terça-feira, 23 de maio de 2017

Meia-noite ou O Princípio do Mundo. Richard Zimler. «Dormi com o livro e a carta debaixo do colchão durante meses. Os dois objectos tornaram-se-me tão inseparáveis»

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«(…) Questionei-me se As Fábulas da Raposa teriam sido um presente de Joaquim para Lúcia. Se calhar, ela tinha ficado aborrecida e vendera o livro ao senhor David, esquecendo-se de que escondera a carta do seu pretendente lá dentro. Uma vez que não tinha data, os dois apaixonados podiam muito bem já ser avós. Embora também pudesse dar-se o caso de ainda serem solteiros e estarem naquele preciso momento a planear o próximo encontro secreto no cimo da Torre dos Clérigos, a sessenta metros das ruas da cidade.
Meti a carta na algibeira dos calções, inspirei uma golfada de ar bafiento para ganhar coragem e avancei, resoluto, para o senhor David. Entregando-lhe o livro tão inocentemente quanto o meu coração acelerado permitia, depositei-lhe na enorme palma da mão todas as moedas de cobre que trazia naquele momento: quatro moedas de cinco réis. A julgar pelo seu nariz franzido, a bela maquia de vinte réis não andava sequer perto do valor do livro. Lançando-lhe um olhar desamparado, como fazia quando lidava com adultos, implorei-lhe que mo deixasse ir pagando todas as semanas.
Não posso, John, disse ele, abanando a cabeça. Se eu fizesse negócios a crédito, estaria na miséria. Por favor, por favor, por favor..., eu pago-lhe o resto num mês, choraminguei, sem fazer a menor ideia de como iria cumprir aquela promessa, mas sem querer ver as fábulas tão bem ilustradas fugirem-me. Claro que podia ter-me ido simplesmente embora com a carta na algibeira, mas não conseguia pensar em tê-la sem o livro. Isso para mim seria roubo. Sabendo que ele estava prestes a recusar novamente, recorri a todos os meus dotes teatrais e assumi a expressão de um órfão indigente. O senhor David soltou uma gargalhada, visto que já estava à espera disso. No entanto, como recompensa pelo meu esforço, acedeu ao negócio, dando-me uma palmadinha na cabeça, enquanto dizia, à laia de aviso: se não fores capaz de cumprir o nosso acordo, fico contigo como pagamento e depois, não tenhas ilusões, mando a minha mulher cozinhar-te para o jantar! Como sou quase só ossos e nariz, vou saber a gaivota, saiu-me como resposta, e esta tirada agradou tanto ao senhor David que voltou a rir-se e, puxando um banco, aconselhou-me a examinar a minha nova compra enquanto esperava que a tempestade passasse.
E foi assim que comecei a ler a primeira das fábulas, particularmente digna de ser recordada O Rato, a Rã e a Águia, cuja moral é: aquele que persegue o mal, persegue-o até à sua própria morte. Quando o sol voltou, meia hora mais tarde, agradeci ao senhor David, calcei as botas e corri para casa. Depois de grandes elogios da minha mãe por ter tomado tão bem conta do seu tecido, subi dois a dois os degraus da escada até ao meu quarto, onde eu e a carta podíamos estar sozinhos. Paguei os meus tesouros um mês depois, tal como havia prometido, com dinheiro ganho a ajudar o meu pai a limpar o escritório dele e a arrecadação.
Dormi com o livro e a carta debaixo do colchão durante meses. Os dois objectos tornaram-se-me tão inseparáveis como os próprios Joaquim e Lúcia. O mais provável era a minha mãe ter descoberto a carta enquanto arrumava o meu quarto, mas nunca o mencionou. Anos mais tarde, ofereci-a à minha noiva, juntamente com As Fábulas da Raposa como prenda de casamento. Quando ela morreu, agarrei-me a estes dois pertences como se me pudessem salvar de um naufrágio.
Desde o dia em que comprei As Fábulas da Raposa, tenho estragado a vista com milhares de noites a ler à lareira ou na cama à 1uz de uma vela. Uma longa familiaridade com a arte de contar histórias tornou-me consciente de que um conto como o que estou prestes a narrar deve incluir um homem, ou uma mulher, generoso ou com um coração particularmente corajoso. E, no entanto, sinto que me falta tudo para esse papel. Além disso, não confio nos meus talentos para fazer um relato exacto dos acontecimentos que me levaram de Portugal à América. Por isso, sinto que a forma mais adequada e honesta de começar é com um rapaz de doze anos chamado Daniel, que tive a sorte de conhecer por acaso há cerca de vinte e quatro anos. Foi ele que pôs em movimento as ondas que mais tarde me fariam atravessar o oceano Atlântico. Se mereço o papel central nesta história, é, em parte, graças ao exemplo corajoso que ele me deu». In Richard Zimler, Meia-noite ou O Princípio do Mundo, 2003, Porto Editora, 2017, ISBN 978-972-004-727-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

Meia-noite ou O Princípio do Mundo Richard Zimler. «Minha adorada, considerar-me-ias demasiado atrevido se dissesse que todas as noites caio nos braços do sono…»

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«Um vento violento trazia a chuva do mar enquanto me dirigia para casa pelas calçadas íngremes e escorregadias da minha adorada cidade do Porto. Estávamos em Maio de 1798, um mês depois do meu sétimo aniversário. Cuidadosamente arrumados dentro do cesto de verga, encontravam-se dois rolos de musselina azul-índigo que tinha concordado em ir buscar para a minha mãe, mas apenas em troca de um favor, devo confessar. Se esta chuva salpicasse um fio do seu tecido, ela iria resmungar toda a noite e recusar-se-ia a fazer o meu doce preferido. Daí que, não tanto para continuar a proteger as mercadorias, mas tendo em conta a minha gulodice, tenha procurado abrigo.
Uma certa desconfiança herdada em relação a todas as coisas religiosas levou-me a escolher como refúgio a velha livraria do senhor David, em vez da capela caiada mesmo ali ao lado. Quando transpus a porta baixa, o senhor David incitou-me a deixar o cesto atrás da sua escrivaninha e a descalçar as botas encharcadas, que pendurou por cima da grade de ferro ao pé da lareira. Senhor David,  perguntei, posso ir para as Ilhas Britânicas? Vai lá, rapaz!, acedeu, sorrindo. Corri pelo soalho rangente rumo à bafienta sala do fundo, onde o senhor David guardava o seu tesouro de livros ingleses, a que o meu pai e eu, desde que me consigo lembrar, chamávamos as Ilhas Britânicas.
Devo explicar que, embora eu tenha nascido no Porto, uma cidade provinciana com sessenta e cinco mil almas, no Norte de Portugal, o meu pai tivera a honra, como ele tantas vezes dizia, de ter nascido escocês. Eu ainda não me apercebera disso, mas, quando falava inglês, fazia-o com uma pronúncia claramente escocesa. Com estantes carregadas de livros, mofo e aranhas de patas fininhas, estas Ilhas Britânicas eram abençoadas pela abundância, mas, infelizmente, não se podiam gabar de ter uma janela decente, salvo a pequena claraboia octogonal no tecto baixo e curvo. A chuva fustigava o vidro amarelecido, provocando um tamborilar muito semelhante ao de ratos a correr.
Estava tão escuro que mal conseguia ver as minhas próprias mãos e pensava em pedir uma vela quando, repentinamente, o sol espreitou por entre as nuvens, iluminando uma estante encostada à parede. Aproximando-me, distingui um dos títulos gravado em letras douradas cintilantes, As Fábulas da Raposa. Visto que não havia nenhum nome de autor impresso na capa, e dado como eu era a voos de fantasia, imaginei que tinha sido uma raposa inteligente a escrevê-las. O sol desapareceu e ficou tudo escuro outra vez. Enxotei Hércules, o gato malhado do senhor David, sentei-me na serradura do chão e abri o livro. Lá dentro, as espessas páginas amarelecidas tinham desenhos coloridos de cães, gatos, macacos, elefantes e muitos outros animais, uma espécie de Arca de Noé. Fiquei tão excitado com aquela descoberta que só consegui ler as primeiras frases de cada história. Desejando perguntar o preço ao senhor David, mas temendo a perspectiva de uma quantia acima das minhas posses, levantei-me para ponderar as opções. Foi nessa altura que uma folha de papel azulado, qual asa de borboleta, caiu das páginas do livro, flutuando até pousar em cima do meu pé direito.
Apanhei-o e olhei sub-repticiamente em volta. O senhor David estava sentado à secretária a fumar cachimbo, esfregando distraidamente a careca enquanto estudava um mapa enorme. Hércules tinha-se enroscado no colo dele. Plantei-me no canto mais escuro da sala e percebi que aquele papel era, na verdade, uma carta, escrita numa letra elegante e dirigida a uma mulher chamada Lúcia. Começava: Minha adorada, considerar-me-ias demasiado atrevido se dissesse que todas as noites caio nos braços do sono imaginando a tua mão sobre o meu peito? A seguir, li sobre lábios húmidos, luar, desmaios e flores de laranjeira. Reconheci a palavra seios... Que emocionante aquilo parecia! Todavia, muitas outras palavras eram-me desconhecidas. Precisaria de um dicionário para saber quão chocante era a carta. Estava assinada com um grande floreado por um homem chamado Joaquim. Ele até fazia a pintinha do i com a forma de um coraçãozinho minúsculo». In Richard Zimler, Meia-noite ou O Princípio do Mundo, 2003, Porto Editora, 2017, ISBN 978-972-004-727-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

domingo, 21 de maio de 2017

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Mas Clifford, apesar demais educado e de melhor sociedade do que Connie, era à sua maneira mais provinciano e mais tímido»

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«(…) Era óbvio, olhando para eles. que conheciam o amor, isto é. Tinham tido a experiência física. É curiosa a subtil mas inequívoca transmutação que ela provoca no corpo quer dos homens quer das mulheres: a mulher floresce, as suas formas ficam mais arredondadas, as formas angulosas atenuam-se, e a expressão torna-se ora ansiosa ora triunfante; o homem torna-se mais calmo, mais interiorizado, e o contorno dos ombros e das nádegas menos acentuado, mais hesitante. Com a emoção corporal, as duas irmãs quase sucumbiram ao poder estranho do macho. Mas rapidamente se recompuseram, encararam e emoção sexual como uma sensação e continuaram livres. Os homens, gratos às mulheres pela experiência física, deram-lhes um pouco da sua alma. Depois, pareciam por vezes mais uma pessoa que perde dez tostões e encontra cinco. O jovem de Connie tinha mau feitio e o de Hilda era trocista. Mas os homens são assim! Ingratos e sempre insatisfeitos; se não são aceites, odeiam a mulher por não os aceitar, se o são, odeiam-na por qualquer outra razão, ou nenhuma razão, porque são crianças descontentes e nada os satisfaz por mais que a mulher faça.
Todavia, a guerra rebentou e Connie e Hilda regressaram apressadamente a Inglaterra, depois de também aí terem passado o mês de Maio, quando do funeral da mãe. Antes do Natal de 1914 os dois jovens já estavam mortos, e as irmãs choraram-nos e amaram-nos apaixonadamente; mas no fundo já os tinham esquecido, eles já não existiam. Viviam então na casa do pai, ou melhor, da mãe. em Kensington. Davam-se com um jovem grupo de Cambridge, que defendia a liberdade e as calças, camisas de flanela abertas no pescoço, e uma espécie de anarquia saudável. Tinham uma voz murmurante de quem falava baixo. e eram ultra-sensíveis. Hilda, porém, casou de súbito com um homem dez anos mais velho, dos mais velhos desse grupo de Cambridge, um homem com bastante dinheiro e com um bom cargo oficial, que também escrevia ensaios filosóficos. Foi viver com ele para uma pequena casa em Westminster, e passou a frequentar aquele tipo de sociedade do meio governamental que não é exactamente o pináculo, mas que constitui, ou, pelo menos, deveria constituir, o poder realmente inteligente da nação: pessoas que sabem do que falam, ou falam como se assim fosse.
Connie teve um emprego de guerra e ligou-se aos intransigentes, de calças de flanela do grupo de Cambridge, que subtilmente troçavam de tudo. O seu amigo era Clifford Chatterley, um jovem de vinte e dois anos, que regressara apressadamente de Bona, onde estudava as técnicas da exploração mineira do carvão. Antes estivera em Cambridge dois anos e agora era primeiro-tenente num regimento de escol. Assim podia escarnecer de tudo, mais elegantemente no seu uniforme. Clifford Chatterley era da melhor sociedade que Connie. Esta pertencia à intelectualidade próspera, mas ele era da aristocracia, não da alta, mas da aristocracia, de qualquer modo. O pai era baronete e a mãe filha de um visconde.
Mas Clifford, apesar demais educado e de melhor sociedade do que Connie, era à sua maneira mais provinciano e mais tímido. Sentia-se à vontade no seu pequeno grande mundo, isto é, entre a aristocracia da terra, mas tímido e nervoso perante esse outro grande mundo que consiste nas hordas das classes média e baixa e dos estrangeiros. Para dizer a verdade, ele tinha um pouco de receio da humanidade da classe média e baixa e dos estrangeiros que não pertenciam à sua classe. Estava consciente da sua impossibilidade de defesa, embora possuísse a defesa do privilégio. É curioso, mas é um fenómeno do nosso tempo. Assim, a suave autoconfiança de uma rapariga como Constance Reid fascinava-o. Ela era muito mais senhora de si mesma naquele mundo caótico do que ele.
Todavia, também ele era um rebelde, rebelando-se até contra a sua classe. Rebelde talvez seja uma palavra forte demais. Ele apenas partilhava da aversão geral e popular dos jovens às convenções e a qualquer tipo de verdadeira autoridade. Os pais eram ridículos, o seu ainda mais por ser obstinado. E os governos eram ridículos, e o nosso principalmente por manter uma atitude de expectativa. E os exércitos eram ridículos, assim como os antiquados generais, o mais importante de todos o corado Kjtchner. Até a guerra era ridícula, embora matasse muita gente. De facto, tudo era um pouco ridículo, ou muito ridículo: tudo aquilo relacionado com autoridade, quer fosse no exército, no governo ou nas universidades, era muitíssimo ridículo. E, na medida em que as classes dirigentes tinham pretensões de governar, eram também ridículas. O pai de Clifford, sir Geoffrey, era bastante ridículo a deitar abaixo as árvores e a expulsar os homens da mina de carvão para os mandar para a guerra, sendo ele tão prudente e patriota, e ao mesmo tempo gastando mais dinheiro do que possuía para bem da pátria.
Quando miss Chatterley chegou a Londres, vinda dos Midlands, para trabalhar como enfermeira, era discretamente muito espirituosa quando falava de sir Geoffrey e do seu patriotismo decidido. Herbert, o irmão mais velho e herdeiro, ria abertamente, embora fossem as suas árvores que caíssem para fazer as trincheiras da propriedade, mas Clifford só sorria, um pouco constrangido. De facto, tudo é ridículo, mas quando nos começa a tocar de mais perto tornamo-nos também ridículos... Pelo menos, pessoas de outra classe, como Connie, eram honestas em alguma coisa, acreditavam em alguma coisa». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.

Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

sábado, 20 de maio de 2017

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «Aos seus olhos, o pároco era quase um corcunda e um idiota. Mas o mais engraçado era o facto de a avó, secretamente, odiar mais Lucille»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) As crianças foram educadas nesta atmosfera de astuta auto-santificação e de coisas não mencionáveis. Também elas viam a branca flor lá no alto, em alturas inacessíveis. Também elas a sabiam entronizada, num solitário esplendor, muito acima das suas vidas, nunca destinada a ser tocada. Ao mesmo tempo, do vil mundo exterior, surgia por vezes um grosseiro e diabólico odor de egoísmo e degradada luxúria, o odor daquela horrível vadia, A-que-fora-Cynthia. Essa vadia conseguia, de vez em quando, fazer chegar um bilhetinho às mãos das suas raparigas, das suas filhas. Quando isso acontecia a Mater, com os seus cabelos prateados, tremia interiormente de ódio. Se A-que-fora-Cynthia alguma vez regressasse, não restaria grande coisa da Mãe. Era então que uma secreta rajada de ódio saltava da velha avó para as crianças, filhas daquela lasciva vadia, daquela Cynthia, que demonstrara um desprezo tão afectuoso pela Mater.
Misturado com tudo isto havia o facto de as crianças se recordarem perfeitamente da sua verdadeira casa, o vicariato no Sul, e da sua fascinante, mas pouco dependente, mãe, Cynthia. Ela brilhara muito, fora uma torrente de vida, um vivo e perigoso sol no lar, sempre a ir e a vir. Para elas, a presença da mãe estivera sempre associada ao brilho, mas também ao perigo; ao fascínio, mas com um assustador egoísmo. Agora o fascínio desaparecera e a branca flor, como uma grinalda de porcelana, gelava no seu túmulo. O perigo da instabilidade, essa espécie de egoísmo peculiarmente perigosa, como a dos leões e dos tigres, também desaparecera. Havia agora uma estabilidade completa, onde era possível sucumbir em segurança.
Mas as raparigas estavam a crescer e à medida que cresciam tornavam-se mais definitivamente confusas, mais activamente intrigadas. A Mater, à medida que envelhecia, via cada vez menos. Tinha de haver alguém para a guiar. Nunca se levantava antes do meio-dia. No entanto, cega ou presa à cama, dirigia a casa. Além disso, não estava presa à cama. Sempre que estavam presentes homens, a Mater encontrava-se no seu trono. Era demasiado astuta para cortejar a negligência, muito em especial porque tinha rivais. A sua grande rival era a rapariga mais nova, Yvette. Yvette tinha alguma da vaga e descuidada jovialidade de A-que-fora-Cynthia. Mas esta era um pouco mais dócil. A avó talvez a tivesse agarrado a tempo. Talvez!
O pároco adorava Yvette e mimava-a com apaixonada ternura, o que era o mesmo que dizer: então não sou um homem indulgente e de terno coração? Ele gostava de ter fraquezas. Ela conhecia-as, esta opinião que ele tinha de si mesmo, e a Mater também conhecia as opiniões dele e utilizava-as, transformando-as em enfeites para uso dele próprio, para lhe embonecarem o carácter. Ele desejava, a seus próprios olhos, possuir um carácter fascinante, tal como as mulheres desejam vestidos fascinantes. Assim, astuciosamente, a Mater colocava sinais de beleza por cima dos seus defeitos e deficiências. O seu amor maternal dera-lhe a chave para as fraquezas dele, fraquezas que ela escondia dele próprio, enfeitando-as. Enquanto aquela, A-que-fora-Cynthia...! Mas a este respeito, não a mencionemos.
Aos seus olhos, o pároco era quase um corcunda e um idiota. Mas o mais engraçado era o facto de a avó, secretamente, odiar mais Lucille, a rapariga mais velha, do que a mimada Yvette. Lucille, a inquieta e irritável, estava mais consciente de se encontrar sob o domínio do poder da avó do que a distraída Yvette, estragada com mimos. Por outro lado, a tia Cissie odiava Yvette. Odiava até o seu nome. A vida da tia Cissie fora sacrificada à Mater, a tia Cissie sabia-o e a Mater sabia que ela o sabia. Este facto, enquanto os anos passavam, foi-se tornando numa convenção. A convenção do sacrifício da tia Cissie era aceite por toda a gente, incluindo a própria Cissie. E ela rezava muito por causa disso. O que também queria dizer que, algures, tinha os seus próprios sentimentos pessoais, coitada dela. Deixara de ser Cissie, perdera a sua vida e o seu sexo. E agora que se arrastava em direcção aos cinquenta, surgiam nela estranhos e verdes clarões de ódio e, nessas ocasiões, ficava como louca». In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Contos e Fantasias. Maria Amália Carvalho. «Determinou ter uma ocupação, um ofício, exercer um trabalho qualquer, mas bem depressa adquiriu a desoladora certeza de que a sua fraqueza física o tornava incapaz…»

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«(…) Os próprios mestres tinham de fazer esforço para se não rirem quando o viam. Na hora do recreio tomou-se a vítima, o bode expiatório do colégio. Um dia, porém, a brincadeira atingiu tais proporções que degenerou em perversa brutalidade. Tadeu caiu no chão extenuado a lançar sangue pelo nariz. Do grupo estupefacto e arrependido dos colegiais destacou-se então um, o mais velho, o mais valente o que nunca entrava naquelas farsadas brutais, e disse com voz decidida: tomo esse pobre diabo debaixo da minha protecção. O primeiro que lhe tocar tem os ossos num feixe. Ninguém se atreveu a responder uma palavra. Henrique Souza era temido e respeitado. Nas aulas era o primeiro; nas brincadeiras era o mais forte; na luta era o mais destemido. Órfão de pai, era sustentado no colégio pelo trabalho insano da mãe e da irmã mais velha que se tinham feito costureiras para o poderem educar. Henrique fizera-se homem antes de tempo. O seu pensamento fixo era poder pagar a dívida sagrada que contraíra com as duas heróicas e dedicadas mulheres. Quando Tadeu despertou do desmaio em que a fraqueza o mergulhara, fixou os seus tristes olhos esgazeados e humildes na fisionomia meiga e viril de Henrique. Compreendeu que tinha achada um amigo e caiu-lhe nos braços a soluçar.
Tadeu conservara-se cinco anos no colégio, e saíra de lá um pouco mais forte e um pouco menos desgraçado. Henrique, que há três anos tinha completado a sua educação, e que agora cursava a escola de medicina, nunca deixara de o ir visitar de tempos a tempos, levando-o muitas vezes por ocasião das férias a passar o dia em casa da sua mãe. O jovem estudante de medicina dava lições de francês e inglês nas horas vagas, para aumentar os minguados recursos da família e como um tio que morrera lhe tivesse deixado uma pequena pensão, viviam agora todos três mais desafogadamente.
Ocupavam uma casa pequenina mas muito bonita e quase nova; tinham um quintal com três galinhas, um casal de pombos e um canteirinho semeado de flores. O trabalho da casa era a mãe de Henrique quem o fazia; a irmã costurava e bordava para fora, o irmão vivia de estudar e de esperar. Muito unidos, muito resignados; em certos momentos mesmo, muito alegres, de uma alegria serena e doce, a alegria dos corações honrados que confiam na providência de Deus! Henrique era formoso sem dar por isso. O único modo possível de um homem ser formoso. Joaninha, a irmã, que já fizera vinte e sete anos, era uma doce e casta fisionomia de virgem que tem padecido muito. Nos seus grandes olhos melancólicos havia a tranquila doçura dos que repousam depois de uma luta esmagadora. Tinha a certeza de que havia na terra alegrias que nunca seriam dela, e no entretanto não se revoltara; pusera noutro ponto mais alto a sua mira.
Descobrira a sua individualidade, vivia da vida e das esperanças do seu irmão. Neste interior recolhido e casto, Tadeu sentiu pela primeira vez acordar a consciência. Sofria muito ali pelas comparações dolorosas que fazia, mas compreendeu que nesse mesmo sofrimento havia um progresso do seu espirito e afeiçoou-se às torturas que ele lhe dava. O trabalho era a lei daquela casa, e Tadeu não sabia trabalhar. Ali concebia-se a vida de um modo elevado e justo, a dignidade do homem estava identificada com a sua independência, e Tadeu não passava de um parasita. Aprendeu na convivência de Henrique e da sua mãe e irmã muito mais do que aprendera em todos os anos da sua desconsolada existência.
Determinou ter uma ocupação, um ofício, exercer um trabalho qualquer, mas bem depressa adquiriu a desoladora certeza de que a sua fraqueza física o tornava incapaz de qualquer esforço aturado e violento. Com vinte e três anos conseguira tão-somente, por fim de porfiada luta, ser uma espécie de caixeiro de guarda-livros do seu tio. Aprendeu a fazer bem contas, e tornou-se útil naquela desordenada administração de uma casa colossal. Isto não era de certo coisa que satisfizesse as ambições de outro qualquer, mas para ele isto já era uma grande, uma sublime conquista». In Maria Amália Vaz de Carvalho, Contos Fantasias e Reflexões (da primeira mulher a ingressar na Academia das Ciências de Lisboa), 1880, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ePub, Uma História Verdadeira, Wikipedia.

Cortesia de LLivros/JDACT

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Ah, Anne, como é bom vê-la. A minha casa é sombria demais»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Essa é a última rainha?, pergunta Meg, apontando para a mulher sóbria com uma touca triangular ao lado do rei. Não, Meg, Katherine sussurra, colocando um dedo sobre os seus lábios, é melhor não mencionar a última rainha. Essa é a rainha Jane, a irmã de Thomas Seymour, que você acabou de conhecer. Mas porque a rainha Jane é retratada, se já houve duas rainhas depois dela? A rainha Jane é a que deu ao rei o herdeiro. Katherine omite o comentário de que Jane Seymour morreu antes que o rei se cansasse dela. Então este é o príncipe Edward. Meg aponta para o garoto, uma versão em miniatura do pai, imitando a sua pose. Sim, e estas são lady Mary e lady Elizabeth, Katherine diz, apontando para as duas garotas pairando na borda da tela como borboletas sem lugar para pousar. Vejo que está admirando o  meu retrato, diz uma voz atrás delas. Katherine e Meg viram-se. Will Sommers!, exprime-se Katherine. Seu retrato? Não me vê? Ela olha novamente, encontra-o no fundo da imagem. Ali está você. Não tinha notado. Ela vira-se para a enteada. Meg, este é Will Sommers, o bobo e fanfarrão do rei, o homem mais honesto da corte. Ele estica a mão e tira uma moeda de cobre de detrás da orelha de Meg, provocando nela uma rara risada descontraída.
Como fez isso?, pergunta ela com uma voz aguda. Mágica, responde ele. Não acredito em mágica, diz Katherine. Mas reconheço um bom truque quando vejo. Ainda estão rindo quando chegam aos aposentos de lady Mary, onde a favorita de Mary, Susan Clarencieux, surge imponente diante da porta, vestida de amarelo-gema, silenciando-os como uma víbora. Ela está com uma daquelas dores de cabeça, diz Susan com um sorriso forçado. Então não façam barulho. Olhando Katherine de cima a baixo, como se calculando o valor do vestido e achando-o barato demais, ela diz: tão sério e escuro, lady Mary não vai gostar. Em seguida, cobre a boca com a mão. Perdoe-me, esqueci que estava de luto. Está esquecido, responde Katherine.
A sua irmã está na câmara privada. Com licença, preciso cuidar de… Ela não termina a frase e desliza de volta para dentro do quarto, fechando a porta silenciosamente. Elas andam pela câmara onde algumas damas cuidam dos seus trabalhos manuais. Katherine cumprimenta-as acenando com a cabeça até encontrar a sua irmã Anne no nicho de uma janela. Kit, diz Anne. Que prazer vê-la finalmente. Ela levanta-se e dá um abraço na irmã. E Meg. Anne dá um beijo em cada bochecha dela. A garota relaxou visivelmente agora que estão num aposento de mulheres. Meg, por que não vai olhar as tapeçarias? Acho que o seu pai está retratado numa delas. Veja se consegue encontrá-lo.
Ela vai até à outra ponta da sala e as duas irmãs sentam-se num banco ao lado da janela. Então, o que está acontecendo? Por que acha que fui chamada? Katherine não consegue afastar os olhos da irmã, o seu sorriso tranquilo, o brilho translúcido da sua pele, as mechas pálidas que escapam da touca, o seu rosto perfeitamente oval. Lady Mary vai ser madrinha. Muitas pessoas foram chamadas para ver. Não fui só eu, então…, fico contente de saber. Quem vai ser baptizado? Um bebé Wriothesley. Uma menina chamada… Mary, elas dizem ao mesmo tempo, rindo. Ah, Anne, como é bom vê-la. A minha casa é sombria demais». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Bem, ela não viveu para dar errado. Talvez isso tenha sido bom. Era o seu maior desejo ver os Parr novamente em ascensão»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Caminham em silêncio pela longa galeria em direcção aos aposentos de lady Mary. Will parece cismado e Katherine suspeita que esteja pensando que gostaria que fosse ele de luto pela esposa. Os dois se odeiam desde que se conheceram. Anne Bourchier, a única herdeira do idoso conde de Essex, era o prémio que sua mãe havia conquistado quase implorando para o seu único filho. Com Anne Bourchier vieram grandes expectativas, entre elas o título de Essex para levar os Parr um ou dois degraus acima. Mas o casamento não trouxera nada ao pobre Will, nenhum filho, nenhum título, nenhuma felicidade; nada além de desgraça, pois o rei deu o condado a Cromwell e Anne fugiu com um clérigo do interior. Will não conseguia livrar-se do escândalo, era sempre assediado com piadas sobre enganos clericais, esconderijos de padre e mitra. Não via graça nenhuma e, não importa quanto tentasse, não conseguia fazer o rei sancionar o seu divórcio. Está pensando na sua esposa?, pergunta ela. Como sabe? Conheço-o mais do que imagina, Will Parr. Ela teve outro fedelho com aquele maldito padre. Ah, Will, o rei vai acabar mudando de ideia e você poderá fazer de Lizzie Brooke uma mulher honesta.
Lizzie está perdendo a paciência, Will resmunga. Quando penso nas esperanças que a mãe tinha nesse casamento, em tudo que fez para arranjá-lo… Bem, ela não viveu para dar errado. Talvez isso tenha sido bom. Era o seu maior desejo ver os Parr novamente em ascensão. O nosso sangue é bom o bastante, Will. O nosso pai serviu o velho rei e o seu pai serviu Edward IV, nossa mãe serviu a rainha Catherine. Ela conta os familiares nos dedos. Quer mais? Isso é história, Will diz num grunhido. Nem me lembro do meu pai. Só tenho vagas lembranças dele, diz ela, embora se lembre claramente do dia em que foi enterrado; quão indigna ela se sentira por ser considerada jovem demais, aos seis anos, para ir ao funeral. Além do mais, a nossa irmã Anne serviu todas as cinco rainhas e agora serve a filha do rei. E é provável que eu a sirva também. Ela fica irritada com a ambição do irmão, tem vontade de dizer que, se ele se importa tanto com a ascensão dos Parr, deveria buscar favores junto às pessoas certas em vez daquele sujeito. Seymour pode ser tio do príncipe Edward, mas é seu irmão Hertford que tem voz com o rei.
Will começa a sua ladainha novamente, mas parece pensar melhor. Os dois continuam a caminhar em silêncio, serpenteando entre a multidão que circula em frente aos aposentos do rei. Então ele aperta o seu braço, dizendo: o que acha de Seymour?. Seymour? Sim, Seymour…Nada de mais. A sua voz sai entrecortada. Não o acha esplêndido? Não especialmente. Achei que poderíamos tentar arranjar um casamento com Meg. Com Meg?, ela diz bruscamente. Perdeu a cabeça? A cor sumiu do rosto da garota. Ele comeria a pobrezinha viva, pensa Katherine. Meg não vai casar com ninguém por enquanto. Não quando o corpo de seu pai ainda mal arrefeceu. Foi só… Uma ideia ridícula, ela vocifera.
Ele não é o que você pensa, Kit. É um de nós. Com isso ela imagina que Will quer dizer que Seymour é a favor da nova religião. Ela não gosta de ser agrupada com os reformadores da corte, prefere guardar os seus pensamentos sobre o assunto. Aprendeu ao longo dos anos que é mais seguro cultivar certa opacidade ali. Surrey não gosta dele, diz ela. Ah, é só uma coisa de família, nem é sobre religião. Os Howard acham os Seymour arrogantes. Não afecta Thomas. Katherine bufa. Will as deixa admirar a nova pintura do rei que está exposta na galeria. É tão nova que ela consegue sentir o cheiro de tinta; as cores são vívidas, com os detalhes em dourado». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Alguns deles com certeza achariam que eu merecia a morte, e para muitos mais a minha simples presença seria uma profanação do leito de morte do meu pai»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Deixei-o falar. Não fiz falsas promessas de conversão. Se as tivesse feito, talvez desse mais paz a ele, mas não pude fazê-lo, não pude mentir a respeito disso. Consegui dizer gentilmente que, apesar de não concordar mais com o islão, eu ainda lia o Alcorão. Não acrescentei que a cada releitura eu me tornava mais crítica em relação às suas mensagens. Ele irrompeu numa série de súplicas: que Alá a proteja, que Ele a traga de volta para o rumo correcto, que Ele a leve ao Paraíso no além, que Alá a abençoe e preserve sua saúde. Ao fim de cada súplica, respondi com a fórmula exigida: amin, que assim seja.
Depois de algum tempo disse a meu pai de que precisava tomar um avião. Ele não perguntou para onde nem por quê; percebi que os detalhes dos assuntos terrenos tinham pouca importância para ele agora. Então desliguei, deixando entre nós muitas outras coisas por dizer, e quase perdi o avião que me levaria ao Brasil para uma conferência sobre multiculturalismo. No fim de Junho, após a conferência no Brasil, eu deveria ir até à Austrália para participar de um colóquio sobre o Iluminismo. Planeei visitar o meu pai no fim do verão. Mas em meados de Agosto, quando estava voltando da Austrália, recebi outro telefonema de Marco durante uma paragem em Los Angeles. Meu pai estava em coma. Telefonei novamente para a minha prima, Magool, e ela me deu o número de telemóvel da minha meia-irmã, Sahra. Quando vira a filha mais nova do meu pai pela última vez, em 1992, Sahra estava com oito ou nove anos, uma criança franzina e energética. Conhecemo-nos quando parei na Etiópia durante a viagem da minha casa, no Quénia, até à Alemanha.
De lá, sob as ordens do meu pai, eu deveria ir ao Canadá para me unir a um homem que mal conhecia, um primo distante que se havia tornado meu marido. Naquela época, Sahra morava em Adis Abeba com a mãe, que, como a minha própria mãe, ainda estava casada com meu pai apesar da sua ausência. Brinquei com esta meia-irmã durante toda a tarde, esforçando-me para lembrar o amárico da minha infância, o único idioma falado por ela na época e a língua que eu mesma falava quando tinha essa idade e ainda morava com meu pai.
Agora, no Verão de 2008, Sahra tinha 24 anos. Estava casada e tinha uma filha de quatro meses. Morava com a mãe, a terceira esposa do meu pai. Não contei a Sahra que pretendia visitar o meu pai no hospital. É horrível escrever algo deste tipo, mas a verdade é que eu não sabia se poderia confiar nela e dividir essa informação. Acredito que os membros mais próximos da minha família não desejam realmente matar-me, mas a verdade é que eu os envergonhei e magoei; eles têm de suportar a indignação causada pelas minhas declarações públicas, e sem dúvida alguns membros do meu clã querem matar-me por causa disso.
Mas Sahra adiantou-se e sugeriu que se eu quisesse visitar abeh seria melhor evitar o horário oficial de visitas, quando multidões de somalis procurariam o meu pai no Royal London Hospital em busca de uma bênção dele que melhorasse as suas chances de chegar ao Paraíso. Para muitos, abeh era um símbolo da luta contra o regime militar do presidente Siad Barre; ele era um homem que dedicou a maior parte de sua vida adulta à tentativa de derrubar aquele regime. No East End de Londres, as coisas eram como na Somália: muitas esposas, muitos filhos e netos, anciãos do clã e do subclã e dos subclãs irmãos, muitos e muitos parentes procuravam meu pai para manifestar o seu respeito por ele. Para muitos deles eu não seria bem-vinda ao lado da cama do meu pai por ser uma descrente, uma infiel, uma ateia declarada, uma fugitiva suja e, ainda pior, uma traidora do clã e da fé.
Alguns deles com certeza achariam que eu merecia a morte, e para muitos mais a minha simples presença seria uma profanação do leito de morte do meu pai, podendo até custar a ele o seu lugar no além. Entretanto, não senti em Sahra tamanha rejeição. Ela foi doce e silenciosa, um pouco como se participasse de uma conspiração, como se ao conversar com ela pelo telefone eu a tivesse envolvido em algo clandestino e perigoso». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Aposta Indecente. Matilda Wright. «… as belas moças que trabalhavam em sua casa exibiam as suas formas esculturais dançando ou, simplesmente, conversando em pequenos grupos»

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«(…) Querendo ver tudo e, atrás de um túmulo, com habilidades de contorcionista tornando (…) e debruçando-se sobre a tampa do sepulcro para ser possuída… Helène aos gritos, os dedos cravados nas pregas de pedra de um manto real qualquer, descontrolada. O sacristão, velho e quase surdo, passando por ali e olhando espantado para a aflição daquela moça tão nova. Um antepassado, disse Villeclaire. Está muito comovida... Helène, a louca! Vem!, disse Louis abrindo os olhos, na urgência que as recordações de Helène lhe tinham deixado no corpo.
Monsieur, o conde de Joubert..., repetiu Cléa, e parecia uma menina, pálida, assustada, o pequeno corpo tremendo. Está lá em baixo, ferido, matou um homem... Villeclaire despertou imediatamente do torpor em que a noite com Cléa e as recordações de várias outras noites, muito antes de Cléa, o tinham deixado e saltou da cama, nu. Bertrand de Joubert não era exactamente um amigo e, apesar do título de conde, também não era um verdadeiro cavaleiro, mas era um velho conhecido, um vizinho cujo castelo no Vale do Loire ficava muito próximo do enorme palácio que Louis tinha herdado naquela mesma região. Vestiu-se às pressas, amaldiçoando as inúmeras peças de roupa que um homem elegante era obrigado a usar, e saiu do quarto, ainda atando a fita de seda com que prendia o cabelo, seguido por Cléa, pobre Cléa, em pânico.
Louis de Villeclaire foi um dos últimos clientes de madame Martine a entrar no enorme salão onde os grandes espelhos de molduras douradas reverberavam à luz das centenas de velas que ardiam, envolvendo o ambiente num cálido odor de cera e almíscar. As paredes, ricamente forradas de damasco azul, eram testemunhas mudas das muitas conversas ali mantidas ao longo dos anos. Negócios de Estado, vendas de bancos, nomeações de diplomatas, substituições de ministros, até o início da guerra na Crimeia, dizia-se, tinham sido decididas naquela sala onde Martine recebia os seus selectos clientes e onde, enquanto estes bebiam champanhe e fumavam longos charutos perfumados, as belas moças que trabalhavam em sua casa exibiam as suas formas esculturais dançando ou, simplesmente, conversando em pequenos grupos.
Mas não era nada disso que se passava naquela noite quando Louis desceu do quarto de Cléa e entrou no salão. Bertrand de Joubert jazia num dos canapés forrados de seda azul celeste, e o doutor Moreau, o mais famoso dos médicos de Paris, acabava de lhe colocar uma ligadura no braço direito. Havia na sala uma agitação desusada. Os risinhos das moças tinham sido substituídos por sussurros. Homens circunspectos conversavam em voz baixa. E Martine, mantendo o seu porte de rainha crioula, segurava a mão de Joubert. Vamos, onde se meteu? Por pouco não subi para arrombar a porta do quarto de Cléa. Pierre Forchemont puxava o amigo, a caminho da saída. O que é que aconteceu?, queria saber Villeclaire. Conto-lhe quando estivermos a salvo dentro da minha carruagem. A polícia não tarda a aparecer... E os outros? Marcel, Laurent, Gas... O marquês de Fochemont nem lhe deu tempo para acabar a frase: estão à nossa espera no Gascogne, com ostras e champanhe. Conto-lhe no caminho.
A carruagem que já os esperava na porta atravessou a Rue Saint-Honoré e, logo depois, os cavalos trotavam ao longo da Rue de Rivoli finda a qual depositaria os passageiros junto das magníficas arcadas da Place de Vosges, onde ficava o Gascogne, restaurante frequentado pela alta sociedade parisiense e com fama de ter as melhores ostras da França. Chovia torrencialmente e as grossas gotas de chuva batiam na capota da carruagem fazendo um barulho ensurdecedor, ainda piorado pelo som das ferraduras dos quatro possantes cavalos. Era impossível conversar, fazer perguntas. Por isso, Louis de Villeclaire limitou-se a ouvir o que o seu amigo Pierre de Fochemont contava, aos gritos e entre gargalhadas: uma aposta estúpida! Entre o Joubert e o Duvernois, o velho tabelião da Rue des Archives... Nem entendi bem! Uma confusão qualquer aos dados que acabou numa aposta sobre qual deles era mais rápido disparando uma pistola...
Villeclaire soltou uma gargalhada: dois apostadores inveterados e dois péssimos atiradores! Mas, pelo visto, ambos com a mesma velocidade no gatilho, disse Fochemont. O Joubert foi atingido num braço e a ironia é que, apesar de mau atirador, desta vez acertou no alvo. Matou o Duvernois... Matou? Villeclaire já não ria. Matou, respondeu Fochemont no momento em que a carruagem parava em frente à porta do restaurante. Saíram correndo para chegarem ao abrigo das arcadas antes que a chuva os deixasse encharcados. Onde foi isso? Marcaram encontro para esta noite, no Bois de Bologne. No Bois?, ainda perguntou Louis. No Bois, meu caro! Se é isso que quer saber, trouxeram o Joubert para a casa da Martine porque calcularam que o bom do Moreau lá estaria. Às três da manhã era a melhor maneira de lhe arranjarem rapidamente um médico, Pierre ainda disse, cínico, antes de empurrar a porta de madeira e vidro». In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.

Cortesia de Ld’Hoje/JDACT

Aposta Indecente. Matilda Wright. «Como tudo era calmo naquela casa, nesse ano de 1834, quando Martine lhe pegou na mão e o conduziu pela enorme escadaria de mármore»

jdact

«Havia duas coisas que Louis de Villeclaire não dispensava: um bom champanhe e mulheres bonitas. Como Cléa, a pequena alsaciana acabada de chegar à casa de madame Martine e que lhe mostrava que sabia usar a língua não só para falar quando foram interrompidos por vozes vindas do salão, no andar de baixo, e barulho de gente que corria e falava no corredor. Que inferno!, exclamou Louis erguendo-se num cotovelo, o belo corpo nu iluminado pelo enorme candelabro de doze velas que ardiam ao lado da cama. Cléa parou de lhe la… o interior das coxas musculosas. Olhou para ele um pouco assustada: será fogo?, a jovem abriu muito os seus já enormes olhos castanhos. Louis soltou uma gargalhada irónica. Fogo, Cléa? Diz antes a besta do Vertou! Não sei porque é que Martine franqueia a porta da sua casa a esses burgueses novos-ricos que não sabem portar-se como cavaleiros...
A moça saiu da cama com um salto ágil de gazela e envolveu as suas deliciosas curvas num luxuoso roupão de seda cor de pérola, bordado com exóticos pássaros azuis e laranja. Vou ver o que é..., disse Cléa, e saiu do quarto, fechando a porta atrás dela. Louis deixou-se ficar estendido na cama, irritado com aquela interrupção inusitada. A culpa era, certamente, de Vertou que não sabia nem beber nem tratar com mulheres e que, nadando em dinheiro novo, frequentava agora os melhores bordéus de Paris. Ainda há dois dias tinha armado um enorme escândalo na casa de Colette, numa festa em que ele e os seus amigos de pândega se deixaram açoitar com chicotes pelas moças. Um depravado sem maneiras! Até para se ser depravado era preciso ter educação. Essa era, pelo menos, a opinião de Louis de Villeclaire, ele próprio um depravado assumido. Uma fama lendária envolvia o seu nome desde a primeira noite em que pisara o melhor e o mais exclusivo bordel de Paris.
Oh! Como as coisas tinham mudado... Ainda se lembrava daquela tépida noite de primavera de 1834 quando o seu pai, o velho marquês de Villeclaire, o tinha trazido, pela primeira vez, a ele e a Gaston, o jovem príncipe de Montblanc, àquela casa. Ainda hoje, mais de vinte anos depois, podia sentir a maciez das alcatifas que atapetavam as salas, o cheiro suave do perfume das mulheres, o toque delicado dos seus vestidos soltos, quase transparentes, que mostravam mais do que encobriam. E lembrava-se de Martine, claro! Como poderia tê-la esquecido? O porte de rainha da bela mulata, os seus olhos verdes, amendoados, os lábios cheios, trocistas, recostada numa chaise longue forrada a veludo cor de sangue, lânguida. Lembrava-se de se ter sentido minúsculo perante aquela mulher de 40 anos que o olhava de cima a baixo e cujos olhos o atingiram como um raio. Da vergonha que sentiu de que os outros, o pai, sobretudo, pudessem perceber a sua aflição. E a mão de Martine a acariciar-lhe o rosto: como é bonito..., disse Martine, e o seu sotaque crioulo soou como música aos ouvidos do jovem Louis.
E depois, voltando-se para Gaston, passando-lhe os dedos pelos caracóis loiros: mon prince! Como tudo era calmo naquela casa, nesse ano de 1834, quando Martine lhe pegou na mão e o conduziu pela enorme escadaria de mármore que leva ao seu quarto. Louis tinha apenas 15 anos e sentia as pernas tremerem enquanto vencia os degraus. Mas também se lembrava que essa fora a primeira e única vez em que lhe custou subir aquelas escadas. Depois dessa noite, voltara milhares de outras noites. Quase sempre com Gaston, o cobiçado príncipe de Montblanc, e também com Laurent, conde de Juy, Pierre, marquês de Forchemont, e Marcel Bachelard, filho de um dos maiores banqueiros da França, burguês e judeu, é certo, mas educado pelos melhores preceptores de Paris e, por isso, um homem elegante, refinado e também ele um dos seus companheiros inseparáveis de diversão desde o tempo em que todos frequentavam o mesmo colégio. Como tudo era civilizado e silencioso na casa de Martine, em 1834 e nos muitos anos que se seguiram. Aconchegou-se mais entre as cobertas fofas da cama de Cléa e ficou pensando no calor suave de todos os corpos de mulheres que tinha amado naquela casa. Nanette, Renée, a louca Helène, insaciável, que fazia amor coberta de esmeraldas e contava que era filha ilegítima do czar Alexandre da Rússia...
O conde de Joubert, senhor marquês..., ia começar Cléa contando quando voltou a entrar no quarto, pálida, como se tivesse visto um fantasma. Louis voltou-se na cama, desagradado por aquela entrada intempestiva ter-lhe desviado o pensamento de Helène, a louca, com quem uma tarde tinha feito sexo atrás de um dos túmulos da cripta de Notre-Dame. Não seja mau, venha aqui comigo. Vou rezar para que o pai me aceite como sua filha. Quero vê-lo, tinha escrito no bilhete que lhe mandou pela criada. E ele foi, por vontade e porque não queria a tarde literária na casa da tia Clemence, princesa de Auvergne. Poesia chocha, chá quente, velhas cheirando a violetas e moças desengraçadas, mortas por o caçarem como marido, apesar da má fama que o envolvia, mas deslumbradas pelo seu título de marquês de Villeclaire e, também, pela sua enorme fortuna. Chatice por chatice antes as rezas de Helène para se tornar princesa da Rússia, à literatura da tia. Por isso foi e por isso mostrou a cripta da catedral a Helène quando ela, fazendo beicinho, lhe pediu: imagine, há dois anos vivendo em Paris e nem conheço a Notre-Dame! Helène, de repente, muito interessada nos pormenores da arquitectura mortuária francesa». In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.

Cortesia de Ld’Hoje/JDACT

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Trégua. Mario Benedetti. «Às quatro da tarde, senti-me de repente insuportavelmente vazio. Tive de pendurar o casaco de lustrina que se usa no escritório»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Talvez, no fundo, eles se ámem bastante, embora isso de amor entre irmãos traga consigo a quota de exasperação mútua que o costume provoca. Não, não se parecem comigo. Nem sequer fisicamente. Esteban e Blanca têm os olhos de Isabel. Jaime herdou dela a testa e a boca. O que Isabel pensaria se pudesse vê-los hoje, preocupados, activos, maduros? Tenho uma pergunta melhor: o que eu pensaria, se pudesse ver Isabel hoje? A morte é uma experiência aborrecida; para os outros, sobretudo para os outros. Eu deveria me sentir orgulhoso por haver ficado viúvo com três filhos e ter conseguido seguir adiante. Mas não me sinto orgulhoso, e sim cansado. O orgulho é para quando se tem 20 ou 30 anos. Seguir adiante com os meus filhos era uma obrigação, o único escape para que a sociedade não me encarasse e me dedicasse o olhar inexorável que se reserva aos pais desalmados. Não havia outra solução, e eu segui adiante. Mas tudo sempre foi por demais obrigatório para que pudesse sentir-me feliz.
Às quatro da tarde, senti-me de repente insuportavelmente vazio. Tive de pendurar o casaco de lustrina que se usa no escritório e avisar ao sector de pessoal que precisava passar pelo Banco República para resolver aquele assunto do capital de giro. Mentira. O que eu não suportava mais era a parede em frente à minha escrivaninha, a horrível parede ocupada por aquela enorme folhinha com um Fevereiro dedicado a Goya. O que faz Goya nessa velha casa importadora de autopeças? Não sei o que teria acontecido, se eu tivesse permanecido olhando a folhinha como um imbecil. Talvez gritasse, ou iniciasse uma das minhas costumeiras séries de espirros alérgicos, ou simplesmente submergisse nas esmeradas páginas do Livro-Razão. Porque já aprendi que os meus estados de pré-explosão nem sempre conduzem à explosão. Às vezes terminam numa humilhação lúcida, numa aceitação irremediável das circunstâncias e de suas diversas e agravantes pressões. Gosto, no entanto, de me convencer de que não devo permitir-me explosões, de que devo travá-las radicalmente, sob pena de perder o meu equilíbrio. Então saio como saí hoje, numa encarniçada busca do ar livre, do horizonte, de sei lá quantas coisas mais. Bom, às vezes não chego ao horizonte e me conformo com o acomodar-me à janela de um café e registar a passagem de algumas pernas bonitas.
Estou convencido de que, durante o expediente, a cidade é outra. Conheço a Montevidéu dos homens com horário, os que entram às oito e meia e saem às 12, os que retornam às duas e meia e vão embora definitivamente às sete. Esses rostos crispados e suarentos, esses passos urgentes e tropeçantes são meus velhos conhecidos. Mas existe a outra cidade, a das frescas moçoilas que no meio da tarde saem recém-banhadinhas, perfumadas, desdenhosas, optimistas, espirituosas; a dos filhinhos da mãe que acordam ao meio-dia e às seis da tarde ainda trazem impecável o colarinho branco de tricolina importada; a dos velhos que tomam o autocarro até a Aduana e depois retornam sem desembarcar, reduzindo a sua módica farra à simples mirada reconfortante com que percorrem a Cidade Velha de suas nostalgias; a das mães jovens que nunca saem de noite e entram no cinema, com cara de culpadas, por volta das três e meia da tarde; a das amas que difamam as suas patroas enquanto as moscas devoram as crianças; a dos aposentados e ociosos vários, enfim, que crêem ganhar o céu jogando migalhas aos pombos da praça». In Mario Bennedetti, A Trégua, Cavalo de Ferro, 2015, ISBN 978-989-623-048-7.

Cortesia de ECdeFerro/JDACT

A Trégua. Mario Benedetti. «Esse tipo de tarefa não me cansa, porque me permite pensar em outras coisas e até também sonhar»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Só me faltam seis meses e 28 dias para estar em condições de me aposentar. Deve fazer pelo menos cinco anos que mantenho este cômputo diário do meu saldo de trabalho. Na verdade, preciso tanto assim do ócio? Digo a mim mesmo que não, que não é do ócio que preciso, mas do direito a trabalhar no que eu quiser. Por exemplo? Jardinagem, quem sabe. É bom como descanso activo para os domingos, para contrabalançar a vida sedentária e também como defesa secreta contra a minha futura e garantida artrite. Mas temo não conseguir aguentar isso diariamente. Violão, outra hipótese. Acho que me agradaria. Mas começar a estudar solfejo aos 49 anos deve ser meio desolador. Escrever? Talvez não o fizesse mal; pelo menos, as pessoas costumam gostar das minhas cartas. E depois? Imagino uma notinha bibliográfica sobre as notáveis qualidades deste autor estreante que beira os 50, e a mera possibilidade me causa repugnância. Que eu me sinta, até hoje, ingénuo e imaturo (isto é, só com os defeitos da juventude e quase nenhuma das suas virtudes) não significa que tenha o direito de exibir essa ingenuidade e essa imaturidade.
Tive uma prima solteirona que, quando preparava uma sobremesa, insistia em mostrá-la a todos, com um sorriso melancólico e pueril que lhe havia ficado preso aos lábios desde a época em que se exibia para o namorado motociclista, o qual depois se matou numa de nossas tantas Curvas da Morte. Ela se vestia de maneira correcta, inteiramente de acordo com seus 53; nisso, e no resto, era discreta, equilibrada, mas aquele sorriso reclamava um acompanhamento de lábios frescos, de pele roçagante, de pernas torneadas, de 20 anos. Era um gesto patético, só isso, um gesto que não chegava nunca a parecer ridículo, porque naquele rosto havia também bondade. Quantas palavras, só para dizer que não quero parecer patético. Para render passavelmente no escritório, preciso obrigar-me a não pensar que o ócio está relativamente próximo. Do contrário, meus dedos se crispam e a letra redonda com a qual devo escrever os itens me sai quebrada e deselegante. A letra redonda é um dos meus maiores prestígios como empregado. Além disso, devo confessar que me dá prazer o traçado de algumas letras como o M maiúsculo ou o b minúsculo, nas quais me permiti algumas inovações. O que eu menos odeio é a parte mecânica, rotineira, do meu trabalho: repassar um lançamento que já redigi milhares de vezes, efectuar um balanço de saldos e constatar que tudo está em ordem, que não há diferenças a buscar.
Esse tipo de tarefa não me cansa, porque me permite pensar em outras coisas e até (por que não dizer a mim mesmo?) também sonhar. É como se eu me dividisse em dois entes díspares, contraditórios, independentes, um que sabe de cor o seu trabalho, que domina ao máximo as variantes e os meandros dele, que está sempre seguro de onde pisa, e outro sonhador e febril, frustradamente apaixonado, um sujeito triste que, no entanto, teve, tem e terá vocação para a alegria, um distraído a quem não importa por onde corre a pena nem que coisas escreve a tinta azul que em oito meses ficará negra.
No meu trabalho, o insuportável não é a rotina; é o problema novo, o pedido repentino dessa directoria fantasmal que se esconde por trás de actas, disposições e gratificações de fim de ano, a urgência com que se reclama um informe ou um balancete analítico ou uma previsão de recursos. Então, sim, como se trata de algo mais do que rotina, as minhas duas metades devem trabalhar para a mesma coisa, eu já não posso pensar no que quiser, e a fadiga instala-se nas minhas costas e na nuca, como um emplastro poroso. Que me importa o lucro provável do item Pernos de Pistão no segundo semestre do penúltimo exercício? Que me importa o modo mais prático de conseguir a redução das Despesas Gerais? Hoje foi um dia feliz; só rotina. Nenhum dos meus filhos se parece comigo. Em primeiro lugar, todos têm mais energias do que eu, parecem sempre mais decididos, não estão acostumados a duvidar. Esteban é o mais arredio. Ainda não sei a quem se dirige o seu ressentimento, mas o certo é que ele parece um ressentido. Creio que tem respeito por mim, mas nunca se sabe. Jaime, talvez seja o meu preferido, embora quase nunca possamos nos entender. Ele me parece sensível, me parece inteligente, mas não me parece fundamentalmente honesto. É evidente que existe uma barreira entre nós dois. Às vezes acho que ele me odeia, às vezes que me admira. Blanca, pelo menos, tem algo em comum comigo: também é uma triste com vocação de alegre. Quanto ao resto, é por demais ciosa de sua vida própria, impermutável, para compartilhar comigo os seus mais árduos problemas. É quem fica mais tempo em casa, e talvez se sinta um pouco escrava da nossa desordem, das nossas dietas, da nossa roupa suja. As suas relações com os irmãos às vezes chegam à beira da histeria, mas ela sabe dominar-se e, mais ainda, sabe dominá-los». In Mario Bennedetti, A Trégua, Cavalo de Ferro, 2015, ISBN 978-989-623-048-7.

Cortesia de ECdeFerro/JDACT

Cem quilos de ouro. Fernando Morais. «Infelizmente não eram ladrões. Um deles, com uma algema saindo pelo bolso da calça, aproximou-se com uma carteirinha e anunciou: Polícia Federal!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Quando a primeira luz do dia entrou pelas frestas do barracão já deviam ser seis da manhã. A claridade iluminou e identificou o objecto que alguém enfiara sob a lona, na escuridão da noite. Era uma Bíblia encadernada, provavelmente subtraída de algum hotel. Aos 37 anos, o empresário Guilherme Affonso Ferreira, o Willy, nunca havia tido a curiosidade de abrir uma Bíblia. Mas a vida inteira ouvira o avô, o pensador cristão Alceu Amoroso Lima, e a tia Lia Amoroso Lima, a irmã Maria Tereza, abadessa do Convento das Beneditinas Enclausuradas em São Paulo, dizerem que ali, naquele livro, estava o conforto dos aflitos e desesperados. Nas circunstâncias em que se encontrava, era um presente sob medida. Abriu o volume nas primeiras páginas, ao acaso, e deu com os olhos no seguinte trecho: Ló sumiu de Segor e foi morar nas montanhas com as duas filhas, pois tinha medo de ficar em Segor. Instalou-se numa caverna com as duas filhas e a mais velha disse à mais nova: Nosso pai já está velho e não há aqui homens com quem nos possamos casar, como fazem todas. Vamos embebedar o pai com vinho e dormir com ele para ter filhos dele. Embebedaram o pai naquela noite e a mais velha foi dormir com ele sem que ele nada percebesse, nem quando ela se deitou nem quando se levantou. No dia seguinte a mais velha disse à mais nova: ontem eu dormi com o pai. Vamos embebedá-lo também esta noite e tu vais dormir com ele para gerar descendência de nosso pai. Também naquela noite embebedaram o pai e a mais moça dormiu com ele. Ele, porém, nada percebeu, nem quando ela se deitou nem quando se levantou. Assim as duas filhas de Ló conceberam de seu pai. A mais velha deu à luz um filho a quem chamou Moab, que é o antepassado dos actuais moabitas. Também a mais nova deu à luz um filho a quem chamou Ben-Ami, que é o antepassado dos actuais amonitas. (Gênesis)
Fechou o livro com raiva e jogou-o num canto da jaula. Para quem recorria à Bíblia em busca de apoio espiritual, encontrar um pai engravidando as próprias filhas parecia um mau presságio para o primeiro dia de cativeiro. Tudo começara na noite anterior, uma sexta-feira de Dezembro de 1988. Willy deixara o seu moderno gabinete de presidente da Bahema, empresa distribuidora de máquinas Caterpillar para o Norte e Nordeste, para repetir uma rotina diária: entrou no seu carro, um Fiat Uno azul-metálico, e guiou durante meia hora pelo trânsito caótico de Salvador, na Bahia, até à academia de ginástica, que fica a quinhentos metros de sua casa, no ermo e elegante bairro do Horto Florestal. Ao terminar os exercícios eram oito da noite.
Decidiu tomar banho em casa e saiu de bermudas, polo e ténis. Ao chegar perto do carro, estacionado sob um poste de luz na rua deserta, havia um Monza escuro parado ao lado do Fiat, com três homens dentro. Quando o viram chegar, os homens saíram do carro e um deles, de boné na cabeça, fez um sinal para os outros. Willy assustou-se, caminhou alguns passos de costas, mas já não havia tempo de escapar. Os três o cercaram, eram fortes e aparentavam ter entre trinta e quarenta anos, e Willy agitou o chaveiro no ar: podem levar o carro.
Infelizmente não eram ladrões. Um deles, com uma algema saindo pelo bolso da calça, aproximou-se com uma carteirinha e anunciou: Polícia Federal! Willy foi agarrado pelos três, algemado com as mãos nas costas e colocado aos safanões no banco de trás do Monza. Enfiaram um capuz de tecido grosso na sua cabeça e o deitaram no banco. Um dos homens ia sozinho na frente, guiando o carro, e os outros foram atrás, segurando a presa. Com 1,80 metro de altura, Willy ia meio dobrado, com a cabeça sobre o colo de um e os joelhos dobrados junto às canelas do outro. Mal o carro arrancou, um deles perguntou: como é o seu nome? Guilherme Affonso Ferreira. Quanto tempo faz que voltou do Japão? Uns vinte dias. Quanto tempo ficou por lá? Uns cinquenta dias, mais ou menos. O que perguntava dirigiu-se aos outros: é ele mesmo.
O que a Polícia Federal poderia querer com ele, um empresário sem nenhum deslize na sua vida pessoal e profissional, sem problemas com a polícia, com a Justiça, com ninguém? A curiosidade sobre a viagem ao Japão deixou-o apavorado. E se ele tivesse sido transformado, inocentemente, em uma dessas mulas que sempre aparecem nos noticiários de TV? Será que alguém tinha colocado cocaína na sua bagagem, na viagem do Japão ao Brasil? O pensamento foi interrompido por mãos que agarraram a sua cabeça e tentaram obrigá-lo a aspirar um chumaço de algodão embebido em éter, espremido contra a boca e o nariz por fora do capuz. Willy debateu-se, tentando dizer que não era preciso violência, que não ia reagir, mas na confusão os homens não entenderam nada. O que ia a conduzir ordenou: ele não vai ficar quieto, dá logo a injecção». In Fernando Morais, Cem quilos de ouro, Companhia das Letras, 2003, ISBN 978-853-590-449-9.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

terça-feira, 16 de maio de 2017

A Ruiva e Outras Histórias. Fialho de Almeida. «Tudo quanto é bom acaba. A gente fala, fala..., um dia chega. E dava suspiros. Carolina conhecia-a»


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«(…) Uma filarmónica sentia-se ao longe. Corriam. Era a procissão. À frente um marceneiro espadaúdo trazia o pendão, pomposo na sua capa de seda vermelha. Virgens de branco, rosas na cabeça, tipos de gaiatos disfarçados em saias, vinham gravemente, acertando o passo. E sobre as cabeças um andor de pau dourado e pequeno trazia a imagem, cheia de flores de papel. Carolina com a garibaldi melhor, uma rede de contas nos cabelos ruivos, fora também à festa. O coveiro embebedava-se em casa do Pescada, com a barba feita, o seu carão anguloso e miserável, inerte sob as abas de um chapéu de Braga. Carolina vestira-se logo de manhã, toda brunida, botas de duraque sem tacões, brincos de vidro prateado, arzinho alegre, o branco apetite da sua carne anémica, feminil e débil. E fora ao cemitério espairecer um bocado, com um farnel no lenço, laranjas, duas queijadinhas da tia Palma.
A senhora Marcelina, que fora ama do padre Anselmo e agora arranjava criadas e consertava cadeiras, tinha prometido a Carolina ir lá ter com ela mais a mulata, que saíra do hospital havia uma semana e lhe estava devendo coisa de quatro moedas. A Marcelina morava no pátio também, no primeiro andar, tinha arranjos de casa e barbicas pela cara, sua meia dúzia de lenços, um rico cordão de ouro com medalha e uma Senhora das Dores com olhos de vidro, mesmo viva, a olhar para uma pessoa. E falava-se: que havia papéis, uma panela de dinheiro no quintal, ricos manteletes nas cómodas, que tinham pertencido à irmã do padre Anselmo. Marcelina era uma pessoa baixa e vagarosa, aspecto redondo e roxo de hemorróida, feridas na perna emplastada, anéis pelos dedos e o vozeirão de um quartel-mestre saindo do capote d'alcoviteira. A sua história apoiava o enredo principal no governo civil, no hospital e na Rua das Atafonas. De resto encontrara o padre Anselmo capelão da Guia e tomara-lhe amizade. Boa pessoa, o padre Anselmo, amigo do seu amigo, boas manhãs na cama, de Inverno, beberricava-lhe um quase-nada, ratão, pregando belas peças; manhã cedo, ela ainda na cama, e vinha ele da missa, descobria-a zás, uma palmada. E morrera.
Tudo quanto é bom acaba. A gente fala, fala..., um dia chega. E dava suspiros. Carolina conhecia-a. Mal luzia o buraco, já a senhora Marcelina corria a vidraça e vinha, de coifa branca, espanejar o peitoril. Tinha um sorriso agradável; um dente trôpego, único e esquecido, esverdinhava-lhe na boca desmobilizara; as barbicas hirsutas recordavam uma gata mansinha que se corcova, eléctrica, sob as festas do dono. Era-lhe demais a mais muito obrigada... De rastos que eu ande, dizia, de rastos que eu ande, não lhe pago as obrigações que lhe devo. Quando estivera doente, com tosse e muita febre, ninguém dizia que ela escapava, a senhora Marcelina vinha dar-lhe caldos e fazer meia junto do seu leito de proletária. Havia dois anos. Mas não se davam muito; a Marcelina era mais das outras em frente, falava com elas de janela para janela, grossos risos e pesadas graças. E ratona, então, como nunca se vira. O que sabia de frades, e do poeta Bocage!... Era arrebentar de riso, senhores. Além disso andava sempre ocupada na vida, uma azáfama, xale traçado e sapato d'ourelo, a massa dos seios papuda e molemente batida por mais de meio século, arrotos estrondosos...
Saíam de casa dela pessoas lúgubres, de uma vez a polícia fora ali. Enfim, falavam-se coisas, ela sabia de facadas, e Carolina ouvia dizer isto, arranja pequenas a velhos. E no fundo da sua alma branca e susceptível experimentara horror. Na tarde anterior a filha do coveiro recolhera com ares de dia, a Marcelina estava à janela; falaram-se, como estava, como não estava, o pai como ia e que ela ia vivendo com o seu padecimento de entranha, amargos de boca, uma canseira, uma canseira; mesmo mortinha de todo! Tinha posto bismas de confortativo que era muito bom, andava agora tomando poses caras com a fortuna, mas o fastio era grande, aflições por dentro... O pior eram as noites, contava todas as horas. E depois as pulgas. Ai!, dizia, quem tem mazela, tudo lhe dá nela. Que é feito, que é feito? Não havia olhos que a lograssem. De resto amava as criaturas sérias como Carolina; nunca fora de tricas, louvado Deus. E arrotava. Tinha almoçado uma açordinha, com o seu ovo; tudo lhe fazia mal. É caruncho, é caruncho, comentava. E convidara Carolina a entrar, descansar um pouco, tinha rosas no quintal, uma franga preta que já punha ovos, manto novo na Senhora das Dores, minha rica mãe do céu!
Carolina subiu, beijocaram-se, ricas filhas para um lado, abraço para outro. Carolina sentia-se contente, uma quietação plena, chocada pela sinceridade da outra. A senhora Marcelina olhava para ela de face. E largou daí a nada este dito: há de ser um peixão! E piscava o olho pardo com ares de entendedora. Andaram vendo o quintal; Marcelina fazia-lhe um ramilhete de rosas. Dali a nada veio a mulata, encostada às paredes, um rolo enorme de postiços e fundas olheiras, olhos de carneiro mal morto, um cheiro a cigarro e a cânfora. Mas foi-se logo encostar. Com o tempo húmido, tinha dores do diabo nos ossos. Desejaria morrer já, raio de vida! Carolina dizia-lhe palavras comovidas; que aquilo não havia de ser nada, em o tempo limpar já a coisa era outra, que tivesse paciência, coitadinha que tivesse paciência». In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

A Ruiva e Outras Histórias. Fialho de Almeida. «E todo o mundo ria à sua pândega, a fazer arraial com grossas piadas cruas de taberna e de oficina»


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«(…) Carolina recuava, humilhada e cheia de vergonha. E, sem uma palavra deitava a correr para a mansarda, subia a escada sem parar, fechava-se por dentro, e atirando-se para cima do leito desatava a soluçar sem remédio a desconsolação daquela vida, que flutuava sem linha de conduta. O candeeiro apagava-se no alongamento da noite. Das torres da Estrela uma badalada caía sobre a cidade adormecida, a vibração enorme alongava-se num círculo infinito... E, no silêncio da mansarda, Carolina abria os olhos com um terror em que dançavam fantasmas sardónicos com a cara do aprendiz. Era a tarde da nossa Senhora dos Prazeres. O tempo serenara, o céu não tinha nuvens e no azul espiritualizado os voos brancos dos pombos davam uma inocência casta ao ambiente. Havia arraial nessa tarde. A procissão, saída da igreja de Santos, por entre farrapos de bandeiras e verdores de buxo, devia entrar na capela do cemitério, à noitinha, no meio de foguetes e aromas do peixe frito, cuidadosamente consumido pela fome do povoléu curioso. Na esplanada que vai terminar à porta dos Prazeres, as pequenas barracas de lona enchiam-se de grupos; filhas de saias engomadas, olheiras fundas, com fadistas de calças esticadas sobre alpargatas de linho. As mulheres gordas, lenço vermelho, os grossos braços nus, refogavam mexilhão, vermelhas de calor; em torno os soldados passavam, de chibata, rostos vulgares e bestiais, dilatados em risos enormes; e, abanando-se, diziam brutezas às pequenas ovarinas sujas. Na confusão dos grupos os garotos sujos, vivamente alegres, corriam relanceando olhares famintos sobre os bolos secos das vendedeiras ambulantes, e de passagem pediam cinco réis. Aqui e além viam-se sobre a relva, petiscando, famílias de operários, pequenas louras e limpas, tipos de costureiras futuras, traços finos, cismadores e delicados. Os vadios esqueléticos, de calções em frangalhos, apregoavam água.
No ar os ruídos multíplices abafavam-se uns aos outros, e das contínuas pulsações resultantes elevava-se um ruído uniforme e indistinto, como de ebulição longínqua. Os municipais da patrulha iam atravessando devagar, nos seus cavalos negros, e os capacetes esguios, de cuja crista jorrava a branca cabeleira dos penachos de linho, salpicavam de originalidade e paisagem. Eram um enlevo. As criadas olhavam-nos suspirando. O ruído crescia. O sol mergulhava com uma pompa escarlate no silêncio do rio, e o poente inflamado era de uma amplidão sem balizas. Dentro do cemitério o mesmo movimento de quem ia e vinha. Pessoas abastecidas de carnes, esposas espessas de oleiros, capelistas de chapelinho, laços escandalosos e sombrinha, liam, soletrando, as inscrições tumulares. Admirava-se o mármore, as fachadas. Os pequenos, vagarosos, colhiam alfazema e sardinheiras. Alguns olhavam através das rótulas, o interior dos jazigos, a ver quem tinha berloques de contas e figuras bordadas de lã em molduras ricas. Alguns ferreiros de mãos calosas descansavam na borda dos pedestais, tasquinhando as suas merendas; muitos bebiam pelas garrafas, fazendo saúde aos compadres. E todo o mundo ria à sua pândega, a fazer arraial com grossas piadas cruas de taberna e de oficina.
As mulheres, de vestidos de merino, com folhos, mantas de lã com borlas caídas atrás, xaile bem dobrado no braço, olhavam pasmadas. Os fragmentos das palestras, apanhados de passagem, eram os mais originais e contrastantes. Veteranos procuravam o túmulo do conde das Antas. Explicavam os emblemas, a atitude fera da estátua. Portugal velho!, comentavam. Ele e o Saldanha!... E familiares, um clarão purpúreo na face: O nosso velho!, diziam. No dezanove de Maio... E outros queriam ver o túmulo do Palmela. Uma velha de Aveiro ouvira dizer na terra que era obra famosa. Alguém explicava as riquezas do duque, as suas quintas, dois contos diários de rendimento; a duquesa era bonita, e um pouco gorda; ele tinha sido da Marinha. De resto, boas pessoas e fidalgos da gema; pela Semana Santa pediam na Sé para os pobres e sustentavam asilos. E iam semeando o chão de espinhas de peixe, de cascas de laranja, e os ares de rumores de palestra. Mas estrondeavam foguetes». In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT