quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A Ruiva e Outras Histórias. Fialho de Almeida. «E alguém, dedilhando guitarras, entoava com voz rouca fados rasteiros do conde de Vimioso e da Severa, entre exalações de aguardente. E tiniam garrafas, sentia-se o cheiro das sardinhas assadas»

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(…) Era já noite, muitas vezes, quando ia só para casa, fora do cemitério. O pai ficava embrulhado num cobertor com um gorro de lã preta, por cujos rasgões lhe furavam os cabelos; deitava-se no côncavo de algum velho túmulo vazio; se caía geada, erguia a tampa de um jazigo de família para ir estender-se nas gavetas, entre caixões de chumbo. Já estava acostumado àquela folia, e depois, assim, não dormia as manhãs na cama, e podia começar cedo o trabalho, regando logo de madrugada os canteiros dos túmulos das famílias que lhe pagavam esse trabalho, varrendo dos pedestais as folhas secas que o vento despregava dos ramos, e alta noite, com passadas lentas e lúgubres, nas trágicas encruzilhadas dos ciprestes, reanimando ou acendendo, com o rolo metido nos dedos, as lâmpadas extintas pelas lufadas do nordeste. Nem uma vez se lembrou de Carolina que ficava de noite, na cidade, separada dele, a sua filha, entregue à leviandade dos seus quinze e aos furores de coração de um aprendiz de marceneiro que a perseguia, preso de maus instintos. Carolina era branca, delicada e nervosa; o seu sangue tinha originalidades singulares, inquietações de luta e o furor da aventura, e do seu seio dimanava essa ânsia ardente de que se fazem os gozos, ansiava como uma sede antiga. Dormiam numa casita arruinada e miseranda, oculta no fundo de um pátio sem luz de lampião, para onde abriam as janelas de tabuinhas de casas suspeitas, em que marinheiros tocavam guitarra. A história das suas exaltações enraizava também, como uma hera, naquelas más janelas, pelas noites escuras de Verão, quando, encostada ao peitoril da janela, escutava altercações, descantes e venalidades, na confidência de carroceiros. Nestas disputas Carolina entrevia uma coisa, que se apoderava rapidamente do seu organismo, enroscando-se-lhe no corpo como serpente com frio, amarrotando e poluindo no amplexo alguma, ainda que pouca, dessa adorável modéstia que é o tesouro das mulheres honestas. Viam-na de manhã, quando saía, dar bons-dias à vizinhança e sorrir às pecadoras mendigas, que nas tabernas jantavam gravanzos por qualquer pataco, ter com elas palestras. Desassombradamente olhava para os homens, tinha desdéns para uma ordem de gente e criara predilecções pelos louros; nos seus trapos escolhia sempre cores que dessem na vista; e, calculista, com o olho febril, arquitectava aventuras: seria de noite, uma chuva miúda peneirar-se-ia do alto, sobre as calçadas; fugiria embrulhada no xalito com um louro... Hem? Da janela da sua mansarda, empinada sobre um banco de pinho, podia ver o que se passava na alcova de um pobre bordel carairo. Apagava a luz para não ser vista, subia ao banco, encostada à janela; e ali, durante horas, passava a espreitar o que fazia a vizinhança. Cenas equívocas desenrolavam-se por lá. Era tão curioso! A nudez impura dos contactos fazia-lhe regurgitar de dentro uma seiva cuja plenitude a estonteava. Era a febre do sangue inficionado pelos microzimas do vício e o desejo de cadela nubente que uma força espicaça de irritantes curiosidades e terrores deliciosos. Aquilo vinha-lhe às ondas, como a babuge das praias contra fraguedos solitários. Coroas de padres esverdeados mostravam-se à luz de candeeiros de petróleo; no espelhinho dos toucadores das cómodas reflectiam-se grupos sombrios, estranhas fantasias das encarnações de Vixnu. E alguém, dedilhando guitarras, entoava com voz rouca fados rasteiros do conde de Vimioso e da Severa, entre exalações de aguardente. E tiniam garrafas, sentia-se o cheiro das sardinhas assadas. Toasts desbragados expluíam claramente. As vozes das mulheres guinchavam. Alguém rolava pelo sobrado e rimas de pratos caíam, com estrondo, em migalhas, no meio de pragas de raios de uma vez, tresloucada, descera à rua. Domingos de Inverno. A noite lôbrega alonga-se. Alguém gritava, Jornal da Noite, traz a lista de Espanha! O frio penetrava as carnes. Carolina tremia, lábios secos, uma aflição enorme subindo-lhe do estômago. Não sabia para onde ir. Quereria as coisas mais violentas, amplexos de ferro, beijos de lava, o vasto oceano de um amor sem fim e sem felicidade. Mas o aprendiz de marceneiro, um rapaz atlético e sanguíneo, apetites excêntricos, saía da oficina, dava com ela, aproximava-se com uma piada...» In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

A Máscara da Tulipa Negra. Lauren Willig. «… pela calada da noite, silenciosamente descartados do departamento de História de Harvard e atirados a uma inflexível horda de crocodilos académicos esfomeados».

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Londres. 2003
«Mordi o lábio num ainda não chegámos? Se, em algum momento, o silêncio é de ouro, aquele era um deles. Ondas palpáveis de aborrecimento emergiam do homem ao meu lado, suficientemente densas para se tornarem numa presença extra do carro. Fingindo inspecionar as minhas unhas, lancei outro olhar de soslaio ao meu companheiro de viagem. Tudo o que podia ver era um par de mãos tenso sobre o volante. Eram bronzeadas e calejadas, tocando os punhos castanhos do seu casaco de bombazina, com uma fina poeira de pelos loiros delineados pelo sol do fim da tarde, e a cicatriz branca de um velho golpe visível na pele escura da sua mão esquerda. Mãos grandes. Mãos capazes. Neste momento, ele estava provavelmente a imaginá-las apertadas à volta do meu pescoço. E não me refiro a um abraço amoroso.
Eu não fazia parte dos planos de fim-de-semana de Mr. Colin Selwick. Era a mosca no seu ungento, a chuva na sua parada. O facto de ser uma parada muito atractiva e de eu estar disponível no momento não mudava a situação. Ser está a perguntar-se o que é que eu fazia num carro, com destino a parte incerta, com um quase desconhecido que teria preferido atirar-me para uma vala, bem, gostaria de dizer que também eu me perguntava. Mas eu sabia exactamente aquilo que estava a fazer. Tudo se resumia a uma palavra, arquivos. Admitamos, arquivos não são normalmente algo que nos aqueça o sangue, mas são-no quando se é uma estudante do quinto ano em busca de uma dissertação, e o nosso orientador começou já a rosnar sobre conferências e propostas de trabalho e todas as coisas desagradáveis que acontecem aos estudantes descuidados que ainda não produziram uma pilha de papel por volta do seu décimo ano. Pelo que me foi dado perceber, são, pela calada da noite, silenciosamente descartados do departamento de História de Harvard e atirados a uma inflexível horda de crocodilos académicos esfomeados. Ou então acabam na escola de Direito. De qualquer modo, a questão era clara. Eu tinha de acumular algumas fontes essenciais e tinha de o fazer rapidamente, antes que os crocodilos se tornassem desapiedados. Houve um outro pequeno incentivo adicional envolvido o incentivo tinha cabelo escuro, olhos castanhos, r ocupava o lugar de professor assistente no departamento governamental. O seu nome era Grant». In Lauren Willig, A Máscara da Tulipa Negra, 2006, Livraria Civilização Editora, Porto, 2007, ISBN 989-972-262-500-5.

Cortesia de LCivilizaçãoE/JDACT

O Tesouro. Selma Lagerlof. «Já que passamos pelo presbitério de Solberga, disse Torarin, pelo sim pelo não, vou entrar e assegurar-me se há gelo até Marstrand. Lá devem estar a par disso»

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O presbitério de Solberga
«Na época em que o rei Frederico II da Dinamarca reinava na província de Bohus, vivia em Marstrand um pobre peixeiro, de nome Torarin. Era um homem pequeno e débil. Tinha um dos braços aleijado, de modo que não conseguia pescar nem mesmo remar. Não podia ganhar o seu sustento no mar, como todos os outros homens do arquipélago e, em vez disso, andava pelas redondezas vendendo peixe seco e salgado às gentes do continente. Ao longo do ano não passava muitos dias em casa, viajando constantemente, de aldeia em aldeia, com a sua carroça de peixe. Num dia de Fevereiro, quase ao anoitecer, Torarin deslocava-se pelo caminho que ia de Kungshall em direcção à paróquia de Solberga. O percurso era ermo e estava completamente deserto de gentes, por isso Torarin não precisava de se manter silencioso. Levava consigo, no meio da carga, um amigo fiel, com quem gostava de conversar. Era um pequeno cão preto de pêlo espesso, a que Torarin chamava Grim. Grim seguia sossegadamente deitado a maior parte do tempo, com a cabeça enterrada entre as patas, e apenas abria e fechava os olhos a tudo o que lhe dizia o dono. Mas, sempre que ouvia algo que não lhe agradava, erguia-se logo na carroça, espetava o focinho no ar e uivava mais do que um lobo.
Agora vou contar-te, Grim, amigo cão, que ouvi hoje grandes notícias, disse Torarin. Tanto em Kungshall como em Kareby disseram-me que o mar tinha gelado. O tempo tem estado bom e calmo, e tu, que tens saído todos os dias, bem o sabes; ao que parece, o mar congelou não só nas baías e estreitos, mas até bastante ao largo de Kattegatt. Já não há entre as ilhas trilhos para barcos e navios, só gelo espesso e rijo por todo o lado, de tal modo que se pode ir a cavalo e de trenó até Marstrand e até aos ilhéus de Paternoster. O cão ouviu tudo aquilo e não pareceu desagradar-lhe. Permaneceu deitado, abrindo e fechando os olhos para Torarin. Aqui na carroça já não nos resta muito peixe, disse Torarin de modo quase convincente. O que me dizes se, na próxima bifurcação do caminho, dermos meia volta e seguirmos para Ocidente em direcção ao mar? Passamos pela igreja de Solberga, descemos a Odsmalskil e, depois, acho que de lá até Marstrand não serão muito mais do que duas léguas e meia de caminho. Seria bom poder voltar a casa sem ter de ir de barco ou de ferry, nem que fosse uma só vez. Avançaram através da vasta charneca de Kareby e, embora o tempo tivesse estado sereno durante todo o dia, um vento frio varria a planície, tornando o trajecto desagradável.
Poderá parecer fraqueza ir para casa, assim a meio do melhor período de trabalho, disse Torarin batendo os braços, por causa do frio, mas tu e eu já andámos por aí, pelos caminhos, durante várias semanas, e talvez precisemos de estar em casa um par de dias, a aquecer o corpo enregelado. Dado que o cão permanecia espojado e imóvel, Torarin pareceu mais seguro da sua decisão e prosseguiu num tom mais alegre: a mãe tem estado para lá sozinha, na cabana, há vários dias. Já deve sentir a nossa falta. Além disso, Marstrand é esplêndida agora no Inverno. As ruas e as travessas, Grim, estão apinhadas de pescadores e de comerciantes forasteiros. Nos armazéns, junto ao mar, há baile todas as noites. E há cerveja a jorros nas tabernas! Nem podes imaginar. Dizendo isto, Torarin inclinou-se sobre o cão, para se certificar de que ele o ouvia. Mas como o cão continuava totalmente desperto, sem mostrar o menor sinal de desagrado, Torarin desviou caminho para Ocidente na primeira saída, na direcção do mar. Fez estalar a rédea à laia de chicote, fazendo com que o cavalo avançasse ligeiro. Já que passamos pelo presbitério de Solberga, disse Torarin, pelo sim pelo não, vou entrar e assegurar-me se há gelo até Marstrand. Lá devem estar a par disso. Torarin falara em voz baixa, sem pensar se o cão o ouvia ou não. Mas, mal pronunciara as últimas palavras, já o cão se erguia dentro da carroça e soltava um uivo tremendo. O cavalo deu um salto para o lado, e até Torarin se assustou. Voltou-se para trás para ver se vinham lobos a persegui-lo, mas, quando se apercebeu de que era Grim que uivara, tentou acalmá-lo». In Selma Lagerlof, O Tesouro, Cavalo de Ferro Editores, colecção Gente Independente, 2010, ISBN 978-989-623-113-2.

