terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Carícias da Noite. Laurell Hamilton. «Só as orelhas pontiagudas denunciavam que ele era mestiço, como eu própria, como Nicca. Podia esconder as orelhas com todo aquele cabelo, mas quase nunca o fazia»

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«(…) Na escuridão semi-iluminada pelo luar não conseguia ver-lhe claramente as costas, nem mesmo os ombros. Grande parte dele estava perdida sob o lençol. Era nas suas costas que residia a maior surpresa. O pai dele havia sido uma criatura com asas de borboleta não pertencera aos Sidhe, mas não deixara de ser um ser feérico. A genética havia-lhe delineado asas nas costas, como se fosse uma tatuagem gigante, à excepção de serem mais vividas, mais vivas do que qualquer tinta o poderia fazer. Uma explosão de cores começava na parte superior dos seus ombros, percorria-lhe as costas, passava pelas nádegas, fluía sobre as ancas e ia tocar-lhe na parte de trás dos joelhos: castanho muito claro, castanhos-amarelados, círculos de azul cor-de-rosa e preto como ocelos nas asas de uma traça. Estava deitado na escuridão de tal modo esvaziada de qualquer cor que ele e Rhys eram como duas sombras embrulhadas na cama, uma pálida, outra escura, apesar de haver coisas mais escuras ainda do que Nicca, muito mais escuras.
A porta do quarto abriu-se sem qualquer ruído e, como se eu o tivesse invocado, Doyle entrou lentamente no quarto. Fechou a porta por trás dele tão silenciosamente como quando a abrira. Nunca entendi como é que ele fazia aquilo. Se tivesse sido eu a abrir a porta, teria feito barulho. Mas quando Doyle queria, movia-se como o próprio cair da noite: silencioso, leve, imperceptível até nos apercebermos que apagaram a luz e que estamos sozinhos no escuro com algo que não conseguimos ver. A alcunha dele era o Negrume da Rainha, ou simplesmente Negrume. A rainha diria: onde está o meu Negrume? Tragam-me o meu Negrume!, o que significava que, em breve, seria derramado o sangue de alguém ou que alguém morreria. Mas agora, estranhamente, ele era o meu Negrume.
Nicca era castanho, todavia, Doyle era preto. Não era preto como a cor preta da pele humana, mas da absoluta escuridão de um céu à meia-noite. Ele não desapareceu no quarto obscuro, porque era mais escuro do que as sombras iluminadas pelo luar. Era uma forma sombria que deslizava na minha direcção. Os jeans e a t-shirt pretos dele serviam-lhe como uma segunda pele. Nunca o vira usar qualquer coisa que não fosse monocromática, excepto as jóias e as espadas. Até o coldre de ombro e a arma dele eram pretos. Afastei-me da janela para me colocar de pé, à medida que ele se aproximava de mim. Teve de interromper o seu movimento deslizante quando chegou à cama king-size, visto mal haver espaço onde se pudesse comprimir entre a cama e as portas do armário. A visão de Doyle a deslizar ao longo da parede sem tocar na cama era simplesmente impressionante. Ele era trinta centímetros mais alto do que eu e, provavelmente, era quarenta e cinco quilos mais pesado do que eu, maioritariamente compostos por músculo. Eu teria batido contra a cama uma dúzia de vezes, no mínimo. Ele passou facilmente por aquele espaço estreito como se qualquer outra pessoa devesse ser capaz de o fazer.
A cama ocupava grande parte do quarto, por isso, quando Doyle finalmente me alcançou, fomos obrigados a ficar de pé, quase encostados um ao outro. Ele conseguiu manter um pequeno espaço de intervalo entre nós com o intuito de nem mesmo as nossas roupas se roçarem. Era uma distância artificial. Teria sido mais natural se nos tocássemos, e só o facto de ele se esforçar tanto por não o fazer levou a que se tornasse algo ainda mais embaraçoso. Era algo que me incomodava, contudo, desistira de discutir com Doyle acerca do seu afastamento. Quando o questionava quanto ao assunto, ele apenas respondia: quero que me veja como alguém especial, não quero ser somente mais um entre a ralé. No início, parecera-me uma atitude nobre, mas agora era meramente irritante. Aqui, junto à janela, a iluminação era mais forte, o que me permitia ver parte da curva delicada das suas elevadas maçãs do rosto, o queixo demasiado afiado, as zonas curvas das suas orelhas e o brilho prateado dos brincos que lhe delineavam a cartilagem até às pequenas argolas situadas exactamente no topo pontiagudo.
Só as orelhas pontiagudas denunciavam que ele era mestiço, como eu própria, como Nicca. Podia esconder as orelhas com todo aquele cabelo, mas quase nunca o fazia. O seu cabelo escuro como breu estava penteado como de costume: com uma trança bem apertada que fazia com que o seu cabelo, visto de frente, parecesse ser bastante curto. A ponta da trança, porém, chegava-lhe aos tornozelos. Ele sussurrou: ouvi qualquer coisa, a voz dele soava sempre num tom baixo e sombrio, como um licor adocicado para o ouvido e não para o paladar. Ergui o olhar para ele. Qualquer coisa ou eu a andar por aqui? Os seus lábios contorceram-se, era a expressão mais próxima que ele normalmente tinha de um sorriso. A Meredith. Abanei a cabeça, de braços cruzados. Ter dois guardas na minha cama não é protecção suficiente?, sussurrei de volta. São bons homens, mas não são como eu. Franzi-lhe o sobrolho. Estás a dizer que não confias em mais ninguém além de ti para me manter a salvo?, as nossas vozes soavam num tom calmo, praticamente pacífico, tal como as vozes de pais preocupados em não acordar os filhos adormecidos. Era reconfortante saber que Doyle estava tão alerta. De entre todos os Sidhe, ele era um dos melhores guerreiros. Era bom tê-lo do meu lado». In Laurell Hamilton, Carícias da Noite, 2003, Edições Saída de Emergência, 2013, ISBN 978-989-637-493-8.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

Carícias da Noite. Laurell Hamilton. «Não era moreno, era sim da cor de folhas caídas no chão da floresta durante muito tempo até à altura em que, ao serem varridas…»

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«A luz do luar prateava o quarto, pintando a cama com centenas de tons cinzentos, brancos e pretos. Os dois homens deitados na cama estavam profundamente adormecidos. Estavam a dormir tão intensamente que mal se mexeram quando saí do meio deles. A minha pele emitia um brilho produzido pelas carícias do luar. O vermelho-sangue puro do meu cabelo agora parecia preto. Vestira um robe de seda, porque estava fresco. As pessoas até podem falar da Califórnia soalheira, mas durante a madrugada, quando a alvorada não passa ainda de um sonho distante, está sempre muito frio. A noite que caíra, qual bênção agradável, para lá da minha janela era uma noite de Dezembro. Se estivesse em casa no Illinois, ter-se-ia sentido o cheiro a neve, quase suficientemente estaladiça para se derreter na língua. Fria o suficiente para queimar os pulmões. Tão fria que era tal e qual como respirar fogo gelado. Era esse o sabor que o ar devia ter no início de Dezembro. A brisa que rastejava pela janela por trás de mim continha um travo seco a eucalipto e o aroma do mar longínquo. Sal, água e algo mais. Aquele odor indefinível que nos lembra o oceano não um lago, não algo utilizável, algo bebível. Pode-se morrer de sede à beira de um oceano.
Permanecera durante três anos no litoral deste oceano em particular e morri um pouco todos os dias. Não literalmente, sobrevivera, mas a mera sobrevivência pode tornar-se bastante solitária. Eu nascera princesa, princesa Meredith NicEssus, membro da corte real das Fadas. Eu era uma fada princesa da vida real, a única alguma vez nascida em território norte-americano. Os meios de comunicação haviam dado em doidos há três anos, quando desapareci. Avistamentos da princesa americana das Fadas competiram com os avistamentos de Elvis. Eu fora localizada por todo o mundo quando, na realidade, permanecera o tempo inteiro em Los Angeles. Escondera-me, tornara-me na comum Meredith Gentry, Merry para os meus amigos. Não era mais do que outro ser humano com antepassados feéricos a trabalhar para a Agência de Detectives Grey, onde nos especializávamos em problemas sobrenaturais e em soluções mágicas.
A lenda diz que um ser feérico exilado do mundo das Fadas definhará e morrerá. Isso tanto é verdade como mentira. Os meus antepassados transmitiram-me sangue humano suficiente para permitir que não me sinta incomodada ao estar rodeada por metal e tecnologia. Alguns dos seres feéricos menos poderosos definhariam e morreriam literalmente numa cidade construída por humanos. No entanto, a maior parte dos seres feéricos consegue viver numa cidade; podem não ser felizes, mas sobrevivem. Uma parte deles, porém, realmente desvanece, aquela parte que sabe que nem todas as borboletas que vemos o são verdadeiramente. Aquela parte que viu o céu nocturno preenchido por uma precipitação de asas, como um vento tempestuoso, asas de carne e escamas que levavam os humanos a murmurar designações como dragões e demónios; aquela parte que assistiu a viagens de Sidhe em cavalos feitos da luz das estrelas e de sonhos. Essa parte começa a morrer.
Eu não me exilara, eu fugira, porque não conseguia sobreviver às tentativas de assassinato. Simplesmente não possuía a magia nem o poder político para me proteger a mim própria. Salvara a minha vida, mas perdera outra coisa. Perdera o contacto com Fadas. Perdera o meu lar. Agora, ao debruçar-me sobre o meu peitoril, com o aroma do oceano Pacífico pelo ar, baixei o olhar para os dois homens e soube que estava em casa. Ambos pertenciam à corte real Sidhe, eram Sidhe Unseelie, faziam parte daquela multidão sombria que, um dia, talvez eu viesse a governar, se conseguisse manter-me um passo à frente dos assassinos. Rhys estava deitado de barriga para baixo, com uma mão pendurada para fora da cama e a outra perdida algures por baixo da almofada dele. Até mesmo em repouso aquele braço visível era musculado. O seu cabelo era uma catarata cintilante de caracóis brancos, que lhe acariciavam os ombros despidos e se derramavam ao longo das suas costas fortes. O lado direito do seu rosto estava pressionado contra a almofada e, por isso, não me era possível ver as cicatrizes da zona onde lhe fora retirado o seu olho. A sua boca perfeita estava para cima, meio sorridente enquanto dormia. A sua beleza era, de certo modo, infantil, e assim o seria para sempre.
Nicca estava deitado de lado, todo enroscado em si próprio. Acordado, o seu rosto era atraente, quase na fronteira do bonito; a dormir tinha as faces angélicas de uma criança. Tinha um ar inocente, frágil. Até o seu corpo era mais macio, menos musculado. As suas mãos, porém, estavam calejadas devido ao manejo da espada e, por baixo da suavidade da sua pele, havia puro músculo. Contudo, em comparação com os outros guardas, ele era mais cortesão do que mercenário. A cara tanto condizia com o corpo como não. Media pouco mais de 1,83 m, a maioria dos quais correspondiam a umas longas, longas pernas; a sua cintura estreita e os seus braços graciosos balançavam-se sobre todo aquele comprimento. Nicca era maioritariamente caracterizado por tons castanhos. A pele dele era da cor de leite com chocolate e o cabelo que lhe caía directamente até aos joelhos detinha um rico e puro tom castanho-escuro. Não era moreno, era sim da cor de folhas caídas no chão da floresta durante muito tempo até à altura em que, ao serem varridas, apresentam um castanho rico e húmido, algo em que se pode mergulhar as mãos e de onde estas saem molhadas e a cheirar a uma nova vida». In Laurell Hamilton, Carícias da Noite, 2003, Edições Saída de Emergência, 2013, ISBN 978-989-637-493-8.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

