martelo, nos pregos, na lança, na coroa de espinhos, e naquele curioso instrumento de vidro que brilhava na mão do visitante. Marcello estava aterrorizado. Quem... Quem é você?, articulou, a fala pastosa. Como resposta, o outro se contentou em soltar um riso sardónico. Depois, Marcello só ouviu a respiração surda, profunda». In Arnaud Delalande, A Armadilha de Dante, Editora Record 2009, ISBN 978-850-107-907-7.

Cortesia de ERecord/JDACT

O Vermelho e o Negro. Stendhal. «Depois de terem corrido de cascata em cascata, vêmo-los caírem no Doubs. O sol é muito quente nessas montanhas; quando brilha em cheio…»

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Uma pequena cidade
«(…) Deu a Sorel dois hectares em troca de meio hectare quinhentos metros mais abaixo, à beira do Doubs. E apesar de esta posição ser muito mais vantajosa para o seu comércio de tábuas de pinho, o pai Sorel, como lhe chamam desde que enriqueceu, conseguiu obter da impaciência e mania de proprietário de que o seu vizinho estava possuído a quantia de seis mil francos. Valha a verdade que esta combinação foi criticada pelas pessoas ajuizadas. Um domingo, há quatro anos, quando o senhor de Rênal voltava da igreja fardado de presidente viu de longe o velho Sorel, rodeado pelos três filhos, fitá-lo a sorrir. Aquele sorriso escureceu a alma do senhor presidente; desde então pensa para consigo que poderia ter conseguido a troca por preço mais favorável. Para se obter a consideração pública em Verrières é preciso não adoptar, apesar de ter de se construir muitos muros, qualquer plano trazido de Itália pelos pedreiros que na Primavera, atravessam os desfiladeiros do Jura com destino a Paris. Tal inovação acarretaria sobre o imprudente construtor a eterna reputação de má cabeça, ficando perdido para sempre no conceito das pessoas sensatas e moderadas que distribuem a consideração no Franco-Condado. De facto, essas pessoas sensatas exercem ali o mais aborrecido dos despotismos; é por causa desta feia palavra que a estada nas pequenas cidades é insuportável para quem viveu na grande república chamada Paris. A tirania da opinião, e que opinião!, é tão estúpida nas pequenas cidades da França quanto nos Estados Unidos da América.

Um Presidente da Câmara
Felizmente para a reputação do sr. de Rênal como administrador, um passeio público que bordeja a colina a uma centena de pés acima do curso do Doubs, e que deve a essa admirável posição uma das vistas mais pitorescas da França. Mas, a cada Primavera, as águas da chuva sulcavam o passeio, nele abrindo ravinas e tornando-o impraticável. Esse inconveniente, sentido por todos, pôs o sr. de Rênal na feliz necessidade de imortalizar a sua administração por um muro de seis metros de altura e sessenta ou oitenta metros de comprimento. O parapeito desse muro, para o qual o sr. de Rênal teve de fazer três viagens a Paris, pois o penúltimo ministro do Interior se tinha declarado inimigo mortal do passeio de Verrières, o parapeito desse muro eleva-se agora a uma altura de 1,50 metros do solo. E, como para desafiar todos os ministros presentes e passados, é guarnecido neste momento com lajes de pedra de cantaria. Quantas vezes, pensando nos bailes de Paris abandonados na véspera, e com o peito apoiado contra esses grandes blocos de pedra de um belo cinza puxando para o azul, meus olhares mergulharam no vale do Doubs! À distância, na margem esquerda, serpenteiam cinco ou seis vales no fundo dos quais o olhar distingue perfeitamente pequenos riachos. Depois de terem corrido de cascata em cascata, vêmo-los caírem no Doubs. O sol é muito quente nessas montanhas; quando brilha em cheio, o devaneio do viajante é abrigado nesse terraço por magníficos plátanos. Seu crescimento rápido e seu belo verdor puxando para o azul devem-se à terra trazida, que o sr. prefeito mandou colocar atrás do imenso muro de sustentação, pois, apesar da oposição do conselho municipal, ele ampliou o passeio em mais de dois metros (embora ele seja conservador e eu liberal, louvo-o por essa medida); eis por que, em sua opinião e na do sr. Valenod, o feliz director do asilo de mendicidade de Verrières, esse terraço pode sustentar a comparação com o de Saint-Germain-en-Laye.
Quanto a mim, só vejo uma coisa a censurar na Alameda da Fidelidade; lê-se esse nome oficial em quinze ou vinte pontos, em placas de mármore que valeram ao senhor de Rênal mais uma condecoração; o que eu reprovaria à Alameda da Fidelidade é a maneira bárbara pela qual a autoridade manda cortar e podar quase ao extremo esses vigorosos plátanos. Em vez de se assemelharem, por suas copas baixas, redondas e achatadas, à mais vulgar das árvores de quintal, seria melhor que tivessem aquelas formas magníficas que possuem na Inglaterra. Mas todas as árvores pertencentes à comuna são impiedosamente amputadas. Os liberais do sítio vontade do sr. prefeito é despótica, e duas vezes por ano todas as árvores pertencentes à comuna são impiedosamente amputadas. Os liberais do sítio pretendem, mas exageram, que a mão do jardineiro oficial se tornou mais severa desde que o senhor vigário Maslon adquiriu o hábito de apoderar-se dos produtos da tosquia». In Stendhal, O Vermelho e o Negro, 1828-1830, Círculo de Leitores, Cortesia de Portugália Editora, 1978.