Cortesia de CdeFerroE/JDACT

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Os Sete Minutos. Irving Walace. «Hoje vamos abalar um pouco este pessoal, olhou para Kellog e sorriu. Como está, Otto? Pronto p’ra acção? Sim, respondeu Kellog, desde que a gente chegue lá depressa»

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«Lá pelas onze da manhã, o Sol já tinha saído, e agora as mulheres de Oakwood, na maioria donas-de-casa em trajes de Verão e quase todas ao volante dos próprios carros, convergiam para a zona comercial, a fazer compras. No trânsito subitamente engarrafado, o Ford cupé verde de duas portas, bem amachucado no guarda-lamas da frente, viu-se afinal obrigado a reduzir a marcha. Jogado com brusquidão contra o encosto do assento da direcção, Otto Kellog resmungou contrariado, endireitando-se logo para verificar, impaciente, onde estavam. Indignava-se com atrasos numa hora dessas, quando se sentia ansioso por resolver aquele assunto. Queria terminar em seguida com aquilo, o mais depressa possível. Iverson, que guiava o carro, soltou um berro, travando com toda a força. Malditas mulheres, exclamou entre dentes. Pois é, concordou Kellog. Oxalá que andem depressa. No assento de trás, Eubank, o terceiro ocupante do desportivo, mais velho, mais tolerante, exposto ao mundo exterior com menos frequência que os companheiros, parecia estar a gostar do intervalo. Aproximara-se do encosto da frente para espiar pelo pára-brisas, por cima do ombro de Iverson. Então isto é Oakwood, comentou. Simpático. Não sei quantas vezes já passei por aqui, mas acho que, antes, nunca prestei muita atenção. Nada de maior, retrucou Iverson, levantando o pé do travão. Continua a ser o Município de Los Angeles. Sim, mas parece mais próspero e sossegado, disse Eubank. Talvez não por muito tempo, disse Iverson. Hoje vamos abalar um pouco este pessoal, olhou para Kellog e sorriu. Como está, Otto? Pronto p’ra acção? Sim, respondeu Kellog, desde que a gente chegue lá depressa. Olhou de soslaio pelos óculos escuros. Third Street é a próxima. Volte à direita na outra esquina. Eu sei, disse Iverson. O trânsito recomeçou a andar, mais livre, e o desportivo verde avançou pelo Center Boulevard, voltando depois abruptamente para entrar na Third Street. Na rua transversal, o número de carros e pedestres era menor. O homem do volante suspirou aliviado. É ali, no meio do quarteirão, anunciou. Vejam o letreiro que vem depois de Acme, Joalheiros. Estão a ver? Empório de Livros Fremont. Que tal o nome? Empório. Parece que há bastante lugar para estacionar, disse Eubank. Estava com medo de que não houvesse vaga por aqui perto. Sempre há lugar de sobra depois que a gente sai do Center Boulevard, declarou Iverson. Girou as rodas do carro até detê-lo com habilidade em frente à joalharia. Quando ia desligar o motor, viu uma garota loura com short apertados, parada diante do carro, pronta para atravessar a rua. Iverson soltou um assobio baixinho. Olá, pessoal, admirem bem aquelas mamas. Seguiu a loura com os olhos, enquanto ela se apressava em alcançar a outra calçada. Até que o conjunto não é nada mau, mas para mim o que vale são as mamas. Gosto delas bem grandes e saltitantes. Buscou apoio no companheiro de assento. E você, Otto? De momento, Kellog não estava interessado na opinião do amigo sobre as mulheres. Habituado a ocupar-se com uma ideia de cada vez, já tinha o pensamento completamente tomado. A mão direita apalpou por dentro o casaco desportivo xadrez, tocando-o por baixo do braço esquerdo. Por fim, satisfeito, ergueu a cabeça, revelando tensão e seriedade no rosto afilado. Estou bem?, perguntou para Iverson, fechando o botão do meio do paletó e compondo o colarinho da camisa desportiva de gola aberta. Não está a aparecer? Nem se nota, respondeu Iverson. Você está com cara de parvo. Não, estou a brincar. Está óptimo, Otto..., até parece um contabilista ou agente de seguros que reservou a manhã para fazer compras para a mulher. Assim seja. Não se preocupe. Que horas são? Onze..., onze e catorze. É melhor eu ir já, virou-se para o assento de trás. Tudo pronto aí, Tony? Tudo preparado para rodar. Kellog voltou a sua atenção para o motorista. Não saia daqui, hem? Só arredo pé quando você mandar. Está bem, disse Kellog. Não demoro mais que dez minutos». In Irving Walace, Os sete Minutos, 1969, Livros do Brasil, colecção Dois Mundos, 1988, ISBN 978-972-380-948-0.

Cortesia de LdoBrasil/JDACT

Ascânio. Alexandre Dumas. «Mas não fora para isto que o belo adolescente entrara no templo, pois o seu olhar apenas se animou, avançando então pressurosamente, quando viu aproximar-se uma jovem vestida de branco e acompanhada por uma aia»

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O ourives do rei
«Estava-se a 10 de Julho do ano da graça de 1540; eram quatro horas da tarde, em Paris, cerca da Universidade, à entrada da Igreja dos Agostinhos, perto da pia da água benta, junto à porta. Um jovem alto e bem parecido, moreno, de cabelo comprido e grandes olhos negros, trajando com a mais distinta simplicidade, e trazendo por única arma um pequeno punhal de punho primorosamente cinzelado, ali estava, de pé; e, decerto por piedosa humildade, não se tinha movido em todo o tempo que durou o ofício de vésperas; de cabeça inclinada e em atitude de devota contemplação, murmurava não sei que palavras em surdina; talvez as suas orações, pois falava tão baixo que só Deus e ele podiam saber o que dizia; contudo, ao terminar o ofício divino, reergueu a cabeça, e os seus vizinhos mais próximos puderam ouvir estas palavras pronunciadas a meia voz: que maneira abominável de salmodiar têm estes frades franceses! Não poderiam cantar melhor diante dela, que deve estar habituada a ouvir cantar os anjos? Ainda bem que as vésperas terminaram. Meu Deus, Meu Deus! Fazei que seja hoje mais feliz que no domingo, e que ela, pelo menos, levante os olhos para mim! Este seu desejo não é nada inconsequente, pois se aquela a quem se refere levantar de facto os olhos para ele, verá o mais sedutor dos rostos de adolescente que ela jamais idealizou, ao ler as belas fábulas mitológicas tão em moda nessa época, graças às poesias de mestre Clemente Marot, onde se descrevem os amores de Psique e a morte de Narciso. E que o jovem, no seu traje sóbrio mas belo, era, como dissemos, de uma irresistível sedução e de uma suprema elegância de maneiras; além disso, o seu sorriso tinha uma graça e uma doçura infinitas, e o seu olhar, que ainda não ousava ser audacioso, era, pelo menos, o mais apaixonado que poderiam lançar dois grandes olhos de dezoito anos. Entretanto, ao ruído especial das cadeiras anunciando o fim da cerimónia religiosa, o nosso enamorado, dizia eu, pôs-se um tanto de parte para ver passar a multidão, que saía em silêncio, e se compunha, quase exclusivamente, de severos fabriqueiros, respeitáveis matronas e jovens graciosas. Mas não fora para isto que o belo adolescente entrara no templo, pois o seu olhar apenas se animou, avançando então pressurosamente, quando viu aproximar-se uma jovem vestida de branco e acompanhada por uma aia de simpático aspecto e ainda não muito velha. Quando estas duas damas se aproximaram da pia da água benta, o nosso jovem tomou alguma nas pontas dos dedos e ofereceu-lha com ademane gentil. Esboçou a aia o mais gracioso sorriso, fazendo a mais agradecida das reverências, ao tocar os dedos do jovem, mas causou-lhe a maior das decepções ao oferecer ela própria algumas gotas da água recebida à sua jovem ama. Esta, não obstante a fervorosa oração de que poucos minutos antes fora objecto, manteve os seus olhos constantemente abaixados, prova evidente de que bem sabia estar ali o nosso jovem enamorado. Experimentou com a contrariedade tal desgosto, que não se conteve de bater o pé, murmurando: e não foi ainda hoje que me olhou! Isto prova que o belo adolescente, tal como julgamos tê-lo dito já, ainda não tinha mais de dezoito anos. Mas, passado o primeiro momento de despeito, o nosso desconhecido apressou-se a descer os degraus do templo, e, vendo que depois de ter baixado o véu e dado o braço à sua aia, a formosa distraída tinha voltado à direita, apressou-se a fazer o mesmo, notando aliás que era precisamente aquele o seu caminho. A jovem seguiu ao longo do cais até à Ponte de S. Miguel, que atravessou; exactamente o caminho do nosso desconhecido. Em seguida, a jovem meteu pela Rua Barillerie, atravessando a Ponte Change. Ora como tudo isto era o caminho do jovem, seguiu-a como se fora a própria sombra. A sombra de qualquer rapariga bonita é sempre um enamorado. Mas, pouca sorte! Por alturas do Grand-Châtelet, o belo astro, de que o nosso desconhecido se fizera satélite, eclipsou-se subitamente: o postigo da prisão real abriu-se como por si mesmo, mal a aia lhe tocou, voltando logo a cerrar-se sobre as duas. Por momentos, o jovem ficou interdito, mas, como era moço decidido sempre que não houvesse uma jovem beldade a alterar-lhe as decisões, depressa tomou o seu partido. Um sargento da guarnição, de lança ao ombro, passava e repassava gravemente diante da porta do Grand-Châtelet. O nosso jovem desconhecido pôs-se então a imitar aquela digna sentinela. Depois de se ter afastado o bastante para não dar nas vistas, mas sem perder a da porta, começou heroicamente o seu quarto de sentinela amorosa. Se o leitor já algum dia montou uma guarda, reparou certamente que o melhor processo para iludir o tempo é falar de si para consigo. Ora não resta a menor dúvida que o nosso jovem estava habituado a estes quartos de sentinela, pois, mal havia encetado esta, travou logo o seguinte diálogo consigo mesmo: evidentemente que não é ali que ela mora. Esta manhã, depois da missa, e nos dois últimos domingos, em que ousei apenas segui-la com os olhos, que tolo fui!, ela nunca voltou à direita pelo cais, mas sim à esquerda e em direcção à porta de Nesle e do Pré-aux-Clercs. Que diabo virá ela fazer aqui ao Châtelet? Vejamos, talvez visitar um preso, quem sabe se o próprio irmão. Pobre rapariga! Como deve sofrer, pois será tão bondosa como linda! Valha-me Deus! Como desejo falar-lhe, para lhe perguntar francamente de que é que se trata e oferecer-lhe todo o meu auxílio. Se for o seu irmão, confiarei o caso ao mestre e pedir-lhe-ei que me aconselhe. Quem, como ele, já se evadiu uma vez do Castelo de Santo Ângelo, há-de saber bem como se sai de uma prisão. Está dito, salvo-lhe o irmão. Prestando-lhe este serviço, o irmão torna-se meu amigo para a vida e para a morte. Perguntar-me-á, por sua vez, que poderá fazer por mim, que a tanto o obriguei. Confessar-lhe-ei que estou enamorado de sua irmã. Apresentar-ma-á, cairei a seus pés, e veremos então se não levanta os olhos para mim. Uma vez entregue a tais cogitações, é fácil compreender até que ponto um coração enamorado pode seguir, sem se deter, o seu pensamento predilecto». In Alexandre Dumas, Ascânio, ou o Ourives do Rei, 1843, Lello Editores, 1969, ISBN 978-972-481-184-0.