Escutar a Literatura. Vieira Carvalho. «Há casos em que só alguns é que tocam, cantam e dançam, e outros casos em que a comunicação musical é generalizada. Mas todos os procedimentos estão organicamente estruturados»

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Universos Sonoros da Escrita. Música e dialéctica da escuta
«(…) Nas condições correntes de fala, no quotidiano, raramente as alterações do médium acústico são (consideradas em si mesmas) objecto de representação ou de descodificação. Por exemplo, num concurso para locutor radiofónico, é testada a voz dos candidatos, e, portanto, o que conta são os estados do medium e não a mensagem ou os signos linguísticos veiculados. Mas fora de situações deste tipo, os níveis que prevalecem na comunicação falada são o terceiro, o da representação por substituição ou signo convencional, e o segundo, representação do todo pela parte. Já na música se dá, e desde tempos ancestrais, uma verdadeira inversão da hierarquia. A representação por transformação e a descodificação de sintomas de transformação ganha aí enorme importância sociológica: determinam se o instrumento que se pretende vender ou adquirir tem ou não a sonoridade adequada, se a voz é adequada à admissão num coro e qual é a sua tessitura, se o músico entoou com exactidão a altura dos sons que lhe competem numa prática mágica ou se merece a morte imediata por ter falhado e desse modo suscitado a ira dos deuses (dado que qualquer desvio de uma fórmula já consolidada na prática liquidava o seu efeito mágico e podia suscitar a ira dos poderes sobrenaturais, a rigorosa fixação dos padrões das alturas tornava-se no sentido do termo uma questão vital, e cantar mal um crime a ser expiado, não raro castigado com a morte imediata do culpado, e daí a extraordinária força conferida aos intervalos estereotipados mal entram por qualquer razão canonizados) Em A Tragédia da Rua das Flores, de Eça de Queirós, num serão em casa de Madame de Molineux, em que se canta ópera e um dos convidados é um primo uomo do S. Carlos, a anfitriã é cumulada de elogios, quando ela própria faz demonstração dos seus dotes vocais: tem uma fortuna na garganta!, comenta um dos presentes.
É uma situação típica de descodificação de sintomas de transformação. A lisonja significava que a amadora burguesa tinha voz para fazer carreira profissional como prima donna. A história da música está cheia de casos reais similares, de Farinelli a Pavarotti. Tudo começou para eles com a matéria-prima vocal, isto é, a representação e a descodificação de sintomas de transformação. Coisa que, por contraste, não tem obviamente qualquer relevância para o maior ou menor êxito noutras profissões. Originariamente a música nasce ligada ao mundo vivido, não está separada deste nem organizada num sistema autónomo independente das funções mais imediatas do quotidiano. Cantar e tanger instrumentos, normalmente em associação com a dança, são, por exemplo, práticas comuns em cerimoniais mágicos ou de culto, largamente documentadas na iconografia e noutros testemunhos histórico-arqueológicos ou, ainda hoje, pela observação directa de estudiosos de culturas tradicionais europeias ou extraeuropeias. Em tais situações, ou noutras equiparáveis, rituais fúnebres, festivos, etc., a que poderíamos chamar, por comodidade, situações etnográficas, o modelo de comunicação musical é fundamentalmente o da representação do todo pela parte (do lado do produtor) e da descodificação de sintomas contextuais (do lado do receptor). Estamos em cheio no já referido segundo nível de comunicação.
Neste caso, e como bem acentua Kaden, há uma ligação orgânica de ambos, tanto do produtor como do receptor, ao todo representado no processo musical. Os elementos da comunidade são todos simultaneamente emissores e receptores, pois todos estão envolvidos activamente no ritual. Há casos em que só alguns é que tocam, cantam e dançam, e outros casos em que a comunicação musical é generalizada. Mas todos os procedimentos estão organicamente estruturados, quer os especificamente musicais, quer os não musicais, e remetem uns para os outros numa rede de rectroações que mutuamente se condicionam (estrutura de comunicação coloquial). Se nos concentrarmos nos eventos sonoros a que chamamos música, então qualquer elemento envolvido na comunicação, ao fazer música, está a apontar de uma forma implícita para o contexto a que ela se encontra organicamente ligada». In Mário Vieira Carvalho, Escutar a Literatura, Universos Sonoros da Escrita, Edições Colibri, Universidade Nova de Lisboa, CESEM, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-689-427-6.

Cortesia EColibri/JDACT

A Favorita do Rei. Sandra Worth. «O meu pai partiu para a guerra e, na sua ausência, a minha mãe chorava e gritava: que desgraça! Que desgraça! A avó Jacquetta dizia-lhe sempre: vai correr tudo bem, minha filha. Eu sei que vai...»

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A filha do rei. 1470
«(…) A tua mãe não queria que eu te informasse, disse ele por fim. Mas achei que devias saber. Saber o quê, papá? Prometi-te em casamento a Jorge Neville, sobrinho do conde de Warwick. Warwick, o Fazedor de Reis? Warwich, corrigiu o meu pai. É um erro dizer isso a respeito dele. Não devo a minha coroa a ninguém. O papá deve ter percebido como me senti mal, porque deu-me um beijo na testa e acrescentou num tom diferente: Jorge é bom rapaz e mais ou menos da tua idade. Tenho a certeza de que vais gostar dele e, se não gostares, perdoas-me, Isabel? Eu tinha de fazer isto. Porquê, papá? É difícil explicar, mas deixa-me tentar. O conde de Warwick tem um irmão que é um grande general. É-me leal, embora Warwick encabece a revolta contra mim. O irmão, o conde de N-North-amber-land? Entaramelou-se-me um pouco à voz ao pronunciar uma palavra tão comprida e o papá riu-se. Northumberland. És inteligente para a tua idade, Isabel. A tua mãe disse que não compreenderias, mas compreendes, não é verdade? Abanei vigorosamente a cabeça. A minha mãe não gostava de mim por eu ser uma rapariga e não um rapaz, e julgava-me estúpida. Eu não era estúpida. Só não queria falar muito porque preferia ouvir. Puxei a minha manta preferida que estava em cima da cama. Era de veludo azul e cor de vinho e, só de acariciá-la, sentia-me sempre mais calma. Warwick faltou à palavra que me deu, disse o meu pai e calou-se outra vez. Por causa da mamã, pensei. Mas não disse nada. O meu pai falou.
E o irmão, Northumberland, chefia as minhas forças. Terá que lutar por mim contra os do seu sangue. Não posso esperar que ele faça tal coisa e, portanto, retirei-lhe o condado. Em troca, prometi-te em casamento ao filho, para que ele possa sentir que recebeu algo precioso em troca da perda de poder. Puxei a manta mais para mim ao pensar nisto. Envergonho-me de admitir que ainda durmo enroscada numa manta, porque uma menina à beira dos cinco anos não devia precisar disso. Mas tenho a certeza de uma coisa. Embora um dia venha a prescindir da minha manta, precisarei sempre do meu pai. A felicidade é estar na presença dele; a felicidade é sentar-me ao colo dele a ouvir uma história ou percorrer os salões do castelo às suas cavalitas. Mesmo quando julgo que vou escorregar, não me assusto porque sei que ele não me deixaria cair. Como poderia eu viver sem ele? Terei de separar-me de si, papá? Sustive a respiração enquanto esperava pela resposta. Não por muito tempo, minha querida. O calor voltou. Ainda bem. Não quero deixá-lo, papá. Quero que fiquemos juntos para sempre, para sempre. O meu pai riu-se. Em seguida, observou-me com um ar solene. Adoro-te, minha linda Isabel. Que Deus em toda a Sua infinita misericórdia te conceda felicidade em todos os dias da tua vida, minha doce menina. Era uma bênção, mas a entoação dele fez-me sentir muito triste.
De repente, a vida mudou. O meu pai partiu para a guerra e, na sua ausência, a minha mãe chorava e gritava: que desgraça! Que desgraça! A avó Jacquetta dizia-lhe sempre: vai correr tudo bem, minha filha. Eu sei que vai... Mas a mãe parecia não a ouvir porque chorava ainda mais alto. À minha volta, os criados em pânico corriam de um lado para o outro como se o diabo os perseguisse, benziam-se, aterrados, e suplicavam à Virgem Maria que os salvasse. Mas ninguém me explicava o que estava a correr mal. Quando volta o meu pai?, perguntava-lhes eu. Eles recomeçavam a chorar, cobriam a face e fugiam. As mesmas pessoas que se haviam rido e divertido no meu aniversário em Fevereiro, e eu não percebia por que motivo era agora tudo tão diferente. Sentia-me muito só e assustada». In Sandra Worth, A Favorita do Rei, A Primeira rainha Tudor, 2008, tradução de Maria F. Duarte, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-657-165-8.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Para lá da Terra do Fogo. Eduardo Belgrano Rawson. «Havia uma cordilheira que terminava na costa e o Atlântico penetrava até ao coração da montanha. Estes braços de mar eram bons refúgios para passar os temporais ou para carregar água doce de alguma cascata»