Cortesia de CLeitores/JDACT

O Vermelho e o Negro. Stendhal. «Mal se entra na cidade fica-se aturdido pelo estrépito de uma máquina barulhenta e de aparência terrível. Vinte pesados martelos, tombando com estrondo que faz tremer o pavimento»

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Uma pequena cidade
«A pequena cidade de Verrières pode ser considerada uma das mais belas do Franco-Condado. As suas casas brancas com tectos pontiagudos de telhas vermelhas estendem-se pela encosta de uma colina, cujas menores sinuosidades são marcadas por maciços de vigorosos castanheiros. O Doubs corre a algumas dezenas de metros abaixo de suas fortificações, construídas outrora pelos espanhóis e hoje em ruínas. Verrières está protegida, do lado norte, por uma alta montanha, um dos contrafortes do Jura. Os cumes recortados do Verra cobrem-se de neve com os primeiros frios de Outubro. Uma torrente, que se precipita da montanha, atravessa Verrières antes de lançar-se no Doubs, e põe em movimento um grande número de serrações de madeira. É uma indústria bastante simples e que proporciona um certo bem-estar à maioria dos habitantes, mais campónios que citadinos. Contudo, não foi esta indústria que enriqueceu aquela cidadezita. À fábrica de chitas, chamadas de Mulhouse, se deve a abastança geral que, desde a queda de Napoleão, tornou possível a reconstrução das fachadas de quase todas as casas de Verrières. Mal se entra na cidade fica-se aturdido pelo estrépito de uma máquina barulhenta e de aparência terrível. Vinte pesados martelos, tombando com estrondo que faz tremer o pavimento, são erguidos por uma roda movida pela água da torrente. Cada um fabrica por dia não sei quantos milhares de pregos. São lindas e frescas raparigas quem coloca debaixo destes enormes martelos os bocaditos de ferro que são rapidamente transformados em pregos. Este trabalho, de aparência tão rude, é um dos que causam mais admiração ao viajante que vai pela primeira vez às montanhas que separam a França da Helvécia. Se, ao entrar em Verrières, perguntar a quem pertence a bela fábrica de pregos que ensurdece as pessoas que sobem a Grande Rua, responder-lhe-ão com uma entoação arrastada: ah! É do senhor presidente da Câmara.
Mesmo que o viajante se demore pouco nessa Grande Rua de Verrières, que sobe desde as margens do Doubs até ao alto da colina, tem cem probabilidades contra uma de ver surgir um homem alto com ar importante e atarefado. O seu aspecto faz tirar rapidamente todos os chapéus. Tem o cabelo grisalho e anda vestido de cinzento. É cavaleiro de várias ordens, tem testa alta, nariz aquilino e o conjunto da sua fisionomia revela certa harmonia; parece até, à primeira vista, que à dignidade de presidente de câmara provinciano reúne a aparência agradável que se pode ter com quarenta e oito a cinquenta anos. Mas depressa o viajante parisiense se sente chocado por um certo ar de contentamento de si próprio, misturado com não sei quê de acanhado e falho de imaginação. Enfim, sente-se que aquele homem se limita a fazer pagar exactamente o que lhe devem e a pagar o mais tarde possível aquilo de que é devedor. Assim é o presidente da Câmara de Verrières, senhor de Rênal. Depois de atravessar a rua com passo grave, entra na câmara e desaparece da vista do viajante. Porém, se este continua o seu passeio, depara-se-lhe, cem passos mais acima, uma casa de bela aparência e, através de um gradeamento de ferro pertencente à dita casa, uns jardins magníficos. Para além é a linha do horizonte formada pelas colinas da Borgonha e que parece feita de propósito para deliciar os olhos. Aquela vista faz esquecer ao viajante a atmosfera empestada da ganância pelo dinheiro que começa a asfixiá-lo.
Contam-lhe que aquela propriedade pertence ao senhor de Rênal. É aos ganhos que teve na sua grande fábrica de pregos que o presidente deve esta bela residência de pedra talhada, que está agora a ser terminada. Dizem que a sua família é antiga, de origem espanhola, estabelecida no país antes da conquista por Luís XIV. Desde 1815 envergonha-se de ser industrial: 1815 fê-lo presidente da Câmara de Verrières. Os muros em terraço que sustêm as diversas partes deste magnífico jardim, que, de socalco em socalco, desce até ao Doubs, são também recompensa da ciência do senhor de Rênal como comerciante de ferro. Não espereis encontrar em França aqueles pitorescos jardins que rodeiam as cidades industriais da Alemanha: Leipzig, Francfort, Nuremberga, etc. No Franco-Condado, quanto mais paredes se constroem, quanto mais se eriça a propriedade de pedras, umas sobre as outras, mais direitos se adquirem à admiração dos vizinhos. Os jardins do senhor de Rênal, cheios de muros, são também admirados por ele ter comprado a peso de ouro certas parcelas do terreno que ocupam. Por exemplo, esta serração de madeira, cuja singular posição na margem do Doubs vos impressionou ao entrar em Verrières e onde se vê o nome de Sorel escrito em letras agigantadas numa tábua por cima do telhado, ocupava, há seis anos, o espaço sobre o qual hoje se eleva a parede do quarto terraço dos jardins do senhor de Rênal. Apesar do seu orgulho, o senhor presidente teve de fazer bastantes diligências junto do velho Sorel, campónio casmurro e persistente; teve de gastar belas moedas de ouro para conseguir que ele transferisse para outro local a sua oficina. Quanto ao ribeiro público que movia a serra, o senhor de Rênal, com a influência que tinha em Paris, conseguiu que fosse desviado. Isto foi-lhe concedido depois das eleições de 182…» In Stendhal, O Vermelho e o Negro, 1828-1830, Círculo de Leitores, Cortesia de Portugália Editora, 1978.