Cortesia de LEditores/JDACT

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Lobos Não Choram. Patricia Briggs. «Até mesmo um urso negro proporcionaria uma morte mais rápida do que a tempestade (apesar de mais sangrenta). E, como conhecia os ursos daquela região, Walter podia avaliar a situação do garoto...»

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«Ninguém melhor do que Walter Rice sabia que o único lugar seguro era longe das outras pessoas. Isto é, seguro para elas. O único problema era que ele ainda precisava delas, precisava do som das vozes e das risadas humanas. Para sua vergonha, ele algumas vezes ficava perto de um dos acampamentos apenas para escutar as vozes e fingir que estavam falando com ele. Essa era uma parte muito pequena do motivo pelo qual estava deitado de barriga para baixo nos arbustos de uva-ursina e nas velhas folhas pontiagudas de pinheiro à sombra de um grupo de árvores, observando um rapaz que escrevia com um lápis em um caderno de espiral de metal, depois de pegar uma amostra de fezes de urso e armazenar o saco plástico parcialmente cheio em sua mochila. Walter não receava ser visto pelo garoto: o Tio Sam treinou Walter muito bem para que ele fosse capaz de se esconder e rastejar, e décadas vivendo sozinho em algumas das áreas mais desabitadas dos Estados Unidos o haviam transformado numa imitação razoável daqueles índios milagrosamente invisíveis que povoavam os livros e os filmes favoritos de sua infância. Se ele não quisesse ser visto, ele não seria, além disso, o garoto tinha as habilidades de sobrevivência na floresta iguais às de uma dona de casa suburbana. Não deveriam tê-lo enviado ao território dos ursos-pardos sozinho, alimentar os ursos com estudantes de pós-graduação não era bom; podia dar aos ursos ideias erradas. Não que os ursos estivessem por ali naquele dia. Como Walter, eles sabiam ler os sinais: em algum momento, nas próximas quatro ou cinco horas, uma grande tempestade iria chegar. Ele podia sentir isso em seus ossos e, o mais estranho, não carregava uma mochila grande o suficiente para estar preparado para a chuva. Era cedo para uma tempestade de Inverno, mas as coisas funcionavam assim nessa parte do país. Walter já vira neve cair em Agosto. Aquela tempestade era a outra razão pela qual ele estava seguindo o garoto. A tempestade e o que fazer a respeito dela, ser tomado pela indecisão não era algo que lhe ocorresse com tanta frequência. Walter podia deixar o garoto ir. A tempestade viria e tomaria sua vida, mas essa era a lei da montanha, das áreas selvagens. Era uma morte limpa. Se apenas o estudante de pós-graduação não fosse tão jovem... Há muito tempo ele vira muitos garotos morrerem, seria de se esperar que estivesse acostumado com isso. Em vez disso, mais um parecia ser demais. Ele podia alertar o garoto. Mas tudo nele se revelava contra esse pensamento. Muito tempo havia se passado desde que ele havia conversado face a face com qualquer outra pessoa... Até mesmo esse pensamento fez sua respiração congelar-se. Era muito perigoso. Podia causar outro flashback, o último fora há algum tempo, mas eles aconteciam de forma inesperada. Seria muito ruim se Walter tentasse avisar o garoto e acabasse matando-o. Frustrado, Walter seguiu o jovem por algumas horas enquanto este perambulava, distraído, cada vez mais longe da estrada mais próxima e de sua própria segurança. O saco de dormir na mochila deixava claro que ele estava pensando em passar a noite ali, o que deveria significar que o garoto achava que sabia o que estava fazendo na mata. Infelizmente, ficava cada vez mais claro que essa era uma falsa confiança. Era como ver June Cleaver meter-se em encrenca. Triste. Apenas triste. Era como ver os novatos chegando ao Vietname em seus uniformes engomados, prontos para serem homens, quando todos sabiam que eles eram apenas bucha de canhão. O maldito garoto estava instigando em Walter todas as coisas das quais ele queria manter distância. Mas a irritação não era forte o suficiente para fazer qualquer diferença para a consciência de Walter. Por quase dez quilómetros, ou assim ele calculou, Walter havia se arrastado atrás do garoto, incapaz de tomar uma decisão: sua preocupação o impedira de sentir o perigo até que o estudante parou no meio do trilho. Os arbustos espessos entre eles só lhe permitiam ver o topo da mochila do garoto, e aquilo que o havia feito parar era algo mais baixo. Não era um alce, o que constituía uma boa notícia. Você pode até argumentar com um urso preto, ou até mesmo com um urso-pardo se ele não estiver com fome (o que, de acordo com sua experiência, raramente era o caso), mas com um alce... Walter puxou sua grande faca, embora não tivesse certeza de que iria tentar ajudar o garoto. Até mesmo um urso negro proporcionaria uma morte mais rápida do que a tempestade (apesar de mais sangrenta). E, como conhecia os ursos daquela região, Walter podia avaliar a situação do garoto... Ele se moveu lentamente no meio do mato, sem fazer barulho, embora folhas de álamo cobrissem o chão. Quando não queria fazer barulho, Walter não fazia. Um rosnado baixo provocou-lhe um arrepio de medo que atravessou seu corpo, elevando sua adrenalina até à camada de ozone. Era um som que Walter nunca tinha ouvido aqui, e ele conhecia cada predador que vivia em seu território». In Patricia Briggs, Lobos Não Choram, 2007/2008, Novo Século Editora, colecção Alfa e Ómega, 2012, ISBN 978-854-280-029-6.

Cortesia de NSEditora/JDACT

O Teu Rosto Será o Último. João Ricardo Pedro. «Era o pai da menina Ana Maria. Um homem só, dizia o padre, um homem bom, um homem que se percebia que andava cansado de acartar um império inteiro às costas»

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«Uma coisa parecia certa: no dia vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro, faltaria ainda um bom bocado para as sete da manhã, Celestino apertou a cartucheira à cintura, enfiou a Browning a tiracolo, verificou o tabaco e as mortalhas, esqueceu-se do relógio pendurado num prego que também segurava um calendário e saiu porta fora. O céu começava a clarear. Ou talvez nem sequer tivesse começado a clarear. Por cima das sopas de café com leite, Celestino emborcara, sem esforço, dois tragos de bagaço. O primeiro, para a azia. O segundo, para os pensamentos cismáticos, que ele, como, aliás, todos os traços fisionómicos sugeriam, era homem dado a prolongadas melancolias. Por volta das onze horas da manhã, nenhum vento de mudança fora ainda sentido por aqueles que viviam da cruel aritmética dos alqueires, dos cinchos, das safras, das luas, das maleitas, das malinas, das geadas. Nos campos, homens e mulas rasgavam a terra em irrepreensíveis geometrias, enquanto, na penumbra dos currais, embaladas por ladainhas que os próprios lábios iam tecendo, as mulheres atestavam as gamelas dos porcos, das cabras, dos filhos. E, se alguém tivesse o desplante de interromper os seus laboriosos afazeres para lhes comunicar que, naquele preciso momento, o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal se encontrava encurralado num quartel de Lisboa, cercado por soldados que exigiam a sua rendição, o mais certo seria obter como resposta um olhar de absoluta indiferença.
É que naquela pequena aldeia com nome de mamífero, encalacrada num sopé da Serra da Gardunha, voltada para sul sem consciência de que estava voltada para sul, a única excepção àquele total alheamento acerca dos destinos da pátria, como se a pátria fosse um lugar longínquo, era a casa do doutor Augusto Mendes, onde, numa espécie de gabinete de crise, se encontravam reunidas as suas mais ilustres personalidades: Adolfo, Bocalinda, Larau, padre Alberto, Fangaias e, claro está, o anfitrião, o doutor Augusto Mendes. Dona Laura, ao ver a casa encher-se de bocas, e pressentindo que isso de golpes de Estado era coisa para levar o seu tempo, apressou-se, de faca e alguidar, em direcção às capoeiras, donde regressou com as duas primeiras vítimas da revolução. E ainda não tinham soado as duas da tarde quando, num exercício ostensivo de poder, como se quisesse deixar bem claro que o que quer que estivesse a acontecer no País, ali em casa tudo permaneceria na mesma, desligou o rádio e a televisão, abriu as portadas que davam para o jardim e anunciou que a canja estava na mesa.
Coma, que a hortelã faz-lhe bem ao ânimo, disse ela ao padre Alberto, aquele que, de entre os ilustres, se mostrava mais apreensivo com o desenrolar dos acontecimentos. Não os acontecimentos políticos, que a política nunca lhe interessara. A César o que era de César, e a Deus o que era de Deus. Interessavam-lhe os homens e as almas dos homens, o que já não era coisa pouca. E, se era verdade que nunca nutrira especial simpatia pelo doutor Oliveira Salazar, bem pelo contrário, a coisa mudava de figura quando se tratava de Marcelo Caetano: o professor, o viúvo, o pai. O pai da menina Ana Maria, essa jóia de moça. Porque era o pai da menina Ana Maria quem, desde madrugada, se encontrava refugiado no quartel do Carmo, sabia-se lá em que condições. Já não era o Presidente do Conselho de Ministros, muito menos o Ministro das Colónias ou o Comissário da Mocidade Portuguesa. Era o pai da menina Ana Maria. Um homem só, dizia o padre, um homem bom, um homem que se percebia que andava cansado de acartar um império inteiro às costas.
No extremo oposto da tribuna, encontrava-se o Larau, cujo ânimo, desde que nascera, permanecia em constante exaltação, fossem revoluções, bilhares às três tabelas ou procissões de sábado aleluia. E a visão da canjinha a fumegar não só lhe aguçara o apetite, como lhe aprimorara o verbo. Assim, sempre que o nome Marcelo Caetano vinha à baila, coisa que acontecia, pelo menos, de três em três minutos, o Larau fazia questão de lhe acrescentar um majestoso e sonoro epíteto: pu… que o pariu e filho de um granda cor… Ao que se seguia, perante o olhar severo de dona Laura, um contrito Deus me perdoe, acompanhado do respectivo sinal da cruz». In João Ricardo Pedro, O Teu Rosto Será o Último, Prémio Leya 2011, Leya, 2012, ISBN 978-989-660-209-3.

