domingo, 21 de janeiro de 2018

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Duas silhuetas surgiram no horizonte tremeluzente. Era a hora mais clara e mais quente do dia, quando céu e terra se encontravam numa névoa prateada»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Enquanto esperava o tempo de Rebecca receber a imagem, fiz-lhe um pequeno resumo da situação, sem deixar de fora a desconfiança de James Moselane de que eu tinha sido vítima de um trote ou talvez até corresse perigo. É claro que eu não vou, mas estou morrendo de curiosidade para saber onde essa foto foi tirada, falei. Como pode ver, parece que a inscrição faz parte de uma parede maior, onde o texto se organiza em colunas verticais. Quanto ao alfabeto em si... Cheguei mais perto e tentei posicionar melhor a luminária da escrivaninha. Estou com uma sensação estranha...,mas, por mais que eu tente, não consigo... Um ruído sugeriu que Rebecca mastigava um punhado de castanhas, sinal de que estava intrigada. E o que quer que eu faça?, perguntou ela. Posso garantir que essa foto não foi tirada na minha escavação. Se alguém tivesse deparado com algo assim aqui, em Creta, eu saberia, pode acreditar. Quero que faça o seguinte: dê uma boa olhadela na inscrição e diga-me onde viu esses símbolos antes. Eu sabia que era um tiro no escuro, mas precisava tentar. Rebecca sempre tivera talento para enxergar além do óbvio. Fora ela quem havia descoberto o esconderijo de barras de chocolate do meu pai quando éramos crianças, dentro de uma velha caixa de apetrechos de pesca na garagem. Mesmo nessa ocasião, apesar de adorar doces, não tinha sugerido que comêssemos uma das barras: para ela, o simples triunfo da descoberta e de poder contar-me uma coisa sobre o meu pai que eu não soubesse já era um prémio.
Vou dar-lhe mais um minuto..., falei. Que tal me dar uns dias para perguntar por aí?, retrucou Rebecca. Posso mandar a foto para o sr. Telemakhos... Não! Não mostre essa foto a ninguém. Porquê?
Hesitei, consciente de que estava sendo irracional. Porque tem alguma coisa nessa escrita que me é muito familiar..., de um jeito meio esquisito. É como se eu enxergasse uma inscrição invisível... A verdade nos ocorreu ao mesmo tempo. O caderno da sua avó!, exclamou Rebecca com um arquejo, movimentando-se freneticamente do outro lado. Aquele que lhe deu pelo Natal... Estremeci, alarmada. Não, é impossível. Loucura. Porquê? Rebecca conhecia bem o meu calcanhar de Aquiles, mas estava agitada demais para pisar com delicadeza nele. Ela sempre disse que lhe deixaria instruções, não foi? E que as receberia quando menos esperasse. Bom, talvez seja isso. A grande chamada da avó. Quem sabe... A voz de Rebecca ergueu-se num tom desafiador quando ela com certeza se deu conta do absurdo da sugestão. Quem sabe se ela estará esperando em Amsterdão?
Duas silhuetas surgiram no horizonte tremeluzente. Era a hora mais clara e mais quente do dia, quando céu e terra se encontravam numa névoa prateada e não se conseguia distinguir um do outro. No entanto, bem devagar, à medida que avançavam pela salina plana, as duas formas tremeluzentes se materializaram em duas mulheres, uma adulta; a outra, nem tanto. Mirina e Lilli tinham passado muitos dias fora, só as duas. O objectivo da viagem era óbvio, pois todo o tipo de caça e arma se balançava nos seus ombros preso em correias de couro, e os seus passos ficavam mais velozes conforme elas se aproximavam do povoado à frente. Como a mãe vai ficar orgulhosa!, exclamou Lilli. Espero que conte a ela como eu peguei aquele coelho na arapuca. Não vou omitir nenhum detalhe, prometeu Mirina, afagando os cabelos embaraçados da irmã caçula. Talvez só aquela parte em que quase quebrou o pescoço. É..., Lilli encolheu os ombros e deu aquela danadinha lenta e engraçada que sempre dava quando ficava constrangida. É melhor não falar nisso, senão nunca mais vou poder sair convosco. Seria uma pena, não é?, indagou ela, erguendo os olhos para Mirina com um sorriso esperançoso.
Mirina aquiesceu com firmeza. Uma pena enorme. Você tem potencial para ser uma grande caçadora. Além do mais... Ela não conseguiu conter uma risadinha. É uma fonte inesgotável de diversão. Lilli fechou a cara, mas Mirina sabia que no fundo estava contente. Pequena para uma menina de 12 anos, sua irmã passara a viagem inteira tentando desesperadamente provar o próprio valor, e Mirina tivera uma grata surpresa com a sua capacidade de lidar com as dificuldades. Mesmo com fome ou cansada, Lilli nunca se recusara a cumprir nenhuma tarefa e nunca derramara uma só lágrima. Pelo menos não na sua frente. Com seis anos a mais do que Lilli e tão hábil quanto qualquer homem da mesma idade, Mirina havia considerado o seu dever ensinar à irmãzinha a arte da caça». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Desculpe interromper a sua orgia da meia-noite, falei, quando ela finalmente atendeu o telefone móvel. Fazia mais de um mês que não nos falávamos e, quando ela deu um muxoxo bem-humorado do outro lado da linha…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Segundo a maioria dos estudiosos, as amazonas jamais tinham existido em lugar algum a não ser na mitologia grega. Quem afirmasse o contrário, no melhor dos casos, era um romântico incurável. Sim, de facto, era totalmente concebível que o mundo pré-histórico tivesse sido povoado em parte por guerreiras do sexo feminino, mas os mitos sobre amazonas sitiando Atenas ou participando da Guerra de Tróia sem dúvida eram invenções de contadores de histórias na tentativa de fascinar os seus ouvintes com relatos fantásticos. Eu sempre explicava aos meus alunos que as amazonas da literatura clássica deviam ser vistas como predecessoras dos vampiros e zumbis que povoam as estantes de hoje em dia: criaturas imaginárias, terríveis e sobrenaturais, que tinham por hábito treinar as filhas nas artes da guerra e acasalar com machos aleatórios uma vez por ano. Ao mesmo tempo, contudo, essas mulheres selvagens tinham características humanas atraentes o bastante para despertar as nossas paixões secretas, nem que fosse aos olhos dos antigos escultores e pintores de vasos. Eu sempre tomava cuidado para não deixar transparecer os meus próprios sentimentos em relação ao tema; interessar-se pelo folclore das amazonas já era ruim, mas revelar que acreditava na existência delas seria pura e simplesmente um suicídio académico.
Assim que o meu chá ficou pronto, sentei-me para estudar a foto do sr. Ludwig com o auxílio de uma lupa. Tinha quase certeza de que conseguiria identificar os caracteres inscritos na parede como pertencentes a algum dos alfabetos antigos mais comuns; quando isso não aconteceu, permiti-me sentir um leve frisson de animação. Após mais alguns minutos de investigação atenta e incompreensão crescente, as possibilidades tornaram-se um arrepio a correr pela minha espinha com a mesma urgência de mensageiros num campo de batalha. O que mais me intrigou foi a universalidade dos símbolos; tinham características que tornavam quase impossível vinculá-los a algum lugar ou período específicos. Eles poderiam ser uma fraude feita naquela parede de gesso rachado logo antes de a foto ser tirada ou poderiam ter milhares de anos. Ainda assim..., quanto mais eu os olhava, mais percebia em mim uma estranha sensação de familiaridade. Era como se em algum lugar, num canto remoto do meu subconsciente, uma fera adormecida estivesse despertando. Será que eu já tinha visto aqueles símbolos antes? Caso sim, não conseguia contextualizá-los, o que me causava grande frustração. Por coincidência, uma amiga de infância, Rebecca, trabalhava havia três anos num sítio arqueológico em Creta, e eu tinha quase a certeza de que ela sabia quais organizações estavam escavando onde e em busca de quê. Com certeza, se alguém tivesse deparado com aquele tipo de inscrição em algum lugar da região mediterrânea e houvesse estabelecido qualquer vínculo com as amazonas, a dra. Rebecca Wharton teria sido a primeira a saber.
Desculpe interromper a sua orgia da meia-noite, falei, quando ela finalmente atendeu o telefone móvel. Fazia mais de um mês que não nos falávamos e, quando ela deu um muxoxo bem-humorado do outro lado da linha, percebi quanto sentia saudades dela. Eu reconheceria aquele riso em qualquer lugar: soava como alguém com ressaca de uísque, mas, no caso da curiosa Rebecca, era a consequência um tanto prosaica de ter passado o dia inteiro com a cabeça enfiada em algum buraco cheio de poeira. Estava pensando em você agorinha mesmo!, exclamou ela. Estou aqui com um coro de gregos gatos servindo-me uvas e me besuntando de azeite. A imagem fez-me rir. A probabilidade de a linda Rebecca ter intimidades com qualquer outra coisa que não fossem fragmentos de cerâmica antiga, infelizmente, era quase nula. Ela era do estilo rebelde, de viseira e short jeans cortado, ficava o dia todo de quatro no meio de um formigueiro de arqueólogos..., mas não tinha olhos para nada além do passado. Embora fosse do tipo que se vangloriava, eu sabia que, por baixo das sardas, continuava sendo a filha do pároco. Foi por isso que não teve tempo para me ligar e contar a grande novidade? Um breve farfalhar sugeriu que Rebecca estava tentando segurar o telefone entre a orelha e o ombro. Que grande novidade? É isso que me vai dizer. Quem está escavando amazonas aí na sua área? Ela soltou um de seus gritinhos estridentes de ave selvagem. O quê? Dê uma olhadela. Inclinei-me para a frente e conferi a imagem na tela do meu computador. Acabei de lhe mandar uma foto por e-mail». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «No rosto de um amigo verdadeiro um homem vê, por assim dizer, um segundo eu. Acho que deve passar alguns dias sem sair da faculdade»

 Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ansiosa para recuperar nosso tom descontraído, ri e falei: eu não ficaria nada espantada se fosse um dos meus alunos preguiçosos... James encarou-me, sério. Não estou vendo graça nenhuma nessa situação. Foi escolhida como alvo, e não estou falando de um trote universitário qualquer. Não se esqueça de trancar a porta hoje à noite.
Ainda chovia quando James me acompanhou até aos meus aposentos do outro lado do pátio, ambos nos esquivando com cuidado das poças escuras na calçada. Era a primeira vez que ele me levava a casa; pelo menos esse agradável desdobramento eu teria que agradecer ao sr. Ludwig. Então, Morg... Ele ergueu um braço para me proteger da chuva quando parei para apanhar a chave. Acho que deve passar alguns dias sem sair da faculdade. Pelo menos não sozinha. Nunca se sabe... Encarei-o, sem conseguir acreditar na sua sinceridade. Deixe de ser ridículo. Se quiser sair, ligue-me que eu vou convosco, completou ele, com a chuva a pingar dos seus cabelos e a escorrer pelo seu nobre rosto. Não foram só as palavras: o tom grave da sua voz penetrou fundo nos meus ouvidos e reverberou nas cavernas de minhas esperanças hibernadas. Ávida por mais, cravei os olhos nos dele..., mas a chuva e a escuridão nublaram o momento. Após uma pausa constrangida, por fim consegui responder, tensa: é muita gentileza sua. Que parvoíce, retrucou James, no tom casual de sempre. Temos que tomar conta de você, não é? E ele afastou-se com as mãos nos bolsos, assobiando uma melodia alegre, enquanto eu me recolhia aos meus aposentos. Ou, melhor dizendo, ao apartamento luxuoso e mobiliado com bom gosto que tecnicamente não era meu, mas do distinto professor Larkin, que, para minha sorte, fora convidado a passar o ano em Yale. Eu não fora a única candidata à vaga de um ano que surgira com a sua ausência, mas eu era mulher, e o corpo docente da faculdade carecia havia muito dessa variedade específica de pessoa. Ou pelo menos fora esse o argumento usado por Katherine Kent para convencê-los a contratarem-me.
Eu não recebia o mesmo salário do professor Larkin, mas, ao assumir o seu cargo, pude abandonar o meu apartamento húmido e mudar-me para o interior da faculdade. O único, porém, era a carga de trabalho. Os meus dias eram tão abarrotados de orientações que quase não sobrava tempo para as minhas próprias pesquisas. Além disso, a menos que eu publicasse uma lista quilométrica de artigos novos e interessantes, com certeza não haveria um cargo permanente à minha espera no final do ano e eu teria de voltar ao meu porão na sinistra Cowley Road para distribuir o meu currículo sem o menor ânimo e espantar camundongos do meu café da manhã. Enquanto enchia a chaleira para fazer um chá antes de ir dormir, fiquei pensando nos acontecimentos do dia e acabei, como era de esperar, com a cabeça no sr. Ludwig. Em poucos minutos, aquele estranho homem havia-me apresentado um ofuscante rol de tentações: glória académica, aventura e dinheiro suficiente para comprar seis meses de liberdade e me dedicar apenas à minha pesquisa. Quem sabe até conseguisse encaixar uma ida a Istambul para procurar Grigor Reznik pessoalmente e convencê-lo a deixar-me ler o Historia Amazonum, único documento original sobre as amazonas ao qual eu não tivera acesso. A minha cabeça fervilhava diante das possibilidades.
Em troca, porém, o sr. Ludwig tinha pedido uma semana do meu precioso tempo e, mesmo que eu tivesse sido doida o suficiente para considerar a sua proposta, não havia como justificar essa ausência, estando apenas um mês no cargo novo. Teria sido outra história se ele me tivesse mostrado algum documento oficial carimbado e assinado, dizendo com precisão o que a sua fundação estava pedindo para fazer e como aquilo ficaria incrível no meu currículo..., mas, do jeito que o convite fora feito, era tudo vago e arriscado demais. De facto, como tanto Katherine Kent quanto James tinham deixado bem claro durante o jantar, seria preciso ser louca da cabeça para apanhar um avião, rumo ao desconhecido. Se ao menos o sr. Ludwig não tivesse dito a palavra mágica. Amazonas. Era óbvio que ele sabia da minha obsessão académica por esse tema, do contrário sequer teria falado comigo. Mas como interpretar a sua afirmação de que eu estava ansiosa por uma prova de que as amazonas tinham mesmo existido? Ele não podia saber quanto eu estava certa nisso. Ou podia?» In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Poemas de Alcipe. Marquesa de Alorna. «Não tardes, hora! Evita que este dia funeste, recordando antigas penas, costume inveterado de agonia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…)
Enquanto Plério Tocava Flauta
Do teimoso desgosto a mão nefanda,
Que o coração me estava comprimindo,
Com susto se desvia, e vai fugindo
Ao Báratro, após Mégera execranda.

Nascei, versos, ao som da flauta branda,
Recreai as Deidades lá do Pindo,
Vá-se o canto sublime, vá-se abrindo,
Que Délio, o mesmo sacro Délio o manda.

A Camena altas músicas descante,
Com a cítara aspergida de ambrosia,
Em honra de Piério hinos levante.

Ó Paz, filha de Apolo e de Harmonia,
Descansa no meu peito um doce instante,
Roubemo-lo ao domínio da agonia!»

Quando assentaram praça o marquês de Fronteira, e seu irmão Carlos Mascarenhas, netos da autora
«Junto às aras de Numes fabulosos
Os mancebos de Atenas se juntavam,
E pela Pátria e Fé ali juravam
Dar a vida em combates sanguinosos.

Fiéis aos juramentos, animosos,
As mais tremendas lides arrostavam,
E ou de louros eternos se coroavam,
Ou seguiam os Manes tenebrosos.

Juraste. Vê perante quem juraste!
Vê com que acções os teus te precederam,
E o que impõe a carreira que abraçaste!

Os teus e os meus, que o Reino defenderam,
Querem de ti que proves quanto baste,
Que desta raça só heróis nasceram».

Por ocasião de partirem dois moços para a guerra
«Para mim nasce o Sol sem claridade;
Envolve-me em tal susto o meu cuidado,
Que nele o pensamento concentrado
Me encobre quanto é menos que saudade.

Embora a Pátria, a honra, a heroicidade
Exija o que poupou meu triste Fado,
Não vacilo: duas vítimas ao Estado
Oferta, voluntária, a lealdade.

Mas que dor, que tormentos e agonia
Mas arranca do peito com um suspiro,
Que desculpe a materna simpatia!

Neste aperto aflitivo, se respiro,
Não vivo já; pois morro cada dia,
De morrer acabando, quando expiro».

Achando-se a autora doente, em perigo de vida
«Este ser, que me deu a Natureza,
Vai desorganizando a enfermidade;
Sinto apagar da vida a claridade,
Doma as corpóreas forças a fraqueza.

Vai crescendo em minha alma a fortaleza,
Quanto cresce do mal a intensidade;
As portas áureas me abre a Eternidade,
E lá cessam cuidados e tristeza.

Vou amar quem somente é sempre amável,
Em oxigéneas luzes abrasar-me,
Nunca errar, nem temer gente implacável.

Vou nos jardins celestes recrear-me,
E no seio de um Deus justo, adorável,
A tudo o que me falta associar-me».

No dia 24 de Julho de 1834, estando muito doente
«Adeus, Sol, de outro Sol imagem bela!
Para mim vão teus raios apagar-se;
Vai minha alma ansiosa colocar-se
Onde não há receios, nem cautela.

Em doce paz, sem susto de perdê-la,
Há de enfim ao Supremo Bem ligar-se;
E da maior delícia irá fartar-se,
Transmigrando feliz de estrela a estrela.

Não tardes, hora! Evita que este dia
Funeste, recordando antigas penas,
Costume inveterado de agonia.

Não me apresentes mais glórias terrenas,
Sem que as possa gozar; é tirania,
Pois de Tântalo à sede me condenas».

Em resposta a Jónio
«Tempera noutro som essa áurea lira;
Não crê Alcipe que te causa espanto.
O seu plectro, banhado há muito em pranto,
Destoa, geme, queixa-se, delira.

Ela assusta-se quando alguém a admira;
Com a luz da Razão destrói o encanto,
Pois do Fado o rigor tem sido tanto,
Que, se canta, conhece que suspira.

O fogo com que Délio resplandece
Só é dado a quem tem contentamento;
Cercado de pesares, esmorece.

A Ventura é quem dá ao verso alento;
Sem ela o génio pasma, desfalece,
Cala-se a Musa, encurta o pensamento.


Lusitânia querida! Se não choro
Vendo assim lacerado o teu terreno,
Não é de ingrata filha o dó pequeno;
Rebeldes julgo os ais, se te deploro.

Admiro dos teus danos o decoro.
Bebeu Sócrates firme o seu veneno;
E em qualquer parte do perigo o aceno
Encontra e cresce o teu valor, que adoro.

Mais que a vitória vale um sofrer belo;
E assaz te vingas de opressões fatais,
Se arrasada te vês, sem percebê-lo.

Povos! A independência que abraçais
Aplaude, alegre, o estrago, e grita ao vê-lo:
Ruína sim, mas servidão jamais!»
Sonetos de Leonor Almeida Portugal Lorena Lencastre
1750 – 1839), in ‘Poemas de Alcipe’


JDACT

sábado, 20 de janeiro de 2018

Poemas de Alcipe. Marquesa de Alorna. «Rompa o espírito em paz liberto os ares, e completem as Parcas agressoras ruínas que fizeram os meus pesares».

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…)
Numa Doença
Àquele espaço que a alma compreende
Os meus passos dirijo temerosa;
Abre-se a Eternidade, que, horrorosa,
Por multidões de séculos se estende.

Mas neste ponto em que Átropos desprende
O fio de uma vida tão penosa,
A mãe, a cara mãe, triste, saudosa,
O pai, a terna irmã, tudo me prende!

Ideias do descanso roubadoras,
Deixai-me junto aos cândidos altares
Pôr fim tranquilo às minhas tristes horas!

Rompa o espírito em paz liberto os ares,
E completem as Parcas agressoras
Ruínas que fizeram os meus pesares».

Sobre a Égloga dos Pomareiros
«Morra a memória da famosa Alcina,
Esqueça-se o poder do mago Ismeno,
Que ao melífluo som do verso ameno,
Surgem bosques, comove-se a campina.

Apenas de Filinto a voz divina
Fere, alegre, o selvático terreno,
Calam-se as Musas, até se cala Alfeno,
Que o grande Vate todo o Pindo ensina.

Brilha suspenso o Délfico luzeiro;
Doce aroma, que os ares embalsema,
Gira em torno do sábio Pomareiro;

E Alcipe absorta, bem que o assunto tema,
Faz ressoar no monte sobranceiro
De rouco Cisne a voz talvez extrema.

Se me aparto de ti, Deus de bondade,
Que ausência tão cruel! Como é possível
Que me leve a um abismo tão terrível
O pendor infeliz da humanidade!

Conforta-me, Senhor, que esta saudade
Me despedaça o coração sensível;
Se a teus olhos na cruz sou desprezível,
Não olhes para a minha iniquidade!

À suave esperança me entregaste,
E o preço do teu sangue precioso
Me afiança que não me abandonaste.

Se, justo, castigar-me te é forçoso,
Lembra-te que te amei, e me criaste
Para habitar contigo o Céu lustroso!»

De Três
Fílis
O Zéfiro em silêncio lisonjeia
Destes vales os álamos frondosos,
Doce frescura espalham amorosos
Os regatos brincando pela areia.

Lília
Que pouco um peito aflito se recreia
Pelos templos de Flora deleitosos!
Que objeto vêm com gosto olhos chorosos,
Se a torrente das lágrimas medeia?...

Márcia
Não vejo ser que o peito não soçobre,
Nem tu, Mudança, escutas meus clamores,
Por mais que os sons variados neles dobre.

Entre teu leve manto furta-cores
A ventura diviso, que se encobre,
Deixando-me tragar dos dissabores.

Fílis
Escassamente o sol já se mostrava
Entre a sombra que as luzes lhe encobria;
Dos pássaros o canto que se ouvia
A ternura e saudades inspirava.

Márcia
Já o mocho noturno se escutava,
Que o retorno das trevas prevenia;
O terror que no peito meu descia
Triste lágrima dos olhos me arrancava.

Lília
Larguei a voz então aos surdos ventos,
Que nas cavernas ásperas, com brados,
Convocavam os sustos macilentos;

Aos soltos ais, nos montes espalhados,
Não respondem os seres sonolentos,
Que não há quem responda aos desgraçados»
Sonetos de Leonor Almeida Portugal Lorena Lencastre
(1750 – 1839), in ‘Poemas de Alcipe’

JDACT

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Ela deu uma gargalhada, revelando a sua garganta, a língua dentro da boca. Parou de rir tão subitamente como começara e pegou nas moedas»

Cortesia de wikipedia

O contrato da carne
«(…) Formavam-se imensas aglomerações diante das vendas e principalmente dos açougues. Os baienses preferem vender o boi no sertão, disse Tenório, pois lá custam por cabeça de quinze a trinta oitavas de ouro. Aqui só conseguem de três a cinco. Além do que, para trazer uma boiada ao Rio de Janeiro demora-se às vezes dois anos, enquanto que pelo São Francisco chega-se às Minas em apenas um mês. Vamos acabar comendo apenas carne de baleia, como nos primeiros tempos. Ninguém respeita o decreto da Coroa que estipula duzentos escravos anuais para serem vendidos nas Minas, os preços lá são muito melhores, não se vende mais nada por aqui, a não ser que um tonto se disponha a pagar como se fosse um minerador. Isso quer dizer que dentro de pouco tempo estarei arruinada? Tenório suspirou, fazendo um gesto com as mãos que significava impotência diante do irremediável. Não há nada a fazer, dona Mariana. Ela levantou-se num ímpeto. Alguma coisa pode ser feita. Vosso primo talvez possa fazer algo por vós, disse o amanuense. Ao final, ele é o governador. Dom Fernando? Não quero dever-lhe nada. Se eu pudesse ajudar-vos... Tenório andou pela sala, pensativo. Então, disse Mariana, tentando convencer a Tenório e a si mesma, se meu pai tem lavras nas Minas Gerais, casa, escravos, arrobas de ouro, retornarei rica. Poderei adquirir os doze cavalos malhados de Augusto para atrelá-los à minha estiva espanhola. Mariana devolveu ao amanuense o maço de folhas. Explicai-me o que está escrito nesses papéis. Enquanto Tenório decifrava as contas em voz alta, explicando os gastos, justificando as dívidas, trocando em números a ruína, Mariana andava de um lado a outro pensando no pai. Teria ele lhe perdoado? Quando partira, dissera-lhe que a deserdaria, que ela não era mais sua filha, que se tornara indigna de usar o nome da família.
O amanuense humedecia na língua a ponta do dedo antes de passar a página. Ele não podia estar roubando nas contas, pensou Mariana, mas talvez a bebida consumisse todos os seus esforços. Mês, Abril; balanço, mil e um; saldo positivo, seis contos de réis. Ajuste no preço de sete mil para sete mil e quinhentos réis. Isso significa; senhor Tenório. Ele parou com a leitura. Achais que ele me perdoou? Não posso afirmar, senhora. Vede isso aqui, três cavalos doentes. Gastos com estrebaria, selas. Nenhum cavalo vendido em Maio. Moscas no estrume. Será que vou encontrá-lo ainda vivo? Já vos decidistes? Pensai bem, senhora. De que servem as viandas se não nos engordam?

Tenório saiu. No pátio, conversou rapidamente com um escravo e descobriu que Valentim descera pela encosta meridional do morro do Alto, em direcção à zona agrícola do sul. Presumiu, imediatamente, onde o rapaz podia estar hospedado. O amanuense desceu a ladeira do Poço do Porteiro. Ao longe, viu um cavaleiro a trotar para o Cara de Cão, uma capa preta voando, a extremidade da arma iluminada pelo sol, o chapéu redondo à cabeça. Seguiu nessa direção. As botas de Tenório afundavam nas areias húmidas e fofas da praia; ele ofegava e suava. Para subir o morro teve que parar e descansar muitas vezes. O Cara de Cão, uma nesga de terra à entrada da barra, com edifícios velhos, uma ermida, guaritas, casa-forte, dava vista para uma grande porção da baía de São Salvador do Rio de Janeiro. Tenório parou à entrada de um edifício onde estava amarrado um cavalo com arreios de corda e mantas no lugar da sela. Maior e mais alta que as outras, a casa tinha as janelas todas fechadas e ramos na porta. Um lugar que Tenório conhecia muito bem. Entrou. Na sala havia uma rede, uma arca, uma imagem de Jesus crucificado, um candeeiro, um bufete, uma mísula, tamboretes. O chão era liso, varrido. Meretrizes, negras ou mestiças, em volta de uma mesa jogavam cartas de baralho. Tenório olhou uma a uma, rosto após rosto. Tinham algo de cansaço e tédio. Ao ver Tenório, uma delas sorriu, zombeteira. Olhai quem está aí, ela disse. As outras voltaram o rosto para ele. Que os demónios me levem, pois sou eu mesmo. Elas se desinteressaram e voltaram a jogar. Tenório aproximou-se de uma mulher bonita, de olhos amargurados, sentada numa cadeira taxeada, ao fundo da sala. Quero falar contigo, disse ele. Sem dinheiro novamente? Tenho isso aqui, Tenório mostrou umas moedas. Ela deu uma gargalhada, revelando a sua garganta, a língua dentro da boca. Parou de rir tão subitamente como começara e pegou nas moedas. Quero saber sobre um viajante que está hospedado aqui, disse Tenório». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.


Cortesia de ESchwarcs/CdasLetras/JDACT

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Os trabalhadores, os negociantes, todos estavam passando às Minas. Até os holandeses dos engenhos. Os plantadores de cana…»

Cortesia de wikipedia

O contrato da carne
«(…) Tenório surgiu à porta, trazendo papéis nas mãos. Ele já foi? Sim. Ouvistes a conversa? Ouvi, dona Mariana. Meu pai sonhava um dia voltar a ficar rico, disse Mariana. Para comprar um navio e morrer no mar. Por isso foi para as Minas. E, em parte, parece que saiu-se vitorioso. Ele, que sempre fracassou em tudo. Tenório estendeu o maço de papéis, segurando-os com as suas mãos marcadas de veias. Tinha o ar derrotado. Terminei o trabalho, dona Mariana. Não são boas as notícias… Estou com pouco lucro? Pior. Quase sem dinheiro. Custa-me a crer nas notícias que me dais. Pois devíeis pedir a vosso primo que examine esses papéis com cuidado. Está tudo aí. Mariana passou as folhas uma após outra, cheias de números cuidadosamente alinhados em colunas. Não conseguia deter-se em nenhum detalhe, as garatujas giravam confusas diante de seus olhos. Odiou-se por não saber números, nem letras. Não é possível. Ainda tenho escravos, casas, cavalos... Tenório ajeitou o laço do pescoço. Disse que o Rio de Janeiro estava-se tornando um monte de notáveis destroços. As capitanias arruinavam-se, as cidades dos litorais serviam apenas de pousada, os portos se enchiam de estrangeiros que tratavam logo de seguir para o sertão bravo. Não é possível... Não é possível...
Os trabalhadores, os negociantes, todos estavam passando às Minas. Até os holandeses dos engenhos. Os plantadores de cana, os de fumo, os que produziam géneros naturais afligiam-se com a falta de força de braços. Vossos feitores, tratadores, mecânicos foram embora, disse Tenório. Queriam receber como califas. Nas Minas costumam pagar muito bem pelos trabalhos. Agora só há ânimo para o ouro. Não creio que estejais de olhos bem abertos. O que Mariana via, pela janela, eram novas construções e novos armamentos, a cidade crescendo para os lados do Boqueirão. Da gente que desembarcava, nem todos iam para as Minas, mas, ao contrário, ficavam, encantados com a pura claridade do ar do Rio de Janeiro, com a beleza das colinas, dos edifícios. Os nobres andavam com brocados de ouro e prata guarnecidos de fitas e franjas, as casas enchiam-se de sumptuosos móveis holandeses. Dizia-se que a última frota partira do Rio de Janeiro com duzentas arrobas de ouro. Além do que levaram escondido nas cavernas, disse Mariana. Tenório ouvia, sem muita coragem de contestar a sua senhora. Até as negras adornam os cabelos com ouro!, continuou Mariana. O bispo mandara uma carta ao rei reclamando da sumptuosidade dos enfeites que as escravas usavam para despertar lascívia nos homens. E as carruagens novas que passam nas ruas? E as frotas de comércio que aportam e despejam caixas e mais caixas de mercadorias? Isso significa dinheiro, todos estão prosperando, é o que se comenta na cidade.
Estão cegos, senhora, deliram. Se para alguns as coisas aparentam prosperidade, deve-se olhar atrás dos morros, nos recôncavos. Ide aos campos, ide ao Engenho d'Água, ide à Gamboa e tereis um retrato do que realmente ocorre. Esse era o equívoco dos ricos, pensou Tenório. Ficavam em suas casas, apáticos, indolentes, enquanto os amanuenses, as criadas, os cocheiros, os escravos andavam pelas ruas buscando suprir as necessidades dos senhores, resolvendo os seus problemas, fazendo as suas compras, os seus pagamentos, atracando-se na feira, aspirando o fedor dos becos e assistindo à calamidade com os próprios olhos. Começavam a faltar mercadorias. A cada dia tinha-se que pagar mais caro por géneros de menor qualidade. Muitos comerciantes não aceitavam senão ouro como pagamento». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ESchwarcs/CdasLetras/JDACT

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Manda-o embora. Oh, o homem veio de tão longe, suplicou Aurora. Mariana hesitou. Fala-me mais sobre ele, disse à criada»

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O contrato da carne
«(…) A criada de quarto, Aurora, entrou na sala e anunciou a chegada de um visitante. Quereis que eu fique?, perguntou Tenório. Não, disse Mariana. O amanuense retirou-se para a sala onde trabalhava. O homem falou que tem um assunto muito importante a tratar, disse Aurora. Mariana sentiu um leve tremor. Como é ele? Descreve-o para mim. A senhora não há de acreditar. As roupas mais esquisitas que jamais vi: um chapelão de aba caída, camisa aberta no peito, cinto de couro, pistola, faca, botas grosseiras. É negro? Mestiço?, perguntou Mariana. Branco! Tem o peito e os braços peludos. Deve ser mascate. Garantiu que nada tem para vender, disse Aurora. De onde veio ele? Das Minas do Sertão, disse a criada. Talvez traga notícias de vosso pai, ou um presente mandado pelo barão. Se veio das Minas pode ser algo de ouro. Um anel, brincos, braceletes, disse Aurora, sonhando acordada. Quando um desconhecido nos traz um regalo, em seguida faz um pedido. Mariana recebera alguns estranhos em sua casa, quase todos trapaceiros, espiões, curandeiros, caçadores de heranças ou prerrogativas, advogados procurando clientes parvos ou coisas piores. Manda-o embora. Oh, o homem veio de tão longe, suplicou Aurora. Mariana hesitou. Fala-me mais sobre ele, disse à criada. Parece-me que tem todos os dentes na boca. Onde haveria de tê-los? Nas orelhas? Fale-o esperar um pouco, disse Mariana. E depois manda-o entrar. Decidiu receber o visitante ali mesmo, recostada na poltrona. Estava farta da preguiça, cansada da modorra do Rio de Janeiro. A solidão que escolhera agora a enfadava. Havia anos deixara de frequentar as assembleias familiares nos sobrados dos nobres, onde as maiores diversões eram a hipocrisia e a maledicência.
Valentim entrou. Tinha vinte anos, era magro e usava roupas sujas de poeira. Trazia o chapéu na mão. Observou, de maneira discreta, a dama de pele alva, cabelos negros, roupa escura; uma figura sepulcral. As mulheres nas Minas tinham a pele queimada pelo sol, mas aquela ali era marcada pela noite. Dona Mariana de Lancastre? Sim, sou eu. O que quereis? Vosso pai pede que vossenhora vá para as Minas Gerais encontrar-se com ele. Aurora tinha razão, pensou Mariana. Um mensageiro de dom Afonso. Porque pedir a uma dama que se mova para tão longe assim? Acaso meu pai está prisioneiro, ou inválido? Não poderia ele vir ao meu encontro? Compreendo os vossos sentimentos. Mas o barão tem um bom motivo para fazer-vos tal pedido. Sentai-vos, Mariana indicou a cadeira. Estou bem em pé. Agradeço. Meu pai passa por alguma dificuldade? Não, absolutamente, não se debate em tribulações. Porque ele mandou vós? Sois empregado dele? Somos amigos e ele confia em mim. Conheço bem os caminhos. Comigo estareis segura. Porque motivo, afinal, o barão de Lancastre deseja ver-me? Valentim fez uma pequena pausa. Vosso pai está à morte. Mariana sentiu-se empalidecer, como se o sangue tivesse parado de circular em seu corpo, embora o coração batesse descompassadamente. As suas mãos ficaram frias. Valentim aguardou uns instantes, antes de prosseguir na sua mensagem. Perdoai-me falar nisso neste momento, mas foi um desejo expresso de vosso pai: ele pretende deixar-vos uma herança. Possui uma boa casa, vinte e quatro escravos, datas demarcadas. Juntou cinco arrobas de ouro. Isso é muito, embora haja homens que possuem cinquenta arrobas.
Era intrigante a maneira correcta como Valentim se expressava. O domínio das palavras costumava ser circunscrito ao clero e a raros nobres e advogados. Em que arraial está o meu pai? No de Ouro Preto, na região das Minas Gerais. Podemos ir pelo mar até ao lugar de Parati, e depois... Podemos? Mas eu não disse que irei. Quero um dia para pensar. Como quiserdes. Valentim retirou-se. Mariana ouviu o canto de Aurora na cozinha; embora tudo permanecesse aparentemente igual, o dia não voltara à sua normalidade». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

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