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Nó de Sangue. Agustín Sánchez Vidal. «Fizeram bem proibi-la no ano passado. Não só ofendia Espanha mas a humanidade inteira e o senso comum»

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A mestiça. Madrid. 1780
«(…) Quem é?,perguntou a Frasquita. Sabe-se muito pouco acerca dela, há grande cuidado com tudo o que envolve a sua visita. Só sei o nome dela, Umina, e que é uma princesa inca. Pelos vistos muito rica. O que está ela a fazer aqui, tão longe da sua terra? Talvez tenha vindo a Espanha defender as suas reclamações, tratar de papeladas e provas jurídicas. Sei lá, documentos desse tipo. Pois. E o Floridablanca aparece com ela em público na estreia de uma comédia sobre os irmãos Pizarros e a conquista do Peru. É mais ou menos isso. A mestiça era seguida por um índio forte e de grande estatura, fardado de lacaio para a ocasião, com a libré a condizer com o trajo da ama, que consistia em capa de arminho aberta. deixando ver um esplêndido vestido de veludo vermelho. O tecido era ajustado ao corpo por meio de duas filas de esmeraldas, à maneira de botões, subindo até ao generoso decote, um vislumbre de pele morena prolongado pelos ombros quase nus, terminando no grácil pescoço. Nela, o que mais fascinava Sebastián era a sua maneira de se mover, projectando o peito e a cara. Num outro momento anterior da sua vida, era isso que mais lhe dizia numa mulher. Nunca se cansava, nesses tempos, de admirar o brio com que se movimentavam as costureirinhas e as majas madrilenas. Era como se aquela energia desenvolvida ao caminharem movesse a Terra, fazendo-a girar sobre o seu eixo. Pareciam ser elas que, ao saírem todos os dias para a rua, davam um desígnio ao mundo. Tudo isso foi antes de lhe suceder aquela desgraça. Agora, tanto tempo depois, voltava-lhe essa mesma sensação. Perguntava a si mesmo se os seus olhos, cravados em Umina, não deixariam transparecer demasiado as suas ânsias. Estava na primeira fila, e a jovem, ao passar quase roçando por ele, aguentou-lhe o olhar, como se tivesse visto um fantasma ou um velho conhecido. Que descarada!, disse Frasquita quando todo o séquito de Floridablanca passou. Quando Sebastián a levava para o seu camarote, Frasquita voltou-se para ele e avisou-o: tem cuidado. Ainda não estás preparado para uma mulher assim. O que queres dizer com isso? É demasiado perigosa. Agora estás a vê-la muito ataviada e feminil, mas acho que é uma extraordinária amazona quando sai para o monte. No outro dia levaram-na a uma caçada e por pouco não deixava nenhuma peça de caça para o Floridablanca. Com ela é tiro e queda, ao que parece. O camarote de Frasquita ficava mesmo sobre o palco. Depois de a ajudar a instalar-se, o engenheiro tratou de localizar a mestiça. Estava na galeria central, ao pé do secretário de Estado, que ia presidir à função. Do outro lado, Onofre. E, atrás, o gigantesco lacaio índio, que acabava de tirar dos ombros da ama a capa de arminho. Nesse momento soou uma estrepitosa