Cortesia de Leya/JDACT

sábado, 24 de setembro de 2016

Contemporâneo. Oliveira Martins. «Pinta com cores verdadeiras, prossegue o meu critico, esta dissolução do regimen monarchico parlamentar, mas é injusto lançando á conta do organismo da nação o que é produzido pelo corpo estranho da realeza e dos políticos vendidos»

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«Eu bem affirmava que este livro não satisfaria a ninguém!... Acoimado de miguelismo, Portugal condemnado como espirito azedo e pessimista, tive a sorte que esperava, e os motivos d’esta minha espectativa provaram fundados. Levou-se a mal, como era de suppor, que eu procurasse deslindar da teia de lendas absurdas ou risíveis o caracter pessoal do infante Miguel: chamou-se a isso uma apologia. Nem um facto, nem uma inducção legitima, foram, todavia, contestados, o que me leva a não alterar o retrato d’esse príncipe, sympathico para mim na sua infelicidade. E tenho até a vaidade de acreditar na perspicácia d’este sentimento, parecendo-me que, se de futuro a historia voltar a occupar-se de Miguel, ha de concordar mais commigo do que com os auctores do retrato do monstro. Esses auctores escreviam com a penna molhada no fel amargo do ódio. Disse-se-me também que eu reduzia a muito pouco o alcance ou o valor da Carta de 20; e sem concordar com a critica, achando todavia útil desenvolver mais certos pontos, retoquei essa parte da obra. Mas quando se allega ser erro o notar eu a exclusão dos morgados do pariato, pois, sendo livre do rei a nomeação dos pares, a Carta ninguém exclue, devo responder que a Carta, com effeito, não os excluia (nem eu jamais o disse), mas excluia-os o monarca Pedro não os nomeando, e até a própria força das cousas impedindo a entrada de uns milhares de nobres menores na camara alta. Eram em numero demasiado. Outros reparos, a que não alludo para não ser extenso, vão ou não vão attendidos no texto, conforme se me affiguraram fundados ou mal cabidos.
Não me surprehenderam as censuras dos nossos jacobinos mais do que as dos liberaes: prevía-as egualmente. O meu livro, disseram, é um quadro pittoresco, mas falta-lhe o principio orgânico, a linha lógica, porque eu anão soube ou não quiz vêr na tradição revolucionaria de 20, esse movimento em que pela primeira vez se revelou a classe média de advogados, jurisconsultos e coronéis. Pinta com cores verdadeiras, prosegue o meu critico, esta dissolução do regimen monarchico parlamentar, mas é injusto lançando á conta do organismo da nação o que é produzido pelo corpo estranho da realeza e dos políticos vendidos. Ora eu, não sendo individualista, nem até politicamente liberal, não podia achar na tradição de 20 a linha lógica; e pensando que as nações teem sempre aquelle governo que querem ou que merecem, não podia tampouco ter na conta de corpo estranho a realeza nem os políticos. Ella e elles e o povo e todos pareceram-me antes efeitos do que causas. Se pretendi mostrar por quanta entrava nas misérias da nossa historia contemporânea a fraqueza dos caracteres, a apathia ou a loucura das populações, o desvairamento dos chefes: patenteei, parece me, quanto esses males sociaes provinham, não só dos legados da historia, como da influencia deprimente e desorganizadora das theorias do naturalismo individualista, herdado da philosophia do século XVIII e popularizado pela revolução franceza. Sob o nome indefinível de liberalismo, essas doutrinas, nos seus aspectos successivos, vieram terminar afinal no materialismo pratico, fazendo dos melhoramentos materiaes o pensamento exclusivo do povo, e do governo uma agencia de caminhos de ferro. Como se nós valêssemos absolutamente mais por andarmos em doze horas, em vez de trinta ou trinta e seis, a distancia de Lisboa ao Porto! Mas o que offendeu sobretudo liberaes e jacobinos foi o tora pessimista, ao que dizem, da obra. Eu tinha-a por justiceira apenas, e até ás vezes caridosa. Fica- se com a cara a uma banda.
Pois fique-se. Concordo que a attitude é desagradável, mas, na rainha missão de critico, não posso alterar a significação dos factos, sem poder também acreditar que tamanhos males venham apenas da circumstancia de haver sobre um estrado de alguns degraus um homem de manto e coroa com as mãos atadas pelos políticos de espadim e farda. Elles governarão o rei, mas quem os escolhe a elles é o povo: se são maus, porque os prefere? Não. A culpa é portanto nossa, de todos nós, que não valemos grande cousa, fique se embora com a cara a uma banda!» In J. Oliveira Martins, Portugal Contemporâneo, Livraria António Pereira, Lisboa, 1895, University of Toronto, 2000.

Cortesia de LAPereira/UToronto/JDACT

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Histórias de um Portugal Assombrado. Vanessa Fidalgo. «Não está sozinho, o barão da Glória, num país que, de lés-a-lés, tem personagens e histórias assombradas para contar: no Castelo de Almourol ou no de Bragança, amores incompreendidos deixaram espectros a pairar nas suas torres e ameias»


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«Por todos os preconceitos, desconfianças e crenças que o assunto revolve, entabular conversa sobre fantasmas e casas assombradas não é desafio fácil. Nas aldeias, os velhos ainda contam as histórias que lhes povoam os lugares da memória com naturalidade, mas nas grandes cidades as referências são escassas e fugazes, os narradores fugidios. Ainda assim, há fantasmas ao virar da esquina. Uma certa tarde de pesquisa no Gabinete de Estudos Olisiponenses, divisão da Câmara Municipal de Lisboa que tem como intuito cooperar com a comunidade científica para o estudo e a reflexão sobre a cidade, comprovou-o. Uma cidade que pode ter muitas dimensões. Algumas delas escondidas. Como aquela, que logo ali se desvendou. Histórias de fantasmas na cidade?, quer saber o historiador Ernesto Jana, técnico superior do gabinete. Olhe que nós, por acaso, temos um aqui. É o barão da Glória! O barão que arrasta grossos volumes de livros e caixotes de documentos pelo Palácio do Beau Séjour fora, e que pôs os funcionários da Câmara com os cabelos em pé à procura do espólio perdido. O mesmo espólio que muitos dias de procura depois se encontrava exactamente no local onde tinha sido deixado, por obra e graça do tal barão que também faz tilintar as chávenas em cima das mesas e soar as campainhas da quinta de São Domingos de Benfica, onde viveu, morreu e amou a arte. Não está sozinho, o barão da Glória, num país que, de lés-a-lés, tem personagens e histórias assombradas para contar: no Castelo de Almourol ou no de Bragança, amores incompreendidos deixaram espectros a pairar nas suas torres e ameias. Na Serra de Sintra sobram razões para ter medo, tantos são os relatos e os testemunhos. No Porto, há espectros a discutir a herança pela calada da noite e apartamentos que, afinal, contra todas as razões da lógica, não estão vazios como aparentam. Em Castro Marim, as mouras ainda andam à solta, e em Penafiel os sustos marcam o ritmo dos dias na Quinta da Juncosa, que há séculos foi palco de um crime hediondo. As situações mais insólitas, como a da inacabada casa em Langarinhos, Gouveia, obra que nenhum proprietário consegue finalizar, causam um friozinho no estômago a uns, sorriso trocista a outros, mas estão longe de ser únicas, num fenómeno cultural global. Lá fora, há poucos meses, a notícia encheu os títulos gordos dos jornais: Cláudia Schiffer e o marido, Matthew Vaughn, tinham acabado de se mudar com os três filhos para uma tradicional casa de campo vitoriana em Suffolk, East Anglia, Inglaterra, quando se sentiram atormentados pelo fantasma de Penélope, uma antiga dama da corte, aparentemente pouco disposta a dividir o seu secular tecto com os forasteiros. A mansão foi alvo da intervenção de especialistas em exorcismos e, só depois disso, a família de Schiffer pôde então desfazer as malas sossegada. O caso mais ilustre diz respeito à Casa Branca, onde vários presidentes norte-americanos e as suas famílias se viram importunados pelos fantasmas dos seus antecessores! Jenna Bush, filha do presidente George W. Bush, confessou mesmo ter ouvido música clássica sair da lareira, do seu quarto na Casa Branca. Ouvi ópera a sair da minha lareira. Quando disse à minha irmã Barbara, ela não acreditou. Mas voltou a acontecer na semana seguinte, desta vez com música dos anos 50, confessou numa entrevista à Texas Monthly. Depois do episódio, nunca mais voltou a dormir na mais poderosa residência oficial do mundo. O site da Casa Branca (www.whitehouse.gov) dedica uma página inteira aos seus respeitáveis fantasmas, onde pode ler-se, por exemplo, que ao longo de várias décadas o staff governamental viu Abraham Lincoln divagar pelos corredores do número 1600 da Pennsylvania Avenue. Winston Churchill recusou-se mesmo a dormir no quarto de Lincoln, depois de ali ter avistado o seu vulto. Harry Truman, em 1946, garantia numa carta dirigida à mulher, Bess: este lugar está assombrado, tão certo como dois e dois serem quatro. O Reino Unido, o país que clama mais fantasmas por metro quadro do que qualquer outro, tem igualmente o seu séquito de espectros notáveis e lugares (muitos) assombrados, incluindo monumentos mundialmente famosos, como a Torre de Londres ou o Castelo de Old Wardour. Mas afinal de onde vêm as histórias sobre fantasmas, intemporais e universais, e o que as torna tão impressionantes ao ponto de perdurarem através dos séculos? Que medos e preocupações desvendam e como têm evoluído desde os tempos mais remotos da história dos povos até aos nossos dias, nas suas modernas versões urbanas? E de que forma todas estas histórias, que em abono da verdade dão pelo nome de lendas, podem encaixar num universo ainda maior e de formidável riqueza, que é o da literatura oral? Que papel desempenham na sociedade?» In Vanessa Fidalgo, Histórias de um Portugal Assombrado, 2012, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-371-3. 
Cortesia de EdosLivros/JDACT

Um Postal de Detroit. João Ricardo Pedro. «… em certas noites de Maio, junto aos desfiladeiros das Portas de Ródão, maravilharam-se com o mesmo reflexo da Lua sobre o Tejo, e sempre que chegaram à estação de Santa Apolónia»

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«Longe de imaginar o quanto aquela notícia nos dizia respeito, e os efeitos devastadores que teria nas nossas vidas, demorei a adormecer. Ainda hoje, trinta anos depois, seis internamentos depois, centenas de caixas de comprimidos depois, sessões de psicanálise, mesas de pé-de-galo, sanatórios, termas, casas de repouso, choques eléctricos, dou por mim deitado na cama, de olhos pregados no tecto, a pensar nesses dois pobres maquinistas, frente a frente, sem tempo para uma travagem de emergência, sem tempo para saltarem das locomotivas e rolarem como cowboy sobre um manto de feno, sem tempo sequer para se questionarem acerca das circunstâncias insólitas, colossais, em que se encontravam, aos comandos dos seus exércitos indomáveis, semelhantes a dois generais inimigos que se reunissem entre as linhas avançadas para negociações de última hora, para uma tentativa de entendimento que evitasse a derrota e a chacina, e, porém, absolutamente conscientes da sua impotência para anularem o confronto, para o adiarem até, nem que fosse por breves segundos. escassíssimos segundos, os segundos suficientes para dizerem, em desolado uníssono: estamos metidos numa alhada!
Poderiam depois trocar duas ou três palavras de conforto, histórias antigas, o amor aos comboios. Talvez um deles, o de temperamento mais caloroso, começasse por confessar que, em miúdos, ele e o irmão se entretinham a apanhar escaravelhos, gafanhotos, lesmas, grilos, lagartixas, toda a espécie de bichos que saltam ou rastejam, e que, quais vítimas de um sacrifício que aplacasse a fúria dos deuses, os colavam com resina ao ferro dos carris, momentos antes da passagem do Rápido proveniente da Guarda ou dos vagões carregados de volfrâmio das minas da Panasqueira, comboios demasiado importantes para efectuarem paragem no pequeno apeadeiro cujo nome inscrito em azulejos testemunhava o domínio islâmico sobre aquelas terras até meados do século XI, altura em que os devotos das santas chagas de Cristo, sob os comandos de Fernando I, rei de Leão e Castela, expulsaram os Sarracenos da faixa circunscrita pelos rios Douro e Mondego. Novecentos anos volvidos sobre tão ilustre peleja, seria nesse apeadeiro que o pai do maquinista, humilde funcionário dos Correios e amante de banda desenhada, aguardaria, duas vezes por semana, a chegada do Regional que vinha de Lisboa e, em troca de dez ou quinze tostões, receberia das mãos do revisor uma revista com as mais recentes aventuras do Capitão Meia-Noite, do Flash Gordon, do Mandrake, do Barão de Dorset, do Kit Carson.
Chegado a este ponto, é bem possível que o maquinista fizesse uma pausa, uma dessas pausas que, quando acompanhadas de um movimento descendente do olhar, quase sempre antecedem uma ligeira inflexão na voz, colocando-a dois ou três tons mais abaixo, e revelam, por parte de quem se prepara para prosseguir o rumo de uma confidência, o receio de vir a ser condenado pelo juízo moral do interlocutor. Claro que este receio pode adquirir diferentes matizes e significados, dependendo não só da matéria de que se constitui a confidência, mas, sobretudo, da relação que já existe, ou está prestes a existir, entre quem fala e quem ouve. No caso destes maquinistas, estamos perante dois estranhos, dois homens que não se conhecem; no entanto, é provável que se tenham cruzado inúmeras vezes, a altíssimas velocidades, em circunstâncias que não permitiram mais do que um simples aceno; é provável até que tenham ambos a vaga memória de um encontro fortuito ocorrido há muitos anos, ao balcão de um desses cafés que existem no interior das grandes estações terminais; ou numa casa de banho pública, aliviando-se em urinóis adjacentes, trocando desabafos acerca do cheiro a mijo, do tempo, do futebol, enquanto os olhos repousavam, distraídos, na superfície polida da pedra mármore. Durante anos partilharam as mesmas linhas-férreas; viram repetidamente as mesmas paisagens; tentaram cumprir à risca os mesmos horários e os mesmos procedimentos de segurança; sentaram-se com zelo aos comandos das mesmas locomotivas, e os gestos mecanizados de um foram os gestos mecanizados do outro; em certas noites de Maio, junto aos desfiladeiros das Portas de Ródão, maravilharam-se com o mesmo reflexo da Lua sobre o Tejo, e sempre que chegaram à estação de Santa Apolónia, a abarrotar de Amélias e magalas, sentiram a mesma melancolia, a mesma vontade imensa e inexplicável de chorar». In João Ricardo Pedro, Um Postal de Detroit, 2016, Publicações dom Quixote, Leya, 2016, ISBN 978-972-205-949-7.

Cortesia PdonQuixote/JDACT

Proibida. Nana Pauvolih. «A criança berrou de novo, um som que demonstrava medo, desespero, sofrimento: mãe! Mãe! Foi o mais rápido possível até ela e viu que era uma menina, descalça, com uma camisola branca suja de barro»


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«Muitos sons podiam ser ouvidos durante o amanhecer na Fazenda Falcão Vermelho. O relincho dos cavalos, o mugir do gado, o cantarolar do galo, os primeiros trabalhadores acordando e se preparando para mais um dia na lida. Mas não o que o velho cozinheiro Cicinho ouviu ao se dirigir para o grande refeitório num galpão ao lado de uma das margens do sulco que cortava as terras verdejantes. O sol nem tinha nascido, mas todas as manhãs ele fazia aquele trajecto, saindo da casa em que morava junto das outras reservadas aos empregados, até ao refeitório onde era o cozinheiro oficial e preparava o café da manhã. Mesmo tendo famílias ali, o café da manhã e o almoço eram oferecidos por Mário Falcão para que todos tivessem uma alimentação decente durante o trabalho duro. Além de todos os direitos trabalhistas reservados e aquela alimentação, o salário era digno e havia também escola primária para os filhos dos funcionários. Durante muitos anos Cicinho trabalhou cuidando dos cavalos, mas uma queda deixou-o manco e com dor nos quadris. Foi transferido para a cozinha, já que sempre gostou de preparar as refeições quando ficavam longe por alguns dias nos campos remarcando o gado. Para ele foi bom, pois teria morrido se não tivesse nada para fazer. Aquele dia frio de Junho seria como outro qualquer e ele caminhava pensando se seu ajudante, Rosendo, teria já preparado a massa do pão e colocado para assar. Rosendo era maluquinho, nasceu com problemas mentais e ria de tudo. Não dava para lidar com gado, se atrapalhava todo. Tinha vinte e um anos e era órfão. Todos acharam que seria mandado embora, pois não tinha utilidade ali. Mas Theo Falcão, o filho mais velho da família, de vinte e cinco anos, arrumou uma ocupação para ele como ajudante de cozinheiro no refeitório. Para surpresa de todos e até de Cicinho, Rosendo mostrou-se um padeiro de mão cheia. E óptimo cozinheiro. Ele o ajudava muito. O duro era aguentar as suas risadas a manhã inteira, sem mais nem menos. Cicinho sacudiu a cabeça, paciente. E foi quando ouviu o choro estridente, que o fez parar. Passou os olhos em volta dos campos e árvores, do caminho de terra batida até o refeitório não muito longe. À direita, mais para frente, podia se ver o enorme casarão branco da residência dos Falcão, suas telhas vermelhas recortando o céu da madrugada que começava a ganhar luz. E foi então que ele viu a trouxinha branca se arrastando em sua lateral, perto da entrada do refeitório. Sua visão já não era boa aos 72 anos, mas pareceu uma criança. Franziu o sobrolho e, mancando, se aproximou dela, tentando lembrar qual dos empregados tinha um filho tão pequeno. A criança berrou de novo, um som que demonstrava medo, desespero, sofrimento: mãe! Mãe! Foi o mais rápido possível até ela e viu que era uma menina, descalça, com uma camisola branca suja de barro, cabelos ruivos desgrenhados até aos ombros. Tomou cuidado para não assustá-la: olá, menina... Ah... Gritou, virando-se de um pulo, olhando-o apavorada. Seu rosto com sardas estava manchado de lágrimas e barro, como se tivesse estado no chão e se esfregado nele. Voltou a chorar: quero a mãe... Claro, vamos procurar a sua mãe. Agachou-se um pouco, seus ossos rangendo, a droga do quadril doendo. Preocupado, percebeu que a criança devia ter entre dois ou três anos e parecia muito assustada. Evitou tocá-la para que não saísse correndo, pois era óbvio que estava com muito medo. Onde está a sua mãe? Sabe o nome dela? mãe... Esfregou os olhinhos, chorando muito, estremecendo. Ele se encheu de pena e estendeu a mão. Vem com o avô, vou ajudar-te a encontrar a sua mãe. Ela fitou-o com os olhos castanhos claros vermelhos e inchados, molhados. Devia ser uma menina boazinha, pois deu uns passos em sua direcção. Mas mesmo assim continuava assustada, soluçando, o catarro escorrendo do nariz. Na mesma hora Cicinho tirou seu lenço do bolso e, cuidadoso, limpou seu rostinho. Ela ficou quieta, tão pequenininha e suja que dava pena. Ele sempre amou crianças, pena que nunca casou nem teve filhos e netos. Guardou o lenço de volta e segurou a mãozinha dela, garantindo com carinho: vamos procurar a sua mãe. Sabe o nome dela? Parecia confusa. Murmurou: mãe... Vivi... Sua mãe é Vivi? Quero a Vivi... Voltou a chorar. Vem aqui. Compadecido e vendo a garotinha descalça no chão com pedrinhas, ele pouco ligou para as suas dores. Abaixou-se com dificuldade, pegou-a no colo e, manquando, voltou pelo caminho, em direcção ao casarão da fazenda. Ela se segurou em seu ombro, fungando, tão pequenininha e perdida que dava pena. Conta p’ra mim o nome do seu pai...» In Nana Pauvolih, Proibida, Série Segredos, Brasil, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «… o século das “bastides” (cidades fortificadas). Como o nome indica, o fenómeno é essencialmente um facto meridional, um fenómeno do Sudoeste. Ele afecta principalmente o Toulousain, o Albigeois, o Agenais e o Péri-gord»

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1150-1330. O povoamento urbano
«(…) Com excepção de Estrasburgo, a maioria dessas cidades alsacianas surgiu na Idade Média, como Lille ou Montpelher, a primeira a partir de um castelo feudal, a segunda a partir de um posto de parada numa estrada de peregrinação, O cami roumieu (caminho de Roma), que se torna no século XI uma aglomeração de carácter comercial. Mas o crescimento urbano exprime-se também por criações propriamente ditas. No entanto, a maioria delas, pelo menos depois de 1150, não origina verdadeiras cidades, apesar de algumas realizações dos templários, que fundam aglomerações ao lado de algumas de suas comendadorias, como, em 1192, La Couvertoirade (Aveyron), cuja muralha circular, com suas portas e torres, acha-se bem conservada. Uma grande realização é Montauban, fundada em 1144 pelo conde de Toulouse, Alphonse Jourdain, defronte do burgo do mosteiro de Montauriol, cujos habitantes o abandonaram em massa para ir morar na nova cidade. Em pouco tempo Montauban cresceu e tornou-se importante. O papa de Avignon João XXII, elevou-a a bispado em 1317. O século XIII, após as sauvetés (aldeolas francas criadas durante o feudalismo, por iniciativa dos mosteiros, para servir de refúgio e proceder ao arroteamento) do século XII, é, na ordem das criações de aglomerações, o século das bastides (cidades fortificadas). Como o nome indica, o fenómeno é essencialmente um facto meridional, um fenómeno do Sudoeste. Ele afecta principalmente o Toulousain, o Albigeois, o Agenais e o Péri-gord. As bastides são antes de tudo criações de grandes personagens. Em primeiro lugar, seguindo o exemplo do conde de Toulouse, Raymond VII (criador, notadamente, de Cordes em 1222), os reis da França, São Luís, Filipe III, o Ousado,
Filipe IV, o Belo, o primeiro sobretudo através de seu irmão, Afonso de Poitiers, conde de Toulouse de 1249 a 1271, os outros por intermédio de Eustache de Beaumarchais, senescal de Toulouse de 1272 a 1294. Um documento de 1271 atribui a Afonso de Poitiers quarenta e cinco criações ou recriações (fecit, fecit fieri, fecit ãe novo, criou, fez criar, criou de novo), especialmente Sainte-Foy-la-Grande (c. 1250), Villeneuve-sur-Lot (1253), Villefranche-de- Rouergue (1256), Villefranche-de-Lauraguais (1271). No reinado de Filipe, o Ousado, e no início do reinado de Filipe, o Belo, aparecem outras, como Montréjeau, Revel (1280), Mi-rande (1282), Grenade-sur-Garonne (1290), Beaumont de Lomagne, etc. Os reis da Inglaterra, a oeste, fundam também suas bastides, entre as quais Créon, Libourne (1269), Beaumont-en-Périgord (1272), Monpazier (1285). Em menor grau, os grandes senhores da região, e em primeiro lugar os condes de Armagnac e os condes de Foix-Béarn, foram também fundadores de bastides. A última onda de bastides atingiu o Périgord entre 1261 e 1306 e, embora representem apenas 4% do habitat da região, as 23 bastides ali criadas forneceram 9 das 60 sedes de distrito de castelanias, ou seja, 15%. O que significa o fenómeno das bastides? Houve quem as considerasse o canto do cisne do movimento comunal, mas as lutas sociais não parecem ter desempenhado nenhum papel em sua criação. Foram vistas também como uma expressão do impulso demográfico do período, mas num momento em que esse impulso parece bastante atenuado. O aspecto militar nessa zona fronteiriça onde reis da França e da Inglaterra disputam asperamente o terreno também chamou a atenção, e é provável que os soberanos tenham visto aí pontos de apoio estratégicos, mas a maioria dessas bastides não foi fortificada durante longo tempo.
Finalmente, o grande especialista da questão, Charles Higounet, pensa que se trata sobretudo de uma Organização da ocupação do solo e de um agrupamento da população. Assim as bastides permanecem muito inseridas no tecido campesino, constituindo antes burgos rurais do que cidades propriamente ditas. Talvez seja sobretudo pela regularidade de sua planta, por uma certa ideia urbanística de sua estrutura, à qual voltaremos, que as bastides  trouxeram sua contribuição para a formação da França urbana. Mas pode ser que essa estrutura esteja igualmente ligada à dos solos. Sua presença na França urbana é, salvo excepções, marginal. Ao lado da criação de bastides, São Luís está na origem de duas realizações urbanas do Sul, entre o Ródano e o Garonne; Carcassonne e Aigues-Mortes. Carcassonne, fundada em 1247, após a destruição do subúrbio consecutiva à revolta de Raymond Trencavel, foi cercada de muralhas, em pedra somente do lado do rio, contra as inundações, o resto em terra batida, por ordem de Filipe, o Ousado, em 1276. Aigues-Mortes, concebida em 1240, dotada de um foral em 1246 e onde os genoveses tinham cônsules já em 1249, foi criada como base de partida para a cruzada. Só a torre de Constance foi construída no reinado de São Luís. O essencial das muralhas data do reinado de Filipe III e foram terminadas por Filipe, o Belo». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Os filhos do Graal. Peter Berling. «Os montanheses limitaram-se a manter a cabeça-de-ponte conquistada. No entanto, o poder de suas máquinas não alcançava nada além da barbacã, a potente defesa exterior do Montségur. Impossível aproximar-se da murada do castelo!»

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Montségur. 1243
«(…) Seu riso soava sarcástico e eu continuava tão ignorante como antes, embora agora pudesse imaginar onde estava situado o Roc de la Tour: na ponta mais extrema da parte noroeste do pog, onde o dorso da montanha desce, deixando novamente em liberdade o rio Lasset. Por que não atravessamos a garganta, que parece o caminho mais curto? Muito simples, porque ali já estão instalados os templários, e terão avisado os de cima de nossa chegada! Mas os templários são cavaleiros cristãos, retruquei indignado. Como pode pensar que se relacionam com os hereges? Não tinha perguntado pelo Graal, jovem franciscano? Pois essa é a resposta!, e acelerou seus passos dando-me a entender que não diria mais nada. Chegamos rapidamente ao pé da rocha onde acampava o grupo que vinha de Camon. A recepção foi fria, para não dizer pouco amistosa. Cumprimentaram formalmente o senescal e ignoraram os bascos. Traidores, escutei-os vociferar entre dentes. A noite estava chegando. O senescal proibiu que fossem acesas fogueiras para evitar sermos descobertos, mas esta ordem não ajudou a melhorar o ambiente. Por cima de nós, escondendo-se detrás de nuvens desgarradas que deslizavam com rapidez, erguia-se o peitoril da fortaleza dos hereges, em noite sem lua. Os montanheses haviam pintado os rostos morenos com fuligem para escurecê-los ainda mais e não levavam armaduras ou armas pesadas, apenas casacos cintados, de couro, e punhais de fio duplo cujos cabos se viam por cima do ombro ou pelo cano das botas.
O senescal ordenou-me que desse a bênção a cada um deles, e quando foi a vez de Gorka, sussurrei-lhe, ao colocar-lhe o sinal-da-cruz: que a Mãe de Deus o proteja... Mas ele, sem mover-se, tirou da cintura uma pata negra de gato e murmurou: cospe em cima disso, por favor. Simulei um acesso de tosse e fiz o que ele me pediu. Os montanheses moviam-se, de facto, como gatos selvagens, entendiam-se por meio de sons de animais, e tão logo enfiaram-se entre as rochas, desapareceram de nossas vistas. Passei o resto da noite bebendo em companhia do senescal. Mantivemo-nos calados e atentos a qualquer ruído que pudesse chegar até nós. Não sei agora se foi invenção minha ou se eu me achava ainda sobre o efeito das palavras de Gorka; de qualquer forma, eu via através de minha imaginação o que acontecia como se o estivesse presenciando: os montanheses alcançaram rapidamente as alturas do Roc de la Tour e ali ficaram presos às escarpadas rochas, imóveis, até que chegou a madrugada. A vanguarda da fortaleza eram besteiros catalães que passaram a noite com o olhar fixo na escuridão, e não se escondeu deles a chegada dos bascos. Quando o dia finalmente clareou, parecia-lhes que tinham superado o perigo. Relaxaram a tensão das pálpebras e assim transcorreu, em meio a um silêncio traiçoeiro, o tempo que se leva para rezar uma avé-maria, e então os montanheses atacaram os defensores esgotados enquanto se apossavam de seus punhais. Ouviram-se gritos, gemidos, o barulho da queda de alguns corpos e o silvo das bestas, enquanto desprendiam-se pedras das rochas, até que os catalães decidiram retirar-se pelos bosques e refugiar-se atrás dos muros protectores do castelo. Os bascos não se atreveram a segui-los. A certa distância, tinham os besteiros mais oportunidade de defender-se, mas como ainda reinava um certo claro-escuro, desistiram de afugentar os montanheses de novo.
Dessa forma, ao menos pelo que sabíamos, foi cortada a última comunicação dos sitiados com o mundo exterior, e o cerco em torno do Montségur fechou-se. Dias depois, voltei a encontrar Gorka no acampamento e ele contou-me o resto do ocorrido. Em baixo, no vale, o hábil monsenhor Durand, que na realidade era bispo de Albi, estava entregue à tarefa de desmontar as suas famosas catapultas de lançamento, que os bascos começaram a subir peça por peça com a ajuda de cordas. Mas os defensores puderam equilibrar essa vantagem graças à inventiva de outro genial catapultador, Bertrand Beccalaria. Este engenheiro de Capdenac, quando soube da situação de emergência pela qual passavam seus amigos, não hesitou em abandonar espontaneamente a construção da catedral de Montauban, obra que então dirigia, e conseguiu, no último minuto, chegar secretamente à fortaleza com seus ajudantes. Suas catapultas transportáveis estavam instaladas no Pas de Trébuchet, e responderam tão efectivamente aos atacantes que não cabia pensar em algum ulterior avanço. O alto do monte era coberto pelo bosque e atravessado por sendeiros que ficavam ocultos no meio das rochas, ora passando por baixo ora por cima do terreno; um conjunto de pedras e terra que, além do mais, mostrava-se esburacado por covas com saídas secretas, seguiam em poder dos catalães. Os montanheses limitaram-se a manter a cabeça-de-ponte conquistada. No entanto, o poder de suas máquinas não alcançava nada além da barbacã, a potente defesa exterior do Montségur. Impossível aproximar-se da murada do castelo! E por que não enviar reforços, eu queria saber, ao mesmo tempo que me sentia como deve se sentir um eminente estrategista, e acabar de uma vez com esse ninho de víboras do Inferno? Gorka rangiu os dentes e respondeu: porque nem o senhor senescal nem o senhor arcebispo, e muito menos seus medrosos mercenários, são bons alpinistas!, e pôs-se a rir. Além disso, já cumprimos com nossa tarefa! E, de facto, a partir daquele dia foi possível escutarmos como as máquinas de monsenhor Durand arrojavam cegamente, dia e noite, suas pedras assassinas por cima do bosque, em direcção às muralhas dos últimos baluartes exteriores, para grande felicidade do legado. Esses hereges morrerão na barbacã como se estivessem sendo esmigalhados num morteiro, alegrava-se Gorka». In Peter Berling, Os filhos do Graal, 1991, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1996, ISBN 978-972-231-982-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Um estranho em Goa. José Eduardo Agualusa. «Aquele era o Rio Quanza. As casas, adormecidas ao sol, repetiam o claro desenho das ruas do Dondo. Atordoado pelo calor, voltei a experimentar o estranho sentimento de me encontrar num lugar esquecido»