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A ilha dos Guanacos
«(…) Abingdon só valia como posto de salvamento de náufragos enquanto restavam canaleses que podiam ser trazidos para aqui. Mas estes pobres diabos que sobram não distinguiriam um náufrago de um mexilhão. O Almirantado não vai dar nem um centavo para este assunto. Como sabia aquilo? Era difícil dizer. Talvez o tivesse lido num diário bombista, daqueles que costumavam chegar à sua cabina. Os anarquistas tinham gozo em propalar essas histórias. Talvez o capitão estivesse a interpretar a seu bel-prazer a leitura de algum derrotista. Ou certamente tudo era produto da sua grande ignorância que o levava a confundir o arcebispo com o Almirantado Britânico. Levantou-se com esforço e caminhou debaixo da neve alheio à tormenta que se tinha desencadeado, a viúva agarrou-se à garrafa. Nunca tinha considerado o assunto sob esse ponto de vista; que houvesse uns quantos que tomassem Abingdon como um mero refúgio de náufragos. Mas a ideia parecia tão extravagante que a expulsou da cabeça. Fez um brinde ao arcebispo da América do Sul. Pouco mais tarde flutuava no seu sonho do costume: o arcebispo desembarcava durante um entardecer inesquecível. As ovelhas pastavam junto da margem, o chão estava resplandecente com as margaridas e os bandos de papagaios chilreavam no bosque de magnólias, enquanto os seus sobrinhos de Londres brincavam à bola.
Havia uma cordilheira que terminava na costa e o Atlântico penetrava até ao coração da montanha. Estes braços de mar eram bons refúgios para passar os temporais ou para carregar água doce de alguma cascata. Da coberta avistavam-se perfeitamente os caranguejos que caminhavam no fundo. As margens estavam povoadas de mirtos e o vento trazia com frequência o estalar das geleiras. Noutro tempo estes lugares tinham sido os melhores sustentáculos das goletas que andavam à caça dos lobos-marinhos, quando disparavam de uma velha lancha a vapor em busca de caçadores furtivos. Mas quase não havia lobos e os caçadores estavam na maior das misérias. No entanto os seus perseguidores não lhes davam quartel. Os caçadores de lobos, desesperados por esse assédio, resolveram culpar o Governo pelo assassínio de um canoeiro. Segundo eles, dois naturalistas que viajavam naquela lancha tinham cozinhado vivo um canalês para lhe limpar o esqueleto.
Que disparate, senhor, protestou um dos acusados enquanto esfregava uma escova de dentes sobre um crânio recoberto de barro. Era o professor Brainbridge Montagu E. C., autor de quinze monografias sobre a dentição do índio americano. O cronista olhava para ele deslumbrado. O professor Montagu escovava a boca do crânio. Este desgraçado vivia aos gritos. Olhe o tamanho do abcesso, explicou ao assinalar um oco gigantesco na mandíbula. Acrescentou: é pena que estes ossos caiam nas mãos de não importa quem. Olhe para este outro, falta-lhe uma rodela na cabeça. Deram-lhe com um machete. Mas ainda há-de aparecer um tarado a publicar um trabalho demonstrando que lhe fizeram uma trepanação. Não parava de resmungar enquanto ia fazendo medições. Canoeiros fervidos..., já não sabem que merdas hão-de inventar. Traga uns quantos litros de genebra e vai conseguir um cemitério completo. Procurou freneticamente um livro, uma bibliografia onde aparecia o seu nome. Eu descobri o esqueleto do primeiro conde de Warminster. Acha que preciso de andar a fazer coisas estranhas?» In Eduardo Belgrano Rawson, Para lá da Terra do Fogo, 1991, 1999, Quetzal Editores, 2009, Lisboa, ISBN 978-972-564-784-4.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Opus Dei. Rui Pedro Antunes. «Até 1935, o Opus Dei funcionou, no entanto, à margem da Igreja Católica. E muito limitado, isto porque em 1931 é implantada a Segunda República Espanhola…»

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Um homem, a igreja e a maçonaria branca
«(…) Mais tarde, ofereceria à Igreja uma organização que promove precisamente o sofrimento como forma de aproximação a Deus: o Opus Dei. Até 1935, o Opus Dei funcionou, no entanto, à margem da Igreja Católica. E muito limitado, isto porque em 1931 é implantada a Segunda República Espanhola, com inspiração anticlerical e fortemente influenciada pela maçonaria. O governo republicano (de esquerda) começa a hostilizar sacerdotes e Josemaría aprofunda as suas reflexões contra o ateísmo e começa a frequentar grupos de conspiradores contra o governo. O primeiro retiro do Opus Dei é organizado já em 1953, num evento com pouca gente, mas com a participação de conspiradores contra o governo republicano. No mesmo ano, abre o primeiro centro do Opus Dei: a Academia DyA, em Madrid, que, como o nome indica (Derecho y Arquitectura), era direcionada para estudantes de Direito e Arquitectura e que acabou por se transformar em residência universitária. O facto de ser opositor dos republicanos fez com que o fundador da obra ganhasse estatuto e influência no período pós-Guerra Civil. Francisco Franco venceu e a conjuntura, com uma ditadura de direita, conservadora e clerical, começou a ser favorável a Josemaría e ao crescimento do Opus Dei. O general não esqueceu o apoio do fundador do Opus Dei durante a Guerra Civil, chegando a integrar a primeira coluna militar liderada por Franco no ataque a Madrid. Na sequência desta ligação, o ministro da Educação e da Cultura do primeiro governo franquista, José Ibáñez-Martín, nomeou mesmo Escrivá membro do Conselho Nacional de Educação. Era um lugar que apreciava, pois podia influenciar a deriva da cultura, da educação e dos costumes do país, algo que tentou fazer ao longo da vida com os milhares de membros que foram passando pela organização que fundou. Uma espécie de aculturação, em nome de Deus. Em 1939, Escrivá escreve a obra Caminho, que tem 999 máximas e é uma espécie de guião espiritual do Opus Dei. Começa também toda a fase de preparação da organização tal como hoje é conhecida. A 14 de Fevereiro de 1943, é fundada a Sociedade Sacerdotal de Santa Cruz, que acaba por ser a primeira forma de organização reconhecida pela Igreja. Em Junho do mesmo ano, o bispo Eijo Garay requer a legalização do Opus Dei como uma associação de fiéis, o que será aceite pelo bispo de Madrid, em Dezembro. Quatro anos depois, é a vez de o Vaticano, já em 1947, decretar o Opus Dei como instituto secular, ficando com o nome oficial de Sociedade Sacerdotal de Santa Cruz e Opus Dei, Em 1982, João Paulo II oficializa o Opus Dei como a primeira prelatura pessoal da Igreja Católica. Estatuto que ainda tem hoje». In Rui Pedro Antunes, Opus Dei, Matéria-Prima Edições, Lisboa, 2016, ISBN 978-989-769-075-4.