abertura de timbales e clarins enquanto subia o pano. Frasquita só teve tempo de lhe perguntar: o teu pai deu-te O Nó Górdio a ler? Não, já. tinha entregado a última cópia. Cheguei ontem a Madrid. Vim a mata-cavalos, porque fiquei preocupado com a mensagem que mandou. Ele tem receio, quer que eu o ajude, o ponha ao corrente desta representação. Pelo que me contou Onofre, a comédia baseia-se na trilogia de Tirso de Molina sobre os Pizarros. Acho que o meu pai ajudou o director da companhia a resumir a trilogia numa só peça. Deveriam adaptar de preferência El Burlador de Sevilha (o sedutor ou libertino de Sevilha), com dom Juan Tenorio. Essa sim, daria dinheiro. Já me conformo se os índios não forem de opereta como em Los Incas de Marmontel. Fizeram bem proibi-la no ano passado. Não só ofendia Espanha mas a humanidade inteira e o senso comum.
Calaram-se para ouvirem as personagens. Os diálogos iniciais informavam sobre os antecedentes do caso, em meados do século XVI. Falava-se do estado em que ficara o Peru após a morte de Francisco Pizarro e as conspirações do seu irmão Gonzalo. Este era interpretado pela voz cantante de Cañizares, o director da companhia. Dirigia-se à sua sobrinha Francisca, a primeira mestiça, filha da união do seu falecido irmão com uma nobre da casa real inca. Gonzalo invocava a vontade dos seus partidários que o incitavam a casar-se com ela para serem ambos coroados reis do Peru e tornarem o país independente do imperador Carlos V. Nesse sentido, mencionava Alexandre Magno, traçando o paralelismo que justificava o título de O Nó Górdio. No entanto, propunha-se continuar fiel à Coroa de Espanha. Sebastián pensou que, de facto, era essa a mensagem que convinha fazer passar agora, dois séculos depois, quando o Peru andava de novo conturbado e os pretendentes se atarefavam pela corte, como aquela mestiça. Agora entendo por que razão Floridablanca mandou fazer esta adaptação por intermédio de Onofre, disse Sebastián de si para si. Mas por que raio o meu pai aceitou ajudar o Cañizares embora às escondidas? Para que se mete nestas embrulhadas?
Desviando os olhos do palco, observou Umina com o óculo de alcance e o interesse com que a jovem seguia a representação. Voltou de novo à comédia quando sentiu o silêncio absoluto que reinava entre o público. Não era para menos. Cañizares, no papel de Gonzalo Pizarro, falava do tesouro dos Incas. Recordava que estes o tinham escondido em 1533, depois da entrada do seu irmão no Peru. E a sua sobrinha Francisca contracenava com ele dando-lhe réplica no seu papel de diabo tentador. Instava-o a unir forças com ela, casando-se e instaurando ambos uma dinastia própria, recuperando as fabulosas riquezas». In Agustín Sánchez Vidal, Nó de Sangue, 2008, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-234-291-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Nó de Sangue. Agustín Sánchez Vidal. «Era um homem muito bem relacionado na corte, e nunca desperdiçava uma ocasião destas para se mostrar em sociedade»