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Plácido Domingo contempla o Mandovi
«(…) Logo que o vi soube que era ele. Trouxera comigo velhas fotografias. Numa delas Plácido Domingo estava vestido de camuflado e estudava um mapa. Era um homem bonito, alto e sólido, de bigode e pêra ao estilo da época, todos os homens queriam ficar parecidos com Lenine. Numa outra fotografia aparecia encostado a um jipe, sorrindo, rodeado por jovens guerrilheiros. Havia ainda uma imagem preciosa: Plácido Domingo, com uma metralhadora a tiracolo, ao lado de Agostinho Neto e Mário Pinto Andrade. Coloquei as fotografias em cima da mesa: comandante Maciel? Ia a dizer, presumo, mas contive-me. O velho olhou para mim sem surpresa: demorou muito, meu jovem. Trouxe as fotografias comigo. Espalho-as sobre a cama. Conheço de cor cada uma delas. Existe de facto essa imagem preciosa: Plácido Domingo, com uma metralhadora a tiracolo, ao lado de Agostinho Neto e Mário Pinto Andrade. Continuemos: eu estava em Corumbá há uma semana. Viajara durante dois dias, de autocarro, entre o Rio de Janeiro e Campo Grande. Em Campo Grande entrevistei o poeta Manoel Barros. Já a caminho de Corumbá, enquanto o autocarro seguia aos solavancos por uma estrada de terra, tive tempo para reler a minha colecção de artigos sobre o comandante Maciel. Pouca gente conhecia o seu verdadeiro nome: Plácido Afonso Domingo.
Em 1962 ele era capitão do exército português. Nesse ano, numa operação cujo escândalo o regime de Salazar não conseguiu sufocar, desviou um avião para Brazaville e juntou-se aos guerrilheiros do MPLA. Desaparecia o capitão Afonso Domingo e nascia um mito: o comandante Maciel. Após a Revolução de Abril desembarcou no aeroporto de Luanda, com outros dirigentes do movimento, e foi levado em ombros por uma multidão febril. Num dos artigos que eu trouxe, um recorte do jornal Diário de Luanda, com a data de 15 de Agosto de 1974, há uma fotografia que mostra a chegada a Luanda de alguns dirigentes do MPLA. Um dos homens, em primeiro plano, parece intrigado e receoso. Consigo escutar, à distância de vinte e cinco anos, o coração dele: Chegámos, minha mãe, chegámos onde? No artigo não se faz menção ao comandante Maciel, este também não é, evidentemente, o seu verdadeiro nome de guerra, mas disseram-me que veio com aquele grupo. Podia ser o tipo que aparece de costas, no canto superior esquerdo, abraçando uma mulher. A estrada corria por entre lagoas brilhantes. Vi os jacarés adormecidos ao sol. Vi uma sucuri enrolada num pau. Pouco a pouco o céu mudou de cor, e as árvores encheram-se de pássaros: garças de asas luminosas, araras vermelhas, bandos de periquitos. As primeiras luzes de Corumbá brilhavam na noite quando me lembrei da velha cidade do Dondo (Plácido Domingo era do Dondo). Na manhã seguinte, ao contemplar o rio, compreendi o que levara o velho guerrilheiro a ficar ali. Aquele era o Rio Quanza. As casas, adormecidas ao sol, repetiam o claro desenho das ruas do Dondo. Atordoado pelo calor, voltei a experimentar o estranho sentimento de me encontrar num lugar esquecido. O mundo passara por aquelas ruas, e fora-se embora. O branco casario do porto pertencia a uma outra era, quando o futuro começava em Corumbá. Um velho pescador, limpando o suor do rosto com a ponta da camisa, contou-me que a cidade já fora o maior porto da América Latina. Eu conhecia a história. Primeiro a opulência, o fausto, a seguir a notícia de que o comboio avançara do litoral até uma cidade próxima, deixando o rio de ser o principal caminho. E depois o abandono. Risquei a segunda pergunta do meu caderno de apontamentos: por que decidiu viver em Corumbá? A primeira pergunta, na verdade, é que me fizera percorrer aquela distância toda: o senhor saiu de Angola em 1975 e não regressou. O que aconteceu? Plácido Domingo estava à espera que eu lhe perguntasse aquilo. Acho que esperara vinte anos: muito provavelmente você vai-se arrepender de me ter feito essa pergunta...» In José Eduardo Agualusa, Um Estranho em Goa, 2000, Livros Cotovia, Lisboa, colecção Série Oriental, Viagens, 2000, Fundação Oriente, ISBN 978-972-842-385-8.

Cortesia FOriente/LCotovia/JDACT

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A Trança Feiticeira. Henrique Fernandes. «Não confiou em ninguém a aventura vivida. Nem a Abelha-Mestra a quem solicitava conselhos e advertências. As amigas à noite estranharam. Não costumava ter aquele ar ausente»

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«(…) Se visse a roupa que tinha e a quantidade de sapatos. Nisto, era muito exigente. Queria as calças bem vincadas, as camisas sem a mais pequena nódoa, os sapatos sempre lustrosos. Mas não berrava. Dizia o que queria. na sua amabilidade, e não era necessário repetir. Todos se esforçavam para lhe satisfazer os gostos. Mais baixinho. em coro, acrescentavam: o menino era uma jóia ao contrário dos outros. As senhoras, de língua afiada, impertinentes, sempre a descobrir e apontar defeitos. Todas umas preguiçosas que até obrigavam as criadas a deixarem as suas tarefas, para erguer do chão um lenço, caído aos pés delas. E o patrão movia-se nas mesmas águas, desabrido nas suas ordens que queria cumpridas rigorosamente, sob pena de violenta censura ou sumário despedimento.
A-Leng, já refeita do abalo, estava agora cheia de curiosidade. Até se esquecera doutras encomendas de água. Fazia perguntas, aceitava a lengalenga, sem desconto dos exageros. por qualquer prevenção íntima, não revelou que o Menino a sequestrava. Bebeu duas tigelas de chá, em vez duma, e comeu uma fatia de bolo, feito
na véspera, que a senhora distribuíra às criadas. Quando saiu, ia, de facto, abalada. O conceito sobre o homem até então perverso, modificara-se. Não confiou em ninguém a aventura vivida. Nem a Abelha-Mestra a quem solicitava conselhos e advertências. As amigas à noite estranharam. Não costumava ter aquele ar ausente, o pensamento muito longe. Não se intrometia nas conversas, num silêncio distraído. Durante a noite inteira, a imagem do rapaz não a largou. Isto desesperou-a, porque estava mesmo a pensar demasiado nele, no tratamento gentilíssimo de siu-tché e no facto de deixá-la entrar primeiro através da porta. Com outro tipo de cara, não era nada feio, ao contrário do que a princípio achara.
À hora de levar a água da fonte, para a casa dele, enervara-se toda. O que sucederia nesse dia? Nada e teve uma desilusão. Não o viu, durante três dias. Guardou admirada outras tantas decepções. Ter-se-ia arrependido de conhecê-la, agora que era a aguadeira da casa? Temeria que ela fizesse alguma queixa? Mas se queixa houvesse, seria logo no primeiro dia. O que não adivinhava era que tudo fora planeado. Adozindo, com notável paciência queria que meditasse nele. No quarto dia, tivera um dia cansativo. Por mais que se empenhasse não chegaria à hora precisa, na casa do rapaz. Caminhava a passo regular, o corpo teso, as ancas a bambolear, ao ritmo pendular dos baldes. Nas axilas e nas costas, grandes manchas de suor. Na franja das calças e nos pés nus, lama. A única coisa limpa e apresentável, a trança negra, o seu incontestável orgulho. No cruzamento de duas ruas estreitas, parou, na sombra precária, para tomar alento. O sol de Junho refulgia implacável. Esfregou o rosto suarento, com o lenço pendurado na abertura da cabaia, junto à anca, devassando as artérias. Uma voz soou atrás. Boa-tarde. Estremeceu. Afinal, não a esquecera. Ele ali estava asseado, a camisa muito alva, o rosto cheirando a perfume que mais tarde aprendeu ser água de Colónia. Na mão direita, sangravam duas rosas aveludadas. O bem-estar dele era flagrante. Ela teve, pela primeira vez, a dolorosa noção de que estava suja, coberta de poeira, o corpo emanando a suor. Oferecendo as rosas, Adozindo disse: toma. Colhia-as para ti. São do meu jardim. Não posso aceitar. Tenho as mãos ocupadas. Queres que as deite fora? Não. São muito bonitas». In Henrique Senna Fernandes, A Trança Feiticeira, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-80-8.

Cortesia da FOriente/JDACT

O Legado do Vento. CG Fleck. «A maioria preferia as brincadeiras que misturavam meninos e meninas como jogos com bolas ou brincar às escondidas. Mas Rand já estava cansado desses jogos infantis, o que ele queria era se juntar aos meninos mais velhos que faziam torneios de lutas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ano 188
«(…) Rand estremeceu ao ouvir aquilo. Ele temia seu tio Milfred mais do que qualquer coisa e com certeza não faria nada que forçasse uma visita inesperada do tio. Assim Rand assentiu pela última vez antes de deixar a casa. Ele saiu pela porta da frente e atravessou o belo jardim da mansão Arns. Sua família vivia em Gorland a mais antiga cidade da Liga e uma das maiores e mais ricas das sete capitais. Gorland era uma bela cidade que ficava ao lado do grande rio Gör e no passado fora a capital do povo Gormano, mas atualmente era dividida não só pelo relevo, mas também em ideais. Rand, porém, ignorava tal fato naquele momento de sua vida, para o menino a cidade se restringia as belas casas e prédios da Cidade Alta, onde a elite gorlandesa vivia. Em sua curta vida, raras vezes ele descera o platô para conhecer a Cidade Baixa, onde o restante da população habitava. Quando Rand chegou ao parque viu que muitas crianças já se encontravam por lá. Os menores brincavam com os empregados da família ou acompanhantes, enquanto as maiores ficavam em grupos para se divertiram em jogos ou brincadeiras. A maioria preferia as brincadeiras que misturavam meninos e meninas como jogos com bolas ou brincar às escondidas. Mas Rand já estava cansado desses jogos infantis, o que ele queria era se juntar aos meninos mais velhos que faziam torneios de lutas, andavam livremente pelas ruas e às vezes desciam até à Cidade Baixa. Rand viu Silas Nuond sentado em um banco sob a sombra de uma árvore. Ele correu até lá e deu bom dia ao amigo. Os dois haviam nascido com alguns dias de diferença e viviam juntos desde então, mesmo que as suas famílias não concordassem com isso. Mas tudo mudara algumas semanas antes, quando Silas começara a andar com seu irmão mais velho, deixando Rand com as outras crianças no parque. Será que hoje eu posso ir com vocês?, indagou Rand, com tamanha ansiedade que esqueceu o cumprimento. Silas olhou para Rand de soslaio e deu de ombros. Você poderia pedir para ele, insistiu Rand. Para ele me expulsar? Você não lembra como foi difícil para eu ser aceite? Tive até que envolver meu pai, respondeu Silas demonstrando irritação. Mas eu não aguento mais ficar brincando com as meninas, resmungou Rand. Você sabe o que tem que fazer, só precisa passar pelo teste. Silas respondeu com impaciência. Mas eu não posso descer... Você sabe disso, respondeu Rand, que sem perceber corou. Por isso eles te chamam de bundão. Todo mundo sabe que você é um filhinho da mamã, disse Silas sem compaixão. Rand se calou, pois naquele momento Kevin e os outros se aproximavam. Kevin Nuond tinha três a mais do que Rand e Silas. Em breve o rapaz entraria para a Guarda onde seria treinado para ser um oficial. Ele seria um bom soldado, era forte e alto, o corpo truncado e braços cheios de músculos apesar da pouca idade. Mas o que mais chamava atenção em sua fisionomia era o seu olhar. Olhar de cachorro louco como diziam pelas suas costas, um olhar de quem era capaz de fazer coisas que as pessoas normalmente temeriam sequer imaginar. Kevin estava sempre acompanhando por seus amigos Aran, Owen, Liam e Niall, que o seguiam sem hesitação. Ei Silas, você vem ou não?, indagou o Nuond mais velho, sem ao menos notar a presença de Rand. Vou sim, respondeu o irmão mais novo, evitando olhar para Rand. Enquanto o amigo se levantava, a mente de Rand começou a trabalhar alucinadamente e num ímpeto que misturava coragem e desespero ele falou: Kevin, eu posso ir com vocês? Todos os meninos ficaram em silêncio por um segundo. Até que Liam e Niall explodiram em risos. Sem demora os demais acompanharam as gargalhadas e Rand se enfureceu, pois sabia o motivo do escárnio. Porém Kevin não ria. Com a voz séria e seu olhar estranho perguntou: você quer vir Arns? Mas o que a sua mãe vai dizer a respeito disso? Eu não quero problemas com ela, já ouvi o suficiente nos últimos dias, e lançou um olhar venenoso para Silas. Novos risos, até mesmo Silas estava rindo, pois não havia percebido a inferência do irmão. Somente Kevin e Rand estavam em silêncio. Ela não vai dizer nada, respondeu Rand. Ela não precisa saber. E eu vou quebrar a cara do próximo que rir da minha mãe. Rand lançou a ameaça com um olhar sério e a voz firme. Mas os outros não respeitaram as suas palavras de imediato. Aran, Niall, Liam continuaram rindo até perceberam o olhar fixo dele e pouco a pouco o riso morreu. Nesse momento quem riu foi Kevin, mas era o seu riso soou como o de um louco e assustou os demais. Ele concordou com a cabeça e fez um sinal para Rand segui-los. Ao todo eram sete rapazes, que agora se dirigiam para um dos caminhos que dava acesso às escadarias que levavam à Cidade Baixa. Os meninos alcançaram a passagem e lá encontraram dois guardas sentados ao redor de uma diminuta mesa de madeira. Um estava de costas para a rua enquanto o outro observava com o canto do olho as crianças que se aproximavam. Os dois pareciam entretidos com um jogo de ossos e não deram muita atenção ao grupo que passava pelo portão. Rand tinha a certeza de que se tentasse passar por ali sozinho estaria sendo conduzido para a sua casa nesse exacto momento». In CG Fleck, Legado do Vento, Wikipédia. 
Cortesia de Wikipedia/JDACT

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os filhos do Graal. Peter Berling. «No final do Outono, chegou o corpo de montanheses procedente do distante país basco. Meu senhor, o senescal, não quis que acampassem entre os outros, por isso conduziu-os pessoalmente…»

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Montségur. 1243
«(…) Por favor, Pierre-Roger, a jovem colocou a mão em seu ombro, não espere nada do mundo exterior, pois que só o que se consegue assim é fechar os olhos diante da visão das portas do Paraíso. O Paraíso é a certeza que ninguém pode nos tirar! E despediu-se com um sorriso alegre. Entretanto, o Montségur ficara envolto nas trevas da escuridão nocturna, ao mesmo tempo que as estrelas luziam com um brilho mais claro. Em baixo, no vale, as fogueiras ardiam, mas as canções obscenas, os gritos das prostitutas e as blasfémias dos soldados entretidos no jogo de dados e com a bebida não chegavam até o alto da montanha. O ambiente no acampamento deixava muito a desejar. Aproximava-se o Outono. Há mais de meio ano estavam acampados naquele lugar, e embora nos primeiros dias alguns atrevidos tivessem pretendido assaltar o monte, confiando em suas próprias forças, fracassaram em todas as tentativas. Sua situação estratégica e as poderosas defesas da fortaleza vinham resistindo durante mais de duas gerações a todos os ataques. O senescal sabia disso e mantinha-se na expectativa apesar das contínuas pressões do legado, mas também Hugues des Areis mostrava-se cada vez mais irritado conforme transcorriam os entediantes dias de espera ao pé do pog. Ordenou aos seus capelães que rezassem missa várias vezes ao dia, como se suas orações pudessem melhorar a situação militar. Certa noite em que se apresentara ao franciscano, para rezar com ele, teve uma súbita revelação. Caçadores da montanha do país basco!, alfinetou William, que, obedecendo ao costume, já ajoelhara. Deveríamos contratá-los de imediato, ainda que nos custem muito dinheiro, mesmo que seja quase impossível que entrem num acordo antes de terem recolhido suas colheitas. Santificado seja o nome do Senhor e da Santíssima, começou William. Levanta esse traseiro flamengo, retrucou o senescal, e dê-me a jarra. A ideia merece um brinde!

Os montanheses. Montségur, Inverno de 1243-44
No final do Outono, chegou o corpo de montanheses procedente do distante país basco. Meu senhor, o senescal, não quis que acampassem entre os outros, por isso conduziu-os pessoalmente para além do pog, debaixo do Roc de la Portaille, onde a parede rochosa ascende tão verticalmente que de baixo apenas se pode antever a grande torre central do Montségur. Ao chegar, permitiu que descansassem. Fui o único escolhido para acompanhá-los, o que provocou inveja em meus companheiros. À tarde voltámos a empreender a marcha, deslizando um por um debaixo da parede norte, protegidos de qualquer olhar devido aos altos pinheiros do bosque de Serralunga, cujos limites chegam até o mesmo rochedo. Caminhando atrás de Gorka, um dos chefes bascos, a duras penas conseguia manter-me ao ritmo de seus passos e ao mesmo tempo sustentar uma conversa na qual nos servíamos de uma mistura de vozes italianas e latinas. Não tinha a mínima ideia da direcção que tomava nossa expedição secreta. Roc de laTour, informou-me Gorka sem mais rodeios. Ofegante, eu tropeçava pelo caminho. Para quê? Para cortar o chouriço, é preciso atá-lo primeiro. Parece que se esqueceram desse detalhe. Calei-me. Por um lado, porque suas palavras me fizeram sentir fome imediatamente, e por outro também porque a mesma ideia da comida me fez pensar de imediato no Santo Graal, de quem todos estavam falando no acampamento, mas sobre o qual ninguém conseguia dar uma resposta minimamente satisfatória. Devia tratar-se de alguma coisa superior a um tesouro, de uma espécie de bebida reconfortante que já não fazia sentir sede nunca, de um maná celestial que livraria um pobre frade como eu de toda fadiga terrena. Não estamos buscando um tesouro, o tal do Graal?, prossegui, indagando com certo recato, pois me dava vergonha não saber melhor das coisas e porque vira diversas vezes as reacções mais estranhas de enfado quando um de nós perguntava pelo motivo real daquela cruzada. Pois não, William, sorriu Gorka. Vamos à conquista de um monte de pedras que não valem nada, com que até a presente data ninguém se preocupou, razão pela qual elas se converteram, para os defensores do Montségur, numa cómoda abertura pela qual recebem as suas provisões. Mas nós somos o gato que a partir de agora vigiará essa ratoeira!» In Peter Berling, Os filhos do Graal, 1991, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1996, ISBN 978-972-231-982-9.

Cortesia de EPresença/JDACT