sábado, 25 de março de 2017

Gravidade. Tess Gerritsen. « Também viu sinais de humanidade: um pedaço de corrente enrolado ao redor de uma âncora perdida e uma garrafa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Mar. Fenda de Galápagos. 0,30º S, 90,30º W
«Ele pairava à beira do abismo. Logo abaixo, estendia-se a escuridão aquosa de um mundo gelado onde o sol jamais penetrava, onde a única luz eram as centelhas passageiras de criaturas bioluminescentes. Deitado de barriga para baixo no fundo da apertada cabine do Deep Flight IV, cabeça aninhada no cone frontal de acrílico transparente, o dr. Stephen Ahearn tinha a inebriante sensação de flutuar, livre, na vastidão do espaço. Iluminada pelas luzes das asas do submarino, viu a suave e contínua precipitação de partículas de matéria orgânica provenientes das águas repletas de luz bem mais acima. Eram corpos de protozoários, afundados em milhares de metros de água até o seu túmulo final no fundo do mar. Atravessando a chuva fina de partículas, ele guiou o Deep Flight ao longo da borda do desfiladeiro submarino, mantendo o abismo a bombordo, o solo do planalto logo abaixo do aparelho. Embora os sedimentos fossem aparentemente estéreis, havia provas de vida em toda a parte. Marcadas no fundo do mar, viu trilhos e sulcos provocados por diferentes criaturas, agora ocultas e em segurança sob um manto de sedimentos. Também viu sinais de humanidade: um pedaço de corrente enrolado ao redor de uma âncora perdida e uma garrafa de refrigerante semi-submersa no lodo.
Vestígios fantasmagóricos do mundo alienígena lá em cima. De súbito, divisou uma imagem surpreendente. Era como atravessar um bosque submarino de troncos de árvores carbonizadas. Os objectos eram chaminés hidrotermais, tubos de 6 metros de altura formados por minerais dissolvidos que saíam de fendas na crosta terrestre. Usando os controles, manobrou o Deep Flight lentamente para estibordo de modo a evitá-las. Cheguei às chaminés hidrotermais, disse ele. Estou me movendo a 2 nós, chaminés de águas termais a bombordo. Como está o aparelho?, disse a voz de Helen no seu telefone de ouvido. Muito bem. Quero uma dessas belezinhas para mim. Ela riu. Pois então se prepare. Terá de pagar caro, Steve. Já viu o campo de manganésio? Deve estar bem à sua frente. Ahearn ficou em silêncio um instante enquanto perscrutava as redondezas. Pouco depois, falou: estou vendo agora.
Os nódulos de manganésio (Mn) pareciam pedaços de carvão espalhados pelo fundo do mar. Com a sua estranha, quase bizarra lisura, formados por minerais que se solidificaram ao redor de pedras ou grãos de areia, eram uma fonte muito valiosa de titânio e de outros metais preciosos. Mas ele ignorou os nódulos. Estava em busca de algo ainda mais valioso. Vou entrar no desfiladeiro, disse ele. Ele aproximou o Deep Flight da borda do planalto. Quando a sua velocidade aumentou para 2,5 nós, as asas, projectadas para produzir o efeito inverso das de um avião, arrastaram o submarino para baixo, e ele começou a sua descida no abismo. Mil e cem metros, contou. Mil cento e cinquenta... Cuidado com as paredes. É uma fenda estreita. Está monitorando a temperatura da água? Começa a aumentar. Está perto de 13 graus agora. Ainda está longe da chaminé. Mais 2 mil metros, e estará cercado de água quente. Subitamente, uma sombra passou bem diante de Ahearn. Ele se assustou e sem querer esbarrou nos controles, fazendo o submarino rolar para estibordo. O choque contra a parede do desfiladeiro fez resplandecer todo o casco». In Tess Gerritsen, Gravidade, 1999, tradução de Alexandre Raposo, Editora Record, 2009 / 2012, ISBN 978-850-108-343-2.

Cortesia de ERecord/JDACT

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Depois, como se divulgou, cada um a quis emendar como entendia, donde vem andarem hoje as cópias com tanta diversidade de leituras»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) As únicas notícias biográficas que dele sabemos, são as apontadas por Toscano na sua notícia. O quarto dos teólogos, e ao que parece o mais teólogo de todos, foi o pobre Luiz Mendes Vasconcelos, cujo ronceiro estro só lhe pôde inspirar um único verso. Não se confunda este obscuro indivíduo com o autor do Sítio de Lisboa e da Arte militar, suposto fossem contemporâneos. Um dedicou-se à Igreja, o outro às armas. Esta paródia chegou a alcançar certa celebridade, ainda que até agora nunca fosse impressa. Eis-aqui o que dela diz Faria Souza, falando de outra de um soneto de Garcilasso, atribuída a Camões: lo que mi poeta hizo conquel soneto de Garcilasso, pasándose de tanta gravedad a tanta picardia, hizo otro ingenio Português con el canto 1º de su Lusiada, intitulándole Borrachera; porque celebra en él à algunos aficionados del vino; y las mas de las otavas son bueltas à este propósito con gran felicidad. E depois de dar como amostra os quatros primeiros versos da 1ª oitava, prossegue: el canto 2º continuó (y no con menos felicidad) António Magallanes Menezes, señor de la Ponte da Barca, que este ano de 1645, aqui en Madrid, me referió algunas estânsias. Yo, quando en mi mocedad atendia à esto, bolvi tambien algunas, de que se me acuerdan los primeros quatro versos de la 90 del canto 5º, que son:

Da boca de facundo capitão, &c.
Y mi rebuelta dice deste modo:
da boca do fecundo borrachão
pendendo estavam todos bem bebidos,
quando deu fim a grande inundação
dos altos copos grandes e subidos!
In Coment. às Rim. Tom. 1º.

Festas bacanais: Conversão do primeiro canto dos lusíadas do grande Luiz de Camões, vertidos do humano em o de-vinho por uns caprichosos autores: S. O. Dr. Manoel Vale, Bartolomeu Varela, Luiz Mendes Vasconcelos, e o licenciado Manoel Luiz, no ano de 1589.

Notícia
Esta obra da conversão do primeiro canto do poema de Luiz de Camões se fez no ano de 1589, para a qual concorreram quatro pessoas, a saber: o Dr. Manoel Vale, deputado da Santa Inquisição (maldita), que compôs o livro dos Ensalmos em latim, que agora imprimiu: outro foi Bartolomeu Varela, natural de Viana, junto a Évora, o qual faleceu, que era irmão de Diogo Pereira, que foi este ano às Cortes, que el-rei Filipe II fez em Lisboa, por Procurador desta cidade de Évora. Foi Bartolomeu Varela clérigo e grandíssimo poeta. O terceiro foi Luiz Mendes Vasconcelos, criado do arcebispo Teotónio; o qual posto que não era poeta, se achou ao fazer da obra; e só fez um verso, que é o último da oitava 17; porque estando eles suspensos no cuidado de completarem a dita oitava e parados no verso que diz:

Porque este é o que aguenta a velha idade, acudiu o dito Luiz Mendes, concluindo:

Desterrando a água-pé desta cidade.

O quarto e principal autor foi o licenciado Manoel Luiz, Bacharel; e este ano de 1619 vive com o Priorado de Terena. Este foi o promovedor desta obra, e a fez quase toda, ou o melhor dela. Quando a fizeram eram então todos teólogos; e às tardes, acabado o estudo, saíam pela porta de Machede, e assentados num ferrageal, iam traduzindo para a bebedice as tais oitavas de Camões, fingindo uma embarcação de Lisboa para Évora, como Camões a de Portugal para a Índia Oriental; e compuserem a tal obra dentro de dois meses, no cabo dos quais saíram com ela: sendo que já os estudantes suspeitavam de alguma aplicação (posto que não soubessem de certo o que era) pelos verem ir todas as tardes para fora dos muros, e comunicarem os seus papéis, sem darem conta disso a ninguém.
Finalmente, saída a obra, foi muito festejada e estimada de todos; e lendo-a o padre Ferrer, castelhano (varão doutíssimo da Companhia, do qual o Dr. Manoel Vale traz uma carta no seu livro) e falando-se nela, costumava dizer, que era a melhor obra que nunca saíra nem ele vira, se não fosse tão suja. Depois, como se divulgou, cada um a quis emendar como entendia, donde vem andarem hoje as cópias com tanta diversidade de leituras. Porém eu, esta que aqui vai, a trasladei do próprio original e letra de Bartolomeu Varela, que está em poder do Chantre da Sé desta cidade, Manoel Severim Faria, que a houve do dito Varela, e lhe fiz algumas cotas para inteligência da obra. Isto me parece basta para se saber o como esta obra se fez. E eu Francisco Soares Toscano o fiz aos 10 de Janeiro de 1619». In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.

Cortesia de IbaMendes/JDACT

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Dois meses durava aquela sessão extraordinária; e já tão continuados passeios davam que falar aos estudantes…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«As honras da paródia só às obras do génio costumam conceder-se. A divina Ilíada foi parodiada num poema herói-cómico tão antigo, que geralmente se atribui ao próprio Homero; ainda que Suidas lhe dá por autor a Pigres, irmão da Rainha Artemisa. Nesse poema, intitulado a Batrachomiomachia, a terrível luta dos Gregos e Troianos é reproduzida no maravilhoso combate dos ratos e das rãs. Esta coroa burlesca ainda faltava ao rival de Homero, quando o poeta Scarron primeiro marido da famigerada Marquesa de Maintenon, se lembrou de cantar:

… cet home pieux,
Qui vint chargé de tous se Dieux
Et de Monsieur son père Anchise,
Beau vieilard à la barbe grise, etc.

A grande obra do único homem de génio que talvez tenha produzido a nossa terra, não podia isentar-se deste fado inerente às grandes celebridades. Eram apenas passados dezoito anos depois da publicação dos Lusíadas ainda a reputação de Camões não estava consagrada pelos séculos, quando alguns homens engenhosos compreenderam que aquela obra imortal era uma daquelas a que a paródia era devida. O resultado de seus trabalhos não é de certo para comparar com nenhuma das espirituosas produções que ficam mencionadas; mas ainda assim não é esta inteiramente destituída de merecimento. Francisco Soares Toscano, bem conhecido dos literatos pelo seu Paralelo de Príncipes, escreveu uma interessante notícia sobre esta obra, em que nos conta o curioso modo por que ela foi composta. Quatro estudantes da Universidade de Évora costumavam sair a passear, às tardes, aos arrabaldes da cidade, levando consigo os Lusíadas. Chegados a um verde ferrageal, sentavam-se a uma fresca sombra, e se abria a sessão parodiadora. Assim como a engelhada e disforme máscara de uma velha megera cobre o rosto radiante de formosura de uma elegante Coquete, para mais fazer realçar seus encantos, quando deixe cair aquele hediondo disfarce; assim o imortal poema devia ser desfigurado por aqueles travessos estudantes. Os Gamas, Castros e Albuquerques tinham de ceder o seu lugar aos Catigelas, Lunas e Barbanças, barões sem dúvida tão assinalados nos combates de Baco como ess’outros nos de Marte.
Dois meses durava aquela sessão extraordinária; e já tão continuados passeios davam que falar aos estudantes e também dariam que entender à Santa Inquisição (maldita) de Évora, se aquela sociedade secreta não fosse composta, como de facto o era, de quatro teólogos, e tão ortodoxos, que um deles veio a ser inquisidor geral. Mas por fim apareceu a misteriosa obra dos quatro patuscos, como hoje lhe chamaria um académico, e não sei se já então lhe chamavam. A este modo de composição de sociedade e às muitas emendas que depois sofreu dos curiosos, como adverte Toscano, se deve talvez a confusão do enredo deste poema. Parece que os seus colaboradores tinham principalmente em vista inverter ao de-vinho cada verso que entrava em discussão, sem atender à coerência do todo. É provável que se propusessem a celebrar os mais famosos bebedores Évorenses, aos quais aludissem, e talvez nomeassem por seus próprios nomes ou apelidos. Toscano, que os devia conhecer, assim o indica quando diz que tinha feito várias cotas a esta paródia para melhor se entender. Com efeito na est. XXX se faz menção de um Pero Vaz, que provavelmente é o mesmo cristão-novo, bêbado perdido, autor do epigrama latino de que fala a notícia. Infelizmente para a história da Borracheologia Lusitana, cotas e epigrama tudo se perdeu.
Os colaboradores desta inocente profanação literária não são inteiramente desconhecidos. Manoel do Vale de Moura, natural de Arraiolos no Alentejo, doutorou-se em Teologia na Universidade de Évora, e chegou a ser arcebispo desta diocese e inquisidor geral. Contava vinte e cinco anos quando concorria para esta composição, e chegou a uma avançada idade. Além da obra De Encantationibus et Ensalmis, de que fala Toscano, e outras de não menor utilidade, Barboza o faz autor de uma Ilustração à primeira Ode de Camões. De certo não fez pouco Sua Reverendíssima se conseguiu lançar alguma luz sobre aquele confuso ou estropiado poema. Nem Bartolomeu Varela, nem o licenciado Manoel Luiz, tiveram a honra de encher as colunas da Biblioteca Lusitana; mas João Batista Castro de ambos faz menção no seu Mapa de Portugal. Não é contudo a Varela, como ele pensa, que cabem os louvores que lhe dá por esta composição burlesca. Manoel Luiz Freire, que assim lhe chama um padre Francisco Cruz, citado por Castro, se deve ter como o principal e mais chistoso colaborador desta obra». In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.

Cortesia de IbaMendes/JDACT

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «O Desejo é o Waterloo de homens e mulheres. A mulher que nunca se entregou cisma em entregar-se. A que se entregou cisma em entregar-se novamente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta III
«(…) A mulher leva ao degredo, ao crime, à morte, à desonra. Há homens que se matam por elas, que se arruínam, que enlouquecem. Dalila atraiçoou Sansão, Margarida perdeu o velho Fausto. Foi ela que inventou o ciúme para nos roer, os braços para nos prender, o dinheiro para se vender. Escuta! Se queres ser amado por tua mulher dá-lhe com um chicote. As mulheres precisam de ser espancadas para amarem alguém. Há nisto um fundo de verdade. A pancada é sempre mais sincera do que o beijo. Mas para que amar? Para que bater? Todo o amor acabará na morte. O amor é dos romances. Lá é que viveram Romeu e Julieta, o apaixonado Rafael, Paulo e Virgínia. Trasladar o romance para a vida é uma loucura inconcebível. Enquanto o pobre don Quixote quebrava lanças e corria mundo pela sua Dulcinéia, esta aquecia a cama todas as noites a algum cavaleiro menos andante e mais positivo. Uma mulher ama por egoísmo, e só gostará de enquanto tu fores para ela o máximo ponto onde ela pode pousar os olhos.
Se acaso a minha amante, essa criatura que tem para cada minha pancada uma carícia, encontrasse outro que fosse maior do que eu na sua retina psicológica, eu seria preterido sem dó nem piedade. Todas as mulheres são sensuais e perversas. Toda a mulher se esquece. Se tu desses a vida por uma mulher ela segredaria às amigas que tu nunca passaste de um tolo que morreu por ela. E o teu nome andaria em triunfo nos seus lábios, como o couro cabeludo de um inimigo na mão de um pele vermelha. Dias depois tu serias esquecido e já outros braços teriam imprimido no seu corpo o vergão dos abraços. Quer ela fosse actriz ou freira, ladra ou imperatriz. Uma mulher é capaz de tudo. Não esqueças nunca. Algumas vezes, o grande manto do heroísmo não serve senão para esconder uma meia dúzia de amantes, conforme d’ Annunzio.
A mulher é um misto confuso, um amálgama singular de lama e de desejos, de sujidades e incensos, polvilhado de ouro. O que és tu em amor? Um Falstaff pandilha. Tua mulher o que é? Uma honrada Messalina. Antes de tu a conheceres e a arrendares de corpo e alma, tinha ela olhado aquele militar que além passa presumido; este estudantinho loiro; aquele caixeirola imberbe; os dentes brancos deste, a cabeleira daquele, os pardessus e as botas daqueloutro. A sua alma fora uma hospedaria. Todos lhe convinham. Foste tu afinal o que ficaste. Nunca pensaste em que tua mulher cismasse em quem seria que a desflora… se não fosses tu? Quem seria? Que abraços o outro lhe não daria? Com que beijos loucos ele contaria as rugas do seu corpo? Todas as casadas ou são Terezas Raquim ou se chamam Bovarys. Todas elas traem o marido com o seu Rodolfo e o seu Leon como na Bovary, de Flaubert. Estes ainda por seu turno as atraiçoam e são atraiçoados. Pergunta a tua mulher se alguma vez que ela precisou de recorrer ao amante não teve, ainda como na Bovary, somente um riso ou uma recusa como resposta?
O Desejo é o Waterloo de homens e mulheres. A mulher que nunca se entregou cisma em entregar-se. A que se entregou cisma em entregar-se novamente. Toda a carne tem cegueiras de desejos a que ninguém pode resistir. É o Desejo que fustiga com suas unhas deliciosas a alma dos eremitas e faz pela calada dos claustros mortos, na paz silenciosa das celas sonolentas, ciliciarem-se mutuamente com seus corpos em brasa as irmãs da caridade. O Desejo é tudo. Irmão do Ouro tem com ele a sua genealogia do crime. O que quero eu da minha amante? O seu corpo nervoso que se estorce e se agita ante os meus braços e onde há tempestades de delírios, catadupas de beijos, explosões de luxúrias com arrancos de crucificada. Se ele, esse corpo que eu adoro e beijo, apodrecesse de repente, florisse todo numa chaga aberta eu desprezá-la-ia. E seria para como o corpo dessas cortesãs da plebe, noivas de toda a gente, que todos possuíram ou podem possuir e no qual eu teria asco de tocar. Assim como na vida não há senão interesses, no amor não há senão desejos». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «Isto é impossível. Onde encontraste tu uma mulher que amasse alguém? Inútil. Procurarias em vão…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta III
«(…) Lembras-te de quando eu te dizia que a Vida era má, tu responderes que ainda havia o Amor? Convicto ainda sonhavas a vida grande, auroreal, sadia, junto de uma mulher que fosse o corpo do teu corpo, a alma da tua alma e para quem tu fosses sempre o insaciável dos seus encantos, das suas frases, dos seus beijos. A cada desilusão que te desse a vida tu te refugiarias nesse, turris eburnea tão alta e forte que poderia olhar as estrelas frente a frente, e que nem a morte ousaria derrubar. Ela, a Eleita, te daria então um encanto novo para cada desengano, para cada desânimo te daria coragem na Bíblia nervosa e quente dos seus braços, no anseio louco e perfumado do seu corpo. Seria a Santa do teu altar, a luz que iluminaria a tua vida inteira. Tu contar-lhe-ias os teus cansaços e ela te daria o seu colo para descansares. E tu serias bom, altivo e amante. Serias forte para a defender, criança para adorares. Terias a cada frase dos seus lábios o coração em festa. Os teus beijos seriam abençoados, e ela, a Santa, seria bendita entre as mulheres. Quando tu tivesses sede ela te diria abrindo as veias: bebe . Quando tu tivesses fome ela uniria à tua a sua boca e te alimentaria com o seu hálito caricioso e quente. Viveria só para ti sem egoísmos nem vaidades. E os seus filhos seriam belos como mulheres e fortes como Deuses.
Isto é impossível. Onde encontraste tu uma mulher que amasse alguém? Inútil. Procurarias em vão. Uma mulher é um objecto que se usa e se põe de parte ao fim de uma hora, de um dia, de uma semana, de uma quinzena, de um ano quando muito. A fidelidade aborrece. Mas há acaso alguma mulher fiel? Em que pensam elas? No interesse. Todas se vendem. Umas compram-se por amor, como outras se compram por dinheiro. Varia muito o preço por que uma mulher se entrega: uma moeda de prata ou um colar de pérolas, uma nota de banco ou um adereço, uma ceia, um reino, um capricho, um cigarro. Eu já tenho comprado mulheres por um cigarro. E o que é o amor? Uma triaga deliciosa, não é verdade? A mais podre das ilusões.
A mulher é sempre uma criatura vaidosa e interesseira, balofa e irritante, como os homens são e serão sempre cínicos, canalhas e traidores. É a maior das egoístas do género humano. Seus lábios são uma ânfora maldita que tem no fundo a mentira. Eles derramam o crime, a covardia, a perfídia. Seus ventres são sementeiras de dores, como diz Eugénio Castro. Mas porque gosto eu tanto delas? Toda a vida me acorrentaram à cadeia de beijos dos seus braços. Assassinaram-me a energia. Tornaram-me à força de desgostos e de irritações, eu que era uma criatura de pequeninas carícias, de mil afectos pequeninos, de pequenas coisas amorosas, embotado e seco como as plantas que morrem à míngua de água. Amei rude e loucamente, com fé, com ardor. Fui desamado sempre, escarnecido, pisado.
Quando eu amava, rouco de dizer o meu amor, não encontrava um único coração que se me abrisse. E então, conheci más todas as mulheres. Mas como hão de elas amar-me se eu lhes não posso dar ouro? Que tenho eu para lhes dar? O coração? E para que serve o coração? Acaso isso já serviu a alguém? Não encontrei nunca uma mulher que não roçasse a espinha pela minha bolsa, como os gatos quando ronronam aos pés do dono. E todo aquele meu passado amor, toda essa afeição foi como um charuto caro que alguém esqueceu aceso. Hoje não amo nem creio, como Schopenhauer. Não é porém despeito tudo isto. Eu continuo a cair nos braços das minhas amantes, mas julgando-as o pior possível. Quem ama morre. Chi no stima vien stimato, diz o provérbio italiano. Por isso despreza os homens como desprezas as mulheres. Ai se acreditas! A mentira no amor é tudo. Quanta mentira não há num beijo? Quanto veneno? Quanta traição? Um beijo envenena sempre. Alguns há que envenenam a vida inteira». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

sexta-feira, 24 de março de 2017

O Tesouro do Templo. Eliette Abécassis. «Com o dedo, indicou uma passagem: a mão do Senhor pousou-se em mim; fez-me sair pelo Espírito Santo e depositou-me no meio do vale»

jdact e wikipedia

«(…) Assim falara o meu pai e, por trás da dialéctica daquele sábio, não podia impedir-me de reconhecer o padre Cohen. Dois anos antes, eu descobrira que ele fora um essénio, até que decidira sair das grutas, aquando da fundação do Estado de Israel, para ir viver na cidade, e compreendi por que motivo aquele homem, de uma força e de uma estatura imponentes, conferidas pelo saber, pela coragem e pela fidelidade, tinha o carisma e o porte de um patriarca, com os seus cabelos castanhos, o seu corpo magro mas musculado, os seus olhos negros como dois archotes, num rosto iluminado por um sorriso quase mágico, que exprimia, simultaneamente, a vida do espírito que o inspirava e a serenidade conferida pelo estudo dos textos antigos. Era, sem dúvida, por isso, que meu pai não tinha idade, ou antes, aparentava todas as idades, personificando a memória dos tempos.
És novo, podes combater, insistiu ele. Possuis os conhecimentos e a força necessários para deslindar este enigma. A menos que queiras fazer como o profeta Jonas e fugir à tua missão... São assuntos deles, respondi. Enganas-te. Não são deles, mas, sim, um assunto que te diz respeito. Aquele homem foi sacrificado aqui perto, vestido com os vossos trajos rituais. E, se não agires, fica a saber que a investigação se encaminhará na vossa direcção. Acabará por descobrir-se a vossa existência secreta, e chegar-se-á, talvez mesmo, ao ponto de vos acusarem do crime, para vos obrigarem a sair das grutas, e prender-vos-ão, desta vez para sempre. Por isso mesmo, não se trata de um combate, mas da vossa salvação! Está escrito que devemos afastar-nos dos caminhos do mal. Foi então que meu pai se aproximou do rolo que eu começara a copiar. Decifrador de textos antigos, interessava-se pelas formas individuais das letras, para determinar em que época os textos haviam sido escritos e, apesar de a paleografia não ser propriamente uma ciência exacta, uma vez que nenhum manuscrito pode servir de referência absoluta, conseguia distinguir, nos textos que lia, a evolução das formas das consoantes mais recentes em comparação com as mais tardias. Memorizava tudo o que decifrava, reparava atentamente nas características de cada fragmento que estudava, mas também na qualidade do couro, na sua preparação e, até, no estilo do escriba, na tinta, no vocabulário e nos assuntos redigidos. As suas competências linguísticas permitiam-lhe ler, com igual desenvoltura, o grego e o semítico, analisar as tábuas cuneiformes bem como os bicos das flechas cananéias, com que se gravavam textos em documentos fenícios, púnicos, hebraicos, edomitas, aramaicos, nabateus, palmirenos, tamadeus, safaíticos, samaritanos ou cristo-palestinianos.
Com o dedo, indicou uma passagem: a mão do Senhor pousou-se em mim; fez-me sair pelo Espírito Santo e depositou-me no meio do vale; estava cheio de ossadas. Está escrito, desde o século II, que isto aconteceria no fim dos tempos, comentou. Acompanhei meu pai até à saída da gruta. À nossa frente, um grupo de homens aguardava. Anoitecera e, à luz do luar, podia avistar-se o maciço rochoso escarpado que nos separa do resto do mundo. Ao longe, no horizonte sombrio, recortavam-se os rochedos calcários, que formam a paisagem lunar do mar Morto. Num banco formado por rochas, à saída das nossas grutas, reconheci os membros do Conselho Supremo: Issakar, Pérèc e Yok, os padres Cohamin, Ashbel, Ehi e MoouPim, os Levis, bem como Guéra, Naamâne e Ard, filho de Israel, acompanhados de Levi, o padre que havia sido o meu instrutor, um homem de idade avançada, cabelos sedosos e grisalhos, pele encarquilhada e tisnada pelo sol, lábios finos e porte altivo. Aproximando-se de meu pai, disse: não te esqueças, David Cohen, de que estás dentro do segredo. Meu pai aquiesceu, em silêncio, e, pelas fissuras das rochas, iniciou a árdua descida que leva ao mundo conhecido. No dia seguinte, ao amanhecer, despi as minhas vestes rituais e enverguei os meus antigos fatos de hassídio em que não tocava há dois anos: uma camisa branca e calças pretas. Só depois parti.
Avancei pelo deserto solitário, sob um calor opressivo, com o rosto em brasa e os olhos encandeados pela luminosidade, seguindo, por entre as fissuras das rochas e pelas ravinas, o caminho secreto e perigoso que apenas os essénios conhecem. À minha frente, brilhava o grande lago de sal que se estende a quatrocentos metros abaixo do nível do mar, e onde o calor é tanto que a água se evapora, tornando o mar Morto ainda mais amargo. Chamam-lhe assim em virtude de as suas águas, pouco propícias a qualquer forma de vida, não consentirem peixes, algas ou embarcações e onde raramente se avistam homens». In Eliette Abécassis, O Tesouro do Templo, 2001, tradução de Catarina Lima, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CL/ELBrasil/JDACT

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «Quase sempre a fome, a sede, a doença ou a traição explicam as derrotas pouco numerosas dos cidadãos sitiados»

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A cidade e o exterior. As muralhas
«(…) Os mais espectaculares, os mais dramáticos, os mais significativos foram aqueles sofridos pelos habitantes de algumas cidades do Sul quando da cruzada dos albigenses. Em 1209, os cruzados franceses sitiam Béziers. A canção em occitano iniciada por Guillaume Tudèle conta assim a ilusão dos habitantes de Béziers1: E achavam que a sua cité estava tão bem fechada, e por muros cercada e estreitada, que não poderia ser forçada por um mês inteiro. Ora, logo após a chegada dos cruzados, libertinos (truands, arlots, gars, como ainda lhes chamam os textos da época), provavelmente mercenários especialmente treinados, arrombam as portas da cidade, abrindo o caminho para os cruzados, que se entregaram a um dos mais selvagens massacres da história.
São mais de quinze mil... Cercam toda a cidade para demolir os muros, descem aos fossos e dão golpes de picareta, outros vão quebrar e despedaçar as portas. Vendo isto, os burgueses foram tomados de pavor...
Depois, nesse mesmo verão de 1209, é o sítio de Carcassonne. Os seus habitantes tomam mais precauções do que os de Béziers, destruindo inclusive o refeitório, o celeiro e as estalas da igreja dos cônegos regulares para reforçar os muros da cidade. Eis o começo do relato do cerco pelos assaltantes: no terceiro dia, os nossos, esperando tomar de assalto e sem máquinas o primeiro subúrbio, que era um pouco menos fortificado que o outro, precipitaram-se sobre ele todos ao mesmo tempo... Tomaram o primeiro subúrbio, que os inimigos tinham abandonado imediatamente... Os nossos julgaram que poderiam tomar da mesma forma o segundo subúrbio (que é, de longe, mais fortificado e mais bem defendido). Ante esse assalto, o visconde e os seus defenderam-se de maneira tão viril que os nossos tiveram de retirar-se do fosso onde haviam penetrado, sob um jacto incessante de pedras. Os nossos levaram máquinas, chamadas roqueiras pierrières, para demolir os muros. Quando o alto das muralhas foi abalado pelo arremesso das roqueiras, nossos fogueteiros levaram um carro de quatro rodas, coberto de peles de bois..., os adversários logo o destruíram, lançando ininterruptamente fogo, paus, pedras, sem conseguir retardar o trabalho dos sapadores, os quais se haviam introduzido no fundo de uma cavidade praticada na parede... No dia seguinte, ao raiar do dia, o muro demolido desabou... A canção occitana conta-nos o último episódio.

O visconde e os seus subiram aos muros,
lançaram-se com balestras flechas munidas de pena,
e de ambos os lados muitos morreram.
Se o povo que se reunira não fosse tão grande,
pois viera de toda a terra,
jamais se teria conseguido tomá-la e forçá-la em menos de um ano,

porque as torres eram altas e os muros ameados.
Mas a água lhes foi tomada, e os poços secaram,
devido ao grande calor e ao pleno verão,
devido a infecção que se espalha entre os homens, que caíram doentes.

E ao numeroso gado que se esfolara
e que fora trazido de toda a região,
devido aos fortes gritos, que de toda parte soltavam
mulheres e crianças, dos quais tudo estava atulhado...

Em compensação, no ano de 1240, quando o descendente dos Trencavel, a família viscondal, tentou retomar a cidade e a sitiou, não teve êxito. O relato do senescal Guillaume d‘Ormois em Branca de Castela especifica as consideráveis melhorias  trazidas à muralha quando da reconstrução de 1228-1299. Fizeram-se liças protegidas por uma muralha em alvenaria munida de um parapeito ameado e flanqueado de torres de apoio e de pelo menos três barbacãs. Assim, tal como nos castelos fortificados, a defensiva prevaleceu habitualmente nas cidades, e as muralhas dissuadiram ou resistiram. Quase sempre a fome, a sede, a doença ou a traição explicam as derrotas pouco numerosas dos cidadãos sitiados. Compreende-se que o primeiro cuidado dos sitiantes vencedores tenha sido o de fazer destruir por razões militares e simbólicas essas muralhas, sinal insolente do espírito de resistência dos citadinos». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

O Tesouro do Templo. Eliette Abécassis. «Então, foi a minha vez de perguntar, quais são as notícias do exterior? A notícia, corrigiu meu pai. Foi perpetrado um crime no deserto da Judeia, a poucos quilómetros daqui»

jdact e wikipedia

«(…) Naquela noite de 16 do mês de Nissan de 5761, meu pai, David Cohen, dirigiu-se às grutas de Qumran e encontrou-me no scriptorium, onde me dedico à minha profissão. É uma gruta um pouco maior do que as outras, onde se acham, lado a lado, vários pergaminhos de tamanhos diferentes, assim como rolos sagrados, muitos jarros de dimensões gigantescas, cacos e pratos partidos. misturados com fragmentos rochosos..., uma amálgama de objectos antigos numa desordem secular, que eu nunca ousara perturbar. Havia mais de um ano que não via meu pai. Os seus olhos brilhavam de emoção. Os seus cabelos escuros eram ainda abundantes, mas a sua testa alta apresentava-se marcada por rugas, como se fosse um pergaminho onde as letras se haviam acumulado, com o passar dos anos. Uma, acentuara-se, desde a última vez que eu vira meu pai: lamed, que significa aprender e ensinar. Esta letra, a mais alta do alfabeto hebraico, a única em que a haste ultrapassa a linha em direcção ao alto, assemelha-se à escada de Jacob pela qual os anjos sobem e descem, e que lhes permite estudar e, por outro lado, transmitir os seus ensinamentos. Não tecera qualquer comentário, mas eu era o seu único filho e, embora respeitasse o caminho que eu escolhera, levado, em parte, pela força das circunstâncias dramáticas, e aceitasse a minha opção, por ser esse o meu percurso de vida, meu pai sofria por o ter deixado. Preferiria que vivesse mais perto dele, em Jerusalém, apesar de eu haver saído de casa, depois de cumprir o serviço militar, para ir viver no bairro ultra-ortodoxo de Mea Shearim. E se, em virtude das circunstâncias, não morasse com ele, ainda assim ser-lhe-ia menos penoso que eu residisse em Telavive, como qualquer outro israelita moderno, em vez de me refugiar nas grutas de Qumran. Creio mesmo que meu pai ficaria mais satisfeito se eu tivesse decidido viver num kibutz, quer a sul, quer a norte de Israel, ou, melhor dizendo, numa localidade onde pudesse visitar-me e não naquele refúgio secreto, de difícil acesso, onde levava uma vida de asceta. Quanto a mim, de tempos a tempos, perguntava-me quando iria voltar a vê-lo e, por isso, sentia como aquele momento era raro. Sem me aperceber, as lágrimas afloraram-me aos olhos.
Estou feliz por te ver de novo, exclamou meu pai. A tua mãe manda-te um beijo. Como está ela? Está bem. Já a conheces... É uma mulher forte! Eu sentia grande ternura por minha mãe, mas, desde que me convertera, uma espécie de barreira de incompreensão erguera-se entre nós. Para ela, que era de nacionalidade russa e não praticava qualquer religião, eu não passava de um louco, um fanático, por ter aderido, há dois anos, a uma seita secreta, com rituais estranhos: a dos essénios. No século II antes do nascimento de Jesus, um grupo de homens retirou-se para o deserto da Judeia, mais exactamente para um maciço rochoso chamado Khirbet Qumran, onde construíram um acampamento. Ali estudaram, oraram e se purificaram pelo baptismo, preparando-se para o fim do mundo. Todavia, o fim do mundo não chegou e, após a morte de Jesus e a revolta dos judeus, a História perdeu o rasto daqueles homens. O campo de Khirbet Qumran foi incendiado, abandonado, e pensou-se que os essénios tivessem sido sacrificados ou deportados pelos Romanos. Na realidade, refugiaram-se nas grutas mais recônditas do deserto, onde vivem em segredo e onde continuam, sem que ninguém o saiba, a orar, a estudar e a copiar os textos antigos e, sobretudo, a esperar e a prepararem-se para o mundo do futuro.
Então, foi a minha vez de perguntar, quais são as notícias do exterior? A notícia, corrigiu meu pai. Foi perpetrado um crime no deserto da Judeia, a poucos quilómetros daqui. Tratou-se, de certa forma, de um sacrifício humano. Shimon Delam veio procurar-me e pediu-me que falasse contigo, Ary. Quer que tu te encarregues do caso. Afirma seres o único homem que é, ao mesmo tempo, um soldado e também um sábio, dado conheceres tão bem as Escrituras. Mas, repliquei, não sabes que a minha missão é aqui, nas grutas de Qumran? A tua missão? Que missão?, perguntou meu pai. Ontem, os essénios elegeram-me, tornaram-me o seu Messias. Eles elegeram-te..., repetiu meu pai, fitando-me com uma expressão estranha, como se não tivesse ficado surpreendido com aquela revelação. Julgam que sou o Messias por quem eles esperaram. Os textos dizem: o Messias revelar-se-á no ano de cinco mil seiscentos e setenta, e será chamado o Leão. Ora o leão sou eu, é esse o significado do nome que tu mesmo me deste. Então, estás a deixar o teu trabalho de escriba e a sair das grutas? Sou escriba, detetive. Dizes que os essénios te elegeram como seu Messias, e isso significa que a tua missão deixa de se basear na escrita e passa a reger-se pelo combate, na luta do bem contra o mal. Ora, na guerra travada entre os espíritos da luz e os filhos das trevas, o teu papel é o de encontrar o assassino e de combatê-lo». In Eliette Abécassis, O Tesouro do Templo, 2001, tradução de Catarina Lima, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CL/ELBrasil/JDACT

A Última tribo. Eliette Abécassis. «E, levando o seu exército, ele irá a Jerusalém, entrará pela Porta Dourada, reconstruirá o Templo»

jdact

«(…) Aquando de uma investigação que levava a cabo com o meu pai, descobri que os Essénios, que todos julgavam desaparecidos, mortos pelos romanos, varridos da História, ainda existiam. Sem que ninguém soubesse, tinham contudo sobrevivido, vivendo secretamente nas grutas do deserto da Judeia. Então, caminhei sobre a rocha árida à beira do Mar Morto, respirei longamente o ar do deserto e meditei ao Sol. No maior segredo, encontrei os Essénios nesse local duro e selvagem, impiedoso. E vi os que consagravam a vida à purificação, na preparação para a batalha do Apocalipse e com eles combati as forças das Trevas. E descobri que o meu pai, que julgava ateu, era um deles, e eles disseram-me que esperavam o Messias e que esse Messias era eu, Ary Cohen, Ary, o soldado, o estudante, o religioso, Ary, filho de David, da linhagem dos sumos sacerdotes da Bíblia. A minha estrada, semeada de ciladas, foi longa. Fiz uma aliança com o povo do deserto e prometi que a glória do Senhor estabelecer-se-ia na Terra, que o Templo de pedra, duas vezes construído, duas vezes destruído, seria erigido em Jerusalém, na esplanada das Mesquitas. Acompanhei os Essénios e subi a Jerusalém.
Vivia então no sonho do Templo, finalmente reencontrado, finalmente reconstruído. Queria um local para O ver, para lhe oferecer holocaustos puros, holocaustos pelos pecados, que apagariam os pecados. Tal como David se lavou antes de entrar na Casa de Deus, banhei-me; tal como os Essénios que, de manhã, e mais ainda a tarde, entravam nas águas puras como num santuário sagrado, eu estava purificado. Desde a época de Jesus, os Essénios tinham um sonho, um projecto: tirar Jerusalém das mãos dos sacerdotes ímpios e construir um Templo para as gerações futuras, onde o sacrifício divino seria executado pelos sacerdotes da seita, os descendentes de Zadoc, segundo o calendário solar ao qual a seita aderia. E os que permaneciam secretamente no deserto em Qumran, nas costas do Mar Morto, evocavam o admirável edifício de pedra, ouro e madeiras preciosas, várias vezes reconstruído e embelezado. Por fim, chegou o dia que tanto esperavam. Esperavam pela chegada daquele que combateria os Filhos das Trevas. Diziam:

ele irá a Jerusalém,
entrará pela Porta Dourada,
reconstruirá o Templo.
Tal como lhe revelou a sua visão,
e o Reino dos Céus,
tão esperado,
virá por ele,
o salvador,
que será chamado
o Leão.

E eu era Ary, o leão, o Messias dos Essénios. e o meu coração, como o pássaro que perdeu o ninho, suspirava, ansiava pelo adro do Templo. Não parava de endereçar as minhas preces a Jerusalém. Nas minhas grandes preces da manhã, do meio-dia e da tarde, suplicava pelo regresso dos exilados e pelo restauro da Cidade da Paz. Os meus dias de jejum e os meus dias de luto eram aniversários dos nossos desastres nacionais e os serviços mais solenes do nosso ritual acabavam pela invocação: no próximo ano, em Jerusalém. Nos momentos mais arrebatadores das minhas alegrias, rezava pela Jerusalém desfeita, a Jerusalém enlutada pela destruição da sua Casa». In Eliette Abécassis, A Última Tribo, 2004, tradução de Carlos Oliveira, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, Lisboa, 2005, ISBN 972-382-763-8.

Cortesia ELBrasil/JDACT

quinta-feira, 23 de março de 2017

O Apogeu da Cidade Medieval. Jacques le Goff. «Em Clermont, já no primeiro foral que conhecemos, em 1219, o conde Guy II faz estipular que, em troca do direito para a comunidade urbana»

jdact

A cidade e o exterior. As muralhas
«(…) Em Toulouse, a noção de uma comunidade urbana englobando cité e burgo aparece já em 1141 e ela passa a chamar-se Tolosa, Toulouse. Do mesmo modo que os heróis cavaleirescos de Chrétien Troyes aprendem a sua identidade pela revelação do seu nome, a cidade se revela a si mesma e se afirma perante as outras pela proclamação do seu nome. A cidade adoptou o nome de cité. Tolosa passa a ser, como dizem os documentos, urbs et suburbium, a cidade e o subúrbio, a cidade e o burgo. A partir de 1190, Tolosa é empregado como termo geral. A consciência da entidade global tornara-se bastante forte para não exigir a cada passo a evocação de seus constituintes. Foi encavalada no local do velho muro romano que separava as duas aglomerações que se construiu a casa comum. Em 1222, os cônsules promulgam um texto que organiza um conselho comum, composto por metade dos cônsules de cada comunidade. Quaisquer que tenham sido para a tomada de consciência dos habitantes as consequências da construção e da existência de uma ou várias muralhas, a importância de seu papel militar é evidente. Ainda aqui o funcional e o simbólico, o militar e o político estão estreitamente ligados. Veremos mais adiante a incidência da edificação das muralhas sobre as finanças urbanas. A guarda e a manutenção desses muros e das suas portas constituiu desde logo um aspecto da luta dos novos cidadãos para assumir eles próprios as suas responsabilidades. Mas também, sem que seja possível distinguir o que prevaleceu, a vontade dos citadinos ou o desejo do senhor ou do rei, tem-se a impressão de que o desejo de livrar-se desse encargo de vigilância levou esses senhores ou o rei a conceder mais facilmente ou mais cedo, contra o seu compromisso de vigiar as portas e os muros, outros privilégios aos habitantes das cidades. Por outro lado, às vezes vêem-se também estes, longe de reivindicar essa função de espreita, vigilância e manutenção, tentando isentar-se dela como do serviço militar.
Em Clermont, já no primeiro foral que conhecemos, em 1219, o conde Guy II faz estipular que, em troca do direito para a comunidade urbana de reunir-se e de fazer o que lhe compete, os cidadãos (cives) deverão vigiar os muros e as torres e limpar os fossos. Em Montpellier, a vigilância da muralha parece caminhar de par com a organização dos ofícios. Desde 1204 a guarda das portas é repartida entre trinta desses ofícios. Ainda aqui aparece a ambiguidade da relação cidade/campo. A muralha define um espaço de exclusão, o do mundo rural, mas também é feita para acolher eventualmente, em caso de guerra, habitantes desse mesmo mundo. A função pode inverter-se e, em relação à população rural, a muralha pode definir, no interior, um espaço de refúgio, em conformidade, aliás, com uma das grandes imagens da cidade, a cidade do refúgio, que o Antigo Testamento lega à cidade medieval. Essa função tinha sido essencial nas sauvetés. Por conseguinte, os camponeses, eventuais beneficiários da protecção da muralha urbana, são chamados com bastante frequência, ao que parece, a participar de sua vigilância.
Em Poitiers, os aldeões dos povoados vizinhos colaboravam para a manutenção da muralha e participavam do serviço de espreita. Ressaltou-se que os 6km de muralhas, encerrando uma população relativamente pequena (15.000 habitantes?), requeriam, para ser eficazes, um grande número de vigias, de reparadores e, em certas ocasiões, de defensores. Durante o nosso período as muralhas tiveram relativamente pouca utilidade. A paz prevaleceu quase sempre sobre a guerra e o banditismo organizado em larga escala, como durante a Guerra dos Cem Anos. No entanto as empresas de Filipe Augusto contra os ingleses (conquista da Normandia) e os flamengos (campanha de Bouvines), as expedições militares, sobretudo dos senhores do Norte e, depois, dos reis Luís VIII e São Luís contra as populações meridionais, e enfim as campanhas de Filipe, o Belo, contra os ingleses no Sudoeste e contra os flamengos no Nordeste foram marcadas por um certo número de sítios de cidades». In Jacques le Goff, O Apogeu da Cidade Medieval, 1980, Livraria Martins Fontes Editora, 1989, 1992, ISBN 978-853-360-127-1.

Cortesia de LMartinsFontesE/JDACT

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Foi lançada abruptamente no meio de uma multidão. O caos reinava ao seu redor. Havia muitos gritos e empurrões»

Cortesia de wikipedia e jdact

Jerusalém
«(…) Talvez porque a jovialidade tivesse voltado ao tom de Mahmoud e ela se sentisse menos pressionada ou talvez fosse a atracção pelo padrão antigo e inexplicado. Alguma coisa, no entanto, fez com que Maureen enfiasse o disco de cobre no dedo anular direito. Coube perfeitamente. Mahmoud balançou a cabeça, sério de novo, quase sussurrando para si mesmo: como se tivesse sido feito para a senhora. Maureen ergueu o anel para a luz, olhando para a mão. Não consigo desviar os olhos. Isso acontece porque deve ficar com o anel. Maureen fitou-o, desconfiada, sentindo a iminência de uma oferta de venda. Mahmoud tinha mais classe que os vendedores das ruas, mas, de qualquer forma, era um mercador. Pensei que houvesse dito que não está à venda. Ela fez menção de tirar o anel, ao que Mahmoud protestou com veemência, erguendo as mãos. Não. Por favor. Está bem. É neste ponto que começamos a negociar, não é mesmo? Quanto? Mahmoud pareceu ofendido por um momento, antes de responder: não está entendendo. Esse anel me foi confiado até que encontrasse a mão certa. A mão para a qual foi feito. Descubro agora que é a sua mão. Não posso vendê-lo à senhora porque já é seu. Maureen olhou para o anel, depois para Mahmoud, perplexa: eu é que não entendo. Mahmoud ofereceu um sorriso solene. Encaminhou-se para a porta da frente da loja. Não pode entender. Mas um dia vai compreender. Por enquanto, apenas fique com o anel. É um presente. Eu não poderia... Pode e ficará. Deve ficar. Se não o fizer, eu terei fracassado. E não vai querer esse peso na consciência, é claro.
Maureen sacudiu a cabeça, cada vez mais aturdida, enquanto o seguia até à porta. Parou ali. Não sei o que dizer ou como agradecer. Não precisa. Mas tem de ir agora. Os mistérios de Jerusalém estão à sua espera. Mahmoud segurou a porta aberta. Maureen saiu e agradeceu de novo. Adeus, Madona..., sussurrou Mahmoud, enquanto ela se afastava. Maureen parou no mesmo instante. Virou-se: desculpe, mas o que foi mesmo que disse? Mahmoud tornou a exibir um sorriso enigmático. Eu disse adeus, minha cara. Ele acenou em despedida. Maureen retribuiu o gesto e tornou a se afastar, ao sol forte do Médio Oriente. Maureen voltou à Via Dolorosa, onde encontrou a Oitava Estação, exactamente como Mahmoud indicara. Mas estava inquieta e incapaz de se concentrar, sentia-se estranha depois do encontro com Mahmoud. Ao continuar no seu caminho, a sensação de vertigem que já experimentara antes voltou, desta vez mais forte, a ponto de desorientá-la. Era o seu primeiro dia em Jerusalém e com certeza sofria do cansaço da viagem e da alteração dos fusos horários. O voo em que chegara de Los Angeles na noite anterior fora longo e cansativo e ela quase não dormira. Fosse uma combinação de calor, exaustão e fome ou alguma coisa mais inexplicável, o que aconteceu em seguida estava completamente fora do território da experiência de Maureen. Ao encontrar um banco de pedra, ela se sentou para descansar um pouco. Balançou com outra onda de vertigem inesperada, enquanto um clarão ofuscante emanava do sol implacável, transportando os seus pensamentos.
Foi lançada abruptamente no meio de uma multidão. O caos reinava ao seu redor. Havia muitos gritos e empurrões, uma intensa comoção por todos os lados. Maureen conservava o suficiente da mentalidade moderna para perceber que as pessoas enxameando ao seu redor vestiam roupas feitas em tear manual. Muitas estavam descalças, enquanto outras usavam uma versão tosca de sandália, como ela notou quando alguém pisou o seu pé. Quase todos eram homens, barbudos e sujos. O sol omnipresente do início da tarde castigava-os, misturando suor com poeira nos rostos furiosos e aflitos ao seu redor. Ela estava na beira de uma rua estreita. A multidão à frente começava a empurrar, com um vigor crescente. Uma brecha natural surgiu, com um pequeno grupo avançando lentamente pelo caminho. A multidão parecia seguir esse grupo. Quando a massa em movimento chegou mais perto, Maureen viu a mulher pela primeira vez». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «Uma escolha muito interessante, comentou Mahmoud. A sua atitude jovial mudara. Estava agora intenso e sério, observando Maureen»

Cortesia de wikipedia e jdact

Jerusalém
«(…) Maureen acenou com o guia, embaraçada. Estou procurando a Oitava Estação. O mapa mostra... Mahmoud descartou o livro, com uma risada. A Oitava Estação. Jesus se encontra com as mulheres santas de Jerusalém. Fica aqui perto, logo depois da esquina. Ele apontou. O local é assinalado por uma cruz bem em cima do muro de pedra, mas tem de olhar com muito cuidado. Mahmoud fitou Maureen atentamente por um momento, antes de acrescentar: é como tudo em Jerusalém. Tem de olhar com muita atenção para ver o que é. Maureen observou seus gestos, até ter a certeza de que compreendia a orientação. Sorriu, agradeceu e virou-se para sair. Mas parou de repente, quando alguma coisa numa prateleira próxima atraiu sua atenção. A loja de Mahmoud era um dos estabelecimentos mais sofisticados de Jerusalém. Vendia antiguidades autenticadas, como lampiões do tempo de Cristo ou moedas com a efígie de Pôncio Pilatos. Um delicado tremeluzir de cores passando pela vitrine deixou-a fascinada. São jóias feitas com fragmentos de vidros romanos explicou Mahmoud, enquanto Maureen se aproximava de um mostruário com jóias de prata e ouro com mosaicos coloridos. São deslumbrantes, murmurou Maureen. Ela pegou um pendant de prata. Prismas de cor projectaram-se pela sala, enquanto ela suspendia a jóia para a luz, iluminando a sua imaginação de escritora. Qual seria a história que este pedaço de vidro poderia contar? Quem sabe o que foi outrora? Mahmoud encolheu os ombros. Um vidro de perfume? Um pote de especiarias? Um vaso para rosas ou lírios?
É espantoso pensar que há dois mil anos era um objecto do quotidiano na casa de alguém. Uma perspectiva fascinante. Maureen resolveu examinar mais atentamente a loja e as coisas que oferecia. Ficou impressionada com a qualidade dos itens e a beleza dos mostruários. Isto tem mesmo dois mil anos? Claro. E algumas das outras peças à venda são ainda mais antigas. Maureen balançou a cabeça. Antiguidades como estas não deveriam pertencer a um museu? Mahmoud riu, um som exuberante e efusivo. Minha cara, a cidade de Jerusalém inteira é um museu. Não se pode abrir um buraco no seu jardim sem encontrar alguma coisa muito antiga. A maior parte dos objectos valiosos vai para colecções importantes. Mas nem tudo. Maureen foi até um balcão de vidro, onde havia jóias antigas de cobre marchetado e oxidado. Sua atenção foi atraída por um anel com um disco do tamanho de uma moeda pequena. Mahmoud acompanhou o seu olhar, tirou o anel do mostruário e o estendeu para ela. Um raio de sol, passando pela vitrine, incidiu sobre a peça e, iluminando a sua base redonda, realçou um padrão de nove pontos em torno de um círculo central.
Uma escolha muito interessante, comentou Mahmoud. A sua atitude jovial mudara. Estava agora intenso e sério, observando Maureen atentamente, enquanto ela o interrogava a respeito do anel. Quão antigo é este anel? É difícil dizer. Meus peritos dizem que era bizantino, provavelmente do século VI ou VII, talvez mais antigo. Maureen examinou o padrão dos círculos. Este padrão parece..., familiar. Tenho a impressão de que já o vi antes. Sabe se simboliza alguma coisa? A intensidade de Mahmoud relaxou. Não posso dizer com certeza o que um artesão pretendia criar há mil e quinhentos anos. Mas me garantiram que era o anel de um cosmólogo. Um cosmólogo? Alguém que compreende a relação entre a Terra e o cosmo. Como acima é abaixo. E devo dizer que me lembrou, na primeira vez em que o vi, dos planetas girando em torno do sol. Maureen contou os pontos em voz alta. ...sete, oito, nove. Mas não podiam saber que havia nove planetas naquele tempo ou que o sol era o centro do sistema solar. Isto não é possível, não é mesmo? Não podemos presumir que sabemos o que os antigos percebiam. Mahmoud encolheu os ombros. Experimente o anel. Maureen, notando subitamente a conversa de um vendedor, devolveu o anel. Não, obrigada. É muito bonito, mas eu estava apenas curiosa. E prometi a mim mesma que não gastaria dinheiro hoje. Não tem problema. Mahmoud recusou-se a pegar o anel de volta, numa atitude firme. Porque o anel não está à venda. Não? Não. Muitas pessoas já quiseram comprar esse anel. Eu me recuso a vendê-lo. Sinta-se à vontade para experimentar. Apenas por diversão». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

quarta-feira, 22 de março de 2017

O Erotismo. Georges Bataille. «Insisto: se às vezes falo a linguagem de um homem de ciência, isto é sempre uma aparência. O cientista fala de fora, tal como um anatomista do cérebro»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Podemos admitir somente que eles trabalhavam, uma vez que conhecemos os seus instrumentos. Uma vez que o trabalho, tanto quanto parece, criou logicamente a reacção que determina a atitude diante da morte, é legítimo pensar que o interdito regulando e limitando a sexualidade foi também o seu contragolpe, e que o conjunto dos comportamentos humanos fundamentais, trabalho, consciência da morte, sexualidade contida, remontam ao mesmo período distante. Os vestígios do trabalho aparecem desde o paleolítico inferior e o sepultamento mais antigo que conhecemos data do paleolítico médio. Na verdade, trata-se de tempos que duraram, segundo os cálculos actuais, centenas de milhares de anos: esses intermináveis milénios correspondem à mudança a partir da qual o homem se desvencilhou da animalidade inicial. Ele escapou trabalhando, compreendendo que morria e passando da sexualidade livre à sexualidade envergonhada de onde nasceu o erotismo. O homem propriamente dito, a que chamamos nosso semelhante, que aparece desde os tempos das cavernas pintadas (o paleolítico superior), é determinado pelo conjunto dessas mudanças existentes no plano religioso e que, sem dúvida, ele leva consigo.

O erotismo, a sua experiência interior, e a sua comunicação relacionados com elementos objectivos e com a perspectiva histórica em que estes elementos nos aparecem
Há uma desvantagem nesta maneira de falar do erotismo. Se eu o tomo como a actividade genética própria do homem, defino-o objectivamente. Relego, todavia, para um segundo plano, apesar do meu interesse, o estudo objectivo do erotismo. Minha intenção é, ao contrário, examinar no erotismo um aspecto da vida interior, se quisermos, da vida religiosa do homem. O erotismo, eu o disse, é aos meus olhos o desequilíbrio em que o próprio ser se põe conscientemente em questão. Em certo sentido, o ser se perde objectivamente, mas nesse momento o indivíduo identifica-se com o objecto que se perde. Se for preciso, posso dizer que, no erotismo, EU me perco. Não é, sem dúvida, uma situação privilegiada. Mas a perda voluntária implicada no erotismo é flagrante. Ninguém pode duvidar disso. Falando agora do erotismo, tenho a intenção de me exprimir sem rodeios em nome do seu sujeito, mesmo se, para começar, introduzo considerações objectivas. Mas se eu falo dos movimentos do erotismo objectivamente, devo dizer logo de saída, é que nunca a experiência interior é dada independentemente de visões objectivas. Nós a encontramos sempre associada a determinado aspecto, inegavelmente objectivo.

A determinação do erotismo é primitivamente religiosa e meu livro está mais próximo da teologia que da história erudita da religião
Insisto: se às vezes falo a linguagem de um homem de ciência, isto é sempre uma aparência. O cientista fala de fora, tal como um anatomista do cérebro. (Isto não é inteiramente verdade: a história das religiões não pode suprimir a experiência interior que se tem ou teve da religião... Pouco importa se o cientista fez tudo para esquecê-la.) Quanto a mim, eu falo da religião de dentro, como um teólogo fala da teologia. O teólogo, é verdade, fala de uma teologia cristã. Enquanto a religião de que falo não é, como o cristianismo, uma religião. É a religião sem dúvida, mas ela se define justamente pelo que, desde o princípio, não faz dela uma religião particular. Não estou falando nem de ritos, nem de dogmas, nem de uma comunidade determinados, mas só do problema que toda religião se colocou: assumo este problema, como o teólogo assume a teologia. Mas sem a religião cristã. Mesmo que só houvesse esta religião, apesar de tudo, eu me sentiria mesmo assim afastado do cristianismo. Isto é tão verdadeiro que o livro em que defino esta posição tem o erotismo como objecto. É sabido que o desenvolvimento do erotismo não é em nada exterior ao domínio da religião, mas justamente o cristianismo, opondo-se ao erotismo, condenou a maior parte das religiões. Em certo sentido, a religião cristã é talvez a menos religiosa. Eu queria que entendessem com exactidão a minha atitude. Primeiramente eu quis uma total ausência de pressupostos a fim de que nenhum me parecesse melhor do que outro. Não há nada que me ligue a alguma tradição particular. Assim, eu não posso deixar de ver no ocultismo ou no esoterismo um pressuposto que me interessa na medida em que ele responde à nostalgia religiosa, mas do qual me afasto, apesar de tudo, uma vez que ele implica uma certa crença. Digo que, à excepção dos cristãos, os pressupostos ocultistas são, a meu ver, os mais incómodos, pois ao se afirmarem num mundo em que os princípios da ciência se impõem, deliberadamente os ignoram». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972 608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDAC

O Erotismo. Georges Bataille. «O erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Nisso nos enganamos porque ele procura constantemente fora um objecto de desejo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Em princípio (não é uma regra), a Índia encara com simplicidade a sucessão das diferentes formas de que falei: a experiência mística é reservada à idade madura, quando se está perto da morte: no momento em que faltam as condições favoráveis à experiência real. A experiência mística ligada a alguns aspectos das religiões positivas opõe-se às vezes a essa aprovação da vida até na morte, onde eu vislumbro geralmente o sentido profundo do erotismo. Mas a oposição não é necessária. A aprovação da vida até na morte é desafio, tanto no erotismo dos corações quanto no dos corpos, desafio, por indiferença, à morte. A vida é acesso ao ser: se a vida é mortal, a continuidade do ser não o é. A aproximação e a embriaguez da continuidade dominam a consideração da morte. Em primeiro lugar, a desordem erótica imediata nos dá um sentimento que ultrapassa tudo, de forma que as sombrias perspectivas ligadas à situação do ser descontínuo caem no esquecimento. E, para além da embriaguez que se abre à vida juvenil, é-nos dado o poder de abordar a morte de frente, e de aí ver, enfim, a abertura à continuidade ininteligível, desconhecível, que é o segredo do erotismo e cujo segredo só o erotismo desvenda. Quem me acompanhou até aqui apreendeu com toda a clareza na unidade das formas do erotismo o sentido da frase que citei no princípio: não há melhor meio de se familiarizar com a morte do que associá-la a uma ideia libertina. Falei de experiência mística, não falei de poesia. Não poderia ter feito isto sem antes penetrar num dédalo intelectual: sentimos tudo o que é a poesia. Ela nos funda, mas não sabemos falar dela. Não falarei agora, mas creio tornar mais sensível a ideia de continuidade que quis salientar e que não pode continuar a ser confundida com a do Deus dos teólogos, lembrando estes versos de um dos poetas mais violentos, Rimbaud: foi reencontrada. O quê? A eternidade. o mar de partida com o Sol. A poesia conduz ao mesmo ponto como cada forma do erotismo; conduz à indistinção, à fusão dos objectos distintos. Ela nos conduz à eternidade, à morte, e pela morte, à continuidade: a poesia é l'éternité.

O erotismo, aspecto imediato da experiência interior, opondo-se à sexualidade animal
O erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Nisso nos enganamos porque ele procura constantemente fora um objecto de desejo. Mas este objeto responde à
interioridade do desejo. A escolha de um objeto depende sempre dos gostos pessoais do indivíduo: mesmo se ela recai sobre a mulher que a maioria teria escolhido, o que entra em jogo é frequentemente um aspecto indizível, não uma qualidade objectiva dessa mulher, que talvez não tivesse, se ela não nos tocasse o ser interior, nada que nos forçasse a escolhê-la. Em resumo, mesmo estando de acordo com a maioria, a escolha humana difere da do animal: ela apela para essa mobilidade interior, infinitamente complexa, que é típica do homem. O animal tem ele próprio uma vida subjectiva, mas essa vida, parece, lhe é dada, como acontece com os objectos sem vida, de uma vez por todas. O erotismo do homem difere da sexualidade animal justamente no ponto em que ele põe a vida interior em questão. O erotismo é na consciência do homem aquilo que põe nele o ser em questão.
A própria sexualidade animal introduz um desequilíbrio e este desequilíbrio ameaça a vida, mas o animal não o sabe. Nele nada se abre que se assemelhe com uma questão. Seja como for, se o erotismo é a actividade sexual do homem, o é na medida em que ela difere da dos animais. A actividade sexual dos homens não é necessariamente erótica. Ela o é sempre que não for rudimentar, que não for simplesmente animal.

Importância decisiva da passagem do animal ao homem
Na passagem do animal ao homem, sobre a qual pouco sabemos, é dada a determinação fundamental. Dessa passagem, todos os acontecimentos nos são subtraídos; sem dúvida, definitivamente. Entretanto, nós estamos menos desarmados do que parece à primeira vista. Sabemos que os homens fabricaram instrumentos e os utilizaram a fim de prover a sua subsistência, depois, sem dúvida, bastante depressa, as suas necessidades supérfluas. Resumindo, eles se distinguiram dos animais pelo trabalho. Paralelamente, eles se impuseram restricções conhecidas como interditos. Essas interdicções essencialmente, e certamente, recaíram sobre a atitude para com os mortos. É provável que elas tenham tocado ao mesmo tempo, ou pela mesma época, a actividade sexual. A data antiga da atitude para com os mortos aparece nas numerosas descobertas de ossos recolhidos por seus contemporâneos. Em todo caso, o homem de Neandertal, que não era inteiramente um homem, que não tinha ainda atingido rigorosamente a posição erecta, e cujo crânio não diferia tanto quanto o nosso dos antropóides, enterrou muitas vezes os seus mortos. As interdicções sexuais não remontam certamente a esses tempos longínquos. Podemos dizer que elas aparecem por toda a parte onde a humanidade surgiu, mas, na medida em que devemos nos ligar aos dados da pré-história, não encontramos nada de tangível que o comprove. O sepultamento dos mortos deixou vestígios, mas nada subsiste que nos dê mesmo uma indicação sobre as restrições sexuais dos homens mais antigos». In Georges Bataille, O Erotismo, 1957/1968, tradução de João Bernard Costa, L&PM Editores, 1987, Editora Antígona, Lisboa, 1988, ISBN 978-972 608-018-3.

Cortesia de L&PM/E Antígona/JDACT