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A mestiça. Madrid. 1780
«(…) Aproximou-se Águeda que, depois de esperar dois beijos no ar junto às faces de Frasquita, se dirigiu a Sebastián: há muito que não te via, e ainda menos num teatro... Ao reparar no gesto de contrariedade da amiga, mudou de rumo e perguntou: onde é que tens estado? Nos montes de Torrero. Pertencem ao termo de Saragoça, elucidou Frasquita. Não sei se pertencem é a palavra adequada, observou Sebastián. Torrero está mesmo em cima da cidade, é como a sua acrópole. E o que fazias lá? Traçava os planos e os perfis para o Canal Imperial de Aragão. O que isso tem de bom para os engenheiros militares é que viajam muito e os vemos sempre frescos, com boas cores. É verdade que tu sempre foste bronzeado de pele... A propósito, porquê tanta agitação com esta estreia? Só sei que apresentam uma adaptação de uma comédia de Tirso de Molina, a que deram o título de O Nó Górdio, respondeu Frasquita. Águeda despediu-se e foi ao encontro de outro grupinho. Frasquita tirou um frasquinho de opalina, agitou-o, perfumou-se e só depois se aproximou do seu cavalheiro. Acho-te um pouco ausente. Estou bem, só um pouco preocupado. Por voltares aqui, não é? Isso bastaria. Ainda por cima tenho de falar com o Cañizares, o director da companhia de comédias. O meu pai deu-me uma mensagem para lhe entregar em mão própria. Então vai. Eu espero por ti.
A apreensão de Sebastián aumentou ao ver entre a assistência o marquês de Montilla, observando com um ar entre o displicente e o desafiador. O aspecto do homem era inconfundível, com aquelas cicatrizes que lhe sulcavam o rosto e que os ligavam de maneira inseparável e por toda a vida. Para falar verdade, a presença do marquês não deveria espantá-lo. Era um homem muito bem relacionado na corte, e nunca desperdiçava uma ocasião destas para se mostrar em sociedade. Mas ensombrava, e muito, o seu regresso àquele teatro, depois de tantos anos em que nem sequer se atreveu a passar-lhe em frente da fachada, tentando em vão afugentar os tristes episódios cuja recordação agora o assaltava. Quando quis entrar nos camarins, deparou com um inusitado aparato da guarda perante o qual se estilhaçaram todas as tentativas de explicação. Ao dar a volta para evitar os guardas, reparou que todos os acessos e saídas do edifício estavam vigiados, à espera da chegada de alguém. Quando o viu regressar tão rapidamente, Frasquita, com um olhar interrogativo, separou-se do grupinho em que estava e perguntou-lhe: o que aconteceu? A guarda ocupou o teatro. Passa-se alguma coisa. Nesse momento, um porteiro anunciou a presença do secretário de Estado, o conde Floridablanca. Um murmúrio de surpresa percorreu o salão, agitado de uma ponta à outra pela pressa nervosa de os grupos se juntarem, seguindo a passadeira central. Estavas a par de que o primeiro-ministro vinha?, perguntou-lhe Sebastián. Não. Também não percebo este secretismo todo, a não ser que façam isto por segurança. E se está cá o Floridablanca, também há-de estar o meu marido. Nesse momento apareceu o conde, com bastante prosápia e afectação. Viste?, sussurrou-lhe Frasquita ao ouvido, depois de saudar o ministro com uma inclinação de cabeça. Está cada dia mais ressequido. Não me admira que se entenda tão bem com o Onofre. Referia-se ao marido, Onofre Abascal, homem de confiança de Floridablanca para as questões delicadas e que agora se encontrava à sua esquerda.
Fonseca, porém, não olhava para o secretário de Estado, mas para aquela a quem o estadista concedera a honra de manter à sua direita: uma jovem morena e esbelta, de cabelos pretíssimos, os olhos ligeiramente oblíquos, de olhar vagaroso, a boca fresca, de arrasadora sensualidade, com uma tez entre a cor do cobre e da canela, como só é possível nas mestiças. Era uma beleza de cortar a respiração, que suspendia os ânimos e fazia o tempo parar. Pela primeira vez em muitos anos, referviam no íntimo de Sebastián sensações que julgava mortas para sempre». In Agustín Sánchez Vidal, Nó de Sangue, 2008, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-234-291-9.

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Um Imaginário Europeu. Maria Isabel Barreno. «E assim regresso à vergonha. Exagero, quando a enuncio? Todas as crianças querem ser iguais aos seus pares, todos os emigrados têm essa dor de identidade fragmentada?»

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Primeiro andamento
«(…) Um país pode ser terceiro-mundista e ter uma excelente literatura e meia dúzia de bons cineastas. O passadismo torna-se incontornável quando tentamos algum tema mais englobante: papel de Portugal na história europeia e mundial, características essenciais da cultura portuguesa. Ou o turismo. Ou a identidade nacional. Em todos estes temas fazemos a festa com os descobrimentos, os monumentos históricos e o fado, juntando um pouco da fundação do país e do sebastianismo, se a ementa necessitar de mais alguns condimentos. Duas simples perguntas: por que não há cartazes do ICEP com obras de Siza Vieira? Por que é que de todo o nosso património arquitectural moderno o único monumento figurando em cartazes do ICEP é o monumento das Descobertas? O problema de fundo é que não nos estimamos. Não nos estimamos (ainda) no presente, não nos estimamos suficientemente para termos de nós, portugueses, uma imagem positiva e afirmativa.
E assim regresso à vergonha. Exagero, quando a enuncio? Todas as crianças querem ser iguais aos seus pares, todos os emigrados têm essa dor de identidade fragmentada? Não exagero certamente quando digo que essas crianças, nas suas visitas a Portugal, pouco ouvirão que as encoraje a ter algum orgulho de suas raízes portuguesas. O tom dominante em Portugal é (ainda) o lamento, a autoflagelação, o lá fora é que é bom, neste país nada presta. Apesar de termos quebrado o nosso isolamento, de conhecermos mais sobre o mundo, de nos termos tomado menos provincianos. A vergonha tem várias gradações e formas. Para além da vergonha sem disfarces das crianças, crescem a raiva, a timidez, a introspecção obsessiva e acusadora. Com o passar do tempo, tive frequentes oportunidades de analisar as muitas e desvairadas reacções dos portugueses aqui residentes a essa imagem negativa de Portugal, as minhas incluídas. Uma generalizada mistura de indignação contra a arrogância e o egocentrismo franceses e de, surpresa?, autoflagelação. Uma autoflagelação onde parecem coexistir estranhamente a impotência total, somos assim, não há nada a fazer, com a mais irreal ilusão de omnipotência, nós (ou Portugal, ou o governo) é que temos a culpa, culpa de tudo, aí incluída a ignorância francesa. A partir deste ponto, dividem-se as reacções por classes. Todos os que dispõem de um nível cultural e económico confortável tratam de desligar-se da imagem negativa pelas formas de afirmação individuai mais variadas. Os outros, as concierges e os maçons, defendem-se fechando-se num colectivo, a comunidade, as associações reinventando folclores e tradições, confundindo identidade nacional com microcosmos regionais, sonhando com um Portugal que já não existe. E aqui cheguei a um dos pontos nevrálgicos da motivação para a escrita deste livro: o sofrimento.
A motivação para tentar transformar notas dispersas e de objectivo incerto num texto de reflexão e vivência, de razão e sentimento. O sofrimento dos emigrantes, no qual poucos parecem reparar. A sua perda de identidade. Os seus esforços patéticos para juntar os pedaços que espalharam pela estrada no seu ir e vir de desassossego. Fui convidada pelas autoridades francesas a assistir a uma atribuição de prémios que se passava num hospital pediátrico. Turmas de alunos de várias escolas francesas tinham feito trabalhos sobre um país europeu, à escolha. Essa iniciativa envolvia também uma componente de solidariedade com as crianças hospitalizadas, por isso fora o hospital escolhido como local da festa. Uma turma de crianças que fizera um trabalho sobre Portugal (com um professor francês) ganhou um prémio. No final fui felicitar a classe. Por que escolheu Portugal?, perguntei ao professor. Já eu estava em França havia mais de um ano. perguntei sem grande esperança de receber respostas animadoras ou interessantes. Porque tenho muitos alunos de origem portuguesa respondeu-me, e eles têm uma auto-estima tão baixa! Achei que este trabalho poderia ajudá-los. Olhei os meninos, que iam saindo da sala, terminada a sessão. Caras tristes, premiadas e tristes. Tão tristes como a tristeza daquele hospital de crianças doentes». In Maria Isabel Barreno, Um Imaginário Europeu, Editorial Caminho, 2000, ISBN 978-972-211-365-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Um Imaginário Europeu Maria Isabel Barreno. «Mas na imagem de Portugal que os franceses re-transmitem são também reconhecíveis os traços dessa imagem que foi delineada e exportada pela ideologia da ditadura salazarista…»

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«Um espaço de nada
Por íntima deslocação do sujeito
para espaços de outrem
nascem as catástrofes humanas
e as maravilhosas aventuras

entre catástrofe e aventura
um espaço de nada
um nada de tempo
variações de ser»

Primeiro andamento
«Como ensinar português a crianças que têm vergonha de ser portuguesas? Como lhes retirar essa vergonha se ela é simultaneamente incutida pela sociedade francesa, onde nasceram e crescem, e pela sociedade portuguesa, que visitam e escutam através de familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos? Exagero, dirão muitos. Ou equaciono a questão pelo seu lado mais negativo. A maioria das crianças portuguesas ou lusodescendentes que vivem em França não terá, ou já não terá, vergonha de suas origens portuguesas, diz-se. Mesmo quando a auto-estima é baixa, e os resultados escolares fracos. As crianças já ouvem falar de Portugal, ou já o conhecem, de uma outra forma, diz-se. É muito possível. Mas, chegada a Paris em 1997, para dirigir os serviços da Coordenação do Ensino de Português, rapidamente me dei conta, como acontece com todos os que para aqui vêm trabalhar, da imagem negativa de Portugal vigente nestas paragens gaulesas. Uma imagem cujo conteúdo é ainda predominantemente fornecido pelos estereotipos construídos com base na emigração maciça dos anos sessenta e setenta, sem nenhuma actualização posterior: país inteiramente rural, de pobreza e resignação extremas, do qual as pessoas têm que fugir para conseguir padrões de vida menos terceiro-mundistas.
É evidente que atrás desta imagem estão duas razões que, a merecer a vergonha de alguém, não seria certamente a das crianças portuguesas (ou lusodescendentes): o tradicional chauvinismo francês, com a correspondente tendência para ignorar tudo o que se passa fora da França, e a tendência geral de todos os grupos humanos para a formação de estereotipos sobre outros grupos humanos. Mas na imagem de Portugal que os franceses re-transmitem são também reconhecíveis os traços dessa imagem que foi delineada e exportada pela ideologia da ditadura salazarista, a ruralidade, a pobreza contentinha, a humildade, o fado imagem que até hoje perdura porque nós, portugueses, ainda não produzimos nenhuma outra sobre nós próprios. Esta última afirmação pode parecer injusta, e inexacta. Tem havido, ao longo dos últimos dez ou quinze anos. um esforço de divulgação da cultura portuguesa no estrangeiro, em particular da literatura. Esse esforço deu já alguns frutos. Paradoxalmente, ou sintomaticamente, só aos franceses tenho ouvido louvar a política portuguesa de divulgação cultural. Porque, evidentemente há franceses que conhecem a literatura, a história, a cultura portuguesas. Há cátedras de português em França, pesquisadores e especialistas. Mas, obviamente, todos estes sabedores, na maioria académicos, alguns outros jornalistas ou pessoas de intensa curiosidade, são uma minoria praticamente invisível no meio dos sessenta milhões de franceses, e os artigos ou livros que eles escrevem uma gota de água no oceano de palavras editadas em França. E, obviamente também, os esforços feitos para a divulgação da cultura portuguesa têm sido fragmentados (ressalvando algumas perspectivas mais globais, recentes e ainda episódicas) e, frequentemente, com tendências redutoras e passadistas.
Fragmentados porque não há ainda uma política comum aos diferentes organismos que representam ou apresentam Portugal no estrangeiro, muito menos a consciência da necessidade duma imagem global. Trabalham os organismos económicos e turísticos para um lado, os que assinam acordos internacionais em áreas educacionais, científicas e tecnológicas para outro, os culturais para um terceiro. Os culturais tendem a reduzir a cultura aos seus aspectos mais clássicos (em particular a literatura, como referi; e algum cinema. Nos últimos anos acrescentem-se alguns ciclos de conferências ou exposições sobre aspectos históricos e sociais, sobre arquitectura e, timidamente, um ou outro pintor ou músico. Por estas vias ainda estreitas os coloco entre aspas. O design em geral e o design de moda em particular, por exemplo, ainda não saíram da zona comercial do ICEP, ainda não foram promovidos a cultura o que é uma segunda forma de fragmentação, a qual produz, enfim. uma ausência de lugar onde se possa inserir e divulgar a cultura portuguesa actual na sua totalidade. Forma de fragmentação, e forma de passadismo também: damos de nós uma imagem antiquada com esta apresentação predominantemente clássica da nossa cultura». In Maria Isabel Barreno, Um Imaginário Europeu, Editorial Caminho, 2000, ISBN 978-972-211-365-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT