domingo, 25 de junho de 2017

A Perseguição aos Judeus e Muçulmanos de Portugal. François Soyer. «A primeira prova inequívoca de numerosas populações muçulmanas vivendo sob domínio cristão em Portugal data da segunda metade do século XII»

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Manuel I e o fim da tolerância religiosa (1496 - 1497)
«(…) A região a norte do rio Mondego fazia parte de uma fronteira islâmica voltada para as regiões que permaneciam sob domínio cristão no Norte. Depois da revolta dos berberes na década de 50 do século VIII e da ascensão do reino cristão das Astúrias (que se tornaria, mais tarde, o de Castela-Leão), os muçulmanos foram obrigados a retirar-se para sul. O Porto já se encontrava definitivamente sob domínio cristão em 864. A importante cidade de Coimbra mudou várias vezes de mãos no século IX e durante mais de oitenta anos, entre 904 e 987, esteve sob domínio cristão (exércitos cristãos atacaram Coimbra em 878, 889 e 904; Coimbra esteve sob domínio cristão entre 904 e 987, quando as forças do califa de Córdoba, Abd al-Rahman III recuperaram o controlo da cidade). O povoamento muçulmano nestas regiões do Norte era provavelmente escasso, embora seja pouco provável que tivesse sido uma terra desabitada, como há muito tem sido afirmado por historiadores modernos (a ideia de que o vale do Douro se tomou uma região inabitada ou terra de ninguém entre o norte cristão e al-Andalus tem sido assunto de grande controvérsia). Em todos os territórios do Oeste de al-Andalus, Gharb al-Andalus, de onde provém a designação Algarve, continuou a existir uma importante população cristã até ao século XII. Estes cristãos moçárabes falavam arábico e usavam, muitas vezes, nomes árabes.
Segundo uma fonte cristã, a população de Lisboa, em 1109, era metade cristã e metade pagã, e outra revela que a cidade tinha ainda um bispo moçárabe em1147 (segundo uma crónica islandesa, quando o cruzado rei Sigurdo e os seus seguidores noruegueses atacaram Lisboa, quando iam a caminho de Jerusalém em 1109, descobriram que a cidade era metade pagã e metade cristã). As populações muçulmanas e as guarnições de cidades conquistadas por exércitos cristãos durante o século XI ou foram mortas, ou escravizadas, ou retiraram-se para sul. Quando os cristãos capturaram as vilas de Seia, Lamego e Viseu em 1057 e 1058, os seus habitantes muçulmanos foram escravizados ou passados à espada. A população muçulmana de Coimbra, cercada durante seis meses pelo rei de Leão em 1064, negociou uma rendição condicional que lhe permitiu evacuar a cidade e retirar-se para territórios muçulmanos mais a sul(história silence). Os forais em latim, no século XI e início do século XII, referem-se por vezes a homens com nomes arábicos, mas é impossível precisar se estes indivíduos eram muçulmanos ou moçárabes cristãos. Assim, a identidade religiosa de Abd Allah ibn Sulayman, Sulayman Alcarived e Umar Alkarrac, todos registados como habitantes de Coimbra em 1098, 1126 e 1162 respectivamente, permanece indeterminada. Não foi ainda encontrada nos arquivos qualquer menção de muçulmanos (mouros) que não tivessem sido escravos.
A primeira possível referência a muçulmanos livres a viver sob domínio cristão em Portugal parece datar de 1095, quando Afonso VI de Leão e Castela concedeu um foral aos colonos cristãos de Santarém. Esta vila não fora cercada nem atacada, mas cedida a Afonso VI pelo governante muçulmano de Badajoz em 1093. Não se sabe se a população muçulmana local abandonou a vila ou escolheu lá permanecer com a guarnição militar e os colonos cristãos. Uma cláusula curiosa no foral não se refere explicitamente à existência de muçulmanos livres, mas concede protecção a muçulmanos que manifestamente não eram escravos. Se muçulmanos livres viviam, de facto, sob domínio cristão em Santarém, essa situação foi abruptamente interrompida quando um exército muçulmano recuperou a cidade em 1111 (Oliveira Marques sugeriu a data anterior de 1103 para a conquista de Santarém pelos almorávidas).
A primeira prova inequívoca de numerosas populações muçulmanas vivendo sob domínio cristão em Portugal data da segunda metade do século XII e da importante ofensiva cristã que resultou na conquista de Lisboa e de outros lugares ao longo do rio Tejo em 1147. Em 1170 Afonso Henriques concedeu um foral especial às comunidades muçulmanas de Lisboa, Alcácer, Palmela e Almada. Este foral dos mouros, confirmado por Afonso II (1211-1223) em 1217, é o primeiro documento a reconhecer oficialmente a existência de muçulmanos livres a viver em Portugal». In François Soyer, A Perseguição aos Judeus e Muçulmanos de Portugal, 2007, Edições 70, 2013, ISBN 978-972-441-709-7.

Cortesia de E70/JDACT

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «A Palestina era assim uma babel de línguas, mas a população autóctone, e que esta incluía dois grupos étnicos distintos, nomeadamente, os Judeus e os Samaritanos, falava aramaico»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas
«(…) Situadas a leste da Capadócia, e abrindo caminho a uma série de cadeias montanhosas, encontram-se algumas províncias arménias que haviam sido anexadas ao Império em 387 d.C., quando o reino arménio se repartia entre a Pérsia e Roma. Estas províncias eram estrategicamente muito importantes, mas praticamente intocadas pela civilização greco-romana, pelo que continuaram a ser governadas pelos sátrapas nativos até Justiniano lhes impor uma nova forma de administração militar. No século V, os Arménios adquiriram o seu próprio alfabeto e começaram a construir uma literatura à base de traduções do grego e do sírio, fortalecendo o sentimento de identidade nacional. De facto, os Arménios, que desempenharam um papel crucial na história de Bizâncio, revelaram-se bastante resistentes à assimilação, tal como os outros povos caucasianos.
A fronteira entre a Arménia e a Mesopotâmia correspondia, aproximadamente, ao rio Tigre. Três séculos de ocupação da Pártia (desde meados do século II a.C. até à conquista romana cerca de 165 d.C.) apagaram praticamente todos os traços de helenização da Mesopotâmia, que os reis da Macedónia tanto haviam querido impor. A forma literária síria usava o dialecto de Edessa (Urfa), sendo nessa cidade abençoada, assim como em Amida (Diyarbakir), Nísibis (Nusaybin) e em Tur Abdin, que um vigoroso movimento monástico de crença monofisita alimentava o cultivo dessa língua. A Mesopotâmia era uma região fronteiriça: a fronteira entre Roma e a Pérsia apresenta uma curta distância a sueste da cidade-guarnição de Dara, enquanto Nísibis havia sido ingloriamente cedida aos Persas pelo imperador Joviano em 363. A separação cultural da Mesopotâmia certamente não ajudou o governo imperial, essencialmente por se tratar de uma área sensível.
O domínio dos dialectos aramaicos, a que pertence o sírio, estendia-se através da Síria e da Palestina até aos confins do Egipto. Aqui testemunhamos um fenómeno de considerável interesse. Quando os reinos helénicos se estabeleceram, a seguir à morte de Alexandre, o Grande, a Síria estava dividida entre os Ptolomeus e os Selêucidas. Os Ptolomeus, que obtiveram a metade do país a sul, pouco fizeram para estabelecer ali as colónias gregas. Pelo contrário, os Selêucidas, para quem o Norte da Síria tinha uma importância crucial, levaram a cabo uma colonização intensiva. Colonizaram algumas cidades novas, tais como Antioquia Orontes, Apameia. Selêucia e Laodiceia, introduzindo um elemento grego nas cidades existentes, tais como Alepo. A partir dessa altura, toda a Síria permaneceu continuamente sob uma administração de língua grega. No entanto, cerca de nove séculos mais tarde, a língua grega não está confinada apenas às cidades, mas alargada às mesmas cidades que haviam sido fundadas pelos reis helénicos. O campo, em geral, e as cidades que não eram de origem grega, como Emesa (Homs), mantiveram-se fiéis à sua língua autóctone, o aramaico.
É pouco provável que o uso do grego tivesse sido mais divulgado na Palestina do que foi no Norte da Síria, excepto em relação a um fenómeno artificial, nomeadamente, o desenvolvimento dos locais sagrados. A começar pelo reino de Constantino, o Grande, praticamente todos os lugares com fama bíblica se tornaram, como diríamos hoje, numa atracção turística. As pessoas vinham em grande número para a Palestina, oriundas de todos os cantos do mundo cristão: alguns como peregrinos em trânsito, outros procurando uma permanência mais duradoura. Mosteiros de todas as nacionalidades emergiram como cogumelos no deserto ao lado do mar Morto. A Palestina era assim uma babel de línguas, mas a população autóctone, e devemo-nos lembrar que esta incluía dois grupos étnicos distintos, nomeadamente, os Judeus e os Samaritanos, falava aramaico, como sempre o fizera». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

sábado, 24 de junho de 2017

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «… e o celta, por seu lado, seria falado na Galácia e na Capadócia, mais a este. Os rebeldes isáuricos, que haviam sido pacificados…»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas
«(…) Constantinopla, como todas as grandes capitais, era uma miscelânea de elementos heterogéneos: todas as setenta e duas línguas conhecidas do homem estavam nela representadas, segundo uma fonte contemporânea. Provincianos de todos os géneros tinham-se estabelecido ali, ou iriam entrar e sair ao acaso de negócios comerciais ou oficiais. A classe servil incluía muitos bárbaros. Outro elemento estranho era o das unidades militares, as quais no século VI eram compostas ou por bárbaros (Alemães, Hunos, e outros), ou por alguns dos provincianos mais robustos, tais como os Isauros, os Ilírios e os Trácios. Diz-se que setecentos soldados foram aquartelados em casas de famílias de Constantinopla no reinado de Justiniano. Os monges sírios, mesopotâmios e egípcios, que falavam pouco, ou nem sequer falavam, grego, dirigiram-se em massa para a capital, para usufruir da protecção da imperatriz Teodora e impressionar os autóctones com as suas proezas bizarras de ascetismo. Os judeus omnipresentes ganhavam a vida como artesãos ou mercadores. Constantinopla fora fundada como um centro de latinidade no Oriente e contava ainda com muitos Ilírios, Italianos e africanos entre os seus residentes, cuja língua autóctone era o latim, também a língua do próprio imperador Justiniano. Além disso, várias obras da literatura latina eram produzidas em Constantinopla, como a famosa Gramática de Prisciano, a Crónica de Marcelino e o panegírico de Justino II do africano Corippus. Embora o latim fosse necessário para as profissões jurídicas e para certos ramos da administração pública, a balança pendia inexoravelmente a favor do grego. No final do século VI, como o papa Gregório, o Grande, afirma, não era fácil encontrar um tradutor competente do latim para o grego na capital imperial.
Em frente a Constantinopla estendia-se uma enorme massa de terra pertencente à Ásia Menor, que havia sido comparada a um pontão ligado à Ásia e a apontar para a Europa. As partes mais desenvolvidas sempre foram as orlas costeiras, especialmente a face oeste suavemente inclinada, favorecida por um clima temperado e guarnecida com cidades famosas. A faixa costeira do mar Negro é muito mais estreita e descontínua, enquanto a costa sul não tem, à excepção da planície de Panfília, nenhuma orla de baixa altitude. As áreas costeiras, salvo a zona montanhosa Cilícia (Isáuria), onde a cordilheira do Tauro se estende até ao mar, haviam sido helenizadas durante cerca de mil anos, e ainda antes do reinado de Justiniano. Ao longo da costa do mar Negro, o limite da língua grega correspondia à fronteira actual entre a Turquia e a ex-União Soviética.
A este de Trebizonda e Rizaion (Rize) viviam vários povos caucasianos, tais como os Ibéricos (Georgianos), assim como os Laz e os Abasgos (Abcazes), sendo que os dois últimos mal se aproximavam das missões cristãs. O Império também possuía uma base de operações helenizada na costa sul da Crimeia, enquanto o alto planalto da península da Crimeia era habitado por Godos. Muito diferente das áreas costeiras da Ásia Menor é o alto planalto no interior do país, onde o clima é tempestuoso e a terra, na sua maioria, imprópria para a agricultura. Na Antiguidade, como na Idade Média, o planalto tinha uma população pouco densa e a vida urbana era relativamente pouco desenvolvida. As cidades mais importantes situavam-se ao longo das principais estradas, tal como a chamada Estrada Real que ia de Esmirna e Sardes, via Ancira e Cesareia, até Metilene; a estrada que ligava Constantinopla a Ancira via Dorileia; e a estrada a sul que se estendia de Éfeso a Laodiceia, Antioquia na Pisídia, Icónio, Tiana e, através das Portas da Cilícia, até Tarso e Antioquia, na Síria. A composição étnica do planalto não havia sofrido nenhuma alteração assinalável durante os setecentos anos antes do reinado de Justiniano, consistindo num mosaico desconcertante de povos autóctones, assim como em enclaves de imigrantes há muitos fixados, tais como os Celtas da Galácia, os Judeus, que se haviam estabelecido na Frígia e em outras partes durante o período helénico, e grupos persas de origem ainda mais antiga. Parece que muitas das línguas indígenas ainda eram faladas no período bizantino antigo: a língua da Frígia provavelmente ainda existiria, pois aparece nas inscrições até ao século III d.C.; e o celta, por seu lado, seria falado na Galácia e na Capadócia, mais a este. Os rebeldes isáuricos, que haviam sido pacificados pela força das armas em 500 d.C., tendo muitos deles percorrido todo o Império como soldados profissionais e pedreiros, eram um povo distinto, que falava o seu próprio dialecto, muitas vezes excluindo o grego. No entanto, ao seu lado, na planície da Cilícia, o grego havia-se enraizado solidamente, excepto, talvez, entre as tribos do interior». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

História dos Judeus Portugueses. Carsten L. Wilke. «A partir do século XII, a geografia do judaísmo lusitano foi profundamente afectada pela política de povoamento empreendida pelos primeiros reis de Portugal»

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No reino de Leão
«(…) Porém, os poderes cristãos reconheceram progressivamente a utilidade económica da minoria judaica. Judeus imigrados, cujos nomes árabes indicam a sua origem andaluza, são atestados desde o começo do século X na cidade e no reino de Leão. Tratava-se, na maior parte, de artesãos que trabalhavam o ouro, a prata, o cobre, o couro e a seda, segundo as técnicas desenvolvidas nos reinos muçulmanos da Andaluzia e da África do Norte. Outros importavam produtos de luxo provenientes desses países. Preenchiam também uma importante função de mediadores nas relações diplomáticas da época. Em 950, encontramos a primeira menção ao arrabalde judaico de Coimbra, explorando os seus habitantes vinhas e outros prédios rústicos suburbanos. Em 1018, os arquivos do capítulo de Coimbra mencionam um Crescente Hebreo, que assina como testemunha em dois actos: trata-se do primeiro judeu do território português que conhecemos pelo seu nome (traduzido do hebraico Tsemah). Em 1145, uma ordenação do concelho municipal impõe regras aos mercadores, tanto cristãos como judeus, que praticam o comércio de couros.

Nessa época, quando Coimbra era a capital de Portugal, o bairro judaico situava-se em São Martinho do Bispo, do outo lado do Mondego. Num documento de 1156 menciona-se ali uma via que vadit ad sinagogam. Parece que a escolha dos nomes e a liturgia de Coimbra se deixaram por vezes inspirar pela civilização da minoria. Apesar do conflito peninsular, os três grupos religiosos parecem ter desenvolvido, mesmo no quotidiano, relações de convivência. Sabemos, com efeito, que os judeus tinham o costume de convidar os seus vizinhos para o Shabbat e que certos cristãos se lhes juntavam de bom grado. Em 1050, o concílio de Coiança teve de relembrar que a presença nas orações de Vésperas, ao sábado, era obrigatória, e que -nenhum cristão ou cristã ouse ficar a banquetear-se em casa dos judeus.

Sob a protecção dos reis de Portugal (1147 - 1492). Geografia do judaísmo português
A partir do século XII, a geografia do judaísmo lusitano foi profundamente afectada pela política de povoamento empreendida pelos primeiros reis de Portugal independente, política à qual a maior parte das colónias judaicas medievais deve a sua existência. Em Coimbra e arredores, certos judeus cultivavam as terras do capítulo que tinham arrendado, possuindo por vezes as suas próprias aldeias, como essa Arecheixada Iudaeorum, que é mencionada em 1168. Os mercadores judeus cedo começaram a sulcar as montanhas». In Carsten L. Wilke, História dos Judeus Portugueses, 2007, Edições 70, 2009, ISBN 978-972-441-578-9.

Cortesia de E70/JDACT

História dos Judeus Portugueses. Carsten L. Wilke. «Expostos a essa investida da intolerância nos reinos muçulmanos, os judeus não sofriam menos a hostilidade dos cristãos do Norte, animados por um espírito de cruzada»

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No Gharb dos Árabes
«(…) Sob os Omíadas de Córdova (756 - 1031), a Lusitânia, ou antes, a província chamada al-Gharb, O Ocidente, nome que sobreviveu em Algarve, permanecia uma região periférica. Não possuímos informações concretas sobre a vida judaica nessa província, com excepção das relativas à cidade de Mérida. José ben Isaac Ibn Abitur, talmudista e poeta nascido em Mérida no início do século X, sabia ainda que o seu trisavô administrara a justiça criminal com tanta severidade que os malfeitores lhe chamavam Satanás, pois podia infligir todas as quatro formas talmúdicas de execução capital, competência que nenhum tribunal judaico alguma vez tivera fora da Terra de Israel. Além disso, uma pedra tumular descoberta em Mérida dá a conhecer um certo Rabbi Jacob ben Senior, que morreu com a idade de 63 anos, cheio de sabedoria, exercendo a arte dos médicos. A inscrição, datada da época omíada, emprega ainda um latim hispanizado.
As marcas bíblicas, diferentes da Vulgata, dão testemunho de uma cultura religiosa judaica em língua romana. Como os seus correligionários de Córdova, capital do califado, os judeus do Gharb permaneceram leais ao poder omíada durante as diferentes revoltas animadas por cristãos, muladis (hispano-romanos islamizados) e certos elementos do clero muçulmano. Tida por principal foco de sedição, Mérida foi duramente castigada em 875, e os seus habitantes foram expulsos, alguns para Badajoz, nova capital provincial, e outros para Córdova. É de supor que essa expulsão tenha estado igualmente na origem de uma dispersão pela província. A existência de pequenas comunidades no actual território português parece ser atestada por Ibn Daud. Falando de uma família erudita de Mérida, os Ibn al-Balia, descendentes do lendário fundador Baruch, esse autor faz alusão a uma epístola redigida em Sura, no Iraque, pela autoridade rabínica suprema da época, Saadia Gaon (882-942). Era endereçada às comunidades judaicas de Córdova, Elvira, Lucena, Baena, Osuna, Sevilha e à grande cidade de Mérida, bem como a todas as que estão na sua vizinhança. Vemos que Mérida se singulariza nessa enumeração pela sua dispersão em comunidades filiais.
Que comunidades eram essas? Encontramos menção a uma presença judaica aquando da reconquista cristã das cidades de Coimbra (878), Santarém (1147),Évora (1165) e Beja (1179). A mais antiga dessas comunidades judaicas parece ser a de Santarém. Notemos que estas quatro cidades luso-islâmicas habitadas por judeus são de fundação romana e estão todas situadas no interior do país, na proximidade da fronteira com a Cristandade. Em contrapartida, nenhuma fonte testemunha uma presença judaica em Lisboa durante a época islâmica.

No reino de Leão
Foi muitas vezes celebrada a tolerância dos regimes ibero-muçulmanos face às populações cristãs e judaicas. Essa tolerância não era unicamente inspirada pela generosidade. Na realidade, a sobrevivência do poder muçulmano dependia do apoio dessas populações, apoio que se encontrava já bem hipotecado na segunda metade do século IX. A partir dessa época, as lutas internas do califado de Córdova e o misticismo intransigente, que então se apoderou dos seus teólogos, impeliram numerosos cristãos a emigrar. Nas Astúrias, estes reforçavam os pequenos reinos que começavam a estender-se para sul. A emigração intensificava-se com cada nova vaga islamita, culminando com a invasão dos Almóadas em 1140, que proscreveram durante algum tempo o exercício dos cultos não muçulmanos.
Expostos a essa investida da intolerância nos reinos muçulmanos, os judeus não sofriam menos a hostilidade dos cristãos do Norte, animados por um espírito de cruzada igualmente feroz. Identificando os judeus com o inimigo muçulmano, os cavaleiros massacravam-nos no decurso das suas reconquistas». ». In Carsten L. Wilke, História dos Judeus Portugueses, 2007, Edições 70, 2009, ISBN 978-972-441-578-9.

Cortesia de E70/JDACT

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O Sebastianismo. José Van Den Besselaar. «Em nenhum cartapácio encontramos profecias bíblicas, apesar de serem as mais fundamentais de todas»

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«(…) Deixo de transcrever o título completo do Jardim Ameno, por ser muito longo. A transcrição chegaria a ocupar quase meia página. O cartapácio, tal como chegou até nós, deve ter por base uma compilação de profecias, organizada por um certo Pedreanes de Alvelos e dedicada por ele ao monarca Sebastião I no dia 20 de Abril de 1636. Mas o copista ampliou a colecção, enriquecendo-a de algumas alusões à aclamação de João IV. Como se lê na folha 126 do códice, concluiu-se o traslado no dia 1 de Janeiro de 1650, em Goa, o que não impediu o compilador de lhe acrescentar ainda alguns textos, entre eles, o do Juramento de D. Afonso Henriques. O livro que, muito provavelmente, já desde o início estava em poder dos jesuítas chegou às mãos de Henrique Carvalho, confessor do rei João V, que em 1741 o deu de presente ao colégio da Companhia de Gouveia. Aí foi sequestrado na época de Pombal como livro malicioso e pernicioso. Felizmente, escapou ao holocausto que Pombal mandou fazer de tantos livros sebásticos. O cartapácio transmite quase todas as profecias básicas da seita, se não sem defeitos, ao menos, de maneira satisfatória.
O Catálogo das Profecias tem uma história menos complicada. Foi organizado em 1809 por pessoa que nos é desconhecida. É uma colecção riquíssima, que abrange mais de 475 páginas; mas, infelizmente, a qualidade dos textos transcritos é muito desigual, e também encontramos nela algumas repetições. Este códice é para nós de grande importância, porque, além de transmitir quase todas as profecias básicas do sebastianismo, também conserva muito material que data da época de Napoleão.

As profecias bíblicas
Em nenhum cartapácio encontramos profecias bíblicas, apesar de serem as mais fundamentais de todas. Citam-nas com grande regularidade os tratadistas, mas os organizadores de compilações passam-nas em silêncio, sem dúvida porque elas se subentendem tacitamente e são consideradas de conhecimento geral. Os tratadistas alegam frequentemente alguns textos dos profetas Isaías e Ezequiel, que se referem à paz e harmonia universal do reino messiânico, tema por eles, geralmente, combinado com a restauração de Israel. Mais importante, porém, são os textos apocalípticos da Bíblia. O género apocalíptico, que floresceu entre 200 a. C. e 200 d. C., descreve em sonhos ou visões o combate decisivo entre Israel e os seus inimigos nos tempos derradeiros, e o triunfo final do povo de Deus. A descrição faz-se por meio de figuras simbólicas (Leão, Águia, Dragão, etc.), cujo significado vem a ser explicado, ou pelo próprio profeta, ou por um Anjo, ou por Deus. Entre esses sonhos cumpre salientarmos os do profeta Daniel (cap. 2 e 7), referentes aos quatro grandes Impérios que no Próximo Oriente se sucederam e que a exegese tradicional identificava, respectivamente, com o dos Assírios, o dos Persas e Medos, o dos Gregos (Alexandre Magno) e o dos Romanos. O primeiro sonho representava os quatro Impérios sucessivos na figura de uma estátua enorme, cuja cabeça era de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de cobre, e as pernas de ferro, sendo de ferro também uma parte dos pés, mas de barro outra parte.
Desprendendo-se, de repente, duma montanha, uma pedra feriu e despedaçou a estátua, crescendo até se transformar numa grande montanha, que acabou por encher a terra inteira. Esta pedra deu, em Portugal, origem ao Quinto Império, e à Fifth Monarchy entre os metodistas da Inglaterra. Eis o comentário de Vieira: aquela pedra […], que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza de seus metais, significa um novo e Quino Império, que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos tempos dos outros quatro. Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos, e ele só há-de permanecer para sempre, sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho, sem haver de conquistado ou destruído, como sucedeu […] aos demais.
Comentando o segundo sonho de Daniel, o jesuíta interpreta-o no mesmo sentido. Merece também atenção especial o chamado Livro IV de Esdras, opúsculo apócrifo, redigido no fim do século I d. C. por um judeu piedoso e falsamente atribuído a Esdras, o organizador da comunidade religiosa dos judeus depois do cativeiro de Babilónia (século V a. C.). Este livro, apesar de não canónico, gozava também entre os cristãos de grande prestígio, a ponto de ficar incluído na edição da Vulgata Latina, à guisa de apêndice. Nele se encontram algumas visões apocalípticas (cap. 11-13). Uma delas fala de um Leão (o Messias), que porá termo ao reino injusto de uma Águia monstruosa (o Império Romano) e estabelecerá um império de justiça até ao Juízo Final. Escusado será dizermos que os sebastianistas viam no Leão e figura do Encoberto». In José Van den Besselaar, O Sebastianismo História Sumária, Instituto Camões, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Biblioteca Breve /Volume 110, Livraria Bertrand, 1987.

Cortesia de CV Camões/JDACT

terça-feira, 20 de junho de 2017

O Sebastianismo. José Van Den Besselaar. «Os sebastianistas que se prezavam de certo grau de cultura e erudição empenhavam-se em coleccionar profecias»

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«(…) Na sociedade moderna, científica e tecnológica, a profecia já não funciona, faltando-lhe para tal as condições indispensáveis. Vem a ser substituída por análises científicas e processos técnicos, que invadem quase todos os terrenos da cultura hodierna e, dentro dos seus limites, funcionam com grande perfeição. Mas a ciência e a técnica têm os seus limites fatais: ambas são incapazes de dar sentido à vida dos indivíduos e das colectividades. Examinando de perto as ideologias modernas, que a muitos parecem objectivas e definitivas, descobrimos nelas também elementos míticos. Estes mostram muitas vezes ter mais força existencial e maior poder conquistador do que os componentes meramente racionais. Intellectus supponens fidem. Desde os primeiros séculos da era cristã se forjaram profecias sobre o rumo do processo histórico, mas que elas nunca pulularam tanto entre os cristãos como no fim da Idade Média.
Em Portugal, o profetismo teve o seu apogeu mais tarde, nos séculos XVI, XVII e XVIII. Os forjadores de profecias costumavam pô-las na boca de uma pessoa ilustre, já há muito tempo defunta. Este método tinha duas vantagens. Em primeiro lugar, a antiguidade do vaticínio conferia-lhe certa dignidade. Em segundo lugar, este método possibilitava aos autores iniciar os seus oráculos com o prenúncio de acontecimentos já sucedidos na época da redacção. E a verdade das profecias já cumpridas devia garantir a das profecias ainda por cumprir. A profecia propriamente dita continha geralmente, além de admoestação e imprecações, material de propaganda a favor de uma corrente religiosa, combinado com qualquer movimento político ou social. Aos modernos causa espanto o facto de que esses produtos fantasistas brotavam sem escrúpulos da mente de pessoas que decerto se consideravam a si mesmas como honradas e honestas e como tais eram consideradas por outros. Hoje, estamos espontaneamente inclinados a condenar tais falsificações. Mas não sejamos demasiadamente severos com aquela gente.
Diz um crítico francês: pour des esprits peu formés à l’observation, attribuant à ce qui est une importance bien moindre qu’à ce qui doit être, introduire dans les archives le document qui y manque malheuresement, n’est pas mentir, c’est au contraire rétabilir une vérité supérieures. Fosse isso como fosse, quase todas as profecias eram redigidas numa linguagem obscura e enigmática, prestando-se a mais de uma interpretação. E, assim como os documentos históricos dão lugar a uma constante discussão entre os estudiosos do passado sobre a sua correcta interpretação, assim as profecias criavam uma classe de exegetas que disputavam entre si o seu verdadeiro significado. Havia inúmeras disputas entre pessoas unidas na sua fé nas profecias, mas muito desunidas na sua interpretação. Os combatentes mostravam, por vezes, algum talento em discernir o ponto fraco da argumentação dos seus adversários, mas falhavam redondamente em provar, de maneira convincente, a sua própria opinião. Essas discussões fazem-nos pensar nos debates parlamentares entre conservadores e progressistas, que não convencem ninguém, a não ser quem já esteja convencido. Assim a luta continuava indecisa, sem vencedores finais nem derrotados definitivos.
Os combatentes gostavam de assumir ares de eruditos, mas a erudição que exibiam mal resiste a um exame crítico, porque toda ela estava baseada em premissas ilusórias. Acontece, porém, que também as ilusões fazem parte da História, chegando a ser, por vezes, motrizes mais pujantes do que as lucubrações de ordem puramente intelectual. Por mais eruditos e, em alguns casos, inteligentes que fossem os polemistas, quase nenhum deles levantava o problema que ao homem moderno parece fundamental: a autenticidade das profecias alegadas. Faltava-lhes a menor noção da crítica histórica, que na época do Renascimento nascera na Itália e, nos séculos XVI e XVII, estava a ser aperfeiçoada nas Universidades da Holanda e nas abadias e academias da França. O facto ilustra bem o isolamento cultural em que Portugal se encontrava.

Os cartapácios
Os sebastianistas que se prezavam de certo grau de cultura e erudição empenhavam-se em coleccionar profecias. Estas colecções, geralmente feitas sem nenhum critério científico, eram para eles o arsenal donde tiravam as armas para defender e propagar as suas opiniões e para combater as dos incrédulos e dissidentes. Muitos desses cartapácios chegaram aos nossos dias, alguns feitos por copistas ignorantes e cheios dos erros mais crassos, outros organizados com certo esmero e método. Dois deles merecem uma menção especial: o Jardim Ameno e o Catálogo das Profecias. Ambos primam por uma grande variedade de matéria profética, e, comparados com outros cartapácios, dão a impressão de transmitir um texto coerente e, dentro dos seus limites, fidedigno. Deles me servirei amplamente na transcrição dos textos sebásticos que pretendo reproduzir no presente trabalho». In José Van den Besselaar, O Sebastianismo História Sumária, Instituto Camões, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Biblioteca Breve /Volume 110, Livraria Bertrand, 1987.

Cortesia de CV Camões/JDACT

domingo, 18 de junho de 2017

O Fardo da Nobreza. Donna Leon. «Litfin acompanhou o movimento dos seus lábios enquanto ele olhava para o osso. Sem dar tempo para que respondesse, Bortot passou o osso para ele»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Então os homens saíram das sombras e o doutor teve um momento alucinatório ao perceber o contraste dos uniformes pretos contra o inocente pano de fundo rosa da macieira em flor. As botas lustradas marchavam sobre um carpete de pétalas recém-caídas enquanto se aproximavam dele. O que o senhor faz por aqui?, indagou o primeiro. Quem é o senhor?, perguntou o outro, mantendo o mesmo tom raivoso. Num italiano desajeitado em virtude do medo, ele começou: sou o doutor Litfin. Sou o..., e fez uma pausa em busca do termo mais adequado. Sou o padrone daqui. Os carabinieri tinham sido informados de que o novo proprietário era um alemão, e o sotaque parecia real o bastante, de modo que eles abaixaram as armas, mas mantiveram o dedo perto do gatilho. Litfin tomou o gesto como uma permissão para abaixar as mãos, o que fez bem devagar. Por ser alemão, sabia que as armas seriam sempre superiores a qualquer apelo a direitos civis, daí ter esperado que se aproximassem dele, o que não o impediu de voltar momentaneamente sua atenção para os três homens que permaneciam no terreno recém-arado, agora tão imóveis quanto ele, atentos aos carabinieri que se aproximavam e a ele próprio. Os dois policiais, de repente inseguros frente à pessoa capaz de arcar com as reformas da casa e do terreno, à vista de todos, aproximaram-se do dr. Litfin e à medida que o faziam o equilíbrio do poder alterava-se. Consciente disso, Litfin aproveitou a oportunidade.
O que significa tudo isso?, perguntou, apontando para o terreno e deixando que os policiais concluíssem por si sós se ele estava referindo-se ao relvado arruinado ou aos três homens que permaneciam do outro lado. Tem um cadáver no seu terreno, respondeu o primeiro polícia. Sim, eu sei disso, mas o que é toda essa..., ele buscou o termo apropriado, mas só conseguiu emitir um distruzione. As marcas do trilho dos pneus pareciam aprofundar-se enquanto os três homens as avaliavam, até que finalmente um dos polícias disse: fomos obrigados a atravessar o terreno. Embora fosse uma mentira descarada, Litfin optou por ignorá-la. Voltou as costas aos polícias e começou a caminhar em direcção aos outros três homens tão rápido que ninguém tentou detê-lo. Chegando ao final da primeira vala, bastante profunda, perguntou ao homem que parecia estar no comando: o que é isso? O senhor é o doutor Litfin?, perguntou o outro médico, que já tinha sido informado sobre o alemão, sobre quanto havia pago pela casa e quanto havia gasto até então com as reformas. Litfin confirmou e, como o outro demorava a responder, perguntou de novo: o que é isso?
Um homem de uns vinte anos, acho, respondeu o dr. Bortot, voltando-se em seguida para seus assistentes a fim de fazê-los continuar com o trabalho. Demorou um pouquinho para que Litfin se recuperasse da resposta grosseira, mas, quando o fez, passou sobre a terra revolvida e se posicionou ao lado do outro médico. Ficaram ali por um bom tempo sem dizer nenhuma palavra, lado a lado, observando os dois assistentes revolvendo a terra com vagar. Passados alguns minutos, um dos homens entregou outro osso ao dr. Bortot, que, com um rápido olhar, identificou-o e posicionou-o ao final do outro pulso. O mesmo posicionamento rápido se deu com os dois ossos seguintes. Ali, à sua esquerda, Pizetti, disse Bortot, apontando para um minúsculo artelho exposto no extremo oposto da vala. O homem a quem ele se dirigiu visualizou o objecto, agachou-se, apanhou-o e entregou-o ao médico. Bortot o estudou por um instante, mantendo-o delicadamente entre o polegar e o indicador, e depois se voltou para o alemão. Cuneiforme lateral?, perguntou.
Litfin acompanhou o movimento dos seus lábios enquanto ele olhava para o osso. Sem dar tempo para que respondesse, Bortot passou o osso para ele. Litfin pegou-o nas mãos por um momento, depois olhou para os ossos espalhados sobre o plástico a seus pés. Ou intermediário, Litfin respondeu, mais à vontade com o latim que com o italiano. Sim, sim, talvez, Bortot replicou. Fez um aceno em direcção ao plástico e Litfin curvou-se para colocá-lo no fim do osso comprido que se unia ao pé. Ergueu-se e os dois olharam para ver o resultado. Ja, ja murmurou Litfin, e Bortot assentiu com a cabeça. Por mais uma hora os dois permaneceram juntos ao lado do sulco feito pelo tractor, revezando-se para apanhar os ossos dados pelos assistentes, que continuavam a passar o rico solo pela peneira. De quando em quando divergiam sobre um fragmento ou uma lasca, mas em geral concordavam na classificação do que lhes era passado pelos dois cavadores. O sol primaveril caía sobre eles. Ao longe, um cuco passou a emitir o seu canto de acasalamento, repetindo-o até que os quatro homens não lhe dessem mais bola. À medida que o calor aumentava, eles começaram a tirar os seus casacos, que acabaram todos pendurados nos galhos mais baixos das árvores alinhadas a um dos lados do terreno que delimitavam a propriedade». In Donna Leon, O Fardo da Nobreza, 1997, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-056-7.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

O Fardo da Nobreza Donna Leon. «Olhou em volta, mas não viu nada além das três velhas árvores que tinham crescido em redor do poço em ruínas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) As notícias nunca se propagam de forma tão rápida numa cidade pequena quando dizem respeito a mortes ou acidentes, de modo que a história de que ossos humanos tinham sido encontrados no jardim da velha casa dos Orsez já se havia espalhado pelo vilarejo de Col di Cugnan antes da hora do almoço. Somente a notícia da morte do filho do prefeito num acidente de automóvel perto da fábrica de cimento, havia sete anos, tinha-se espalhado tão rapidamente; mesmo a história sobre Graziella Rovere e o mecânico só se tornara do conhecimento de todos após dois dias. Naquela noite, porém, os habitantes do vilarejo, todos os setenta e quatro, desligaram os seus televisores durante o jantar ou conversaram sem ligar para o que neles passava, tentando especular sobre o que teria acontecido e, o que era mais interessante, sobre quem poderia ser.
A apresentadora de casaquinho de pele da RAI 3, a loira que a cada noite usava óculos diferentes, foi ignorada enquanto informava sobre as últimas atrocidades na antiga Jugoslávia, e ninguém deu a mínima para a prisão do ex-ministro do Interior sob acusações de corrupção. Notícias assim já faziam parte da rotina; mas um crânio numa vala nos fundos da residência de um estrangeiro, isso sim era notícia. Até a hora de dormir, já se dizia que o crânio tinha sido esmigalhado pelo golpe de um machado ou de uma bala e que apresentava sinais de terem tentado dissolvê-lo em ácido. A polícia havia identificado, disso os habitantes tinham certeza, os ossos como sendo de uma mulher grávida, de um rapazinho e do marido de Luigina Menegaz, que havia partido para Roma doze anos antes e do qual nunca mais se ouvira falar desde então. Nessa noite, os moradores de Col di Cugnan trancaram as suas portas, e os que tinham perdido as suas chaves anos antes e nunca se haviam dado ao trabalho de procurá-las tiveram um sono mais agitado que os outros.
Na manhã seguinte, às oito horas, duas viaturas dos carabinieri chegaram à casa do dr. Litfin, passando por cima da relva recém-plantada para estacionar uma em cada lado dos dois longos sulcos arados no dia anterior. Somente depois de uma hora chegou o carro do centro da província de Belluno que trazia o medico legal daquela cidade. Ele não ouvira nenhum dos rumores sobre a identidade ou a causa da morte da pessoa cujos ossos jaziam sobre o terreno, dando início assim aos procedimentos que pareciam prioritários: colocar os seus dois assistentes para revolver a terra e descobrir o resto. Enquanto esse longo processo avançava, as duas viaturas dos carabinieri revezavam-se atravessando o agora destruído relvado e dirigindo-se até ao vilarejo, onde os seis policiais tomaram o seu café num café e começaram a perguntar aos habitantes se alguém tinha desaparecido. O facto de os ossos aparentemente terem ficado enterrados por muitos anos não os demoveu de sua decisão de indagar sobre eventos recentes, de modo que as suas investigações não levaram a nada.
No terreno, os dois assistentes do dr. Bortot tinham montado uma peneira bem afunilada e lentamente iam despejando baldes de terra através dela, abaixando-se de quando em quando para apanhar um osso pequeno ou qualquer coisa que parecesse ser um. À medida que os iam recolhendo, mostravam os ossos ao seu superior, que se tinha instalado na borda da vala, com as mãos para trás. Um grande plástico preto se estendia a seus pés, e à medida que os ossos iam sendo apresentados a ele, orientava os seus assistentes sobre como dispô-los; assim, juntos, iam lentamente montando o macabro quebra-cabeça. Uma vez ou outra, pedia a um dos homens que lhe passasse um osso, que avaliava por um momento antes de se inclinar para posicioná-lo em algum lugar do plástico. Em duas ocasiões mudou de ideia; numa delas ajoelhou-se para mover um osso da direita para a esquerda, noutra, com um suspiro abafado, deslocou outro osso da base do metatarso para a extremidade do que antes fora um pulso.
O dr. Litfin chegou às dez, tendo sido informado na noite anterior sobre a descoberta no seu jardim e então conduziu toda a noite vindo de Munique. Estacionou na frente da casa e saiu com dificuldade do carro. Entre ele e a casa viu as numerosas e profundas trilhas de pneus feitas sobre o novo relvado que ele havia cultivado com puro deleite três semanas antes. E logo viu os três homens no terreno mais adiante, quase tão distantes quanto os canteiros de mudas de framboeseiras que ele trouxera da Alemanha e plantara de imediato. Começou a cruzar o relvadodo destruído, mas de repente parou sob uma ordem gritada de algum ponto à sua direita. Olhou em volta, mas não viu nada além das três velhas árvores que tinham crescido em redor do poço em ruínas. Não tendo visto ninguém, retomou o andar em direcção aos três homens no terreno. Não deu mais que alguns passos antes que dois homens trajando os ameaçadores uniformes negros dos carabinieri saíssem debaixo da macieira mais próxima apontando metralhadoras na sua direcção. O dr. Litfin sobrevivera à ocupação de Berlim pelos russos e, embora isso tivesse sido mais de cinquenta anos antes, o seu corpo não esquecera a visão de homens armados em uniforme. Instintivamente, ergueu as duas mãos sobre a cabeça e ficou imóvel como uma pedra». In Donna Leon, O Fardo da Nobreza, 1997, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-056-7.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

sábado, 17 de junho de 2017

Terra Sonâmbula. Mia Couto. «Chorando assim você vai chamar os espíritos. Ou se cala ou lhe rebento a tristeza à pancada»

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«(…) Muidinga vai avançando, pisando com mil cautelas. Aquele recinto está contaminado pela morte. Seriam precisas mil cerimónias para purificar o autocarro. Não faça essa cara, miúdo. Os falecidos ofendem- se lhes mostramos nojo. Muidinga arruma o saco num banco. Senta-se e observa o recanto conservado. Há tecto, assentos, encostos. O velho, impávido, já se deitou a repousar. De olhos fechados, espreguiça a voz: sabe bem uma sombrinha assim. Não descanso desde que fugimos do campo. Não quer apanhar sombra? Tuahir, vamos tirar esses corpos daqui. E porquê? Cheiram-lhe mal? O miúdo não responde logo. Está virado para a janela quebrada. O velho insiste que descanse. Desde que saíram do campo de deslocados eles não tinham tido pausa. Muidinga permanece de costas viradas. Escuta-se apenas o seu respirar, quase resvalando em soluço. Então, ele repete a sussurrante súplica: que se limpe aquele refúgio. Peço-lhe, tio Tuahir. É que estou farto de viver entre mortos. O velho apressa-se a emendar: não sou seu tio! E ameaça: o moço que não abuse das familiaridades. Mas aquele tratamento é só a maneira da tradição, argumenta Muidinga. 
Em você não gosto. Não lhe chamo nunca mais. E me diga: quer encontrar os seus pais porquê? Já expliquei tantas vezes. Não consigo entender. Vou-lhe contar uma coisa: os seus pais não lhe vão querer ver nem vivo. Porquê? Em tempos de guerra, filhos são um peso que atrapalha. Saem a enterrar os cadáveres. Não vão longe. Abrem uma única campa para poupar esforço. No caminho do regresso encontram mais um corpo. Jazia junto à berma, virado de costas. Não estava queimado. Tinha sido morto a tiro. A camisa estava empapada em sangue, nem se notava a cor original. Junto dele estava uma mala, fechada, intacta. Tuahir sacode o morto com o pé. Revista-lhe os bolsos, em vão: alguém já os tinha vazado. Eh pá, este gajo não cheira. Atacaram o machimbombo há pouco tempo. O miúdo estremece. A tragédia, afinal, é mais recente do que ele pensava. Os espíritos dos falecidos ainda por ali pairavam. Mas Tuahir parece alheio à vizinhança. Enterram o último cadáver. O rosto dele nunca chega a ser visto: arrastaram-no assim mesmo, os dentes charruaram a terra. Depois de fecharem o buraco, o velho puxa a mala para dentro do autocarro. Tuahir tenta abrir o achado, não é capaz. Convoca a ajuda de Muidinga: abre, vamos ver o que está dentro. Forçam o fecho, apressados. No interior da mala estão roupas, uma caixa com comidas. Por cima de tudo estão espalhados cadernos escolares, gatafunhados com letras incertas. O velho carrega a caixa com mantimentos. Muidinga inspecciona os papéis. Veja, Tuahir. São cartas. Quero saber é das comidas. O miúdo remexe no resto. As mãos curiosas viajam pelos cantos da mala. O velho chama a atenção: ele que deixasse tudo como estava, fechasse a tampa. Tira só essa papelada. Serve para acendermos a fogueira. O jovem retira os caderninhos. Guarda-os por baixo do seu banco. Não parece pretender sacrificar aqueles papéis para iniciar o fogo. Fica sentado, alheio. No enquanto, lá fora, tudo vai ficando noite. Reina um negro silvestre, cego. Muidinga olha o escuro e estremece. É um desses negros que nem os corvos comem. Parece todas as sombras desceram à terra. O medo passeia os seus chifres no peito do menino que se deita, enroscado como um congolote. O machimbombo rende-se à quietude, tudo é silêncio taciturno. Mais tarde, começa-se a escutar um pranto, num fio quase inaudível. É Muidinga que chora. O velho levanta-se e ralha: pára de chorar! É que me dói uma tristeza... Chorando assim você vai chamar os espíritos. Ou se cala ou lhe rebento a tristeza à pancada. Nós nunca mais vamos sair daqui. Vamos, com certeza. Qualquer coisa vai acontecer qualquer dia. E essa guerra vai acabar. A estrada já se vai encher de gente, camiões. Como no tempo de antigamente. Mais sereno, o velho passa um braço sobre os ombros trementes do rapaz e lhe pergunta: tens medo da noite? Muidinga acena afirmativamente. Então vai acender uma fogueira lá fora. O miúdo levanta-se e escolhe entre os papéis, receando rasgar uma folha escrita. Acaba por arrancar a capa de um dos cadernos. Para fazer fogo usa esse papel. Depois senta-se ao lado da fogueira, ajeita os cadernos e começa a ler. Balbucia letra a letra, percorrendo o lento desenho de cada uma. Sorri com a satisfação de uma conquista. Vai-se habituando, ganhando despacho. Que estás a fazer, rapaz? Estou a ler. É verdade, já me esquecia, você é capaz de ler. Então leia em voz alta que é para me adormecer». In Mia Couto, Terra Sonâmbula, Editorial Caminho, Lisboa, 1992, ISBN 972-21-0790-9.

Cortesia de Caminho/JDACT

sexta-feira, 16 de junho de 2017

E se Obama fosse Africano. Mia Couto. «O episódio da estação hidrométrica passou a ser um dos alimentos do meu sentimento de esperança»

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O guardador de rios
«Depois da Independência, um programa de controlo dos caudais dos rios foi instalado em Moçambique. Formulários foram distribuídos pelas estações hidrológicas espalhadas pelo país e um programa de registo foi iniciado para os mais importantes cursos fluviais. A guerra de desestabilização eclodiu e esse projecto, como tantos outros, foi interrompido por mais de uma dúzia de anos. Quando a Paz se reinstalou, em 1992, as autoridades relançaram o projecto acreditando que, em todo o lado, era necessário recomeçar do zero. Contudo, uma surpresa esperava a brigada que visitou uma isolada estação hidrométrica no interior da Zambézia. O velho guarda tinha-se mantido activo e cumprira, com zelo diário, a sua missão durante todos aqueles anos. Esgotados os formulários, ele passou a usar as paredes da estação para grafar, a carvão, os dados hidrológicos que era necessário registar. No interior e exterior, as paredes estavam cobertas de anotações e a velha casa parecia um imenso livro de pedra. Orgulhoso, o guarda recebeu os visitantes à entrada e apontou para a madeira da porta: começa-se a ler por aqui, para ir habituando os olhos ao escuro. A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassínio espectacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder crença no futuro.
O episódio da estação hidrométrica passou a ser um dos alimentos do meu sentimento de esperança. Como se me lembrasse que devo dialogar com invisíveis rios e tudo em meu redor podem ser paredes onde eu nego a tentação do desalento.
Tal como o anterior Pensatempos, este não é um livro de ficção. Os textos que aqui se reúnem cumprem a missão de intervenção social que a mim mesmo me incumbo como cidadão e como escritor. Com a excepção do artigo sobre a eleição de Obama, todos os restantes textos foram concebidos para alocuções a serem proferidas em encontros e colóquios dentro e fora de Moçambique. Conservei o mais possível a forma coloquial e deixei intencionalmente escapar, aqui e ali, pequenas repetições e improvisações.
Alguns destes textos foram concebidos para o contexto de Moçambique e, eventualmente, pecarão por essa especificidade para o leitor não moçambicano. Acredito, porém, que os rios que percorrem o imaginário do meu país cruzam territórios universais e desembocam na alma do mundo. E nas margens de todos esses rios há gente teimosamente inscrevendo na pedra os minúsculos sinais da esperança. In Mia Couto.

Mia Couto, E se Obama fosse Africano, Edições Caminho, colecção Outras Margens, 2009, ISBN 978-972-212-023-4.

Cortesia ECaminho/JDACT

Melancia. Marian Keyes. «Ambos concordámos que nos havíamos apaixonado um pelo outro cerca de quinze minutos depois de nos conhecermos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Desculpe, deve achar que sou muito grosseira. Mal fomos apresentados e aqui estou eu contando-lhe as coisas terríveis que me aconteceram. Vou apresentar-lhe rapidamente o meu perfil e deixarei os detalhes para depois; por exemplo, se tivermos tempo para isso, vou contar como foi o meu primeiro dia na escola. Vejamos então. O que devo contar-lhe? Bem, o meu nome é Claire, tenho 29 anos e, como disse, tive o meu primeiro filho há dois dias (uma menina, com quase três quilos, lindíssima) e o meu marido (contei que o nome dele é James?) me comunicou, há cerca de vinte e quatro horas, que vem tendo um caso, já há seis meses, guarde essa, não é nem a sua secretária ou outra mulher charmosa do seu trabalho, mas com uma mulher casada que mora no apartamento dois andares abaixo do nosso. Incrível como isso soa mal! E não apenas tem um caso, mas quer divorciar-se de mim. Desculpe se estou sendo desnecessariamente frívola quanto a isso. Estou muito confusa. Dentro de um instante estarei chorando novamente. Ainda me encontro em estado de choque, assim acho eu. O nome dela é Denise, e eu conheço-a muito bem. Não tão bem quanto a conhece James, é óbvio. O terrível é que ela sempre pareceu tão boazinha.
Tem 35 anos (não me pergunte como sei disso), simplesmente sei. E, correndo o risco de parecer que falo por pura inveja e de perder a simpatia de quem me lê, a aparência dela é de quem tem mesmo trinta e cinco, é mãe de dois filhos e tem um bom marido (ou seja, bem diferente do meu). E, pelo que parece, saiu do seu apartamento e ele do dele (do nosso, melhor dizendo) e ambos se mudaram para um novo, em endereço secreto. Não é incrível?! Como se pode chegar a um drama desses? Sei que o marido dela é italiano, mas realmente não vejo nenhuma probabilidade de que ele mate o casal. É garçom, não é um mafioso; então, o que vai fazer? Envenená-los com pimenta do reino? Fazer com que entrem em coma, após tantos boa noite, senhores? Ou atropelá-los com o carrinho das sobremesas? Novamente pareço frívola. Mas não sou. Estou é com o coração partido.
Um desastre completo. Nem sei como devo dar o nome à minha filhinha. James e eu tínhamos discutido alguns nomes, ou, pensando retrospectivamente, eu os discutira e ele fingira ouvir, mas não decidimos nada. E agora pareço ter perdido a capacidade de tomar decisões. Patético, eu sei, mas o casamento é isso. Acaba com o nosso senso de autonomia pessoal! Mas nem sempre fui assim. Antigamente, eu tinha força de vontade, era independente. Agora tudo isso parece que foi há muito, muitíssimo tempo. Fiquei com James por cinco anos e estávamos casados há três. E, meu Deus, como eu amo aquele homem. Embora houvéssemos tido um início não muito auspicioso, a magia tomou conta de nós muito rapidamente. Ambos concordámos que nos havíamos apaixonado um pelo outro cerca de quinze minutos depois de nos conhecermos, e assim permanecemos. Ou, pelo menos, eu permaneci.
Durante muito tempo, nunca pensei que encontraria um homem que quisesse se casar comigo. Bem, talvez eu devesse amenizar isso. Nunca pensei que conheceria um bom homem que quisesse casar-se comigo. Muitos malucos, sem dúvida. Mas um bom homem, um pouquinho mais velho do que eu, com um emprego decente, boa aparência, engraçado, gentil. Sabe como é, alguém que não me olhasse de esguelha quando eu mencionasse o programa da tarde, nem alguém que prometesse sair comigo para uma noite no McDonald's logo após seu curso nocturno, nem alguém que se desculpasse por não poder dar-me um presente de Natal porque sua ex-esposa havia conseguido ganhar todo o seu salário num processo de pensão alimentícia, nem alguém que me fizesse sentir antiquada e intimidada porque me zangara quando ele disse que tinha namorado com a sua ex-namorada na noite seguinte àquela em que se deitara comigo (meu Deus, vocês, garotas de convento, são tão antiquadas), nem alguém que me fizesse sentir constrangida por não saber a diferença entre Piat d'Or e Zinfandel (seja lá o que for isso!).
James não me tratava de nenhuma dessas maneiras desagradáveis. Até parecia bom demais para ser verdade. Ele gostava de mim. Ele gostava de quase tudo em mim. Quando nos conhecemos, estávamos ambos morando em Londres. Eu era garçonete, e ele, contador. Entre todas as espeluncas ao estilo texano-mexicano ao redor do mundo, ele entrou justamente na minha. Eu não era uma garçonete de verdade, era formada em Inglês, só que passara por minha fase rebelde bem mais tarde do que a maioria das mulheres, lá pelos 23 anos. Que foi quando pensei que seria bem divertido deixar o meu emprego permanente em Dublin, com direito a aposentadoria e até bem pago, e partir para a pecaminosa cidade de Londres, para viver como uma estudante irresponsável. Algo que deveria ter feito quando era mesmo uma estudante irresponsável. Mas, aquele tempo, estava ocupada demais obtendo experiência de trabalho em minhas férias de verão, e então minha irresponsabilidade teve de esperar até eu estar inteiramente preparada para ela». In Marian Keyes, Melancia, 1995, Edição Bertrand Brasil, 2003, ISBN 978-852-860-916-5.

Cortesia de EBBrasil/JDACT

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Meia-noite ou O Princípio do Mundo. Richard Zimler. «Agora, o malvado cocheiro terminava a sua diatribe rosnando: vou vender-te para fazer cola, sua meretriz preguiçosa!»

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«(…) Embora fosse uma criança de roupas esfarrapadas e sem maneiras, Daniel sempre ocupou um lugar especial no meu coração. Se a nossa vida em conjunto tivesse sido um livro de aventuras, ele teria continuado a praticar horas a fio, à luz da candeia, para na última página se tornar um escultor célebre. Mas a vida, já o meu pai dizia, é, na melhor das hipóteses, um Jogo da Papisa Joana numa mesa viciada, com o jogador que dá as cartas a esconder as melhores nos folhos da manga. E, por isso, o meu amigo foi impedido de realizar essas maravilhas. Se a sorte lhe tivesse sorrido, ou, mais importante ainda, se eu, John Zarco Stewart, tivesse tido mais força de braços, também a minha vida teria lucrado com isso. Afinal, muitas vezes só compreendemos o papel que tivemos nas pessoas que amamos volvidos muitos anos.
Conheci Daniel em Junho de 1800, quando tinha nove anos. Por essa altura, já eu descobrira Ás Fábulas da Raposa nas Ilhas Britânicas. Nesse dia, saíra cedo, tendo devorado, para desagrado da minha mãe, uma côdea de pão de trigo que barrara com mel e emborcado uma chávena de chá. O meu destino era um laguinho, ou tarn termo escocês), como o pai lhe chamava,  muito para lá das muralhas da cidade, na zona interior coberta de árvores ao longo da estrada para Vila do Conde. Era um sítio magnífico para observar todos os tipos de aves, especialmente logo depois do nascer do Sol. Naquele tempo, e ainda hoje, eu era um grande amante das lindas criaturas de penas, ar e luz, bem como um grande apreciador e imitador do canto das aves. Nessa altura, tivesse eu podido suplicar a Deus um bico e asas, e certamente me teria transformado numa dessas criaturas.
Já me estava a aproximar dos degraus de granito ao fundo da rua que conduzem à zona ribeirinha, quando me chegaram uns gritos roucos vindos de um beco ali perto. Correndo para lá a toda a velocidade, fui dar com a dona Beatriz, uma lavadeira viúva a quem entregávamos os lençóis todas as quartas-feiras, estendida nas pedras da calçada diante de casa. Ganindo como um cão espancado, tinha os joelhos ossudos puxados para a barriga para se proteger. Um bruto de peruca e libré de cocheiro agigantava-se ameaçadoramente sobre ela, a cara contorcida de raiva. Sua cadela desleixada!, gritava o homem, cuspindo as palavras. Sua marrana mentirosa e ladra! Marrana era uma palavra nova para mim. Mais tarde, o meu professor explicou-me que tinha dois significados, porca e judia convertida, um epíteto que me confundira, já que nunca ouvira ninguém referir-se à dona Beatriz senão como uma boa alma cristã. De facto, fazia apenas uma ideia muitíssimo vaga do que poderia ser um judeu, pois, embora a minha avó me tivesse falado deles em duas ou três ocasiões, retivera apenas algumas lendas em que feiticeiros judeus pareciam estar sempre a frustrar as acções de reis execráveis com as suas rezas mágicas.
Agora, o malvado cocheiro terminava a sua diatribe rosnando: vou vender-te para fazer cola, sua meretriz preguiçosa! A seguir, depois de ter dado vários pontapés na dona Beatriz, agarrou-lhe os cabelos ralos, preparando-se para lhe atirar a cabeça contra as pedras da calçada. O coração batia-me violentamente no peito e comecei a sentir-me tonto. Perguntei-me se deveria soltar um grito e se este conseguiria sobrevoar os telhados que me separavam do meu pai e acordá-lo. Naquele tempo, estava convencido de que, com o seu metro e oitenta, ele conseguia restabelecer a ordem no mundo». In Richard Zimler, Meia-noite ou O Princípio do Mundo, 2003, Porto Editora, 2017, ISBN 978-972-004-727-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

Deslumbrante. Madeline Hunter. «Tentou fingir uma indiferença espontânea, mas não pôde evitar reparar que, se uma mulher tinha de ver um homem meio nu pela primeira vez na vida, lord Sebastian não era um mau começo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Vozes transmitiram a notícia de que uma mulher tinha tentado matar o amante. Não foi isso que aconteceu. Lord Sebastian arrancou o que restava da manga e usou o retalho para comprimir a abertura grande e escura que tinha no braço. Alguém entrou. Um ladrão. Tentei defender-me e ele atacou-me. Na luta, a pistola disparou. É uma história improvável, disse o estalajadeiro, entredentes. Questiona a minha palavra de cavalheiro?, perguntou lord Sebastian, ameaçador. Não questionarei nada, senhor. Vou deixar isso ao magistrado, se não se importar. Pode contar do ladrão audaz que entrou num quarto ocupado, simplesmente para atirar e fugir sem dinheiro. O estalajadeiro dirigiu a Audrianna um olhar de desdém. Quer que mande alguém a Brighton buscar um cirurgião, senhor? Ou esta mulher consegue cuidar do ferimento enquanto espera pelo juiz de paz? Fico com a sua palavra do cavalheiro que realmente é de que vai ficar e não fugir. Lord Sebastian tirou o farrapo e olhou para o braço.
Tem a minha palavra. Conseguimos tratar da ferida. Mande trazer água fresca e um trapo limpo. Além do mais, a senhora vai precisar de um quarto para ela, para passar a noite, por isso trate de providenciá-lo. Os outros quartos estão ocupados, e não vou mandar ninguém sair para alojá-la. Nem quero essa mulher perambulando pela minha propriedade depois do que ela fez. Não tenho tempo para ficar de carcereiro, por isso deixo também isso a seu cargo. Ficarei com a sua palavra também a respeito disso, de que a manterá por perto e se certificará de que ela permaneça aqui até o juiz de paz chegar. Que assim seja, então, já que insiste. Agora pode ir embora. Foi uma ordem calma, mas com uma autoridade tal que o estalajadeiro se voltou imediatamente para a porta. Na saída, as pessoas começaram a dispersar, abrindo caminho. Você também, Hawkeswell, indicou lord Sebastian. Preciso de privacidade. Peço também a sua discrição, não que espere que seja de grande ajuda. Deve compreender. Concedo ambas de bom grado. Também tenho uma camisa a mais na minha bagagem. Vou mandar para você. Fez uma pequena mesura a Audrianna e saiu do quarto seguindo o estalajadeiro.
Lord Sebastian fechou a porta para afastar os retardatários que persistiam em espiar perto da ombreira da porta. Em seguida aproximou-se do fogo e examinou mais atentamente o ferimento. Por que ficou tão preta?, perguntou Audrianna. Pólvora quente. A bala só me tocou de raspão, mas fiquei bem chamuscado. Voltou-se para ela. O seu nome. Preciso dele agora, e não pense em mentir. O juiz de paz o arrancará de você com certeza, e nem pense que vou continuar sem saber o que se passa aqui. Ela estava assustada e consternada demais para mentir. Sou Audrianna Kelmsleigh, filha de Horatio Kelmsleigh. Ele ficou perplexo. Vi uma mensagem no jornal de alguém que se autointitulava Dominó e parecia ser para o meu pai, explicou ela. Eu vim, para ver se o homem tinha informação que pudesse limpar o seu nome. Tudo aquilo havia parecido tão certo, tão necessário, no dia anterior. Porque está aqui?
Também vi o anúncio, e também tive esperança de falar com o tal Dominó. Porquê? Meu pai está morto. O mundo seguiu em frente. Acho que há algo mais nessa história. Não vejo como poderia obter informações do Dominó fingindo ser o próprio Dominó. A minha intenção era fingir ser o Kelmsleigh. Quando presumiu que eu era Dominó, decidi entrar no jogo e descobrir quem era aquela mulher inesperada, e que papel desempenharia no esquema geral. Esquema geral? Então alguém abriu a porta. Uma criada trouxe uma bacia e um balde de água. Colocou alguns panos limpos sobre a cama. Um cavalheiro pediu-me que trouxesse também esta camisa, explicou, colocando-a de lado. Deu uma boa olhadela a Audrianna e saiu apressada. Lord Sebastian pôs o balde perto do fogo. Sentou-se na cama, despiu o colete e depois tirou a camisa rasgada. Fez uma careta de dor quando o tecido roçou na ferida. Audrianna piscou os olhos repetidamente, espantada mais um vez. Aquele homem não tinha nada que o cobrisse. Estava ali sentado, preocupado com o ferimento, sem roupa, meio nu na verdade. Não parecia achar nada estranho que ela estivesse sentada ali mesmo ao lado dele.
Nunca vira um homem sem camisa. Tentou fingir uma indiferença espontânea, mas não pôde evitar reparar que, se uma mulher tinha de ver um homem meio nu pela primeira vez na vida, lord Sebastian não era um mau começo. Já não era rapaz, mas ainda possuía a firmeza ágil da juventude, que não interferia nos músculos que definiam o peitoral. Vou precisar dessa cadeira, miss Kelmsleigh. Se não se importar. Ela soltou-a num salto. Ele agarrou o móvel pelo encosto, posicionou-o à frente da lareira e sentou-se. Com a água quente e sabão, começou a limpar o corte que tinha no braço. Supunha que aquilo devia doer, mas ele não mostrava reacção alguma. Talvez não estivesse tão indiferente à sua presença como parecia». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

domingo, 11 de junho de 2017

Sancho I. O Filho do Fundador. Maria Violante Branco. «Quando Afonso I sofre o seu infortúnio, de Badajoz, e Sancho, na flor dos seus 14 anos, e apenas acabado de aceder à maioridade, é chamado a assumir maiores responsabilidades»

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«(…) Foi este o ambiente em que se passaram os catorze primeiros anos da vida de Sancho, entre convulsões e mudanças a nível da cristandade e uma plêiade de guerras ao seu redor, guerras de conquista aos mouros, guerras contra os Leoneses, querelas eclesiásticas entre Braga e Toledo e entre Braga e Compostela, múltiplas alianças matrimoniais e acordos de paz entre os reis cristãos peninsulares, tão frequentes quanto ineficientes, ultrapassados e desrespeitados ainda mal a tinta secara no pergaminho, tudo isto junto com a sempre continuada e também sempre frustrada tentativa de fazer reconhecer o reino pela Santa Sé.
Quando Afonso I sofre o seu infortúnio, de Badajoz, e Sancho, na flor dos seus 14 anos, e apenas acabado de aceder à maioridade, é chamado a assumir maiores responsabilidades, é para este mundo que ele é chamado. É no contexto deste panorama político, instável e inseguro, que os seus instintos e a sua decerto incipiente maturidade política serão chamados a intervir, mesmo se nessa missão ele viesse a ser guiado pelos seus conselheiros e por um pai que, embora inutilizado para a guerra no rescaldo de Badajoz, continuaria muito activo e interveniente até à sua morte.

Infância e criação
Na verdade, conforme já mencionámos, Sancho I não nascera para ser rei. Sancho foi o segundo filho varão de Afonso Henriques, mas era sete anos mais novo que o primogénito. Tanto quanto podemos saber, foi o quinto filho a nascer da união legítima do primeiro rei de Portugal com Mafalda de Sabóia.
O primeiro filho, que fora logo um varão, nascera em 1147, pouco mais de um ano depois do casamento dos pais e chamou-se Henrique, de acordo com a tradição e decerto em honra do avô. Era sobre ele que, em princípio, devia ter recaído a obrigação de suceder a Afonso Henriques, ainda que nestes anos a ordem de sucessão ao trono ainda não estivesse tão interiorizada pela linha de primogenitura masculina como mais tarde viria a estar. Nos anos seguintes, a rainha Mafalda daria à luz, consecutivamente, três meninas, Urraca (que nasceu provavelmente ainda em 1148), Teresa (que parece ter nascido em 1151) e Mafalda (nascida em 1153), às quais foram dados nomes que invocavam a mãe, a avó paterna e a tia-avó leonesa das meninas.
De acordo com o testemunho dos Anais de D. Afonso Henriques, fonte de finais do século XII, Sancho I nasceu numa quinta-feira, na noite da festa de São Martinho de Tours, que cai precisamente a 11 de Novembro, e por essa razão fora baptizado como Martinho, em honra do patrono do dia em que nascera. Não é decerto por acaso que se descreve um assunto geralmente deixado no vago com tanto detalhe. Como o primogénito do rei tinha atingido o limiar dos 7 anos de idade ainda vivo e de saúde, talvez se tivesse considerado ultrapassada uma das etapas de maior perigo de morte na primeira infância e se tivesse por isso cedido a orientações de ordem devocional ou espiritual e dado a este segundo filho varão o nome de um santo. São Martinho não era um santo menor, pelo contrário, era muito importante e muito venerado, quer em Franca, onde exercera a parte mais importante do seu apostolado e onde era mesmo um dos santos patronos do reino, quer na Península Ibérica, onde o seu culto também estava muito disseminado, e onde o sincretismo com um outro São Martinho, o de Braga/Dume, contribuía, e muito, para a popularidade do culto martiniano, com especial incidência no Noroeste da Península». In Maria João Violante Branco, Sancho I, O Filho do Fundador, Temas e Debates, Livraria Bertrand, 2009, ISBN 978-972-759-978-3.

Cortesia de Bertrand/JDACT