Cortesia de MPrima Edições/JDACT

Opus Dei. Rui Pedro Antunes. « Promoveu o culto da personalidade em torno da sua imagem, mudou de nome para que não fosse associado a uma origem judaica e fez a sua organização crescer de mãos dadas com o ditador Franco»

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Eles estão no meio de nós
«(…) É isso que aqui apresentamos. Relatos inéditos de membros, ex-membros, lesados, ajudados, ao lado de petites histoires nunca antes contadas do universo Opus Dei, tornam mais visível como funciona a obra quer no mundo, quer em Portugal. A parte documental também é um dos segredos, tendo sido utilizadas fontes como o registo comercial, documentos governamentais, o folhetim Romana, documentos judiciais (desde o Tribunal da Relação a Varas Cíveis), documentos internos da obra e outras publicações oficiais. Tudo isto em mais de três anos de investigação. Em Portugal, o Opus Dei não tem a força de sociedades como as duas maiores obediências maçónicas, mas tem muito poder. E não é o poder que torna o prelado perigoso, é mesmo a ideologia. É como se houvesse o continuar de alguns dos brandos costumes do Estado Novo, onde, curiosamente, o Opus Dei sofreu com a desconfiança da PIDE (algo que até é currículo e não cadastro para a obra). Mas há ainda muitos Fs, como Fátima (muito importante na entrada da obra em Portugal, por intervenção da irmã Lúcia), Fado (de uma vida em que a alegria é desvalorizada e substituída por um sofrimento em nome de Deus) ou o Futebol (o desporto como uma forma de manter o corpo são, para ajudar a mente a não desviar do Caminho). Tudo isto a juntar a uma postura da organização sobre a sociedade moderna e de choque com a realidade que chega a ser constrangedor, de tão naif que é. Há sempre resposta para tudo nesta instituição conservadora: as mulheres é que limpam e cozinham? É porque têm mais jeito. Dormem em cima de tábuas? Isso é cada uma que decide. Usamos um arame farpado na perna? Dói pouco e não faz sangue. Proibimos livros e filmes? São só conselhos. Desincentivamos o uso de biquíni e de decotes? O pudor tem vantagens. No fim do dia, tudo é normal para quem dirige a obra, mostrando que os seus membros vivem numa autêntica bolha. O pouco que evoluiu em quase 90 anos de vida demonstra que ainda faltam muitos milhares de caracteres para que o Opus Dei se torne numa instituição dentro dos parâmetros da sociedade moderna, livre e justa. Aqui ficam mais umas centenas de páginas como contributo.
Um homem, a igreja e a maçonaria branca
Promoveu o culto da personalidade em torno da sua imagem, mudou de nome para que não fosse associado a uma origem judaica e fez a sua organização crescer de mãos dadas com o ditador Franco. A descrição podia encaixar em outras figuras mais mediáticas e non gratas da primeira metade do século XX, mas é referente a Josemaría Escrivá Balaguer, um basco que em torno da sua figura criou uma das mais conservadoras estruturas da Igreja Católica: o Opus Dei. A origem do Opus Dei confunde-se com a história deste homem que a criou. Nascido em Barbastro, uma aldeia na região de Aragão (Espanha), a 9 de Janeiro de 1902, numa família de classe média, Josemaría Escrivá terá crescido debaixo de uma forte protecção materna, o que condicionou a visão que teria do papel das mulheres na sociedade. Ainda hoje, as mulheres são vistas na obra como alguém mais vocacionado para a lida da casa, sofrendo de uma visão misógena e machista que corre nas veias da organização. Ataques de epilepsia fizeram com que a progenitora praticamente não deixasse o pequeno Josemaría conviver com outras crianças. A falta de mundo exterior nota-se nos vários momentos da vida do fundador do Opus Dei. Apos a formação em instituições da Igreja Católica, Josemaría inicia o seu caminho para o sacerdócio aos 16 anos, idade em que entra para o seminário. Aos 18 anos, Josemaría decide estudar Direito em Logroño e terá sido tão medíocre que, anos mais tarde, um padre que foi seu professor chegou a confidenciar que o fundador do Opus Dei era então um homem obscuro, não encontrando o padre Mindán explicação para um indivíduo de tão poucas luzes poder chegar tão longe. Em 1925, Josemaría é finalmente ordenado padre, com 23 anos, tendo uma imagem inconformada da Igreja Católica, que defendia então parecer um edifício em ruínas, um monte de areia que desaba, um panteão que se extingue, que se destrói. Embora existam várias dúvidas sobre a data oficial de fundação do Opus Dei, terá sido em 1928 que Josemaría decidiu fundar o Opus Dei em Madrid, inspirado por visões. Nas várias biografias que existem é feita uma referência a um forte nevão, durante a época natalícia, como um episódio decisivo para a vida que Josemaría levou. Há um dia em que, durante esse nevão, 10 anos antes de fundar a obra, Josemaría repara nas pegadas na neve de um frade carmelita que caminhava descalço. Aí começou a questionar-se: se há pessoas que fazem tantos sacrifícios por Deus e pelo próximo, não serei eu capaz de Lhe oferecer alguma coisa?» In Rui Pedro Antunes, Opus Dei, Matéria-Prima Edições, Lisboa, 2016, ISBN 978-989-769-075-4. 
Cortesia de MPrima Edições/JDACT

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «Registe-se a tradição de que, em meados do século XIX, haveria uma corrente dentro da M. portuguesa que desejava que esta fosse a continuadora da Ordem de Cristo e à qual não seria estranha a figura do grão-mestre Costa Cabral»  

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Maçonaria, Rosacrucianismo e Templarismo
«(…) Para Pessoa, embora sejam vias distintas, existe uma perfeita articulação de complementaridade entre o Rosacrucianismo, o Templarismo e a Maçonaria: a Ordem Templária  da Escócia havia criado a M. (Maçonaria) como Ordem Mística. Os Rosicrúcios recrearam-na como ordem Mágica. À Ordem de Cristo competiu o fazer que houvesse nela uma Ordem Alquímica. Podemos dizer, na mesma linguagem maçónica, que a Maçonaria foi entrada pela Ordem do Templo, passada pelos rosicrúcios, erguida pela Ordem de Cristo. Desde que cumpriu a sua missão o emissário português, ficaram na Ordem Maçónica os elementos espirituais e transmutação. Quem quiser e souber buscá-los, os encontrará. A M. (doravante, Maçonaria) continuou, na sua aparência secreta, sempre a mesma; mas um novo espírito havia penetrado nela desde que Ramsay falara; um espírito ainda mais alto se despertara nela desde que ela falou o emissário do Ocidente. Está claro que esta afirmação é mais do que uma constatação histórica (pois a Ordem de Cristo existiu como sucessora da Ordem do Templo, é um verdadeiro programa iniciático no qual Pessoa parece estar empenhado e determinado a contribuir para o seu êxito. Neste sentido vale a pena referir o resto deste fragmento do espólio do Poeta: doravante referir-me-ei no termo Ordem do Templo à Ordem Templária da Escócia, para que não confunda com a ordem maçónica que tem este último nome; no termo Ordem de Cristo à Ordem Templária de Portugal, que é a parte interior da outra, hoje extinta. Fernando Pessoa refere-se aqui à tradição do templarismo esotérico, segundo a qual a Ordem do Templo teria um núcleo central, secreto, detentor de uma doutrina espiritual oculta, de natureza gnóstica. Parece ter a ver com isso a frase do Poeta; ... veio a formar-se, com certos fins místicos e secretos, dentro do seio visível da Igreja de Roma, uma Ordem que foi designada por Ordem Militar do Templo de Salomão. Os seus servos, iniciados ou não, são os que designamos pela abreviação de Templários. A esta Ordem Mística foram confiados os segredos e a tradição da Igreja Gnóstica (...) possuidora das chaves dos íntimos mistérios; foi a ela a que mais tarde se haveria de chamar, na linguagem dos Rosicrúcios, a Igreja Mística.
É interessante constatar duas notas que Pessoa dá sobre a Ordem de Cristo e ambas referentes ao século XIX: uma, do começo do século, que podemos encontrar em Miguel António Dias (1853), Anais e Código da Franco-maçonaria em Portugal, sobre um tal Nunes, português, ao que parece pouco recomendável, que foi a França vender o sonho de uma Ordem de Cristo ressurgida numa perspectiva iniciática (Nunes quis fundar uma O.C. dentro da M.. Isso estava de antemão condenado...; a outra, bastante enigmática e que levanta algumas dúvidas sobre a sua autenticidade, as provas da O.C. sob elas ficou esmagado Antero de Quental, que nunca passou de escudeiro. (A sua associação com elementos maçónicos e semelhantes, em parte contribuiu para sua derrota astral). Registe-se a tradição de que, em meados do século XIX, haveria uma corrente dentro da M. portuguesa que desejava que esta fosse a continuadora da Ordem de Cristo e à qual não seria estranha a figura do grão-mestre Costa Cabral, conde de Tomar, que comprou parte do Convento de Cristo para sua residência (e não sabemos se para outros fins...); testemunhos indirectos dessa corrente vêm pela mão dos seus críticos, como por exemplo, Borges Grainha (in História da Franco-Maçonaria em Portugal).

Rosacrucianismo
Vejamos, entretanto, a definição que Pessoa dá de Rosacruciano: podemos dizer Rosicruciano um indivíduo pertencente à chamada Fraternidade da Rósea Cruz (não da Rosa-Cuz) (...) alguém que pertença à Ordem Rosicruciana, ou, até, a qualquer das Ordens dela derivadas, o que tal pretendam, a G:, D:, A:, A:, e outras (...). A Ordem Rosicruciana, a Ordem-mãe, apareceu (ao que parece) no século XVII), não se sabe bem onde nem como, desenvolveu-se quantitativa e ritualmente, no século XVIII, em que se tornou maçónica, isto é, pôs como condição de admissão o ser-se Mestre Maçon, sob qualquer obediência regular, e subsiste hoje, com certas rectificações, e de novo (outra vez) sem a condição maçónica. Na sua primeira fase criou ou transformou a M., a Ordem Externa como estes Rosicrucianos lhe chamam». In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sábado, 3 de dezembro de 2016

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Percorrer com a língua o sexo de uma mulher. Senti-lo estremecer ao toque dos dentes. Transformar dentes e língua em instrumentos de silêncio e mansidão, oferecê-los à boca do corpo de uma mulher»

