domingo, 11 de setembro de 2016

O Pecado Espanhol. Carlota Joaquina. Marsilio Cassotti. «… têm vindo algumas pessoas ao nosso quarto, e como é natural que, se houver alguém que tenha mais habilidade para cantar, jogar ou executar outra coisa divertida…»

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«(…) Em todo o caso, o que os historiadores espanhóis consideram como a primeira intriga com fundamento, na qual participaria Maria Luísa de Parma, parece ter nascido dos ciúmes que sentiam os príncipes das Astúrias por motivo da marginalização de que eram alvo por parte do rei, através do seu braço-direito, o conde de Floridablanca, considerado na corte como chefe do partido iluminista, contrário ao partido aragonês, que reunia a nobreza mais conservadora, e que era chefiado pelo conde de Aranda, oriundo de Aragão. Para manter o seu rival afastado do poder, Floridablanca tinha conseguido que o rei nomeasse Aranda embaixador espanhol em Versalhes. No entanto, isso não tinha impedido mas, pelo contrário, feito com que os seus partidários fossem os mais assíduos frequentadores do quarto dos príncipes, local que se tinha convertido, pouco a pouco, numa espécie de corte paralela, alternativa à do rei. Algumas cartas escritas pela condessa de Aranda ao marido da parte dos príncipes levaram o embaixador a acreditar que suas altezas pretendiam colocá-lo à cabeça de um plano para derrubar Floridablanca e fazer com que o rei Carlos abdicasse no príncipe das Astúrias. Com incrível insensatez, o aragonês deixou Versalhes e apresentou-se em Madrid para levar a cabo este propósito, mas Maria Luísa, assustada com a dimensão que tinham tomado os acontecimentos, convenceu o marido a passar-se para o partido de Floridablanca. Assim, o conde de Aranda, posto em evidência perante o rei, perdeu não apenas o suposto favoritismo em relação a ele, como também o seu cargo de embaixador.
Nesta altura, começaram a circular rumores sobre as relações demasiado íntimas que a mãe de Carlota mantinha com um oficial do Corpo de Guarda, conhecido por tocar muito bem viola. Pressentindo que isso a colocaria numa posição muito delicada perante o seu sogro, que demonstrava cada vez menos simpatia por ela, Maria Luísa decidiu então escrever uma carta muito compungida à pessoa que mais respeito merecia do rei, o seu confessor. Encontro-me numa situação muito má, repleta de dificuldades e exposta a tê-las maiores, dizia nela a princesa ao sacerdote, porque há um partido de pessoas que pretende que me desentenda com o rei, e só lhe digo que o objectivo destas pessoas é mandar no Príncipe e em mim, e mandarem eles, e para isso inventam e mentem, criando calúnias contra tudo.
A princesa insinuava assim que toda a culpa da recente intriga era dos membros do partido aragonês que se tinham servido dela e do seu marido para subir posições na corte. Embora isso fosse parcialmente verdade (é provável que as expectativas dos aragonesistas tivessem sido fomentadas por Maria Luísa), ela sabia que o sacerdote não podia deixar de considerar essa parte como verdadeira. E era isso que mais lhe interessava para dar credibilidade à segunda parte da carta, onde se referia ao lado da intriga mais comprometedor para ela, os rumores da sua relação com o oficial do Corpo de Guarda, enquanto mulher de um príncipe cujo pai era conhecido pela sua integridade em assuntos de moral sexual. Quero que saiba que por motivo da solidão em que o Príncipe e eu nos encontramos, continuava Maria Luísa, têm vindo algumas pessoas ao nosso quarto, e como é natural que, se houver alguém que tenha mais habilidade para cantar, jogar ou executar outra coisa divertida, a tragam para que nós a vejamos. Agora espalhou-se por Madrid, e já tinha acontecido no palácio, que um guarda que o príncipe e eu ouvimos cantar tinha sido expulso por esta razão, acrescentando mil maldades para me desacreditar perante o papá [o rei], o Príncipe e o público, num falatório que vai arruinando a minha reputação. Poucos dias depois, o confessor respondeu à mãe de Carlota dizendo, entre outras coisas, que se chegar aos meus ouvidos alguma coisa desse tipo, saberei rebater devidamente. A conhecida honestidade do sacerdote, a quem um rei escrupuloso tinha entregado a direcção da sua consciência, convertia-se assim na melhor sentença absolutória para Maria Luísa, uma vez que era muito difícil que respondesse nesses termos se não estivesse convencido de que essa era a verdade». In Marsilio Cassotti, Carlota Joaquina, O Pecado Espanhol, tradução de João Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-626-170-2.

Cortesia EdosLivros/JDACT