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«A minha vida ficou decidida no instante em que salvei uma mulher das ondas do mar. A acção heróica completa: agarrei num mergulho o corpo inerte, trouxe-o para a praia, fiz-lhe respiração boca-a-boca e assisti ao seu regresso à vida. Quando os primeiros socorros chegaram já estava tudo resolvido. E eu sabia duas coisas: em primeiro lugar, que queria ser médico. Em segundo, que os seios arfantes de uma mulher eram um excelente substituto do paraíso. Mais tarde perceberia que tudo cansa, a salvação ou o paraíso. Tudo se repete. A vida dura cada vez mais tempo, as coisas repetem-se, matemáticas. Quanto mais evidente se torna a repetição, maior se torna a aceleração. A repetição torna-se epidemia, a epidemia instala o pânico e a velocidade. Mais do mesmo, cada vez mais depressa. Sobram-nos as pequenas coisas. Se as pudermos agarrar. Se nos concentrarmos nisso ao ponto de encontrarmos um domicílio fixo para elas. As coisas de que ninguém fala, as coisas sem valor. A cabeça de Ana Lúcia movimentando-se sobre o meu colo, por exemplo. Os méritos do sexo oral são muito subestimados. A pouco e pouco, a ideia da produtividade infiltrou-se e começou a dominar todos os nossos actos, restringindo-os ao ritmo binário, monocórdico, do útil e do inútil. Como se as nossas existências não se encontrassem já saturadas de bifurcações: ricos e pobres, saudáveis e doentes, vencedores e vencidos, feios e bonitos. Pagámos um alto preço pela morte de Deus: a perda da tridimensionalidade. Falta-nos um interlocutor desinteressado, alguém que não nos sirva, que não nos utilize, que nos ensine a sair do nosso invólucro produtivo e a entender a gratuita e caótica beleza do mundo. Percorrer com a língua o sexo de uma mulher. Senti-lo estremecer ao toque dos dentes. Transformar dentes e língua em instrumentos de silêncio e mansidão, oferecê-los à boca do corpo de uma mulher, deixarmo-nos guiar pela luz do seu desejo e gozar com o gozo dela. A experiência sublime de causar uma felicidade instantânea a outro ser. Ou oferecermos o mais precioso e estúpido pedaço do nosso corpo à língua de uma mulher, conduzi-la até ao cume da montanha do nosso prazer, derramarmo-nos na sua boca: tomai-me e bebei-me. Esta forma de intimidade tornou-se escandalosa e risível, não serve para fabricar crianças, não é um exercício de poder, não é sequer um exercício. Tudo o que for exercício está justificado: mais saúde, melhores músculos, um admirável contributo para o trabalho das aparências. O século XXI nasceu um puritano disfarçado de tolerante. Há dias prenderam um rapaz e uma rapariga por estarem a fazer sexo oral dentro de um carro, num ermo, à luz do dia. Atentado ao pudor, escreveu-se nos autos. Hoje exerci o meu acto de cidadania solidária com esse par, praticando sexo oral dentro de um carro, à hora dita de almoço, junto desse monumento arquitectónico de vanguarda que é a Ponte Vasco da Gama.
As honras da ideia, em boa verdade, têm de ser atribuídas à minha amiga Ana Lúcia. Já não a via há semanas e de repente ela telefonou dizendo que precisava de estar comigo hoje, nem que fosse só por uma hora. E hoje, precisamente, eu não tinha mais do que isso. Pediu por favor, expressão inédita nela. Costuma dizer que antes morrer do que pedir um favor a alguém. Combinou encontro comigo à beira-rio, debaixo da ponte, porque era o local deserto mais próximo para ambos. Não percebi a urgência, mas já me habituei às surpresas da frenética Ana Lúcia. Entrei no carro dela e começou logo a beijar-me, enquanto me desapertava as calças, me acariciava e se enganchava em mim, coberta pela saia rodada. Estranhei-lhe, não a fogosidade mas a desenvoltura, Ana Lúcia tem pavor de ser apanhada em falta em sítios públicos. Nessas coisas não se lembra de ser feminista. No sexo também não, e eu agradeço isso. Hoje não sei o que lhe deu. Da segunda vez insistiu, contra os meus protestos democráticos, em querer chupar-me até ao fim e beber-me. Quero que não consigas esquecer-me. Quero ficar com o teu sabor. O temporal protegeu os nossos arroubos. A chuva e o vento eram demasiado fortes para que ladrões, violadores ou autoridades policiais viessem interromper-nos. A ponte e o rio diluíam-se nas cordas de água que desabavam sobre o carro. O universo desfazia-se. Estávamos sozinhos e suados no extremo oriental da cidade, no meio do dilúvio derradeiro. A chuva escureceu os olhos de Ana Lúcia quando olhei para o relógio: Desculpa, menina, és muito bonita mas eu tenho de ir salvar mais umas vidas. Dez minutos. Não dá mesmo. Vontade não me falta, tu sabes. Sei. Vontade não te falta, pois. Entrei a correr no bloco operatório. Contra as normas: nos hospitais a serenidade é obrigatória. Como se dominássemos o tempo». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN: 978-972-204-047-1.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

Nas Tuas Mãos. Inês Pedrosa. «Quando agora olho tranquilamente para as fotografias da vossa juventude, vejo dois rapazes elegantes procurando atenuar pela distinção dos adereços, os chapéus de aba larga»

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«A tua cabeça rodou na direcção do meu rosto, os teus olhos fecharam-se e a tua boca avançou para a minha, através de uma lenta rota de luz, risos e lágrimas. Quando os teus dentes morderam os meus lábios alguém gritou Bravo! como na ópera e eu soube que nunca uma rapariga havia sido assim amada. Espere, dizias tu, connosco há-de ser diferente. Travavas-me o corpo todo com um beijo na palma da mão, os meus dedos agarravam-se, entontecidos, à curva funda das tuas pálpebras, e desse canto macio de pele eu inventei um homem para sonhar até ao dia branco da nossa eternidade. António. Dou-te esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade. António. Muito prazer. Chamo-me António José Castro Morais mas toda a gente me trata por To Zé. Raptaste-me ao terceiro dia: Jennifer. Diga à sua mãe que hoje está muito cansada para passear e venha comigo ver a vida verdadeira. O meu nome é Jenny, porque o pai que eu não cheguei a conhecer adorava a heroína da Família Inglesa do Júlio Dinis, uma família aliás semelhante à nossa no culto discreto da riqueza como prolongamento físico da solidez espiritual. Mas tu, António, preferias outra coisa. Eu restituía-te o nome de origem, nem sequer era capaz de pronunciar esse diminutivo portátil que te fazia de toda a gente, e tu inventavas-me para lá do livro de onde eu tinha saído.
Naquela época parecia-me que estas intenções contrárias eram a mesma, um código de segredo automático que escrevia a grande evidência do amor. Só na noite do nosso casamento descobri que havia outra pessoa que te soletrava António, querido. Meu querido. Cuidado. É o auge do sol e todas as formas da montanha se rendem ao totalitário peso da luz. Vais andando, com os binóculos apontados ao mais longínquo dos cumes, e de repente vejo o teu pé direito no ar, sobre o precipício. Grito cuidado e abraço-te pelas costas, cais sobre mim no alto de Meteora. Pões um braço sob a minha cintura, e a tua face recortada a contra-luz rasga-me com a insuportável beleza de uma aparição. Como te chamas, anjo-da-guarda? Foi a única vez em que me trataste por tu. Fizeste o resto da viagem connosco, nesse Verão de 1935. Vinhas dos Mosteiros do Monte Athos, onde nem a sombra de uma mulher se permite, nós vínhamos da desilusão de Atenas, que a minha pobre mãe definia incessantemente como a viúva alegre dos Deuses, para dar a entender que era culta, mordaz e muitíssimo viúva. Não me lembro de nenhuma das másculas estátuas dos museus de Salónica, apenas manchas de mármore sobre as quais os teus dedos evoluíam, longos, quase impúdicos pela transparência dos ossos e das unhas. Esse fascínio pelos teus dedos valeu-me meia dúzia de vitórias ao gamão, no dia em que me levaste às escondidas a ver a vida verdadeira nas sombras sumptuosas das igrejas ortodoxas e nos cafés do cais, povoados de velhos marinheiros gregos com gestos muçulmanos. Explicavas-me as regras mas eu não conseguia ouvir-te, embrulhava-te a voz na velocidade das palavras e na cor incerta da íris, quando sorrias era verde-clara e depois tornava-se castanha, o nariz afilado, perfeito e imóvel como uma decisão, a boca excessiva destoando, lábios grossos com os cantos virados para baixo como uma permanente trincheira de desconfiança.
Nunca fui de falar muito. A minha mãe reforçava convenientemente a minha incomunicabilidade doutrinando-me na lei da poupança verbal: uma ideia, meia palavra. Seguia-te desesperadamente o trilho dos dedos sobre as peças de madeira para que me julgasses inteligente, capaz de te vencer. Nunca mais voltaria a ganhar-te. Dizem que o amor se faz de uma comunidade de interesses subterrâneos, restos de vozes, hábitos que nos ficam da infância como uma melodia sem letra, paixões pisadas na massa funda do tempo, mas nesses anos entre guerras os sentimentos explicados não interessavam a ninguém. O amor era então uma criação fulminante do tédio e da inocência, feito do carnal recorte da beleza, magnífico de crueldade. Amei-te de repente, com a luminosa injustiça que me afastou de todos os que me amaram por me serem semelhantes. Amaram-me ainda mais depois, durante o nosso longo noivado, que me tornou mundana, e adoraram-me a partir do dia em que me fiz oficialmente tua mulher, ouvia-os sussurrar que estranho, está cada vez mais menina, nunca se viu um caso assim.
Namorámos em bailes e recepções, eu dava-te a mão e o Pedro pegava-me logo na outra mão, sentia a inveja alastrando pelos salões como um perfume sensual, eram meus os dois rapazes mais desejados de Lisboa. Talvez não fossem sequer excepcionalmente bonitos. Quando agora olho tranquilamente para as fotografias da vossa juventude, vejo dois rapazes elegantes procurando atenuar pela distinção dos adereços, os chapéus de aba larga, os foulards de seda lavrada, os coletes italianos, os casacos de ombros largos - certas irregularidades de formas e traços. Eram magros, o Pedro ligeiramente mais alto do que tu e quase macilento». In Inês Pedrosa, Nas Tuas Mãos, Publicações dom Quixote, colecção BIS, 2009, ISBN 978-989-660-000-6.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «De curtas e compridas tem-nos chamado de tudo. O médico escreveu no bloco: cab…, curtas, compridas, riscou um traço por baixo como se preparasse uma soma e acrescentou em maiúsculas Car… A enfermeira…»

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«(…) Adiante, perto da 8.a, dois sujeitos de bata branca erguiam o capot de um Toyota para lhe examinar o funcionamento das vísceras orientais. Estes amarelos sacanas começaram pelas gravatas ambulantes, já nos colonizam de rádios e automóveis e qualquer dia fazem da gente os kamikazes de Pearl Harbour futuras; marralhos para dar com os cor… nos Jerónimos no Verão, a dizer banzai, quando casamentos e baptizados se sucedem em ritmo trepidante de metralhadora mística. A doente (quem entre aqui para dar pastilhas, tomar pastilhas ou visitar nazarenamente as vítimas das pastilhas é doente, sentenciou o psiquiatra no interior de si mesmo) apontou-lhe ao nariz as órbitas enevoadas de comprimidos e articulou numa determinação tenaz: seu cab… A dona Maria II encolheu os ombros a fim de bolear as arestas do insulto: está nisto desde que veio. Se assistisse à cena que ela armou para aí com a família o senhor doutor até se benzia. De curtas e compridas tem-nos chamado de tudo. O médico escreveu no bloco: cab…, curtas, compridas, riscou um traço por baixo como se preparasse uma soma e acrescentou em maiúsculas Car… A enfermeira, que lhe espreitava sobre o ombro, recuou um passo: educação católica à prova de bala, supôs ele medindo-a. Educação católica à prova de bala e virgem por tradição familiar: a mãe devia estar rezando a Santa Maria Goretti enquanto a fazia. A Charlotte Brontë a cambalear à beira do KO químico voltou para a janela uma unha onde o verniz estalava: alguma vez viu o sol lá fora, seu cab…? O psiquiatra gatafunhou Car…  + Cab… = Grande Fo…, rasgou a página e entregou-a à enfermeira: percebe?, perguntou ele. Aprendi isto com a minha primeira mestra de lavores, diga-se à puridade e de passagem que o melhor clitóris de Lisboa. A mulher empertigou-se de indignação respeitosa: o senhor doutor anda muito bem disposto mas eu tenho outros médicos para atender. O homem lançou-lhe, num gesto largo, a bênção urbi et orbi que seguira uma vez pela televisão: ide em paz, soletrou ele com sotaque italiano. E não percais a minha mensagem papal sem a dar a ler aos bispos meus dilectos irmãos. Sursum corda e Deo gratias ou vice-versa. Fechou cuidadosamente a porta atrás dela e voltou a sentar-se à secretária. A Charlotte Brontë mediu-o de pálpebra crítica: ainda não decidi se você é um cab… simpático ou antipático mas pelo sim pelo não co… da mãe. Co… da mãe, meditou ele, que exclamação adequada. Moveu-a dentro da boca com a língua como um caramelo, sentiu-lhe a cor e o gosto morno, recuou no tempo até a encontrar a lápis nos sanitários do liceu entre desenhos explicativos, convites e quadras e a recordação enjoada dos cigarros clandestinos comprados avulso na Papelaria Académica a uma deusa grega que varria o balcão com o excesso dos seios, demorando nele pupilas vazias de estátua. Uma senhora magrinha com ar subalterno apanhava malhas num canto sombrio anunciada por letreiro a escantilhão na montra (Malhas Com Perfeissão e Rapidês) tal como os cartazes pregados às grades do Jardim Zoológico avisam os nomes em latim dos animais. Cheirava persistentemente a lápis viarco e a humidade e as damas das redondezas com as compras da praça embrulhadas em papel de jornal vinham queixar-se às mamas helénicas, em murmúrios desolados, das suas misérias conjugais povoadas de manicuras perversas e de francesas de cabaré que lhes seduziam os maridos ao dobrarem em quatro, ao ritmo afrodisíaco da Valsa da Meia-Noite, a nudez experiente dos quadris. O negro que se masturbava no pátio iniciou para edificação dos serventes contorções orgásticas desordenadas de mangueira à solta. L’arroseur arrosé. Incansável, a Charlotte Brontë voltou à carga: oiça lá seu artolas, conhece a dona disto? E depois de uma pausa destinada a deixar alastrar no médico o pânico escolar da ignorância assentou uma palmada proprietária na barriga: sou eu. Os olhos que desdenhavam o psiquiatra raiaram-se de súbito de tracinhos métricos de duplo-decímetro: não sei se o despeço ou se o nomeio director: é consoante. É consoante? É consoante a opinião do meu marido domador de leões de bronze marquês de Pombal Sebastião Melo». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1979, 1983, Publicações dom Quixote, BIS, Grupo Leya, 1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Poesia Nua. «Volta esta noite para mim, volta esta noite para mim. Canto-te um fado, no silêncio, se quiseres, mando recado ao luar, que se costuma deitar ao nosso lado, para não vir hoje, se tu vieres»

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Fado para esta noite

«Volta esta noite p’ra mim,

volta esta noite p´ra mim.

Canto-te um fado, no silêncio, se quiseres,

mando recado ao luar, que se costuma deitar

ao nosso lado, para não vir hoje, se tu vieres.


Anda deitar-te, fiz a cama de lavado,

cheira a alfazema, o meu lençol de linhado,

pus almofadas com fitas de cor.

Colcha de chita com barras de flor

e à cabeceira, tenho um santo alumiado.


Volta esta noite para mim,

volta esta noite para mim.

Canto-te um fado, no silêncio, se quiseres,

mando recado ao luar, que se costuma deitar

ao nosso lado, para não vir hoje, se tu vieres.


Pus o meu xaile p’ra te servir de coberta

um solitário ao pé da janela aberta

pus duas rosas que estão a atirar

beijos vermelhos, sem boca para os dar

sem o teu corpo, minha noite está deserta.


Volta esta noite p’ra mim.

Volta esta noite p’ra mim.

Ser abraçada, por teus braços atrevidos

quero o teu cheiro sadio, neste meu quarto vazio,

de madrugada, beijo os os teus adormecidos.


Mando recado ao luar, que se costuma deitar,

ao nosso lado p’ra não vir hoje, se tu vieres».

In César de Oliveira, Rogério Bracinha


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Desamparo. Inês Pedrosa. «Diz que deprimiu, entrou em crise existencial, foi parar ao psiquiatra, andou a tomar remédio para a cabeça, caiu de cama e veio se curar em Portugal, me chamou para cuidar dele lá em Lisboa, na casa do irmão»

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«(…) Ele virá antes que o sol me mate. Eu sei que ele virá. Pois se me telefonou falando que viria. Falou: minha mãe, essa semana sem falta eu vou visitar a senhora. A vizinha Rosário achou que eu estava maluca, que tinha inventado o telefonema. Tanto eu brinquei que estava doido na, que agora me tratam como doida, mesmo. Quem me mandou gostar de brincar com todo o mundo? Com esse dia assim azul e quente, é hoje que ele vem. Toda a vida amei a praia e o sol; de manhã cedinho corria até à Praia do Flamengo para nadar antes de ir para o trabalho. Agora essa luz toda vai acabar comigo. Que vergonha, se o meu filho me encontrar caída na laje, o vestido branco de linho que eu mesma bordei feito um trapo velho. E isso que ele vai encontrar, um farrapo de chão em vez de uma mãe, na casa que foi da avó dele e que ele chama de favelada. A única casa a que pude chamar minha, herança de minha mãe, que me renegou duas vezes e depois me chamou para tomar conta dela na velhice. A minha casa de laranjeiras, limoeiros, roseiras e pássaros. Onde será que anda a minha gatinha? Queria enxergá-lo só mais uma vez, ao meu filho mais velho, esse que me rejeitou. Faz quinze anos que não tenho essa alegria. Diz que deprimiu, entrou em crise existencial, foi parar ao psiquiatra, andou a tomar remédio para a cabeça, caiu de cama e veio se curar em Portugal, me chamou para cuidar dele lá em Lisboa, na casa do irmão. Fiz muito bacalhau cozido com grão-de-bico, que ele adora desde criança, muita cabidela de galinha, para puxar o sangue, e ele foi melhorando. Sobretudo dei a ele muito amor de mãe, fiz-lhe muito cafuné. Ao fim de três meses estava bom, acabou se empolgando e comprando casa de férias em Sintra, voltou para o Brasil e nunca mais quis saber de mim. Não, não vou pensar assim. Eu quero a felicidade dos meus filhos. Rafinha tem lá a sua mulher, a sua filha, os seus problemas, as suas mágoas guardadas contra mim. Apanhou muito quando era menino, é verdade. Papai do Céu que me perdoe, eu não sabia como dar educação àquele menino e ainda trabalhar, cuidar da casa, chefiar atelier de costura e atender freguesa ao mesmo tempo. Isso sem a ajuda do pai, que nessa altura trabalhava à noite no jornal e aparecia em casa, quando aparecia. Rafinha estava sempre aprontando. Mandava o irmão pequeno enfiar o garfo na perna da empregada. Aterrorizava os garotos na hora do almoço, botava arroz no copo de suco deles, quando não lhes esvaziava uma garrafa d’água gelada na cabeça. Na rua era o brigão, era mau para os colegas do futebol. Chegava a meter o pé na frente para o amiguinho cair. Na escola, a directora estava sempre me chamando: minha senhora, o Rafael está suspenso, e eu sem saber o que fazer ou como explicar. Era um menino muito difícil, sempre acobertado pelo pai, que achava bonito o filho ser assim, manias de machão. Para ele, homem que é homem não podia levar desaforo para casa. No fundo, aquilo era para chamar a minha atenção. Era ciúme. Ciúme dos irmãos mais novos. Rafinha foi muito estragado pelo pai, eu educava de um lado e Ramiro deseducava do outro.
Como eu adorava aquele homem, Nossa Senhora. E tanto que ele andou atrás de mim para me conquistar. Essa foi a época dourada da minha vida: desquitada, independente. Desejada. Um pedaço de mulher, corpo de nadadora bem torneado, com tudo em cima. Bem firme na ideia de nunca mais ser controlada seja por quem fosse: nem por mãe de criação, nem pelo meu pai, pelo meu ex-marido, por homem nenhum. Eu tinha talento para a moda, ah, se tinha. Cheguei a ter três costureiras trabalhando em casa, noite e dia, fazendo vestido de gala para as madames, tudo com pedras preciosas bordadas à mão. Fiz seis vestidos para o lendário baile do Theatro Municipal do Rio, no Carnaval de 1954. Vestidos de luxo que nem em Hollywood. Não esqueço o orgulho que senti, no meio da multidão da Cinelândia, vendo desfilar as minhas criações na entrada do Theatro. Nem tinha inveja dos grã-finos que podiam entrar ali, bastava-me com os bailes oficiais dos clubes e sociedades, era sempre a mais bem vestida. De manhã cedinho ia nadar no Flamengo, e esse bonitão de bigode me seguia. Ramiro Lobo. Fiscal da Prefeitura, terno branco, gravata colorida, boa figura, comum sorriso feito de goiabada. Nos conhecemos porque em 1952 eu aluguei um quarto na casa da mãe dele. Estava no meu esplendor, com vinte e muitos anos, fazendo nome e dinheiro como modista, livre do casamento com o Álvaro, um minhoto bruto, em que me lançara aos dezoito anos só para me libertar da vida de escrava que me impunha a mulher do meu avô.
Tudo parecia novo e cheio de futuro naquele princípio dos anos cinquenta no Rio de Janeiro. Logo, logo, arrumei um apartamento no Flamengo, mas ele continuou me perseguindo, me esperando na porta, me acompanhando na praia. Era uma coisa..., chegava a sair cedo da casa da mãe em Copacabana para me ver nadar na Praia do Flamengo. Ah, Ramiro, como é que você pôde me trair tanto? Não, não vou pensar nisso, eu já o perdoei há muito tempo. Rosário, minha vizinha, minha santa, me acode! Ninguém me ouve, meu Deus. Morro de sede aqui caída em frente da minha própria porta. Como foi acontecer isso? O diabo do meu joelho me traindo. Esse joelho não gosta de mim, quer me punir por todas as coisas feias que eu fiz. Logo eu, que sempre vivi em busca da Beleza. Minhas rosas estão tão bonitas». In Inês Pedrosa, Desamparo, 2015, Publicações dom Quixote, 2015, ISBN 978-972-205-669-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Desamparo. Inês Pedrosa. «Preferem o sol às chuvas inclementes que por vezes também assolam o simpático país, definido no início do século XX pelo mais internacional dos seus poetas como o rosto que a Europa mostra ao mar»

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«Um silêncio em bruto, como se o torno do mundo não tivesse ainda começado a rodar. Manchas estáticas de verde, pomares interrompidos por casas brancas, amarelas, algumas, poucas, com pórticos em ferro lavrado, escadarias flanqueadas por leões ou jarrões de pedra, dois andares e pátios onde ao fim-de-semana estacionarão automóveis urbanos. Nem os cães ladram debaixo da canícula. Os pássaros desistiram de voar. Na aldeia de Arrifes, concelho de Lagar, milenar dote de princesas e rainhas, nada se move. A carrinha do Centro Social já fez o seu turno, pelas nove da manhã, com duas mulheres de bata azul, para ajudar os velhos que vivem sós a levantarem-se, lavarem-se, vestirem-se, dar-lhes o pequeno-almoço e a medicação e deixar-lhes o almoço. Voltará a meio da tarde com o jantar. Há outra carrinha que os leva para o Centro de Dia, onde podem ver televisão, jogar às cartas ou fazer ginástica. A maior parte deles não quer ir. Dizem que a companhia dos outros velhos os cansa. No parque exterior da turística vila de Lagar, os autocarros continuam a desaguar rios de estrangeiros de chinelos e calções. O calor não os incomoda, sentam-se nas esplanadas a fotografar as muralhas e pedem sangria gelada ou o celebrado licor local, de pêra-rocha, com muitos cubos de gelo. Portugal visto dali é uma paisagem medieval com água potável e confortos modernos, povoada por gente humilde, prestável, dedicada à ciência de ser feliz com pouco. A poucos quilómetros encontrarão praias selvagens e hotéis rodeados de aprazíveis campos de golfe. Preferem o sol às chuvas inclementes que por vezes também assolam o simpático país, definido no início do século XX pelo mais internacional dos seus poetas como o rosto que a Europa mostra ao mar.
Um empregado de café diz a um grupo de turistas que têm sorte, luck, very luck, porque de um calor destes não há memória. Se bem que ele, excepto por motivos comerciais, até prefira a chuva; o caminho da chuva trouxe-o a Lagar há exactamente doze anos. Caíra uma ponte no Norte, lá para Trás-os-Montes, matando cinquenta e nove pessoas que vinham na camioneta da Junta de Freguesia, regressando de um passeio de domingo às amendoeiras em flor. Joaquim morava perto dessa aldeola tornada símbolo de tragédia. Como os corpos afundados não apareciam, e não havia muito que fazer por aquelas bandas, as pessoas começaram a organizar piqueniques à beira do rio ao fim-de semana, para ver se, entre um pastel de bacalhau e um copo de tinto, alcançavam a boa acção de detectar um corpo inchado a boiar, porque não há nada mais triste do que um funeral sem defuntos. Num desses piqueniques conhecera a sua Conceição, que viera com os pais visitar uns parentes e tentar a glória de pescar um morto, já que o pai era bombeiro e especializado em mergulhos. A expedição não teve sucesso, só vinte e três corpos viriam a ser encontrados, mas Joaquim acabou por vir morar para Lagar, aprendeu a ler com a ajuda de Conceição, entrou para a escola, arranjou trabalho no café, casou e tornou-se um homem feliz, pai de um rapazinho de cinco anos. Pensava muitas vezes que se não fosse aquela catástrofe estaria ainda a tratar das vinhas e a coser sapatos à noite, longe dos territórios férteis do turismo. Tudo tem o seu propósito.
As tragédias individuais não são assinaladas por placas, homenagens, celebrações. Falta-nos o tempo para as acolher e são demasiado próximas da nossa vida. Todos os dias morre gente. Na Vila de Lagar a funerária chama-se Zorro, porque é esse o nome de baptismo do seu proprietário, e está escondida no cotovelo de uma das sinuosas ruas que circundam a muralha. Não necessita propriamente de propaganda, os clientes aparecem todos os dias. As grandes multinacionais da morte ainda não aportaram a esta zona rural, porque a clientela não teria dinheiro para pagar as carrinhas de luxo, os bolos sortidos, os livros de condolências encadernados a couro. Há uma mulher caída, a uns oito quilómetros da pacífica animação de Lagar, num mísero pátio de uma das casas mais pobres da aldeia de Arrifes. Como o calor mantém os habitantes recolhidos, a vizinha não veio varrer o alpendre e não chamou por ela. Uma gatita malhada lambe-lhe o rosto, tentando despertá-la. São duas horas da tarde, e a carrinha do Centro de Dia só regressará pelas seis. O miado da gata tem por única resposta a queda de um limão gigante do limoeiro que fica ao canto do pátio, antes das escadas que dão para o telheiro do tanque de lavar a roupa. A mulher caiu perto da porta, longe das duas árvores do quintal, sobre a laje ardente, inundada de sol». In Inês Pedrosa, Desamparo, 2015, Publicações dom Quixote, 2015, ISBN 978-972-205-669-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «Algumas velhas, que as castanholas bocais do Napoleão haviam despertado de letargias de pedra, chinelavam ao acaso de cadeira em cadeira idênticas a pássaros sonolentos»

jdact e wikipedia

«(…) Surpreendia-se que para além de tiques e de gestos a natureza se não houvesse empenhado em transmitir-lhes também, a título de bónus, os poemas de Eliot que conhecia de cor, a silhueta de Alves Barbosa a pedalar nas Penhas da Saúde, e a aprendizagem já feita do sofrimento. E por detrás dos sorrisos delas distinguia alarmado a sombra das inquietações futuras, como no seu próprio rosto percebia, olhando-o bem, a presença da morte na barba matinal. Procurou na argola das chaves a que abria a porta da enfermaria (o meu lado de governanta, murmurou, a minha faceta de despenseiro de navios inventados disputando aos ratos as bolachas-maria do porão), e entrou num corredor comprido balizado por espessas ombreiras de jazigo atrás das quais se estendiam, em colchas duvidosas, mulheres que o excesso de remédios transformara em sonâmbulas infantas defuntas, convulsionadas pelos Escoriais dos seus fantasmas. A enfermeira-chefe, no seu gabinete de dr. Mabuse, recolocava a dentadura postiça nas gengivas com a majestade de Napoleão coroando-se a si mesmo: os molares ao entrechocarem-se produziam ruídos baços de castanholas de plástico, como se as suas articulações fossem uma criação mecânica para edificação cultural de estudantes do liceu ou dos frequentadores do Castelo Fantasma da Feira Popular, onde o cheiro das sardinhas assadas se combina subtilmente com os gemidos de cólica dos carrosséis. Um crepúsculo pálido boiava permanentemente no corredor e os vultos adquiriam, aclarados pelas lâmpadas desconjuntadas do tecto, a textura de vertebrados gasosos do Deus rive-gauche do catecismo, que ele imaginava sempre a evadir-se da colónia penal dos mandamentos para passear livre, nas noites da cidade, a cabeleira bíblica de um Ginsberg eterno. Algumas velhas, que as castanholas bocais do Napoleão haviam despertado de letargias de pedra, chinelavam ao acaso de cadeira em cadeira idênticas a pássaros sonolentos em busca do arbusto onde ancorar: o médico tentava em vão decifrar nas espirais das suas rugas, que lhe lembravam as misteriosas redes de fendas dos quadros de Vermeer, juventudes de bigodes encerados, coretos e procissões, alimentadas culturalmente por Gervásio Lobato, pelos conselhos dos confessores e pelos dramas de gelatina do dr. Júlio Dantas, unindo fadistas e cardeais em matrimónios rimados. As octogenárias pousavam nele os olhos descoloridos de vidro, ocos como aquários sem peixes, onde o limo ténue de uma ideia se condensava a custo na água turva de recordações brumosas. A enfermeira-chefe, a cintilar os incisivos de saldo, pastoreava aquele rebanho artrítico enxotando-o a mãos ambas para uma saleta em que o televisor se avariara num hara-kiri solidário com as cadeiras coxas encostadas às paredes e o aparelho de rádio que emitia, com sobressaltos felizmente raros, longos uivos fosforescentes de cachorro perdido na noite de uma quinta. As velhas tranquilizavam-se a pouco e pouco como galinhas salvas da canja na capoeira de novo em sossego, mastigando a pastilha elástica das bochechas em ruminações prolixas sob uma oleografia piedosa na qual a humidade devorara os biscoitos das auréolas dos santos, vagabundos antecipados de um katmandu celeste. A sala de consultas compunha-se de um armário em ruína roubado ao sótão de um ferro-velho desiludido, de dois ou três maples precários com o forro a surgir dos rasgões dos assentos como cabelos por buracos de boina, de uma marquesa contemporânea da época heróica e tísica do dr. Sousa Martins, e de uma secretária que abrigava na cavidade destinada às pernas um cesto de papéis enorme, parturiente carunchosa afligida por um feto excessivo. Em cima de um naperon enodoado uma rosa de papel cravava-se na sua jarra de plástico como a bandeira remota do capitão Scott nos gelos do pólo Sul. Uma enfermeira parecida com a dona Maria II das notas de banco em versão Campo de Ourique comboiou na direcção do psiquiatra uma mulher entrada na véspera e que ele não observara ainda, ziguezagueando de injecções, de camisa a flutuar em torno do corpo como o espectro de Charlotte Brontë vogando no escuro de uma casa antiga. O médico leu no boletim de internamento esquizofrenia paranóide; tentativa de suicídio, folheou rapidamente a medicação do Serviço de Urgência e procurou um bloco na gaveta enquanto um sol súbito aderia, jovial, aos caixilhos. No pátio em baixo, entre os edifícios da 1.a e 6.a enfermarias de homens, um negro de calças pelos joelhos masturbava-se freneticamente encostado a uma árvore, espiado com gáudio por um grupo de serventes». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1979, 1983, Publicações dom Quixote, BIS, Grupo Leya, 1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «Classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, repetiam os degraus à medida que os subia e a enfermaria se aproximava dele tal um urinol de estação de um comboio»

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«O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante: a quotazinha da Sociedade, senhor doutor. Pu… que pariu os psiquiatras organizados em esquadra de polícia, pensava sempre ao procurar os cem escudos na complicação da carteira, pu… que pariu o Grande Oriente da Psichiatria, dos etiquetadores pomposos do sofrimento, dos chonés da única sórdida forma de maluquice que consiste em vigiar e perseguir a liberdade da loucura alheia defendidos pelo Código Penal dos tratados, pu… que pariu a Arte Da Catalogação Da Angústia, pu… que me pariu a mim, rematava ele ao embolsar o rectângulo impresso, que colaboro, pagando, com isto, em lugar de espalhar bombas nos baldes dos pensos e nas gavetas das secretárias dos médicos para fazer explodir, num cogumelo atómico triunfante, cento e vinte e cinco anos de idiotia pinamaniquesca. O olhar intensamente azul do porteiro-cobrador, que assistia sem entender a uma maré-baixa de revolta que o transcendia, embrulhava-o num halo de anjo medieval apaziguante: um dos projectos secretos do médico consistia em saltar a pés juntos para dentro dos quadros de Cimabue e dissolver-se nos ocres desbotados de uma época ainda não inquinada pelas mesas de fórmica e pelas pagelas da Sãozinha: lançar mergulhos rasantes de perdiz, mascarado de serafim nédio, pelos joelhos de virgens estranhamente idênticas às mulheres de Delvaux, manequins de espanto nu em gares que ninguém habita. Um resto agonizante de fúria veio girar-lhe ao ralo da boca: senhor Morgado, pela saúde dos seus e meus tomates não me lixe mais com o car… das quotas durante um ano e diga à Sociedade de Neurologia e Psiquiatria e amanuenses do cerebelo afins que metam o meu dinheiro enroladinho e vaselinado no sítio que eles sabem, obrigadíssimos e tenho dito ámen. O porteiro-cobrador escutava-o respeitosamente (este gajo deve ter sido na tropa o pide favorito do sargento, descobriu o médico) reinventando as leis de Mendel à medida do seu intelecto de dois quartos com serventia de cozinha: topa-se logo que o senhor doutor é filho do senhor doutor: uma ocasião o paizinho amandou o fiscal fora do laboratório pelas orelhas. De azimute voltado para o livro do ponto e um seio de Delvaux a esfumar-se no canto da ideia, o psiquiatra apercebeu-se de súbito da admiração que as proezas bélicas do progenitor haviam disseminado, por aqui e por ali, na saudade de certas barrigas grisalhas. Rapazes, chamava-lhes o pai. Quando vinte anos atrás o irmão e ele se iniciaram no hóquei do Futebol Benfica, o treinador, que partilhara com o pai Aljubarrotas áureas de pauladas no toutiço, retirou o apito da boca para os avisar com gravidade: espero que saiam ao João, que quando tocava a Santos era lixado para a porrada. Em 35, no rinque da Gomes Pereira, foram três da Académica da Amadora para São José. E acrescentou baixinho com a doçura de uma recordação grata: fractura de crânio, no tom de voz em que se revelam segredos íntimos de paixão adolescente, conservada na gaveta da memória que se dedica às inutilidades de pacotilha que dão sentido a um passado. Pertenço irremediavelmente à classe dos mansos refugiados em tábuas, reflectiu ele ao assinar o nome no livro que o contínuo lhe estendia, velho calvo habitado pela paixão esquisita da apicultura, escafandrista de rede encalhado num recife de insectos, à classe dos mansos perdidos refugiados em tábuas a sonharem com o curro do útero da mãe, único espaço possível onde ancorar as taquicárdias da angústia. E sentiu-se como expulso e longe de uma casa cujo endereço esquecera, porque conversar com a surdez da mãe afigurava-se-lhe mais inútil do que socar uma porta cerrada para um quarto vazio, apesar dos esforços do sonotone através do qual ela mantinha com o mundo exterior um contacto distorcido e confuso feito de ecos de gritos e de enormes gestos explicativos de palhaço pobre. Para entrar em comunicação com esse ovo de silêncio o filho iniciava uma espécie de batuque zulu ritmado de guinchos, saltava na carpete a deformar-se em caretas de borracha, batia palmas, grunhia, acabava por afundar-se extenuado num sofá gordo como um diabético avesso à dieta, e era então que movida por um tropismo vegetal de girassol a mãe erguia o queixo inocente do tricot e perguntava: hã?, de agulhas suspensas sobre o novelo à laia de um chinês parando os pauzinhos diante do almoço interrompido. Classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, repetiam os degraus à medida que os subia e a enfermaria se aproximava dele tal um urinol de estação de um comboio em marcha, chefiada por uma vaca sagrada que a fim de descompor as subordinadas retirava a dentadura postiça da boca, como quem arregaça as mangas, para aumentar a eficácia dos insultos. A imagem das filhas, visitadas aos domingos numa quase furtividade de licença de caserna, atravessou-lhe obliquamente a cabeça num desses feixes de luz poeirenta que os postigos de sótão transformam numa espécie triste de alegria. Costumava levá-las ao circo na tentativa de lhes comunicar a sua admiração pelas contorcionistas, entrelaçadas em si próprias como iniciais em ângulo de guardanapo e detentoras da beleza impalpável comum aos hálitos de gaze que anunciam nos aeroportos a partida dos aviões e às meninas de saias de folhos e botas brancas a desenharem elipses às arrecuas no rinque de patinagem do Jardim Zoológico, e desiludia-o como uma traição o estranho interesse delas pelas damas equívocas, de cabelos loiros com raízes grisalhas, que amestravam cães melancolicamente obedientes e uniformemente horrorosos, ou pelo rapazinho de seis anos a rasgar listas telefónicas no riso fácil dos guarda-costas em botão, futuro Mozart do cassetete. Os crânios daqueles dois seres minúsculos que usavam o seu apelido e lhe prolongavam a arquitectura das feições surgiam-lhe tão misteriosamente opacos como os problemas de torneiras da escola, e espantava-o que sob cabelos que possuíam o mesmo odor dos seus grelassem ideias diversas das que penosamente armazenara em anos e anos de hesitações e dúvidas». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1979, 1983, Publicações dom Quixote, BIS, Grupo Leya, 1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT